Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
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Notas iniciais
Estava atolada de trabalho, e a data do nosso casamento se aproximava a passos largos. Emma não queria uma grande festa, sempre fez questão de me relembrar, e eu embora sentisse falta de todo o glamour que fazia parte de um requintado copo de água, respeitei a sua vontade. Teríamos uma celebração comedida e discreta em casa mesmo, apenas para os amigos mais chegados, sem fotógrafos ou jornalistas para mediatizar o evento. Não que eu fosse uma pessoa que gostasse de dar nas vistas … bem, talvez um pouco, mas não por fofocas ou busca desmedida por fama. Eu apenas desejava que todos pudessem apreciar a mulher maravilhosa que aceitara compartilhar a sua vida comigo. Me pegava imaginando Emma com um vestido longo e delicado delineando seu corpo bem constituído ou mesmo um terno elegante e chique que assentava esbeltamente na sua figura esguia e alta. Tudo da última coleção de uma das minhas empresas que eu estava de momento comercializando, mas Emma havia sido irredutível até nisso. Nem me falou o que ia usar na cerimónia, eu só esperava que não fosse composta por uma das suas jaquetas do seu dia-a-dia ou algo do tipo, nada recomendado para um momento como aquele que estávamos prontas a viver.
Suspirei com a dor de cabeça que estava sentindo. Tirei o telefone do gancho, apertando o número da minha assistente para chamá-la à minha sala. Logo a moça de cabelos castanhos e compridos surgiu na minha frente.
– Katia, por favor, me traga uma aspirina e um copo com água. – A vi assentindo e desaparecendo de novo pela porta.
Peguei de novo o telefone e disquei um novo número, esperando ser atendida.
– Mr. Jonhson como está? Fala Regina Mills. – O escutei me cumprimentando e me lançando as habituais cantadas sem graça, e forcei uma risada como se estivesse achando realmente graça ao que ele dizia. – É precisamente por isso que estou lhe ligando. Sim, a Vitela ao Porto deles é simplesmente divinal. Combinado então, nos encontramos no restaurante. Até logo querido. – Desliguei a chamada, e peguei no meu celular sobre a mesa de seguida.
Antes que alguém me atendesse no celular, Katia entrou na sala, eu fiz-lhe sinal para deixar a água e o remédio na mesa, e antes que ela tornasse a sair, fiz-lhe sinal para que esperasse.
– Emma? – Estava a ouvindo com dificuldade. – Onde você está? A ligação está horrível. – Forcei a orelha contra o celular como se isso me fizesse a escutar melhor, e tentei descodificar o que ela dizia. – Eu não vou jantar com vocês, mas posso passar na escola pra pegar Henry, o que acha? – Ela pareceu confirmar. – Tá bom, eu levo ele pra casa, tomo um banho rápido, e vou jantar com um cliente. Falamos depois, um beijo. – Desliguei e tornei a olhar para a minha assistente que se mantinha parada do outro lado da minha mesa.
– Pelo amor de Deus Katia! Poderia se sentar ao menos não?! – Eu a recriminei, e ela apenas murmurou um baixo “desculpe”, me fazendo suspirar. – Isto é uma empresa de moda, não um quartel. – Eu esfreguei a têmpora com o dedão e o dedo indicador, e depois peguei no comprimido que ela havia depositado ali e o coloquei na boca, pegando no copo com a água e engolindo um pouco junto com o remédio. – Desmarque a reunião com o assessor de Frida Giannini.
– Tem certeza? Foi complicado arranjar uma hora na agenda deles Miss Mills. – Katia me alertou, apesar de eu ter notado certa insegurança em me contradizer. Eu sorri, aquela garota tinha futuro.
– Sim, tenho. Eles estavam se fazendo de difíceis. Sei bem que a Gucci vem fazer uma prova de uma criação para Charlize Theron esta semana, então eles estarão por cá. Remarque para amanhã e me dê o feedback.
– Com certeza Miss Mills. – Ela estava se preparando para sair quando eu tornei a falar.
