Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
34 Revelações III
Notas iniciais
ANTERIORMENTE...
Um sorriso asqueroso se estendeu pelos seus lábios rosa. Inclusive me deu a impressão de ter notado uma risada sendo contida. Ele se aproximou de novo de mim: três palmos … dois palmos … um palmo, antes de sibilar com satisfação:
— Você. – minha respiração travou. – Eu quero você.
*** *** ***
— Você quer … — murmurei perplexa num fio de voz. E enquanto o sorriso que ele trazia se transfigurava tomando a forma de uma vitória recém assinalada, um sentimento de fúria imensa tomava conta de mim. A seguir … foi o nojo, precedido de …
CUSP!
Assim que o cuspe atingiu a sua face, próximo à narina esquerda, ele não mais se deteve, partindo para cima de mim como um louco, fora de si. Nos debatemos ferozmente, como animais descontrolados. Acertei-o entre as pernas com uma joelhada que o fez grunhir alto e vociferar uma série de insultos contra mim, ao mesmo tempo que se jogava sobre a cama do quarto.
— Cabra do #$$%!! Você me paga sua sapata nojenta!
— O contrato?! – gritei, desta vez partindo eu para cima dele sem dó nem piedade. Já tinha aguentado demais daquela palhaçada. – Agora antes que eu te enterre vivo!
Ele girou o corpo na minha direção, ainda encostado à cama, enquanto eu agarrava-o pelas alças surradas da camiseta. Esboçou um sorriso depravado, um sorriso que me fez ter a certeza que aquele não era o Neal Cassidy que eu havia conhecido há tantos anos atrás …. Aquilo me assustou, mas me fez ficar com mais raiva ainda … e coragem. Coragem para acabar com aquela história de uma vez por todas.
— Sua estúpida. – balbuciou com dificuldade, em voz baixa.
— Seu merda, onde tá o contrato?! – gritei, apertando-lhe a garganta com os polegares. – Me dá o contrato!! O contrato!!
Ele começou rindo, engasgando em simultâneo com a falta de ar. Fiquei mais desesperada e com isso fui vincando com maior pressão as mãos no pescoço dele. Os seus olhos pareciam estar prestes a fechar, mas os lábios continuavam com o mesmo sorriso nojento.
— Neal … — sussurrei já com lágrimas nos olhos turvos. – … por favor ….
De repente, ele pareceu querer falar, entreabrindo os lábios. Afrouxei o aperto e ele tossiu forte.
— Só me diz a verdade. – implorei, largando-o na beirada da cama. Endireitei-me, passando as mãos trémulas pelos cabelos. Não podia acreditar no que estivera prestes a fazer. Limpei os olhos com as costas da mão e deambulei pelo quarto feito uma presa encurralada na jaula.
Enquanto ele se tentava recompor, eu ia chegando à conclusão que toda aquela situação não passava de uma …
— Cilada. – escutei-o dizer, confirmando os meus pensamentos.
— Não há contrato nenhum aqui, pois não? — ele balançou a cabeça em sentido negativo. – O que ele pretendia com isso? Que eu te matasse? – atirei, cheia de dúvidas, exaltada. – Porquê?
Ele sentou-se na cama, coçando a barba.
— Eu nunca achei que você fosse capaz de me matar. – respondeu. – E acho que o que ele pretendia era matar dois coelhos de uma cacetada só ….
Cruzei os braços, franzindo o cenho, à espera de respostas. Ele suspirou; parecia cansado. Seria outra cilada?
— Emma, — começou com a voz meio acatarrada. Só aí me dei conta dos efeitos nefastos das drogas no seu sistema. – por mais que te possa custar a acreditar, eu nunca quis o seu mal. Eu fiquei despeitado sim …. sentindo meu orgulho de macho ferido e tudo mais …. Eu …. – seu discurso vacilava, como se de facto aquilo lhe custasse horrores. – … eu penso algumas vezes no nosso garoto ….
— Ele não é nosso garoto. – cortei.
— Sim, eu sei. – assentiu e eu soube imediatamente que ele estava sendo sincero. – Eu fiz por perder …. Toda a minha vida só fiz merda. Vacilei um milhão de vezes. Comigo, com você …. com o garoto … — soltou uma risada fraca, irónica. – Sabe a única vez que eu não vacilei? – ele não esperou reação minha para poder continuar. – Quando eu abandonei vocês. – baixou a cabeça por segundos.
Estava doendo nele, eu senti. Ele parecia menos afectado à medida que ia falando e limpando a garganta.
— Isso não importa agora.
— Sei disso. – levantou a cabeça, fixando as íris castanhas em mim. – É tarde. A única coisa que posso te falar é pra ter cuidado. Não comigo, porque como você disse eu não passo de um merdas.
— Vai bancar o coitado agora? – atirei, ainda melindrada.
— Tome cuidado com Gold. – continuou não dando importância ao meu comentário.
— O que ele quer de Regina?
— Não sei bem …. Vingança ….
— Mas porquê? Isso não tem lógica nenhuma.
