Notas iniciais
Oi meus queridos, tudo bem? Estou trazendo para vocês o primeiro capítulo do meu Romance "Eu Lembro de Você" e, sim, vou trazer o livro completo aqui tal qual como no ebook e na futura versão física. Espero comentários de vocês sobre o que acharam desse começo. Abraços e beijos.

Samuel acordou de repente.

Foi como se tivesse acabado de cair na sua cama, despertando sobressaltado.

Após se recuperar do susto enquanto sua respiração normalizava, ajeitou-se em sua cama e ficou encarando a parede à sua frente. Ficou nessa posição por alguns segundos, até passar as costas da mão em sua testa, sentindo a região gelada e úmida.

Havia transpirado enquanto sonhava... ou tivera um pesadelo.

As imagens ainda estavam frescas como frutas recém-colhidas em sua mente. Na verdade, elas nunca foram embora desde a primeira vez em que começou a ter aqueles “sonhos”, mas essa situação só era intensa quando andava nervoso.

Havia sonhado que era uma garota japonesa, não uma com ascendência, como ele, mas sim uma jovem que nasceu e cresceu no Japão. Lembrava que vestia as roupas tradicionais de um casamento e esperava em uma sala com uma arquitetura ocidental, mas, ao mesmo tempo, tinha muito do Japão enraizado em sua decoração. Apesar de vestir o kimono tradicional de um casamento, nesse sonho, ele nunca estava feliz. Sentia-se triste e preso, seu olhar sempre desviava para uma decoração de espadas que ficava em uma das paredes, acima da lareira.

A mão de Samuel desceu até sua barriga, na altura da marca de nascença que havia ao lado do seu umbigo. Aquela região doía, sendo aquele o mesmo lugar por onde, durante o pesadelo, a garota japonesa se suicidou com uma das espadas.

Querendo tirar aquelas imagens da sua mente, levantou-se da sua cama e pegou uma toalha, deixando o quarto para trás e atravessando até o final do corredor onde estava o banheiro da sua casa.

O jovem atravessou a porta do banheiro e, assim que se livrou do pijama, ligou o chuveiro e esperou a água morna tocar as costas de sua mão. Invadiu o véu de água ali formado, as gostas escorrendo da sua cabeça até sua pele dourada. Esfregou o xampu nos cabelos, fazendo com que a espuma se parecesse com nuvens brancas que invadiram o céu de uma noite infértil de estrelas.

Ao sair do box quando terminou de se banhar, também após secar seu corpo e seus cabelos, ficou na frente do espelho levemente embaçado para fazer as outras coisas que fazia todas as manhãs, como escovar os dentes e usar o secador.

Enquanto secava cada um dos fios, ele se perdeu por alguns minutos em seus pensamentos, lembrando mais uma vez do sonho que teve antes de acordar. Seu olhar se fixou no reflexo das amêndoas de seus olhos, como se aquelas esferas oculares fossem um tipo de portal para seus sentimentos, e apenas voltou a si quando sentiu seu coro cabeludo queimar levemente pelo ar quente do secador.

Voltou para seu quarto, onde se arrumou com as primeiras peças que encontrou em seu armário. Estava com pressa, afinal. Em seguida, pegou sua identidade, que denunciava seus vinte anos de idade, e os nome dos seus pais: Vera e Akira.

Já pronto para ir para a faculdade em que cursava Administração, Samuel atravessou o corredor e entrou no espaço da casa em que a cozinha e a sala de estar dividam espaço. Havia apenas um balcão dividindo uma coisa da outra, balcão este no qual ficava um micro-ondas e um forno elétrico, ambos longe um do outro. Entrando na parte que servia de cozinha, encontrou seus familiares sentados a uma mesa de café-da-manhã bem servida.

— Bom dia… — disse Samuel se sentando à mesa e pegando um pão francês em seguida.

— Bom dia, meu filho, como você dormiu? — perguntou Vera enquanto bebia uma xícara de café com uma mão e com a outra arrumando seu penteado channel, que a deixava estranhamente parecida com qualquer atriz japonesa da década de oitenta.

— Bem… — respondeu o rapaz, sem tentar demonstrar muito, pois, quando ouviu a pergunta, o sonho ressurgiu em sua mente tão repentinamente quanto um anúncio no YouTube.

— Tem certeza? — perguntou a avó. — Parece que você teve outro daqueles pesadelos.

O jovem olhou para sua avó, sempre se perguntava se quando ele ficasse idoso se tornaria uma versão mais velha do seu pai, pois sua avó parecia sua mãe com noventa anos de idade.

Parou de passar a manteiga no seu pão e, com um tom de ceticismo misturado com uma risada incrédula, perguntou:

— Como a senhora sabe, batian[1]?

