Eu Mudei
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Todos nós já desejamos muito por algo, do fundo do coração. Tanto que outro acontecimento maravilhoso, no momento, para nós não seria nada, pois só desejávamos uma coisa, só seríamos felizes e completos se isso acontecesse. Para Rogério, o perdão de Rosana era essencial para que ele continuasse sua vida normalmente. Sua consciência não poderia suportar o sofrimento, o rancor, o desprezo de Rosana, mas ele nem ao menos sabia qual seria a reação de sua ex-mulher ou, até mesmo, como ele levava sua vida.
A caminhada para a atual casa de Rosana pode até ter sido curta para nós, mas para Rogério durou uma eternidade. Todos esses questionamentos assolavam sua cabeça somado a culpa de um crime cometido em um momento de extremo ciúme. Todavia, Rogério enfrentaria mais vinte anos na cadeia só para obter o perdão de Rosana.
Finalmente, ele chegou à casa dela. Tinha uma fachada amarela e uma varanda tão pequena, que a sala, quase, dava de cara para a rua. Era possível até escutar o barulho da televisão, de lá. Ele bateu.
— Vai ver quem é, filha!! — Rosana grita da cozinha, ocupada com a louça
— Ta! — Jéssica, que estava deitada no sofá, se levanta para atender a porta — Oi, o que deseja?
Rogério ficou mudo. Sua esposa não havia mudado em nada? Ela estava exatamente igual à vinte anos atrás.
— Rosana? — Rogério exclamou, espantado
— É a minha mãe! — Jéssica não entende o espanto de Rogério — Querem falar com você, mãe!!!
Ah, estava tudo esclarecido! Era a filha dela! Mas como? Outra filha? Então ela tinha outro em sua vida… Era o de se esperar, já que se passaram por vinte anos. Novamente, a curiosidade de ver Rosana, assola a mente e a alma de Rogério.
— ROGÉRIO????? — Rosana grita espantada e indignada — O que você tá fazendo na minha casa?
Ela não havia mudado tanto, mas também não estava igual a vinte anos atrás. Entretanto, o que não havia mudado, era o seu jeitinho. Era Rosana, sem dúvida.
— Rosana, nós precisamos conversar…
— A gente não tem nada pra conversar — Rosana não consegue acreditar como Rogério teve a coragem de visitá-la
— Quem é, mãe? — Jéssica pergunta curiosa
— Ninguém, filha!!! — Rosana se vira para Jéssica — Acho melhor você ir pro seu quarto…
— Por que? Eu tava vendo minha netflix numa boa e agora eu que… — Jéssica fica indignada
— VAI AGORA QUE EU TÔ MANDANDO! — Rosana se estressa com Jéssica
— Ta! — Jéssica vai embora, revoltada
— Eu mudei, Rosana, eu tô arrependido de tudo o que eu fiz. Eu não quero causar mais mal estar.
— Então sai daqui! Você não tinha que vir aqui! Eu não deixei claro na cadeia? Nunca mais eu quero te ver na minha frente!
— A gente não pode ficar assim… — Rogério começa a se desesperar — Eu que causei tudo isso, agora eu quero consertar tudo! Não vou lhe causar mais nenhum mal!
— Se você tivesse um pingo de decência… Iria sumir dessa cidade, assim que saísse da cadeia!
— Me perdoa, Rosana!
— Não tenho que perdoar ninguém! Você não existe mais pra mim! Sai da minha casa, já!
— Eu não conseguiria reconstruir minha vida sem o seu perdão, Rosana! — Rogério se ajoelha diante de Rosana — Todos os dias eu não consegui parar de pensar no seu sofrimento! Eu tenho que consertar… Tenho que provar que…
— Eu não me importo! — Rosana vira a cara para Rogério — Você deveria ter pensado nisso tudo! Agora, você vai ter que ficar com a consciência pesada pro resto da vida e não vai ter o meu perdão… Assassino maldito!!
— Eu não sei o que me deu pra fazer isso, Rosana! — Rogério começa a chorar de desespero — Nem lembro do que fiz, só sei que me arrependo dia após dia
— Não tem conserto!!!! — Rosana começa a gritar com Rogério — Você não vai trazer o Afonso de volta com essas lágrimas de crocodilo! Eu não acredito em nenhuma palavra que você diz… Assassino! Doente! Falso!
— Pode me xingar! Pode me humilhar! Pode até bater em mim! Faça o que for o suficiente para me perdoar! Pode se vingar de mim, me dá um castigo, mas me perdoa, por favor! É tudo o que eu peço!! Senão eu não vou conseguir seguir…
— Me vingar? — Rosana fica indignada — Eu não sou doente igual você! Eu quero distância de você! Sai da minha casa agora!
— Eu saio! — Rogério se levanta, ainda chorando — Mas a única coisa que eu vou te pedir é o seu perdão! Nada mais! Eu posso ir embora e nunca mais te ver, se você quiser, mas me…
— CALA A BOCA!!! — Rosana se direciona até a porta da sala — Você vai embora sem o meu perdão! Se você continuar aqui eu chamo a polícia! Quer ficar preso mais vinte anos? A vida toda?
— Rosana… — Rogério pede piedade
— FORA!!!
— Mãe, o que tá acontecendo? — Jéssica volta pra sala — Você tá gritando! Até com fone dá pra te escutar!
— Filha, eu não… — Rosana desiste de conversar com Jéssica — Rogério, vai embora, por favor!
— Onde tá meu filho? — Rogério vai até a porta e se vira pra trás
— O Léo tá trabalhando…
— Eu quero conversar com ele!
