Eu, Kindred
3 Aonde quer que a Ovelha fosse, o Lobo sempre a seguia.
Notas iniciais
— Olá mais uma vez minha criança, percebo que minha marca não está em você... ainda.
— Você de novo, talvez queira brincar comigo — o Lobo dançava em meu corpo.
— Isso seria interessante.
— Então que tal começarmos?
— Não agora, caro Lobo. Dessa vez temos assuntos em outro lugar.
— Vai ser rápido... prometo.
— Nossa próxima caça nos aguarda.
— Ah sim. Então iremos nos encontrar de novo.
— Até que esse dia chegue, irei lhes propor outro conto. Vamos lobo?
— Eu vou na frente.
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— É um palácio grande, ovelhinha.
— Sim, Lobo. Os ricos não estão protegidos de nossa chegada.
— Vamos logo, eu quero caçar.
— Claro, caro lobo.
Nessa cidade imperial, o rei, que já governava há muitos anos, chegava a suas horas finais. A causa de seu fim prematuro foi o golpe de espada ocasionada numa guerra forçada contra um reino pacífico que preferiria uma conversa diplomática ao derramamento de sangue inocente. Mas esse rei estava cego pelo poder. Pobre homem, cego em sua própria ambição, em seu próprio mundo. Seu destino era inevitável.
A rainha é uma pessoa simpática que tentava ajudar os necessitados, mesmo que contra a vontade de seu marido. Amada por muitos, ela é a luz na escuridão daquele reino. Contudo, nem tudo era um mar de rosas, e a rainha estava doente com pioras constantes.
Seus dois filhos estavam fora do reino em guerra com as nações atacadas por seu pai. A única nos cuidados do rei e da rainha era a filha mais nova, tão doce e gentil que era difícil acreditar ser da mesma família. Suas olheiras pesadas revelavam as noites mal dormidas com a preocupação aos seus pais. Ela não se preocupava mais com sua beleza, e mesmo que por vezes tossisse sangue, ainda não se importava com sua saúde, estava dedicada somente em cuidar dos pais.
— Aqui estamos — digo. — Hora de remover nossa marca.
A garota se assustou ao nos ver. Deixou cair de suas mãos uma pequena bacia com água e toalhas dentro. Não só ela, o rei e a rainha ficaram espantados com nossa chegada. Não eram surpresa suas reações.
— Eles sabem que vamos chegar — disse o lobo com sua voz rouca.
— Contudo nunca estão preparados — completei me aproximando.
— Quem são vocês? — perguntou a garota.
Fiquei parada lhe observando e só então percebi que ela podia nos ver.
— Olhe ovelhinha, ela pode nos ver — o Lobo sorria.
— Sim — concordei. — Me diga criança, como será que me vê?
— Cinzas sobre a lã — respondeu o Lobo se intrometendo. — Posso devora-la?
— Espere Lobo. Não é só por ela que viemos.
O rei me encarava admirando-me como se já nos conhesesse.
— Eu sei quem são — disse o rei, em voz fraca e desesperançosa. — Ouvi suas lendas na infância. Vieram me buscar?
— Sim — respondi.
— O que está falando, pai?
— Esses são Kindred, filha. São a morte.
— A morte? — ela repetiu assombrada.
— Sinto cheiro de medo — o Lobo aspirava o ar.
— Não façam mal a ela — o rei tentou erguer a voz, mas não tinha força.
— Há sua hora irá chegar — eu disse. — Não se apresse.
Do dorso da mão da rainha havia uma marca familiar prateada.
— Ai estar — disse o Lobo, com olhos ambiciosos.
— Sua hora chegou — eu deixava meu arco à vista. — Escolha minhas flechas...
— Ou meus dentes.
— Não, por favor — protestou o rei. — Se forem para levar alguém que seja eu!
— Ovelha, me deixe devora-lo logo... Já está irritando.
— Se assim ele desejar, caro lobo. — Eu me voltava para a rainha. — E então já se decidiu?
Ela não entendia nada, mas talvez pudesse sentir seus suspiros finais e o significado de nossa vinda. Apenas mostrou um sorriso simpático fechando os olhos levemente.
— Eu entendo — disparei minha flecha em seu peito, lhe dando uma morte indolor.
Só neste momento que a garota entendeu o que nós fazíamos... ou o que nós éramos. Ela começou a chorar fortemente.
— Eu vejo água — disse o lobo.