O jornal que escondia o rosto de Akira logo foi abaixado pelo mesmo, deixando à mostra o rosto que Samuel em segredo temia ter naquela idade, mas que qualquer pessoa de fora negaria, pois era nítido que o rapaz herdara mais os traços da mãe do que do pai.

— Não tem como esconder nada da sua avó, Samuel. Nada! — disse Akira.

— Isso é verdade. Às vezes, ela parece uma bruxa! — comentou a mãe do jovem, rindo.

— Eu sei porque, quando ele tem esses sonhos, sempre acorda da mesma forma. Por isso — explicou a idosa com uma voz calma e arrastada, que apenas a idade avançada poderia trazer.

— Eu tive, mas é porque eu tô nervoso, sabem? Semana de provas, e eu sempre fico nesse estado quando esse período chega. É muito estresse. Por isso — respondeu Samuel, em seguida, dando uma mordia em seu pão e se servindo de uma xícara de café.

— Quer que eu te espere, filho? — perguntou o pai.

— Não precisa, pai. Eu vou de metrô para a faculdade.

— Tem certeza? — Akira perguntou mais uma vez. — Esqueceu que eu trabalho lá?

— Não, eu não esqueci, senhor da contabilidade... — disse Samuel rindo com seus lábios molhados de café. — Tenho total certeza. Vou de metrô.

— Bom, então eu vou ir trabalhar. Até mais tarde.

Akira se levantou e foi até sua esposa, depositando um beijo no canto da boca de Vera e em seguida caminhando até Samuel, deixando um beijo no topo da cabeça do filho e por fim um beijo também na cabeça de sua sogra.

— Bom, eu vou descer para abrir o mercado. Daqui a pouco, tá cheio de adolescente querendo comprar coisas do Japão, Coréia e China pra fazer vídeo para a internet — disse Vera ao se levantar da cadeira em que estava sentada. — Antes de sair para a faculdade, passa lá embaixo no mercado, tá bom, meu filho? — perguntou sua mãe, sorrindo.

O rapaz respondeu com um sorriso e um movimento de cabeça.

Depois de alguns segundos sozinho com sua avó, Samuel a percebeu se inclinando para ficar mais perto dele. Confuso e com um pedaço de pão pendurado pela sua boca, o rapaz olhou na direção em que a idosa se sentou.

— O que foi? — perguntou o rapaz voltando a mastigar devagar.

— Como são esses sonhos que você tem? O que acontece neles para que você fique assim? — perguntou Sakura com um tom de voz que deixava claro seu interesse em saber dos mínimos detalhes.

— Ah, não é nada de mais… — respondeu Samuel, torcendo internamente que sua avó esquecesse o assunto.

— Se não fosse nada, não ficaria assim, nesse estado, todas as vezes em que sonha com isso!

O jovem estudante suspirou antes de responder:

— Eu sonho que eu sou uma garota japonesa… Acho que ela tem um nome… Mio, eu acho, não tenho certeza agora. Sonho que sou essa garota e que ela vai se casar, mas também está triste e, para se livrar do casamento… ela acaba se suicidando.

A mais velha fica pensativa por alguns segundos, analisando o sonho do seu neto através dos seus conhecimentos e crenças.

— Não quer ir comigo, um dia desses, na casa do meu amigo? O Daniel, que mora aqui perto. — A esperança no tom de voz de Sakura era tão nítida quanto o reflexo de uma pessoa no chão que foi encerado recentemente.

— O seu amigo médium? — perguntou Samuel fazendo uma careta. A sua avó respondeu afirmando com a cabeça. — Não, eu acho que não é esse o caso…

— Samuel, esse sonho é muito específico…

— Mas é só um sonho, batian… — disse o garoto, lutando para não acreditar que aquilo poderia ter, de fato, um significado maior. — Agora, eu tenho que ir porque vou para a faculdade de metrô… Até mais tarde. — Levantou-se, pegou sua mochila, e antes de sair, beijou a testa da sua avó.

Ao atravessar a porta da sua casa, imediatamente encontrava a escadaria que levava até o portão, que, por sua vez, dava acesso à calçada, sem nenhum pátio ou jardim. Quando o rapaz atravessava o portão, já estava em frente ao mercado que pertencia à sua mãe. Logo em cima da placa que dizia “Mercado Okada”, estava a janela da sala de estar e da cozinha.

Como foi combinado com sua mãe, o rapaz entrou no estabelecimento para se despedir de Vera e também aproveitou para cumprimentar as funcionárias, Kika e Martinha, por quem o universitário tinha um grande carinho.

Depois de se despedir da sua mãe, o rapaz pegou o caminho para o metrô.

