Eu Me Chamo Kuran Yuuki
1 Capítulo Único
Sempre foi assim. Eu sempre me preocupei em agir como uma pessoa digna do respeito de Kaname-senpai. Queria ser forte e isso estava ligado às minhas escolhas e atitudes. Tanto, que nem eu mesma saberia dizer o quanto... Mas, então, o que aconteceu aquela hora?
- Desculpe... – disse Zero, depois de fincar suas presas em meu pescoço pela segunda vez.
Não me importei se eu ia decepcionar alguém ou até se seria rejeitada. A única preocupação que eu tinha era manter a vida de Zero. Só não queria que ele morresse.
- Vamos fazer algo juntos... Algo imperdoável. – disse a ele.
Mas então, o que aconteceu naquela hora? Eu machuquei Zero tantas vezes... Isso deve ser um castigo. Não tem outra maneira, é isso que você me diz? Quando foi que você desistiu de procurar uma solução?
Mas que frio, mas tem algo me aquecendo.
Percebi que presas de vampiro fincavam o meu pescoço, mas não eram as de Zero. Olhei para cima em vão, não pude ver quem estava ali, levantei a mão e acariciei seu cabelo... Não podia ser, era Kaname-senpai? Ele mordia mais forte e cada vez mais profundo.
- Ah... Kaname... senpai... – eu gritava desesperadamente.
Ele levantou a sua mão e a colocou sobre meus lábios, tapando a minha boca, agora era impossível gritar. Ele ainda estava enterrando suas presas em meu pescoço, então perdi minhas forças e adormeci em seus braços.
- Yuuki... Por favor, ao menos você – ele repetia, enquanto estava em seus braços.
Não podia ouvir direito, mas eu sabia que você me queria ali ao seu lado.
Um gosto diferente e delicioso percorreu por minha boca, era o teu sangue. Eu me recordei do gosto delicioso que ele tem, e em seguida senti teus lábios se juntarem aos meus, foi à melhor coisa que já senti. Eu me lembrara de você agora.
- Acordou, Yuuki? – ele me perguntou, quando havia aberto os meus olhos, ele olhava diretamente aos meus com um sorriso que eu nunca tinha visto dele – Não está me recordando?
Não consigo me lembrar de nada
Não consigo dizer se isto é sonho ou realidade
Dentro de mim sinto vontade de gritar
Este terrível silêncio me prende
Aproximei-me de teu rosto e o desenhei com o meu dedo, passando por tua face e contornando as linhas do rosto. Eu me lembro de você e como quero-te em meus braços.
- O meu...
Mas antes que eu pudesse terminar de falar, havia avistado Zero por trás do ombro de Kaname, ele estava com a arma apontada para mim e para Kaname. O que ele ia fazer? Ele não podia atirar!
- Sabia que era o sangue de Yuuki! – exclamou Zero – Eu conheço o cheiro muito bem. Mas não é só isso...
- Zero... – gritei, mas ele me ignorou voltando a falar.
- Eu senti a presença de “dois” vampiros quando só devia ter apenas um, Kuran! – ele fala com muita raiva, eu podia sentir isso – O que você fez com Yuuki?
- Pare, Zero... Não atire! – pedi, protestando o ato, mas ele continuou com a arma apontada para nós dois – Ele não fez nada de errado... Ele é o meu irmão!
Zero abaixou a arma lentamente, olhando para os meus olhos, apavorado. Como queria que fosse diferente, mas Kaname agora é o meu irmão.
- Me desculpe... Eu sinto muito! – disse abaixando a minha cabeça, eu não suportaria continuar olhando para você, eu sentia tanta raiva de mim mesma.
As minhas lembranças mais antigas, agora eu me lembro de tudo aquilo que estava oculto por aquele nevoeiro intenso que cobria minha memória. Eu sou uma Kuran. Jiyuri Kuran era minha mãe e Haruka Kuran meu pai. Yuuki Kuran, esse é o nome que eu ganhei deles.
Eu sinto muito, Zero. Eu queria que tivesse sido diferente.
Agora que a guerra acabou comigo
Eu acordo e não posso ver
Que não resta muito de mim
Nada é real a não ser a dor agora
- Ir... Irmãos? – indagou Zero, confuso.
- Se era para ser assim. Eu preferia que realmente tivéssemos nascidos como irmãos. – respondeu Kaname.
- Mas... Yuuki o chamou de “irmão”, só que você nega! O que quer dizer...?
- Sem sombras de dúvidas, Yuuki é um sangue-puro da Família Kuran. Você é um vampiro... Já deveria ser capaz de reconhecer isso, agora que a despertei. Porém, além de vampiro, você também é um caçador, não é mesmo? E então, o que você pretende fazer agora?
