Eu
1 Eu dei tantos sinais.
Notas iniciais
Ela vai voltar.
Os raios de sol batem contra o vidro da janela enquanto as gotas de chuva tilintam no ferro das escadas de incêndio. Eu olho para fora, um sentimento estranho enchendo no peito, como se eu estivesse preso dentro daquele apartamento desejando fugir e experienciar o mundo lá fora, independente da condição do tempo. Eu não estou preso, mas já são 8 da noite, segundo o relógio ao lado do sofá, e eu continuo ali, sentado, desde que ela saiu. Como eu poderia sair? Ela ainda está lá fora.
Ela vai Voltar.
Eu bebo mais um gole da garrafa. As chaves batem contra a porta, o barulho machuca o ouvido, quase como que para avisar que algo chega, e nos milissegundos que antecedem a estrada dela, eu tomo meu gole final do whiskey puro, que já está quente demais para meu gosto. Amargo. Meus olhos então se direcionam para a entrada do apartamento, e ela aparece.
Ela vai voltar
Ela usa uma calça preta, um all star branco, e um moletom cinza, com diversos escritos por todo ele. Um desses escritos fui eu que fiz. Seu cabelo está uma bagunça, provavelmente devido à chuva que continua a cair. Seus lábios em um tom de vermelho que eu sei que só aparecem quando ela arranca a pele e fica mordendo-os. Um habito de nervosismo que ela sempre teve. Seus olhos mostram um tom escarlate que só existe quando ela chora. O cheiro de baunilha que toma o ambiente chega a ser inebriante.
— Eu preciso de um banho — A voz dela é como mel, seus olhos finalmente caem sob mim, e mundo então voltar a girar. Sinto minha pele arrepiar, e suspirando alto, sentindo o ar finalmente voltar aos meus pulmões, eu sinto. Voltei a existir com ela.
— Então vem comigo, meu bem — Minha voz sai arrastada, devido a propria falta de uso das últimas horas, e eu finalmente me levanto. Ela está a poucos passos de mim, mas cada centímetro que eu diminuo entre nós é como mais uma navalha fincando na minha pele. Minhas pernas formigam e incomodam cada vez mais, a cada novo passo que eu sou em direção a ela. É apenas nos momentos finais, que ela corre para mim. Seu abraço é como o remédio que eu me recusava a tomar, tão forte como se o mundo pudesse acabar naquele instante, e ela morreria me abraçando. Talvez o mundo acabe. Ela voltou para casa. — Como foi seu dia?
— Eu voltei a escrever — É tudo que ela fala enquanto leva sua mão próxima da minha, apertando-a com seus dedos delicados e frios. Eu a levo em direção ao banheiro.
O ambiente é gelado, meus pés reclamam contra o azulejo frio, minha mão, aquela que não segura ela, se apoia na parede, minhas pernas ainda formigando. O mundo ainda está turvo, mas mesmo assim, eu ainda me abaixo, e com um movimento rápido, abro a torneira, começando a ver a agua quente descer a torneira e encher a banheira de mármore. O vapor começa a subir pelo ambiente, e esquentar meu corpo.
Ela vai voltar.
Ela tem um ritual. Eu me lembro do cheiro forte da baunilha do chá nos dias cansativos, então eu a ajudo a se abaixar ao lado da banheira, e a deixo sentada enquanto caminho em direção a cozinha. Caminhando, olho para trás, olho para ela, as mangas do moletom arregaçadas, uma das mãos já dentro da agua, e a cabeça contra o mármore da banheira. Seus olhos fechados e o baixo som da musica que ela murmura me lembram paz. Ela é o meu desastre.
Ela vai voltar.
A cozinha, a poucos passos do banheiro, já está mais fria que o ambiente anterior. Pequena, reconfortante, foi ela que decorou, em seus tons azuis e cinzas, a cozinha me lembra o céu em um dia chuvoso. Um dia como hoje. Eu me abaixo, pego a pequena chaleira de metal, encho-a de água, e ligo o fogão. A chama é azul, como ela. Eu deixo a chaleira ali, e me afasto. O tempo só parece passar quando eu escuto o chiado agudo me dizendo que a água está pronta. Eu então, separo a xícara, e o chá. Rooibos, com baunilha e caramelo. Doce. Eu ainda adiciono 2 gotas de adoçante antes de colocar a água. O metal ardente queimando meus dedos enquanto a despejo na xícara branca. E separo meu cafe. Preto. Sem açúcar.
Ela vai voltar.
No momento em que eu coloco o café na minha boca, sentindo o calor passar pela minha garganta, o cheiro de morango toma conta do apartamento inteiro. Olho em direção a ela. A porta do banheiro ainda aberta, ela agora dentro da banheira, um dos braços apoiado no topo, a cabeça encostada em sua mão, os olhos fechados. O sabão, dono do cheiro que me invadiu os pulmões, está logo ao lado da banheira, onde antes ela se encontrava. A espuma cobre toda a parte superior da água. Ela parece estar dormindo, a respiracão lenta e tão ritmada que meu coração começa a bater em conjunto a ela.