Um bom tempo depois, já estava chegando ao campus da Universidade Barreto, onde o rapaz cursava Administração e seu pai trabalhava no escritório de contabilidade. Apesar de ser uma faculdade privada, possuía um campus grande com um grande espaço para os alunos passarem ao ar livre com mesas e bancos posicionados de maneira confortável, sempre na sombra de árvores. Os prédios ficavam ao fundo do campus, mas podiam ser vistos logo na entrada.

Enquanto seguia a estrada feita com pequenas pedras no gramado para um desses espaços onde os demais estudantes passavam o tempo, Samuel encontrou seu casal de amigos sentados a uma das mesas do lugar. Eduarda, que estava sentada de uma forma que poderia ver o rapaz se aproximando, sorriu e acenou balançando seu braço de forma frenética, fazendo com que Samuel soltasse uma risada contida. Logo, o rapaz que estava à frente dela, Fernando, virou-se para poder ver se era o amigo quem estava se aproximando, e, quando avistou a figura de Samuel, sorriu e o chamou com sua mão grande.

Samuel, sentado à mesa de seus amigos, no lugar do centro, para disfarçar o seu humor afetado pelo sonho, o rapaz emulou um sorriso que foi mal calculado porque saiu tão plástico quanto uma boneca falsificada.

— Teve outro pesadelo? — perguntou Eduarda após esperar alguns segundos para responder àquele “sorriso”.

Assim que Samuel escutou o que a amiga perguntou, o falso sorriso desapareceu tão rápido quanto surgiu.

— Como você sabe? — perguntou o jovem, surpreso com a exatidão do chute da sua amiga.

— Não é a primeira vez que você chega assim depois de ter os seus pesadelos… — explicou a garota. — Não é verdade, Fernando? — perguntou, cutucando com seu cotovelo o outro amigo.

— Verdade — disse Fernando depois de entender a mensagem. — Não deveria ir em um psicólogo ou algo assim?

— É. Eu acho que sonhar com a mesma coisa repetidas vezes deve significar algo, não? — questionou Eduarda em seguida. — Acho que vi alguma coisa assim em uma das matérias do meu curso.

— Você não estuda Jornalismo? — questionou Fernando com sua testa franzida e sua boca formando um bico.

— Samuel — continuou a garota, ignorando o rapaz à sua frente —, você tem esses sonhos desde que a gente se conhece, né?

O garoto dos sonhos ficou em silêncio por alguns segundos, não queria mais falar sobre aquilo, mas não teve como não lembrar das coisas que sua avó sempre lhe dizia em relação ao tópico em questão. Ele soltou uma risada de canto no mesmo instante em que ouvia a voz da sua batian ecoar na cabeça falando sobre suas crenças. Ajeitou seu cabelo escuro atrás de sua orelha, um tique que aparecia de vez em quando.

— Minha avó — começou Samuel — diz que esse sonho pode significar uma lembrança de outra vida. — Exibia um pequeno riso, lembrando também da insistência que a idosa fazia para ele se encontrar com o vizinho. — Ela sempre quer tentar me fazer ver um amigo dela que é espírita e faz sessões na casa dele… Ele é tipo um médium.

— E por que você não vai? — perguntou Fernando, como se fosse a decisão óbvia.

— Porque essas coisas não são verdade… — respondeu Samuel fazendo uma careta. — Esses pesadelos não são coisas de verdade, entendem? Essas coisas ficam na minha cabeça por causa do meu estresse com esse curso idiota! Por isso!

Eduarda apertou seus lábios e deixou seus olhos arregalados, olhando para o lado rapidamente, pensando em como o amigo estava em negação com uma coisa que, para ela, era fato. Enquanto a garota fazia aquilo, Fernando olhou a tela do seu celular com a finalidade ver o horário e em seguida olhou para Samuel e perguntou, guardando o aparelho em seu bolso:

— Nossa primeira aula vai começar, vamos?

— Claro. Vamos — respondeu Samuel se levantando. — A gente se vê mais tarde, Eduarda…

— Ah, vocês já vão? — perguntou a garota fazendo uma voz manhosa enquanto via os seus amigos se levantando de seus lugares. — Esperem! Esperem, antes de irem, me respondam uma coisa…

— O quê? — perguntou Samuel, ficando ao lado de Fernando.

— Vocês vão na festa do final de semana? Nesse sábado — perguntou a estudante de Jornalismo.

— Eu vou, não tenho mais nada para fazer mesmo — respondeu Fernando, dando de ombros, e logo olhou para o amigo ao seu lado, esperando a resposta dele. — E você?

— Não sei. Não estou muito no clima para festas — respondeu Samuel fazendo uma careta.

