Eu, Eu Mesma E O Tempo

2 Capítulo 2: A Explosão


Trecho 50: Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos by Text-Enhance\">ganhar, por simples medo de arriscar.


_Partituras, partituras... onde estão as malditas partituras? _ Já eram quase quatro horas da tarde e eu ainda não tinha achado as partituras.


Eu fiz meu pai me por na Escola Das Artes. De manhã, aulas normais, de tarde, aulas de arte. Arte em seu geral. Desenho, pintura, designer, edição, música, teclado, piano, violão, baixo, canto, hip hop, street dance, rap, rock e pop. Eu ficava das 16:00hrs até as 23:30 como uma louca. Quando eu perdi meus horários, juro por tudo que é mais sagrado, eu quase morri!


Aliás, eu sou ateia. Não tinha mencionado isso antes simplesmente porque é um mero e ridículo detalhe. Pessoas morrem, passam fome, são agredidas o tempo todo, e alguns fazem guerras por causa da religião.


Não que o lado da ciência me atraia, porque, realmente, isso me confunde demais.


Trecho 33:

A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega.


Sabe, eu sou uma boa filha. Não falo palavrão na frente dos meus pais, nunca sequer precisei recuperar notas trimestrais, e passo com média acima de 8,9 todo ano. Só falta uma coisa: Meus pais.


Já mencionei sobre eles? Eles são separados, e não quiseram entrar na justiça para decidir minha guarda. A boa notícia é que os dois vivem na mesma cidade.


Minha irmã teve uma overdose e se recuperou, e todo bendito ano vai para a reabilitação "Fazenda Anti-Mal", o que é um nome totalmente ridículo e infantil para pessoas que foram burras o suficiente para caírem na crackolândia, ou heroínalância ou sabe-se-lá o que mais.


Ainda assim, os drogados são sempre os mais populares.


Trecho 46:

A escada do sucesso não tem ultimo degrau, já que está continuamente em construção.


Peguei as partituras que estavam embaixo do meu notebook e fui para a escola de arte a pé também, com uma mochila de uma tonelada.


Quem estava no caminho? Bandidos, salafráios, misionários, idosas, adolescentes e todos que já fizeram algo errado na vida. Aliás, quem nunca fez nada?


Trecho 54:

Os homens deviam ser o que parecem ou, pelo menos, não parecerem o que não são.


Entrei na Escolha das Artes e fui para a minha primeira aula: Piano.


Eu recém acabara de tocar Debussy — Claire De Lune (Cliquem para ouvir a música), seguido da marcha nupcial. Saí de lá e fui para a aula de Jazz Contemporâneo.


Trecho 75:

Quanto maior for o obstáculo, maior será a glória de tê-lo superado.


Depois da aula de Jazz, fui no vestiário, troquei de roupa e me sentei para esperar a próxima aula, pegando meu diário.


"Trecho 76:

Nunca defenderei a dor, e é obrigação de toda pessoa que se considere humana cooperar para sua destruição. Mas, afirmo que os que sofrem possuem a potencia de saber criar e que, através da dor, conseguem-se forças para desenvolver a vida.


Querido diário,

são 17:30hrs passada, Savannah me mandou um SMS e vai voltar de viagem amanhã, porque uma das viagens não saiu. Acho que ela ainda tá um pouco abalada pela mãe dela trair o pai. Os casais de hoje em dia não permanecem mais estáveis como antes. Não que eu reclame, não sinto falta de um namorado ou algo do tipo.


Trecho 67:

Há uma coisa que descobri sobre a vida: ela é comandada por nosso próprio ser.


O pai dela ainda não descobriu, e duvido que ela vá ter coragem para contar."


Fui me levantar, em pouco tempo a Claire, minha amiga de canto, chegaria e iriamos juntas para a aula.


_Ali _ Eu sorri olhando Claire vir. A felicidade dela é contagiante, independente do seu humor. Pena que ela é muito fofoqueira. Ela tem cabelo louro curto, olhos azuis acinzentados e sempre está de coque. _Ei, Claire! _E sorri, acenando.


