Eu Odeio A Comida Mas Eu Gosto De Você
6 Não mesmo
Notas iniciais
–Kise.
–Quê, senpai?
–Você tem agido estranho faz um tempo. Aconteceu alguma coisa?
A garrafa d'água ameaça voar das mãos de Kise Ryouta, 16, mas ele consegue segurá-la. Tenta esconder a cara de surpresa, mas já era tarde — Kasamatsu Yukio, 18, já tinha visto o olhar de puro horror no rosto do garoto.
Aí ele soube que alguma coisa tinha acontecido.
–Ah, não foi-
Kise já estava com a mentira na ponta da língua, mas viu na expressão séria de seu senpai que ele já sabia. Kasamatsu sabia que Kise escondia alguma coisa, e nenhuma mentira conseguiria esconder isso.
–Bom... — Kise dá uma risada sem-graça e desvia os olhos — N-Na verdade, sim...
–Me conta.
–Amanhã. Amanhã, eu prometo.
Kise Ryouta não conseguiu pregar os olhos naquela noite e se entupiu de cereal de manhã. O açúcar lhe deu alguma energia.
Kise evitou Kasamatsu por todo o treino, mas logo que o apito soou, ele soube que o momento inevitável tinha chegado. Ficara a noite toda debatendo consigo mesmo se seu senpai compreenderia ou até mesmo aceitaria. A verdade é que estava se cagando de vergonha de falar ao mesmo tempo que tinha que falar e desabafar com alguém. A vontade de compartilhar suas inseguranças queimava no peito como uma labareda. Kise tinha que contar, e contaria agora.
O time seguiu para o vestiário, mas Kasamatsu e Kise ficaram sentados no banco de madeira, em silêncio, aguardando todos os outros irem embora. Quarenta minutos depois, os dois estavam sozinhos.
–Senpai, eu tenho que te contar uma coisa.
–Estou ouvindo.
–Promete que não vai rir.
–Prometo.
Kise levanta-se do banco e segue para a cabine do banheiro.
–Espera um pouco.
Kasamatsu cruza os braços sobre o peito. Droga, Kise estava muito sério e isso deixava-o imensamente preocupado. Kise não tinha esboçado um sorriso hoje. Kise errara quase todos os arremessos. Aqueles trinta segundos que Kise ficou na cabine deixaram os nervos de Kasamatsu em frangalhos.
–Senpai...
Kasamatsu vira para a esquerda, deixando a boca abrir um pouco.
–O que você...?
–Desculpe, senpai, eu queria muito contar pra alguém. Eu queria falar pra você faz um tempo ma-ma-mas...
Kise estava encostado contra um dos armários, visivelmente perturbado, nervoso, aflito, e todas as coisas ruins que se pode imaginar.
Kasamatsu só conseguia escutar em silêncio.
Kise estava de saia.
–Isso meio que já faz um tempo, m-mas... É que as coisas estavam t-tão confusas, sabe? E-Eu não...
Os grandes olhos dourados de Kise estavam inundados de lágrimas e ele se controlava para não derramar nenhuma. Não adiantou muito.
Ele suspira algumas vezes e aperta uma mão contra um dos olhos, enxugando-o.
–E-Eu não sei direito como dizer isso mas...
Kasamatsu encara Kise, apertando as mãos contra as calças.
–Mas é qu-que eu não me sinto como um garoto... Tipo, não mesmo...
Oh, deuses, ele tinha falado.
Ele tinha falado e agora Kasamatsu iria odiá-lo para sempre e nunca mais falaria com ele e-
As lágrimas eram tantas que Kise nem viu seu senpai levantando do banco e dando um abraço apertado nele.
–Seu idiota. — Kasamatsu sente um peso enorme saindo de si — Por quanto tempo você guardou isso pra você? Deveria ter me contado antes.
–E-Eu fiquei com medo de que você fosse me achar estranho e idiota e fosse terminar comigo e-
–Você sempre foi estranho e idiota, Kise. Não é a sua transsexualidade que vai mudar isso.
Kise definitivamente sentiu alguma coisa dentro de si ficando mais leve.
–E eu não me importo, Kise. Eu não me importo mesmo.
Fale com o autor