— Ah, por favor! O Renato vai, o irmão dele… Henrique também vai. Por favor, vamos, Samuel! Vamos! — Eduarda falou quase implorando, sentada no banco, batendo as palmas de suas mãos na mesa.

Samuel riu da forma exagerada de sua amiga e em seguida levantou suas mãos, pedindo para ela abaixar sua bola e logo respondeu, sorrindo:

— Tudo bem, eu vou… Agora, eu vou para a aula para não me atrasar. Até mais.

Samuel deu as costas e se afastou, Fernando se despediu de Eduarda com um aceno e também pegou o caminho para onde aconteciam as aulas do seu curso.

As aulas de Samuel estavam dentro da classificação diurna, o lugar em que estudava não oferecia pesquisas para seus estudantes, então, geralmente, todos os alunos deixavam a instituição pela parte da tarde, quando alguns chegavam para suas aulas noturnas. O rapaz preferia quando suas aulas terminavam no começo da tarde porque era quando ele ia almoçar com Fernando e Eduarda no shopping ao lado da faculdade. A instituição até oferecia um restaurante para seus alunos poderem realizar suas refeições ali. Entretanto, a qualidade da comida ali caíra tanto desde que Samuel começou no seu curso, e já não era boa no começo, que o universitário preferia comer fora.

Depois do almoço entre amigos, Fernando ia para seu estágio no Grupo Barreto, empresa dona da faculdade, e Eduarda voltava para seu apartamento, ao passo que Samuel ia para a própria casa no final da tarde.

Sempre ajudava sua mãe a fechar a loja depois que Kika e Martinha já tinham ido embora, e, após fazerem isso, os dois subiam juntos para a casa. Dependendo do dia em questão, a essa hora, sua avó estaria na casa do amigo médium, em mais uma sessão de mesa branca. Seu pai costumava voltar depois das oito horas da noite do escritório de contabilidade da faculdade. Assim eram os dias de Samuel, nada fora do comum e muitas vezes monótonos. Enfim, uma vida comum.

Aos sábados, Samuel geralmente não tinha aulas, então aproveitava o dia todo para ajudar sua mãe no Mercado Okada porque, se ele sempre teve certeza de uma coisa em sua vida, era que um dia ficaria responsável pelo estabelecimento erguido por Vera. Escolheu o curso de Administração justamente por ter isso claro em sua mente.

Quando não estava tendo pesadelos com a garota de kimono se suicidando, ele sonhava com lembranças da época da sua infância, quando corria pelos corredores do mercado ora ajudando, ora atrapalhando Vera no atendimento aos clientes.

Naquele sábado, não foi diferente. Logo após o café da manhã, Samuel desceu para o mercado e abriu a loja com sua mãe. Enquanto a mulher organizava as coisas por dentro, o rapaz passava a vassoura na fachada.

Alguns minutos depois, Kika e Martinha chegaram ao trabalho.

— E aí, Samuel? — perguntou Kika parando em frente à entrada do mercado, sorria para o rapaz como faria para um irmão mais novo. — Como vai a faculdade?

— Vai indo, Kika. Como vai o teu namorado? — perguntou Samuel, seguindo com a limpeza na calçada.

— Ih, levou outro chifre, ela… — respondeu Martinha atravessando sua voz na frente da amiga, sem dar chances para a outra responder à pergunta direcionada a ela.

Kika apenas a encarou com um olhar de julgamento e incrédula. Em seguida, disse:

— Poderia ficar quieta, né?

— Ué, mas é verdade… — sussurrou a garota ajeitando seu cabelo e logo entrou no mercado.

— Vou lá, futuro chefinho… — disse Kika sorrindo novamente e em seguida acompanhando a colega de trabalho.

— Até mais — respondeu Samuel, rindo e seguindo com a dança que fazia com sua vassoura.

Enquanto trabalhava no Mercado Okada, Samuel tinha que responder às mil mensagens que Eduarda enviava para ele através do grupo de amigos do trio no WhatsApp, perguntando incansavelmente se ele iria à festa naquela noite. Por mais que o rapaz respondesse que sim, a amiga continuava questionando porque ela tinha medo de que o rapaz mudasse de ideia e não comparecesse. Isso se seguiu até o momento em que Samuel se cansou e desligou seu celular, guardando então o aparelho no bolso da sua calça.

Sua mãe assistiu a essa cena.

— Aconteceu alguma coisa, querido? — perguntou Vera enquanto contava o dinheiro do caixa.

— Nada… A Eduarda que não para de me perguntar se eu vou ou não na festa… — respondeu o rapaz, ajeitando seu cabelo atrás da sua orelha.