— Chamam-se lágrimas — expliquei.
Mesmo sem forças, o rei ainda tocou nas mãos de sua esposa que já não respondia a estímulo algum. Ele também chorava pesadamente. Pelo jeito, perder a pessoa que ama deve ser doloroso, penso.
— Por quê? — ele suplicava. — Ela era uma boa pessoa.
— Todas as coisas grandes ou pequenas...
— morrem — o Lobo concluiu.
Antes que pudessem sentir o luto, minha marca, finalmente, surgiu na mão do rei. Tanto ele quanto sua filha me encararam espantados.
— Não! — ela protestou, ficando no nosso caminho, já prevendo minha ação. — Não o leve, por favor.
— Não fique no caminho — O Lobo se aproximava com seus olhos brilhantes intimidadores.
— Pode levar tudo — disse a garota tentando não se intimidar. — Ouro, prata... O que quiserem.
Eu olhei para os lados, observando o quarto. Era digno da realeza: brilhante coberto de riquezas. Mas algo me chamou a atenção. Sobre uma pequena mesa havia uma espada de lâmina afiada.
— Essa espada... Foi forjada em uma terra que não nos é bem-vinda.
— Pode leva-la — a garota seguiu meu olhar —, não nos importamos, não é pai?
O rei a ignorava, não prestava atenção em sua filha. Sua visão estava totalmente concentrada em nós.
— Pai? — ela chamou novamente.
— Em toda minha vida, admito que fui uma pessoa cruel e ambiciosa — sua voz era de conformidade. — Mas mesmo assim você poderia me conceder sua flecha?
— Pai! — protestou a filha. — Não diga isso. Eu sei que o senhor...
— Não adianta — ele se rendia. — Não tem por que negar a morte.
Eu puxei meu arco, pronto para o disparo final. Porém a garota mais uma vez se pôs no caminho.
— Vá tranquilamente — falei.
— Não. Lute. Fuja! — O Lobo queria perseguir algo. Já estava inquieto com tanta conversa.
— Por quê? Por que fazem isso? — ela nos questionou.
— Toda a vida... — a voz do Lobo era forte.
— Termina conosco.
Ela não conseguia entender que perderia seus pais ali, naquele momento. Se seus irmãos estivessem juntos, talvez pudesse fazer algo, ela pensou. Mas o que uma garota sozinha podia fazer?
— Tudo bem — disse mais uma vez o rei. — Está tudo bem, filha. Permita que ao menos eu possa partir em paz.
— Mas pai...
— Agora! — disse o Lobo subitamente.
Minha flecha passou centímetros da garota e atingiu o peito do homem. Sua filha correu para perto dele enquanto seus olhos iam fechando. As lágrimas da perca de seus pais pareciam não ter fim.
— Em paz eles vão...
— Famintos seguiremos — o Lobo parecia desapontado por não ter caçado hoje.
Nos viramos e estávamos prontos para ir quando a garota nos chamou .
— Me leve também! — ela implorou repentinamente. — Meus irmãos não se dão comigo, só pensam em riquezas e terras, e meus pais eram tudo o que eu tinha. Nunca sai do palácio, não conheço a vida lá fora. Me levem, por favor!
Eu sabia que aquelas não eram palavras racionais. Ela estava desconformada. E a morte parecia ser sua única solução.
— Entendemos sua solidão, criança — digo.
— Mas fique longe — o lobo rodeava meu corpo.
A garota desabou no chão em lágrimas. Seus soluços eram altos o suficiente para se tornar música para o Lobo.
— A única morte de verdade é nunca viver — eu disse serenamente, me afastando. Mas algo em mim pedia para ficar.
Então da mão da garota uma luz familiar surgiu. A marca que tanto preservo apareceu nela. Ela ficou espantada, seus olhos arregalados e assombrados nos encaravam já sabendo seu destino.
— Não... não — ela gritou incrédula.
— Tudo que respira — eu mostrava meu arco.
— Nos encontrará — o Lobo revelava seus dentes afiados.
— Afastem-se! — ela gritou. — Saiam de perto de mim!
A garota passou por nós saindo do quarto, fugindo pelo corredor... Fugindo de nós. Nos negando completamente .
— A trama e o tecer do destino guiam...
— A caçada recomeçou!
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— Vou te dar uma vantagem... — disse o Lobo, empolgado.
— Não que vá adiantar — eu, a Ovelha, conclui serenamente.
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