Depois disso, desmaiei nos braços de Kaname. E só fui acordar algumas horas depois no quarto dele. Ele estava sentado ao meu lado. Que sensação horrível... meu corpo está quente. A minha garganta... Tenho sede... Tanta sede.
- Yuuki... – chamou Kaname, passando as mãos em meus cabelos, agora compridos — — Você não precisa se segurar desse jeito.
Não tinha percebido meu ato, mas eu estava muito tensa. Eu me segurava na cama de uma forma que eu nunca tinha feito antes, eu soava frio. Acomodei-me ao lado dele e encostei minha cabeça em seu peito. Deslizei aos meus dedos sobre seus lábios penetrando sua boca, então, eles encostaram-se a suas presas e retirei rapidamente a minha mão.
- Está tudo bem. Eu sei o que você quer Yuuki.
Ele retirou a gola da camisa que cobria seu pescoço e eu abri os primeiros dois botões dela, o cheiro dele chegou até em minhas narinas, eu precisava dele... Nunca imaginei que ia precisar tanto de sangue assim algum dia.
Aproximei-me dele e enterrei as minhas presas em seu pescoço. A bebida era quente e deliciosa, eu precisava daquilo, como eu precisava daquela bebida. Eu nunca dei muita importância a isso, mas agora eu me sinto uma deles.
- Yuuki... Desculpe-me. Eu a trouxe de volta para este mundo horrível...
Eu quero! Tudo o que eu quero é o sangue dele!
- Sim... É isso mesmo... – disse ele empurrando minha cabeça para que eu enterrasse mais fundo as minhas presas.
Lágrimas frias e sem vidas rolaram pelo meu rosto e molhando a face de Kaname.
- Não chore! – ele disse a mim.
Prendo a respiração enquanto desejo morrer
Oh, Deus, por favor, acorde-me
De volta ao útero é muito real
Para dentro injeta-se a vida que tenho de sentir
Mas não posso olhar para frente e imaginar
Ver a vida que terei
Na verdade, há muito tempo que eu espero por esse dia. Posso sentir o seu sangue invadir o meu corpo a ponto de não poder mais reconhecer que somos seres distintos. O que é isso? É um fragmento de memória?
- Você vislumbrou algo estranho? – ele me perguntou como se já soubesse minha resposta.
- Sim, algo muito estranho. – respondi, com a boca coberta pelo seu sangue.
De repente senti um frio que nunca havia sentido em minha vida, parecia que uma mão havia acabado de segurar o meu coração e arrancá-lo fora. Abracei-me, para que pudesse me sentir mais quente.
- Mas agora eu sei que também não sou humana – continuei – Eu me lembrei... Naquela noite que mamãe se sacrificou e jogou um feitiço em mim que bloqueou meus poderes e minhas lembranças... E o papai partiu para cumprir seu juramento de nos proteger.
Novamente as mesmas lágrimas frias e sem vidas vieram a rolar pelo meu rosto, eu estava assustada com tudo aquilo. Por que Kaname fez isso? Eu quero voltar a não sentir dor!
- Por que tiveram que se sacrificar? Do que eles me protegiam? – gritei desesperada.
- Acalme-se... – Kaname pediu, deslizando as suas mãos sobre o meu cabelo.
A janela havia quebrado e cada vez mais eu ficava apavorada, quando finalmente percebi o que eu estava fazendo, me acalmei e me aconcheguei no colo de onii-sama.
Alimentado por tubos enfiados em mim
Como num romance de guerra
Ligado a máquinas que me fazem existir
Cortem esta vida de mim
Prendo a respiração enquanto desejo morrer
Oh, por favor, Deus acorde-me
- Fui eu que quebrei, não foi? – perguntei com a voz abafada pelo seu peito.
- Yuuki, não rejeite a sua natureza. Não questione o que os dois tiveram que fazer para proteger a sua vida... Durante dez anos eu fiquei no lugar deles e cuidei de você, e a vi se esquecer de tudo...
- Onii-sama... Eu acho que sou louca!
- Por quê? – perguntou ele estranhando o que havia dito.
- Porque durante todos esses anos... Eu fui apaixonada pelo meu irmão.
- E o que há de errado nisso?
Ele perguntou se aproximando de mim e beijando os meus lábios, novamente pude sentir o seu gosto em minha boca, era tão gostoso e quente. Sem dúvidas era a melhor coisa que podia sentir.
- É que... – disse eu me afastando – Eu vivi todo esse tempo como humana.