— Que festa? — perguntou a mãe.

— Ah, claro, eu não falei. Vai ter uma festa hoje... Mais tarde, num lugar perto da faculdade... A Eduarda vai com o Renato, ela convidou eu e o Fernando — explicou o garoto ficando de frente para a mãe enquanto pousava um dos cotovelos sobre o balcão de atendimento.

— Entendi. Com o Renato? Eles voltaram?

— Sim. Eles voltaram… — respondeu Samuel rindo.

— A Eduarda e esse rapaz vivem indo e voltando, parecem um ioiô — disse Vera fechando o caixa. — Mas eu acho que você tem que ir nessa festa, sabe, meu filho? Você passa a semana toda estudando e, nos finais de semana, fica em casa. Vá sair um pouco e se divertir, respirar outra coisa sem ser a faculdade.

Samuel pensou rapidamente no que sua mãe disse, concordou mexendo sua cabeça para cima e para baixo, estalou seus lábios e disse:

— Eu vou sim.

— Então hoje o senhor vai subir mais cedo para nossa casa e as duas ali me ajudam a fechar o mercado.

— Tem certeza, mãe? — perguntou o filho fazendo uma careta. — Eu posso te ajudar a fechar e depois me arrumar pra festa. Não tem problema.

— Não, faz isso que eu tô te dizendo, que é melhor — respondeu a mulher mais velha rindo e em seguida abraçando o filho. Então beijou sua bochecha no final do ato. — Precisa se divertir também.

Samuel apenas sorriu como resposta.

Perto do fim da tarde, foi obrigado pela sua mãe a subir e, para não começar uma discussão, o rapaz acatou indo para o andar de cima. Na sala de estar, encontrou sua avó assistindo a um programa de auditório na televisão. O quadro apresentado era um daqueles em que as pessoas respondiam a diversas perguntas e tentavam se tornar milionárias. Ele nem falou nada com a idosa porque a mesma estava muito concentrada na televisão, indo direto para o quarto.

Ligou seu celular e se jogou em sua cama. Poucos minutos depois, o Wi-Fi conectou e várias notificações do WhatsApp pularam na tela.

Samuel confirmou pela última vez com Eduarda que iria para a festa.

Deixando o seu smartphone carregando, foi até seu armário separar as roupas que usaria naquela noite. Não pegou nada muito chamativo, apenas uma camisa social com estampa, uma calça jeans e um par de tênis. Também separou um casaco para o caso de sentir frio à noite, mas, antes de pegar a sua toalha para ir ao banheiro do outro lado do corredor, passou pela estante do seu quarto e ajeitou um livro que estava mal posto, quase caindo para fora.

“O Meu Sol do Oriente”, o título de um livro de poemas escrito por um autor brasileiro em 1912, Raphael Barreto. Infelizmente para Samuel, ele não tinha ninguém para comentar sobre os poemas que mexiam tanto com seu coração guardados naquelas páginas, pois o escritor era quase um completo desconhecido.

Depois de ajeitar o exemplar em sua estante, ele deixou seu quarto em direção ao banheiro.

Mais tarde, quando entrou na sala de estar, já arrumado para encontrar seus amigos, o jovem universitário encontrou sua família toda reunida à mesa de jantar, que, diferente da mesa do café da manhã, ficava na sala de estar em uma posição onde a televisão do outro lado pudesse ser assistida. Sua mãe e seu pai estavam preparando a mesa para comerem enquanto sua avó estava com sua atenção parcialmente presa na telenovela das setes horas e esperando pela comida. Quando Vera e Akira viram o filho, abriram um sorriso que foi correspondido pelo rapaz. Ele se sentiu muito bonito com aquela recepção, mas logo sua felicidade seria desfeita quando Vera abriu a boca para perguntar:

— Vai mesmo vestido assim?

— Mãe?! — perguntou Samuel, desfazendo rapidamente o sorriso que havia feito.

— Vera… — sussurrou Akira, olhando para a esposa e jogando suas mãos à altura dos ombros.

— Mas o que foi? — perguntou a mãe sem entender.

Sakura se levantou do sofá e, ao ver o seu neto bem vestido para finalmente sair de casa depois de muito tempo desde a última vez, esboçou um sorriso que combinou com o brilho dos seus olhos.

— Não liga para sua mãe, querido! Você está lindo! — disse a senhorinha, finalmente chegando perto do neto e segurando seu rosto para lhe dar um beijo na bochecha.

Samuel sorriu, retribuindo o abraço de sua querida avó.

— Você pode até arrumar um namorado essa noite! — disse a mais velha em tom de brincadeira.