— Eu não sei, Emma. – respondeu. A sua atenção parecia começar a dispersar novamente, mostrando-se inquieto. Estava a ressacar. Provavelmente seria desse modo que Gold o manteria do seu lado, por meio das drogas, já que ele estava completamente agarrado.
— Neal! – tentei chamar a sua atenção, mas não adiantava. Ele já se coçava e parecia procurar algo nos bolsos da calça. – O que Gold tem contra Regina?
— Qualquer coisa sobre … — ele parou ao aperceber-se que tinha achado um resquício de alguma droga no bolso.
— Sobre o quê? – insisti.
— Sobre …. ela ser culpada … — antes que ele pudesse consumir de novo apressei-me e agarrei-o outra vez pelo pescoço, achocalhando-o. – me larga!
— Gold acha que Regina é culpada de quê?
— Ele disse que ela ia pagar por o ter feito perder a filha …. não sei mais nada. – desembuchou, ao mesmo tempo que eu o soltava e me virava para sair dali.
*** *** ***
Conduzi, acelerada, a moto pelas ruas fora pronta para esclarecer toda essa história doentia com o verdadeiro responsável de todas as desgraças que haviam se instaurado na minha vida. Já passava das onze e no meu íntimo sabia que Regina deveria estar em sofrimento pela minha demora. No entanto, ao checar o celular, estranhei não ter nenhuma chamada não atendida ou mesmo uma mensagem dela. Fiquei preocupada, ponderando se não seria melhor ir antes para casa e deixar para tomar satisfações com Gold só no dia seguinte.
“Não”, pensei. Explicaria tudo depois com calma em vez de voltar para casa mais confusa ainda do que quando tinha saído. Regina andava tão nervosa que o mínimo que eu poderia agora fazer era tentar resolver essa história sem a preocupar ainda mais.
Procurei os escritórios da Companhia Gold com o intuito de obter um endereço residencial daquele homem sinistro e calculista. Para a minha surpresa, logo no portão principal, o segurança encorpado informou-me que Mr. Gold me aguardava na sala de reuniões do Piso 5. Engoli em seco, analisando se deveria ir ao seu encontro, já que até agora tudo parecia fazer parte de um jogo mesquinho e doentio. Optei por ir ter com ele, até porque se já tinha ido até ali, não era agora que voltaria para trás, ainda mais sem respostas às minhas perguntas.
— Não fique à porta, Miss Swan. – escutei-o dizer do outro lado, antes de eu abrir com alguma impaciência a porta da sala. Ele sorriu, erguendo o copo de bebida que segurava na mão. Simulou um brinde no ar e em seguida tomou um gole do líquido.
— Aviso já que eu não sou a Regina. Não vou pactuar com os seus joguinhos mentais. – ripostei, avançando até à mesa onde ele estava. A sua expressão não se alterou, embora eu tenha a certeza que o meu semblante era tudo menos afável.
— Eu se fosse você me acalmava.
— Está me ameaçando? – rugi.
— Eu tomaria por um conselho, mas se você prefere ver as coisas assim. – fez um gesto com a mão na direção da cadeira. – Por favor, sente-se.
— Estou bem assim. – cruzei os braços. Ele soltou uma risada curta, mas assentiu com a cabeça.
— Estou vendo que a sua demanda foi em vão, visto estar tão raivosa assim.
— Me poupe da sua hipocrisia, Gold. Não havia contrato nenhum. – revidei, me inclinando sobre a mesa de forma ameaçadora. – Porquê me mandou lá? Pensou mesmo que eu ia fazer o serviço sujo pra você? – atirei, me referindo a Cassidy. – Se o queria morto, porque já não terminou você mesmo o serviço? Afinal pelo que vi parece que é questão de tempo.
— Sim … — suspirou, divertido. – Se bem que seria tão mais entusiasmante se fosse você a dar um fim naquele lixo ambulante.
— Você se aproveitou do estado dele, usou-o como uma peça de xadrez, não é assim? – joguei, batendo com o punho na mesa. – Sempre foi você! Desde o início!!
CLAP …
Vagarosamente ele juntava uma palma à outra, aplaudindo.
CLAP … CLAP
— Bravo!
— Escuta aqui seu …
— Ah ah. – advertiu, me interrompendo. – Tenha cuidado, Miss Swan. Acha que a coragem é suficiente para me enfrentar? – fez uma pausa. – ou será antes estupidez? – seus olhos brilharam nas órbitas negras e densas.
— O que tem contra Regina? Porque está fazendo isso, cara?! Que mal ela te fez? – perguntei, desesperada.
— Ai o amor! – exclamou, sarcástico. – Que sentimento tão – procurou o termo certo. – perigoso.
— Não me vai responder?
— Você acha que conhece Regina Mills muito bem, não é mesmo? – lançou, venenoso.
— O que quer dizer com isso?
— Regina não é quem você pensa. – afirmou, de cara fechada.
— Eu não irei permitir que fale mal dela na minha presença. – avisei.