- E qual é o problema disso? Nós somos prometidos um ao outro, Yuuki.
Eu sabia disso, eu me lembrava... “Um dia seremos como papai e mamãe.” – eu sempre dizia isso para ele, e depois Kaname me beijava e pedia para que eu dormisse bem.
- Nossos pais também eram irmãos... – respondi – Mas isso... Isso é muito... Mas isso é o tipo de coisa que só os animais e monstros fazem?
Aproximei-me do corpo dele novamente, encostei a cabeça sobre seu peito e ele me abraçava como se nunca mais ia me abraçar novamente.
- Mas, Yuuki... Nós não somos humanos... Você vai me deixar sozinho de novo?
“Sozinho” essa palavra ecoava dentro de minha mente várias e varias vezes, o que eu ia fazer? “Sozinho”.
De repente um cheiro estranho penetrou o quarto, levantei-me de seu colo e corri até a janela, meus pés descalços foram cortados pelos cacos de vidro no chão, mas isso não importava, apenas queria saber de quem era aquele sangue.
- O que é isso? Esse cheiro... Isso é sangue? De quem?
- Yuuki... – Kaname se aproximou de mim, me abraçando pelas costas – É assim mesmo... Aos poucos você vai desenvolver suas habilidades vampirescas. E com o tempo vai compreender o que é melhor para você.
Ele me soltou, caminhou até a porta do quarto, a luz do corredor invadiu ali. Agora, eu podia ver melhor a sua face, ela ainda continuava bela como sempre. Corri atrás dele, mas fui impedida pelo seu gesto.
- Fique aqui... Eu volto logo.
Novamente caminhei até a janela, abri a cortina e me sentei no chão, em cima dos cacos de vidro, não me importava, apenas queria sentir aquele cheiro. Essa sensação ruim e esse cheiro de sangue... De quem é?
- Não... Não é o de Zero.
Fico aliviada em saber que não é o sangue de Zero. Mesmo que já não tenha mais direito de me preocupar dessa forma.
Eu tinha que fazer alguma coisa e ia fazer. Levantei-me e corri para fora do quarto, mesmo desobedecendo onii-sama. Mas eu tinha que fazer!
- Hey... – ouvi uma voz familiar atrás de mim – Não pode sair.
Agora o mundo desapareceu, restou só eu
Oh, Deus, ajude-me a prender a respiração enquanto desejo morrer
Oh por favor Deus ajude-me
Trevas aprisionando-me
Tudo o que vejo: horror absoluto
Não consigo viver
Não consigo morrer
Preso dentro de mim mesmo
O meu corpo é a minha cela
Era Aidou. Ele não desistiria tão fácil e eu também não. Ele correu atrás de mim até o meu destino, o dormitório masculino. Os cortes nos meus pés ardiam por causa da neve, mas eu tinha que falar com Zero.
Entrei no dormitório, parei diante da porta do quarto dele e estendi minhas mãos na altura de meus olhos. Eu estava tão determinada. Sei exatamente o que ia fazer aqui, mas minha mão parou antes de bater na porta.
- Você achou mesmo que bastava vir até aqui conversar e que tudo se resolveria? – Zero perguntou para mim de dentro do quarto, antes mesmo de eu começar a falar.
Eu não podia ver o seu rosto, mas ele estava sentindo raiva e ódio. Eu sabia se eu abrisse a porta, a Bloody-Rose me acertaria em cheio no peito.
- Agora a única coisa que existe atrás dessa porta é a presença de uma sangue-puro que brinca com a vida alhei.
Nunca imaginei que ouviria tais palavras saírem da boca de Zero, ele era um irmão para mim. Segurei o choro, levantei minha cabeça e respondi, já que ele não queria mais estar ao meu lado, eu também não queria sua presença.
- Você está certo, Zero. Fico aliviada em saber que você compreendeu. A Yuuki que você conhecia já não existe mais, porque o meu lado vampiro devorou o meu lado humano.
Sai dali o mais rápido que pude, sem olhar para trás. Eu sabia que ele não vinha ao meu encontro, agora, ele me odiava e eu também não queria estar ao seu lado agora. Estou confusa, eu amo Kaname-senpai, mas e Zero?
Estou arrasada, eu só quero estar ao lado de só uma pessoa... Meu irmão! Eu o amo, e quero estar ao lado dele para sempre.
Campo minado arrancou-me a visão
Arrancou-me a fala
Arrancou-me a audição
Arrancou-me os braços
Arrancou-me as pernas
Arrancou-me a alma
Deixou-me com a vida no inferno
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