Ela vai voltar.
Eu então caminho, ando em direção a ela, mais uma vez.Seu caderno vermelho está encima da pia. Sua caneta caiu no chão, suas palavras se derramando por entre as paginas. Então você o abre, e sentando no chão, lê o que ela escreveu.
“Você sente a água se mover sob seus pés, fazendo cócegas e medida que a maré sobe e desce com as ondas. As gotas são como as mãos que nunca te seguraram, o carinho das ondas contra sua pele te fazem sorrir. Te aquece o coração. Você caminha lentamente, sentindo cada gota de água se grudar em sua pele na medida que a profundidade aumenta. Na medida que você se deixa ir mais e mais fundo. Você sempre foi fundo demais. Na medida em que seu corpo toma conta de tudo que você é. A Água sobe pela sua alma, e te causa arrepios incontroláveis. Cada parte de sua existência está em alerta. Aquele lugar é assustador. E você se vê apaixonada por ele.
Você sente a água em volta de seu corpo, envolvendo-o com um abraço terno e frio. Te protegendo de qualquer coisa que não pertencesse a aquele lugar. As brigas, os gritos, a dor. Você sente a fina camada daquele líquido contornar todo seu corpo como em um desenho translúcido. Te fazendo sentir tudo aquilo que você sempre mereceu, mas nunca pode ter. Aquilo que nunca te ofereceram. Ele deveria ter te adorado. Te venerado. Ele deveria ter te amado como nunca te amou. Como ninguém nunca amou.
Você sente a água salgar seus olhos. Seu bem mais precioso, a visão que te permitia viver mais de um mundo. Você sente ela se esvaindo, a dor fascinante te impedindo de ver qualquer existência de futuro. Ele nunca te leu. Seus textos, manchados de lagrimas, nunca foram decifrados. E você vai morrer, e eles se esvairão com o tempo. Pela primeira vez, sem ver nada, você se sente vista.
Você sente a água lhe invadir os pulmões. Ela te protege e te mata. Lentamente. Tudo dentro de ti arde em uma dor lancinante. Confortavelmente lancinante. A dor já é uma antiga amiga sua, a falta de ar já era uma constante nas noites em claro. Ele nunca esteve lá. Sempre sozinha. Você morre sozinha.
Doce e salgado. Agridoce. Amar ele sempre foi agridoce. Um de seus pulmões é preenchido pelo rio de sua vida, passando direto por suas células, isso dilui seu sangue. A insuficiência é dolorosa. São 3 minutos de agonia intensa e rápida. Você desmaia antes de morrer.
Você é preenchida pelo oceano de seus pensamentos. Você sente seu corpo se fechar contra o sal nocivo daquele lugar. Sente seu sangue fazer pressão contra sua pele, seu coração bate mais forte, mais rápido. O sangue é mais espesso. A dor é lenta. Morte é tortura. Ama-lo foi tortura.
Você achava que seria diferente. Que se agarraria ao ultimo fio desesperador de vida que encontrasse. Que se debateria contra a escuridão. Que continuaria tentando alcançar cada pedaço do céu acima de ti. Mas a ida é suave. Sutil. Machucada mas acreditando que no fim tudo ficaria bem. Se ela não acreditar, quem vai? Se ela não lutar por esse amor, quem vai?"
Eu olho para frente. A porta trancada. As gotas de chuva batendo contra a janela. A banheira vazia. O cheiro de cafe queimado. A garrafa de whisky já vazia jogada no chão. O caderno vermelho dela em minhas mãos, as lagrimas já secas na página, e eu ainda espero ela voltar.
Ela vai voltar.
Ela me deixou em um dia comum. Estava chovendo. Ela me amava demais. Eu não podia suportar.
Ela vai voltar.
É a mentira que eu conto todo dia para meu coração.
Ela nunca vai voltar.
Notas finais
Não sei, eu gosto de pensar na vida como sendo mais romântica do que ela realmente é.
Ah, e essa história faz parte de uma trilogia que eu escrevi.
Eu comecei escrevendo "Ele", sobre uma garota que tinha um amigo imaginário, que ela se encontrava com ele todo dia, e um dia ela percebeu que essa pessoa que era tao reconfortante para ela era a própria morte, que um dia chegou para busca-la.
Meses depois eu escrevi "Você", uma carta dolorosa endereçada a própria solidão, esse sentimento que quando chega em você, parece que nunca mais vai te abandonar.
A algumas semanas eu tive a ideia de "Eu", uma história sobre a dor. O sentimento agridoce de deixar alguém ir, de não ser suficiente para o amor que você recebe.
Eu nunca planejei que isso fosse uma trilogia, mas na medida que eu escrevia "Você", eu percebi o quanto fazia sentido cada um desses sentimentos serem relacionados com esses pronomes. A morte é sempre um alguém, nunca querendo que chegue até você. A solidão é você, aquela para quem você escreve uma carta com raiva. E a dor é totalmente e incomparavelmente minha, sou Eu.
Enfim, espero que gostem de "Eu" :)
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