– Regina. – Eu corrigi, mas ela não pareceu entender porque mostrou uma expressão confusa. – Você pode muito bem me chamar de Regina. Já trabalha comigo há muito tempo. – Tornei a sorrir. – E além do mais é da minha inteira confiança. – Ela sorriu de volta com o elogio e consideração. – Ou então dentro de pouco tempo me poderá chamar de Mrs. Swan. – Eu acrescentei de forma divertida, brincando.
– A propósito, parabéns pelo noivado Miss.. – Ela se corrigiu vendo a minha sobrancelha erguida. — …desculpe, Regina.
– Tudo bem, força do hábito não é? – Ela assentiu sorrindo. Eu pisquei para ela, amenizando a atmosfera, e fiz um sinal com a mão para ela sair. – Vá chega de papo. Vá fazer o que eu mandei e me traga os relatórios das vendas da última semana no Maine.
Ela assentiu com a cabeça e saiu. Com a sua habitual competência e rapidez tornou a entrar com aquilo que eu havia pedido, me entregando em mãos. Eu me levantei, colocando os relatórios na minha pasta de pele castanha que combinava com a roupa do dia, e me dirigi à porta, logo atrás de Katia.
– Se houver alguma urgência me ligue. Eu vou buscar o meu filho na escola. – Informei a ela, ao que ela tornou a assentir, e caminhei até aos elevadores. Não tive de esperar muito até a porta se abrir e eu entrar, apertando no número que dava para o piso subterrâneo onde estava estacionado o meu carro.
A escola de Henry ficava a poucos minutos de carro dali, então depressa cheguei ao local, parando o carro em frente aos portões do edifício escolar. Olhei a hora no painel à minha frente e vi que ainda faltavam 5 minutos para que ele saísse da aula, então aproveitei para responder a alguns e-mails importantes no ipad fixo ao lado do volante.
Estava tão inserida na resposta a um grande cliente representante da Chanel com vista a fechar com êxito a abertura deles para a comercialização on-line da marca que nem me dei conta do meu filho batendo com os nós dos dedos da mão no vidro do carro.
– Porque você sempre tranca o carro? – Ele logo perguntou assim que eu destranquei permitindo que ele entrasse e se sentasse no lugar ao meu lado.
– Uma ótima tarde também pra você mocinho. – Eu falei com ironia, voltando a olhar por breves segundos para o ipad apenas para enviar a resposta que eu havia terminado de escrever assim que ele chegara batendo no vidro. – E meu beijo?
Ele se aproximou do meu rosto estalando um beijo sonoro e …. Melado?
– Você andou comendo besteira de novo não foi? – Ergui minha sobrancelha, ao mesmo tempo que retirei um pacotinho de lenços com fragrância a hortelã do porta-luvas para limpar a bochecha. – Nem pense! – Eu repreendi assim que o vi se preparando para limpar a boca na manga do casaco. – Pega, limpa com isso. – Estendi para ele um lenço de papel.
– Eu não podia recusar aquela bala de caramelo né? – Ele jogou para mim, me provocando com aquele jeitinho tão característico de Emma.
– Claro que não. – Abanei a cabeça rindo. – Coloca o cinto depressa que eu vou ter de voar.
– Porquê? — Escutei ele perguntando.
– Porque tenho um jantar com um cliente importante. E você já está vendo como vai ser demorado pra chegar em casa agora nessa hora … — Fiz um gesto vago com a cabeça indicando o trânsito que se estendia à nossa frente. – E a escola, como foi? Você não tinha prova hoje de inglês?
– Sim … — Ele fez pouco caso. – Foi normal.
Como o trânsito estava ficando mais condicionado me permiti olhar para ele.
– Normal … sei. – Meu semblante era sério. – Sua mãe e eu já te dissemos o que te espera caso reprove na prova.
– Eu já sei mãe. – O vi cruzando os braços à frente da mochila pelo canto do olho. – Quer dizer que você não janta com a gente? – Ele escolheu mudar de assunto. Sim, esse era meu filho, muito espertinho.