— Pois bem. – levantou-se devagar da cadeira, se apoiando na bengala. – Me diga você então. – arqueei a sobrancelha, sem perceber ao que ele se referia. – Como ela te faz sentir especial, — começou esforçando-se para continuar no mesmo tom neutro, embora se notasse um leve toque de desprezo nas palavras. – como só ela é capaz de ser a sua fortaleza, seu porto seguro. Como ela diz pra você, às vezes, que você é encan….
“- Encantadora. – proferiu, me examinando de alto a baixo, fixando os olhos nos meus. – Era capaz de ficar a vida toda te olhando. – continuou, enquanto descia novamente o olhar pelo colo dos meus seios desnudos.”
Pisquei os olhos, estremecida com a lembrança.
— Como ela te toca nos lugares certos, incapaz de desviar o olhar de veludo do seu corpo. – senti um calafrio me percorrendo a espinha quando ele falou demasiado perto do meu ouvido. – Como ela revira a sua vida, te abraça, te protege, — baixou mais a voz, afastando com o dedo alguns fios de mechas loiras. – te controla. Sim … quando você se dá conta, ela já reclamou a sua vida pra ela.
“- Vai sair com aquele cara de novo? – Regina me perguntou do quarto. – Não acha que anda se esmerando demais pra caçá-lo?
Aquilo me fez rir e espreitar pela porta do banheiro na direção dela.
— Não pense que não notei o sentido ambíguo dessa sua insinuação. – revidei, bem humorada. – Adoro ver você com ciúme. – ela fechou a cara, baixando os olhos para a tela do laptop novamente.
— Não é ciúme, é zelo. – respondeu, sem olhar para mim.
— Ahm ahm. – murmurei, não acreditando. Aproximei-me devagar da cama, até chegar junto das suas pernas. – Sabe que a única caça que me interessa – fui subindo os beijos pelas suas pernas, coxas, abdómen, seios, pescoço, até chegar à sua boca. – é você.
— É mesmo?
— Sim, você é minha vida. – ela sorriu, satisfeita.”
— Não é assim, Miss Swan? – Gold perguntou, me trazendo de volta à realidade. – Mas e o contrário? Ela admite o mesmo controlo? – sibilou, me confrontando. Tornei a levantar o cenho, sem entender onde ele queria chegar.
“- Você não vai levar um casaco? – olhei-a de cima a baixo, não muito satisfeita, já que o vestido que ela vestia deixava pouco à imaginação, principalmente na zona das pernas
“– Não comece. – ela ripostou. – É um jantar de negócios, eu vou de carro e estará quente dentro do restaurante.
— Para você pode ser um jantar de negócios, mas eu sei muito bem o negócio que os caras lá estão pensando cada vez que veem suas pernas nesses vestidos de grife. – vi que ela estava impaciente e aborrecida com os meus comentários.
— Emma eu estou atrasada. – continuou sem dar importância para o que eu dizia.”
— Chega! – exclamei, me afastando dele. – Onde quer chegar com tudo isso?
— Você é apenas mais uma. – retorquiu, amedrontado. – Assim como foi a minha filha.
— Sua filha? – não estava entendendo mais nada. – O que Regina tem a ver com a sua filha?
— Perdi-a pra sempre. – confessou. – Regina não passa de uma sedutora. Seduziu a minha menina e quando se cansou jogou fora. – continuou com raiva, e desta vez, a emoção estava expressa na sua face contraída. – Por isso, pode acreditar, estará melhor longe dela.
— Você é doente. – ripostei em náuseas, dando as costas. Ele me segurou o braço, me fazendo virar novamente para ele.
— Pode até ser. – disse. – Mas doente deve estar a sua querida neste momento. – continuou com desdém. – Já olhou as horas? Não parece horário pra alguém com mulher e filho andar na rua, se encontrando com ex-namorado.
Puxei o braço com brusquidão, enraivecida.
— Vou contar tudo pra ela, isso acaba hoje. – explodi, me preparando para sair mais uma vez. – Irei esclarecer tudo de uma vez. Chega de segredos!
— Não precisa se dar ao trabalho de contar onde foi. – esperei que ele continuasse. – Ela sabe.
— Ela sabe?
— Pra você ver como eu tenho razão. – soltou uma risada satisfeita. – Regina não consegue abdicar do controlo, ela precisa estar sempre um passo à frente, pena que desta vez ela não está conseguindo.
— Como é que ela sabe? O que você contou pra ela? – exigi saber, nervosa. Era ridículo como me sentia mal, apesar de não ter feito nada de errado.
— Não queira agora me conceder o mérito de tudo por mais lisonjeiro que isso possa ser. – um sorriso divertido dançava pelos seus lábios finos.
— Fala de uma vez! – desta vez fui eu que o apertei no braço.
— Ela colocou alguém pra te espiar! Onde você vai, com quem está …. Confiança acima de tudo, não é mesmo? – atirou, irónico.
— O quê? – murmurei, incrédula. – Não acredito nisso.
Ele sorria.
— Faça o que quiser, não importa. – tornou a dirigir-se para a cadeira, sentando-se comodamente. – O roteiro dessa história sou eu que tenho, e acredite Miss Swan, o desfecho vai causar uma explosão de audiência nunca antes vista.
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