— Ah, batian, eu não tô procurando um namorado, não… — respondeu Samuel ajeitando sua roupa, e então olhou para a mesa quase preparada e depois para o fogão na cozinha. Estranhou. — Vão jantar o quê? — perguntou, curioso.

— Pizza — respondeu Vera.

— Ah, então vão comer pizza justo na noite em que eu vou sair? É isso? — perguntou o filho em um tom de indignação.

— Até parece que a gente vai comer a pizza inteira, garoto. Quando você chegar, virado de bêbado da festa, vai poder comer — respondeu a mãe.

Samuel riu e em seguida olhou a hora pelo seu celular, vendo a notificação do aplicativo de carona.

— Ih, o carro está chegando — disse Samuel, que lançou beijos para seus familiares. — Estou indo. Até depois!

— Se cuida! — gritou Akira.

— Vá com Deus, meu filho! — disse Sakura, tentando gritar.

A festa era a céu aberto, uma coisa boa para Samuel, porque ele detestava lugares muito fechados e também tinha medo de um incêndio acontecer, ou qualquer outro desastre, e não ter uma saída adequada. E, apesar de a festa ser a céu aberto, havia algumas luzes coloridas espalhadas para dar um ar mais descolado ao lugar.

A primeira decepção de Samuel, porém, aconteceu quando percebeu que só ia tocar música eletrônica naquela festa, nenhum hip-pop, nenhum funk… Ele estava aceitando até sertanejo, mas apenas sairia música eletrônica dos alto-falantes que estavam dispostos em pontos estratégicos. Para ele, isso era uma pena, porque a batida da música sem letras ficaria martelando em seu cérebro a noite inteira.

Encontrou Eduarda e Fernando logo na entrada. Os dois amigos estavam vestindo roupas que deixaram Samuel com vergonha da sua escolha, a camisa social em um tom de vinho que Fernando vestiu combinava elegantemente com seu tom retinto e Eduarda também não ficava atrás, seu vestido azulado valorizava suas curvas naturais. Eles foram beber em um canto enquanto observavam as pessoas dançarem, indo e vindo pelo local aberto.

Segundo Eduarda, pela mensagem que recebeu do seu namorado, ele e o seu irmão demorariam mais um pouco para chegar ao local da festa. Havia acontecido algum problema na mansão em que eles viviam.

— Mansão? — perguntou Samuel, arqueando uma de suas sobrancelhas.

— Esqueceu que a Eduarda namora o Renato Barreto? O filho mais velho do dono do Grupo Barreto — respondeu Fernando rindo enquanto bebia sua cerveja.

— Ah… — esboçou Samuel, lembrando.

— Que coisa, Fernando… — disse Eduarda fazendo uma careta enquanto colocava seu celular em sua bolsa novamente. — Falando assim, parece que eu namoro com ele só por causa da grana do cara…

— Claro que não — disse o rapaz, em seguida, rindo. — Mas parece que o nosso amigo aqui não sabia… — Fernando apontou sua cabeça para Samuel. — Ou não lembrava.

— Eu não lembrava — respondeu Samuel. — Esqueci que o Renato é filho do dono da universidade em que a gente estuda…

— Dono naquelas, né? Até onde os professores da faculdade nos contaram, ela tá caindo aos pedaços porque a família perdeu boa parte das ações e agora a empresa mal investe lá — disse Fernando em um tom de deboche.

— Ah, então, com toda a certeza do mundo, isso deve explicar a comida, que fica mais horrorosa e sem sabor a cada semestre — complementou Samuel no mesmo tom de deboche, tentando se segurar para não rir sem controle, mas não se conteve e soltou brevemente. Eduarda e Fernando o acompanharam na risada. — E, ainda por cima, tem o teto daquela biblioteca, que tá uma coisa surreal de rachadura. Eu sempre falo que um dia aquilo vai cair em cima de alguém.

Os três continuaram conversando e, em algum momento, por causa da bebida, começaram a dançar juntos a música sem letras que tocava sem parar em uma batida que parecia infinita. Se antes Samuel se incomodava com o gênero, o álcool o fez se esquecer.

Realmente, o universitário estava precisando daquele tipo de passatempo. Sentia todo seu estresse saindo do seu corpo a cada movimento de dança que fazia com seus pés, suas pernas e seus braços. Ria a cada olhada que lançava para os amigos, os dois lhe acompanhando naquela dança maluca sem coreografia definida.

A dança continuou até o momento em que Eduarda avisou que seu namorado e o irmão estavam chegando. Ela iria encontrá-los na entrada da festa e depois traria os dois até onde estavam, dizendo que já voltava.

— Conhece o irmão do Renato? — perguntou Samuel a Fernando enquanto continuavam dançando, mas, antes de responder, o rapaz pensou por alguns segundos tentando se lembrar se o conhecia.