– Não querido. – Respondi, deixando o assunto sobre a prova por isso mesmo, pelo menos por agora. – Mas eu vou tentar não chegar muito tarde pra ainda dar meu beijo de boa noite em você. – O vi esboçar uma careta, e apesar de não estar completamente de frente para ele, tenho a certeza que ele revirou os olhos. – Você ainda vai implorar pelo meu colo rapazinho! – Eu provoquei rindo, e ele apenas resmungou um rápido, baixo e irónico “sim sim”.
O resto da viagem decorreu mais lentamente do que eu esperava. Havia combinado no restaurante com Mr. Jonhson às 20 horas em ponto, mas tendo em conta que já eram 18h 50 e ainda estávamos parados no sinal vermelho a dois quarteirões de casa, eu tinha sérias dúvidas de conseguir cumprir o horário.
– Finalmente! – Suspirei, assim que parei frente à casa, aguardando os portões automáticos se abrirem. Esfreguei a testa, tentando dissolver aquela enxaqueca que só aumentava, sem sucesso, e desci com o carro para a garagem.
Henry logo saiu do carro, correndo até ao elevador, seguido por mim que apressava o passo atrás dele. Chegando ao piso superior, deixei que Henry sumisse em direção ao seu quarto e eu própria me enfiei no meu. Despi rapidamente as roupas que usava, e corri para o banheiro que tínhamos dentro do quarto para tomar um duche rápido.
Não gostava de me aprontar assim, sem escolher minuciosamente as peças de roupa que compunham o conjunto da minha indumentária, então nesses casos, optava pelo simples mas infalível vestido preto um pouco acima do joelho, mas discreto e elegante.
Coloquei uma maquiagem básica, agarrei na bolsa de pele no mesmo tom do vestido e saí do quarto.
– Hey! – Emma levantou os olhos do laptop quando me viu entrar na cozinha onde ela estava. – Nem te vi chegar …
– Foi uma correria querida, me desculpe. – Me aproximei dela, plantando um beijo breve nos seus lábios. – Henry já se enfiou no quarto, e é bem capaz dele estar novamente agarrado ao videogame.
– Deixa comigo, eu terei uma conversa séria com ele. – Ela disse, me afagando o braço despido. – Você não vai levar um casaco? – Vi ela me olhar de cima a baixo com uma cara não muito satisfeita.
– Não comece. – Eu ripostei, já sabendo onde aquilo iria parar e definitivamente eu não tinha tempo naquele momento para isso. – É um jantar de negócios, eu vou de carro e estará quente dentro do restaurante.
– Para você pode ser um jantar de negócios, mas eu sei muito bem o negócio que os caras lá estão pensando cada vez que veem suas pernas nesses vestidos de grife. – E lá começava ela com aqueles ciúmes idiotas e sem sentido.
– Emma eu estou atrasada. – Eu continuei sem dar importância para aqueles disparates. – Você vai ficar trabalhando? – Eu deduzi, apontando para o laptop ligado em cima da mesa.
– Por pouco tempo. – Ela me respondeu finalmente abandonando o assunto dos vestidos e toda aquela desconfiança estúpida. – Estou apenas esperando que esse cliente me diga onde encontrá-lo amanhã para me dar mais pormenores sobre a mulher golpista dele.
– Tudo bem. – Assenti, me aproximando de novo mais do seu rosto, beijando-lhe a face esquerda. – Não esquece de mandar Henry tomar banho se não é capaz dele nem tomar com a cegueira do jogo. Bom jantar pra vocês. – Me afastei para ir embora, mas ela me puxou rápido pelo braço.
– E a sobremesa? – Ela perguntou com um sorriso que eu reconhecia muito bem ao que se referia.
– A sobremesa … — Eu prendi o lábio com os dentes, reprimindo um sorriso maroto. — … eu trago pra você depois. – E pisquei o olho para ela, me virando para sair, mas não sem antes sentir a mão dela dando um aperto na minha bunda.
– Assenta bem em você. – Ela falou, me fazendo olhar para ela pelo ombro sem virar o corpo esperando um esclarecimento. — … o vestido. – Ela completou, dissimulando o sorriso safado que eu já conhecia muito bem.
Soltei uma gargalhada curta e virei o rosto completamente, correndo para pegar o carro na garagem.
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