— Ele não quer te ver e você não vai atrapalhar ele! Vai embora!
Rogério vai embora e fecha a porta
— Mãe, você ficou tão nervosa! O que houve?
— É uma longa história, filha… Uma história horrível!
Bem, Rosana não quis dizer onde o filho de Rogério estava, mas ele sabia onde ele estava. Isso porque a filha de Mário, Mariana, era namorada dele e os dois trabalhavam juntos com a mãe dela, a Simone, em um restaurante do Vista Shopping.
— Vista Shopping? — Rogério diz espantado — Isso fica no Vista Azul? Tão brincando comigo, né? Aquele bairro pobre com shopping? Eles deviam é colocar um hospital, uma escola...
— Não, Rogério… — Lucy acha engraçada a reação de Rogério — Aqueles barracos que tinham lá foram desapropriados por uma construtora e eles transformaram aquele lugar num bairro de luxo, cheio de condomínio… O Estevão, inclusive, mora lá, aquele vagabundo!
— Meu Deus, quanta coisa eu perdi… — Rogério logo se anima — Mas a Simone cozinha tão bem, aposto que esse restaurante deve ser um sucesso! Quando eu tiver dinheiro eu vou comer lá, mas por enquanto só quero ver meu filho!
— O Lemone é um sucesso, mesmo! — Mariana diz orgulhosa
— Lemone? Não entendi. — Rogério fica confuso — Que nome é esse?
— Eu fui contra essa baranguice, mas os outros dois lá gostaram! — Mariana debocha do nome — É Le de Leonardo e Mone de Simone… Palhaçada!
— Nossa, eu achei que era alguma coisa com limão! — Rogério começa a rir do nome — Nada a ver!
Dias depois da conversa frustrada com Rosana, Rogério decidiu visitar o seu filho no tal Lemone. Rogério nem sabia se Leonardo o conhecia ou se pensava que seu pai era o outro. Nem se seu filho havia o puxado, se parecia mais com a mãe ou até mesmo com a feiosa da Tia Amélia (Pelo menos era o que Rogério achava). Rogério perdeu a chance de ver o seu filho crescer, de educá-lo… Mas que educação poderia dar? Pelo menos poderia ensiná-lo a controlar suas emoções?
O Lemone era um lindo restaurante. Todo organizado, tudo decorado, todos os detalhes minimamente pensados. De fato, havia limão em alguma coisa, já que o ambiente era todo pintado de verde-limão, além do mascote do restaurante ser um casal de limões. Tudo bem pensado.
— Simone? — Rogério reconhece, de longe, a ex-mulher do seu amigo
— Rogério? — Simone se surpreende com a vista de Rogério — Você por aqui? Quanto tempo!
— Eu preciso falar com meu filho! Eu sei que ele trabalha aqui…
Leonardo chega
— Filho? — Leonardo questiona Rogério
— Ora, ora! — Simone se espanta com a presença dos dois no mesmo lugar — Rogério, esse é o Leonardo
— Ele é meu filho? — Rogério fica surpreso, pois seu filho está tão crescido, que é até maior que ele
— Pai? Você que é o Rogério?
— Sim, filho, sou eu! — Rogério se emociona e abraça o filho — Há quanto tempo eu queria te ver! Quanta falta eu senti…
— Você tava preso, né? — Leonardo se solta do pai — Você preferiu ficar longe de mim!
— Filho, eu não queria ficar longe de você…
— Você matou… Você é um assassino! — Leonardo fica espantado com a presença do pai
— Leonardo! — Simone repreende Leonardo
— Mas é verdade, ele matou um cara lá, que gostava da mãe!
— Sim, é verdade! — Rogério começa a se emocionar — Mas eu fiz tudo isso de cabeça quente! Eu nem lembro, não sei o que deu na minha cabeça… Me perdoa, filho!
— Se você foi capaz de matar, deve ser capaz de tudo… — Leonardo olha com desprezo pro pai — Você não me criou! Você não é meu pai!
— Não criei, porque não pude! Mas se eu não tivesse naquela cadeia, eu juro que…
— Se você não tivesse naquela cadeia, você seria outra pessoa — Leonardo vira a cara pra Rogério — Devia ter pensando nisso antes…
— Por favor, filho, eu preciso do seu perdão!
— PARA DE ME CHAMAR DE FILHO! — Leonardo fica furioso com Rogério — Eu já tenho vergonha de não ter tido um pai! Um assassino qualquer com quem a minha mãe, até hoje, se arrepende de ter casado!
— Leonardo, pelo amor de Deus! — Simone fica espantada com Leonardo
— Não, filho, eu mudei, eu não sou mais assim… — Rogério começa a chorar novamente
— E ainda vem aqui no meu trabalho pra me infernizar! Fora daqui! — Leonardo pega Rogério pelos braços e o joga pra fora do restaurante
Mariana chega, espantada
— Leonardo! Rogério! O que está acontecendo? — Mariana exclamou
— Esse idiota, que acha que é meu pai, veio aqui me encher o saco! — Leonardo dá as costas pra Rogério e entra no restaurante
— Rogério, o Léo tá muito nervoso — Mariana levanta Rogério — Ele passou todos esse anos sem pai… Ele sentiu muito sua falta!
— Não, ele tá certo… — Rogério abaixa sua cabeça, frustrado — É tudo culpa minha! Eu que causei tudo isso!
Mariana e Simone se olham, ambas tristes com a situação
— Simone, Mariana, me desculpem por isso! Eu não devia ter vindo aqui! — Rogério engole o choro e sai bem triste
Continua...
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