— Sim, eu já o vi algumas vezes no prédio… Acho que ele estuda Direito na USP, não tenho certeza.

— Legal… — disse Samuel, encerrando aquele assunto.

Continuaram dançando sem algum ritmo, até o momento em que ouviram a voz de Eduarda se aproximando lentamente. Ela estava conversando alguma coisa com os dois rapazes. Rapidamente, Samuel e Fernando pararam de dançar e esperaram, não demorando para que a amiga surgisse ao lado do namorado, um rapaz comum que poderia ser encontrado em qualquer roda da alta sociedade paulista, comum e muito bonito, com um sorriso digno de comercial de clínica odontológica.

— Fernando, você já conhece… — disse Eduarda a Renato, apontando para o rapaz que estagiava na empresa que pertencia por partes à família do namorado, mas logo mudou para o amigo desconhecido. — Mas o Samuel ainda não… Samuel, esse é Renato, meu namorado — sorriu Eduarda.

— Prazer… — disse Samuel, sorrindo e acenando. Renato correspondeu o cumprimento da mesma forma.

— Ah, esse é o meu irmão mais novo, Henrique… — disse Renato, ainda sorrindo, saindo da frente do homem que se encontrava atrás dele.

Quando o olhar de Samuel encontrou a figura do irmão de Renato à sua frente, seus olhos brilharam e ele foi atingido por uma sensação nostálgica, como se já conhecesse Henrique de algum lugar do qual sua mente não lembrava. Não foi, porém, somente essa sensação que dominou Samuel, mas um combo de tudo que foi embaralhado naquele momento em que o tempo pareceu congelar, como se fosse a cena de alguma novela do canal da vênus prateada.

O universitário até jurou em seus pensamentos que escutou o refrão “somente por amor, a gente põe a mão, no fogo da paixão...” tocar naquele curto instante. As luzes coloridas da festa desenharam a figura de Henrique, iluminando seu corpo e deixando a sua barba, que era perfeitamente desenhada, com um colorido místico, assim como o tom esverdeado de seus olhos, que se misturaram com o colorido das lâmpadas de LED a formarem um misterioso olhar penetrante, mágico e sedutor.

Sentiu a necessidade de se aproximar quando sentiu o perfume de Henrique chegar até ele, mas estava paralisado por aquele sentimento estranho, incapaz de se mexer. Era esse sentimento que as pessoas chamavam de amor à primeira vista? Se fosse, Samuel nunca tinha experimentado algo tão forte e primitivo.

De repente, a marca de nascença de Samuel começou a doer ao lado do seu umbigo, uma dor que parecia que alguém estava enfiando uma faca em sua barriga. A imagem da garota japonesa voltou à sua mente, a desesperança dela por não ter um futuro sussurrou em sua mente como um vento de verão. Seu coração se aquietou lentamente enquanto um aperto surgia em seu coração. Foi como ver alguém de quem seu coração sentia saudades... Ou sua mente... Ou sua alma.

Com Henrique, aconteceu a mesma coisa, assim como Samuel desconfiou. Não sabia o motivo, mas, no segundo em que seus olhos bateram no rapaz à sua frente, experimentou um sentimento totalmente novo aflorar em seu peito. Algo intenso e primal que estava preso em seu coração desde sempre, um sentimento que ele não sabia que poderia ter porque, até aquele instante, nunca experimentara algo em seu estado mais puro.

— Tá tudo bem? — perguntou Fernando para Samuel, passando a palma da sua mão aberta na frente dos olhos do amigo.

Samuel saiu do seu transe em seguida e ficou olhando para o outro sem entender o que havia acontecido.

Então Henrique sussurrou algo para Renato.

— Sério? — perguntou o irmão mais velho.

— Sim… — respondeu o mais novo em um sussurro mais baixo do que o comum.

— Tudo bem — disse Renato, e se despediu de Henrique com um abraço.

— Tudo bem? — perguntou Eduarda, tentando compreender o que havia acontecido ali, então ensaiou um sorriso tentando fazer parecer que não havia acontecido uma situação esquisita naquele momento. — Vamos dançar e beber… Eba! — Riu de nervosa ao terminar de falar.

Mesmo depois de Henrique ter ido embora, Samuel ficou pensativo sobre o que tinha sentido. Ele já tivera um namorado no passado, mas nunca sentiu nada parecido com aquilo pelo ex. E, ainda por cima, o seu sonho voltou com tudo para seus pensamentos, como se ele tivesse acabado de acordar de novo.