Ela veio correndo até mim e me abraçou.


_Desculpe a demora... sabe como meu irmão é, ele recém ganhou a carteira de motorista e...


_Entendi _Eu ri.


Atrás de nós duas tinha uma grande janela de vidro, que subia do chão e ia até um pouco abaixo do teto. Estávamos no sétimo andar, e fomos olhar por lá, porque a professora Marcela sempre se atrasava, e a gente a via chegando de ônibus.


_Aquele é o ônibus dela? _Claire apontou.


_Não... ainda não consigo ver ele.


_EI, CLAIRE, PEGA AI! _ Jonathan jogou uma bola de futebol americano para ela. Ele era o namorado "sensual e irresistível" dela. Por que as aspas? Porque é só pra ela. Enfim, ele é atlético, e tudo o mais, mas é meio infantil. Ela não conseguiu se virar a tempo.


Em um milésimo de segundo pude ver Claire arregalando os olhos com o impacto da bola em suas costas, e antes que ela pudesse gritar qualquer coisa, que, em qualquer outra ocasião, seria um xingamento para Jonathan, seu rosto atravessou a janela. Eu pude ver cada caco se quebrando, e ela caindo como uma estátua da janela do 7º andar, como uma bigorna em um cartoon qualquer. Ela nem se quer se mexeu ao se ver caindo. Talvez porque já estivesse cega com os cacos em seus olhos. Eu só tive tempo para pôr os braços na frente do rosto e gritar pelo seu nome, não que ela tenha dado sinal de que me ouviu.


Depois de uns 20 ou 30 segundos de silêncio em que eu abaixava os braços devagar, não tive coragem de olhar para Jonathan. Eu me aproximei, me curvando sobre a abertura da janela de vidro, e pude ver o corpo dela contorcido no chão, com os membros claramente quebrados e algumas fraturas espostas graves. Se ela estivesse um pouco mais arrumada, a descreveria como se estivesse deitada de bruços em uma cama e sangue.


Na mesma hora, Jonathan me puxou para trás, professores ligavam para a ambulância, estudantes desciam para ver o corpo, e os outros se aglomeravam próximos à janela. Não era a primeira vez que eu via a morte com meus próprios olhos. Se fosse com qualquer outra pessoa, pode até se espantar, mas eu não me importaria. Eu me importo porque a conheço. E sou ignorante, mas não a esse ponto.


Trecho 66:

Não importa o quão os dias sejam perfeitos,eles, em um momento, irão acabar.


Trecho 29:

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.


Ninguém mais estava com ânimo o suficiente para as próximas aulas. Os professores encerraram as aulas pelo dia, e eu fui para a casa. Fiz o mesmo de sempre. Dei olá para Regina, subi para meu quarto, pus música, me deitei e vi meus cortes novamente.


Trecho 51:

Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.


Olhei pela sacada do meu quarto, observando o vidro, e a cena se passou novamente em minha cabeça.


A pele bronzeada dela deve estar pálida agora.

Seus olhos azuis devem estar mais escuros.

Seu corpo deve estar frio e duro.

Mas sua expressão continuará a mesma.


Me perdi naquele tempo, e às 22:00hrs da noite recebi uma ligação da Sra.Peek, mãe de Claire. A voz dela estava falha e fina, como se estivesse com o nariz entupido, e chorado todas essas horas. Eu lhe desejei meus pêsames sinceros e ela me disse que o velório de sua filha seria no dia seguinte, às 17:00hrs. Eu concordei, e disse para que fosse forte, e desligamos.


"Trecho 52:

Lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente.


Querido diário,

22:30hrs. Hoje a Claire morreu. E eu vi. Não consigo acreditar que isso aconteceu. Estou sem fome, boa noite."


Não tenho palavras.

E não preciso ter.


Trecho 94:

O silêncio são seus melhores gritos.