Ficar na festava estava sendo insuportável. Eduarda estava de chamego com o seu namorado e Fernando havia se arranjado com uma garota, Júlia, que chegou acompanhada de uma prima de Renato, Sandra. Aparentemente, todos estavam acompanhados, menos Samuel, que ficou para escanteio.

O jovem universitário ficou assim até ter sua atenção chamada por Sandra, que se tratava de uma dondoca na casa dos vinte anos de idade e tinha aqueles detalhes que só seriam reconhecidos em uma pessoa muito rica: a roupa cara, a pele bem cuidada mesmo banhada pelo sol e seus cabelos parecendo feitos de seda, seu olhar tão afiado quanto a faca de um churrasqueiro.

— Que carinha desanimada, meu anjo — disse Sandra com um tom amistoso, sentando-se ao lado de Samuel. — O que aconteceu, levou um fora?

— Ah, não é nada disso. Eu acho que a minha bateria social acabou, só isso — respondeu o rapaz com desânimo.

— Você é amigo da Eduarda, né? A namorada do Renato — questionou a jovem de cabelos claros. Samuel respondeu com um balançar de cabeça. — Me diz uma coisa... Samuel, né? Bom, Samuel, me responde uma coisa. Você é gay?

Primeiro, ele ficou surpreso com o interesse da garota, mas já desconfiava porque Sandra demonstrava ser exatamente o tipo de moça que faria aquela pergunta e que, certamente, comemoraria se ele confirmasse sua homossexualidade.

— Sim, eu sou — respondeu Samuel, esperando sua premonição.

— Aaaaaaaaaah! — gritou a patricinha batendo palmas. — Eu sabia! Vocês todos estudam na faculdade da empresa do tio, né?

— Sim, eu e o Fernando estudamos Administração e a Eduarda faz Jornalismo.

— Ai, eu não estudo nada. E nem quero estudar, na verdade. Quando meu pai faleceu, ele me deixou uma boa fortuna em dinheiro, e o meu noivo, bom, meu noivo é bem rico, então... — disse ela, rindo.

Samuel não se conteve e riu da forma que Sandra falava. Era quase como se ela tivesse saído de uma série, exalava os estereótipos que uma patricinha esbanjava. Esses estereótipos estavam presentes desde a sua maquiagem até o vestido que escolheu para aquela festa. Ela tinha um gosto e estilo bem caros.

— Se você estuda, eu acho que você tem que trabalhar também, né? — perguntou Sandra no mesmo tom amistoso.

— Não e sim. Eu trabalho nos finais de semana, ajudando minha mãe no mercado de produtos asiáticos que ela abriu. Meu pai trabalha como contador da faculdade, então, por conta disso, eu ganhei desconto na matrícula — explicou Samuel tentando manter o tom amistoso apresentado pela outra.

— Sério?! — perguntou Sandra, como se tivesse descoberto um grande segredo. — Eu adoro produtos orientais! Aqui… — Ela puxou sua bolsa brilhante de grife e tirou seu iPhone e entregou o mesmo para Samuel quando desbloqueou a tela com a identificação de face. — Salva teu número, eu vou te chamar assim que eu puder para conhecer a loja da sua família. Como é o nome?

Sem graça, Samuel pegou o celular e começou a digitar.

— Mercado Okada — respondeu o rapaz entregando o aparelho para sua dona.

— Ai, que maravilhoso! Eu estou tão empolgada, a gente pode se tornar graaaandes amigos, não acha? Não concorda comigo? Eu gostei muito de você, Samuel — disse Sandra, animada.

Os dois continuaram conversando ao longo da festa.

Sandra realmente havia amado Samuel, porque não queria soltar o rapaz por nada naquele mundo. Beberam juntos e conversaram até o momento de todos partirem para suas casas, quando já era de madrugada, quase amanhecendo. Fernando foi dormir na casa de Samuel porque ele ficou com preguiça de voltar para o apartamento que dividia com outro colega de curso deles.

Fernando conseguiu dormir, menos Samuel, que ficou na sala de estar do seu apartamento. Passou um café preto e bebeu de acompanhamento para as fatias geladas de sobras da pizza que sua família jantara. Sentado no sofá, Samuel refletiu mais uma vez sobre o seu encontro com Henrique, agora no silêncio sob o sol que nascia lá fora e invadia a cozinha, atravessando seus raios pelo vidro da janela. Os sentimentos voltaram de uma forma nostálgica. Era isso que chamavam de amor à primeira vista? Pensava que acontecia apenas em livros ou em novelas, mas, se fosse isso que ele estava sentindo, Samuel sabia que teria que esquecer imediatamente. Henrique, aparentemente, estava fora do seu alcance, e nem sabia qual era sua sexualidade.

Concentrar-se nos seus estudos era o melhor plano.

Notas finais
-Ritter