Notas iniciais
"Não existirá dor eterna, talvez a saudade e o amor"

O Sr. Carlos, o faz tudo da ilha, consertou a energia elétrica só hoje pela manhã, só agora posso usar o telefone, mas para onde eu vou ligar?

Eu cheguei pensar que o pesadelo acabaria logo, mas eu estava errado. Liguei para a polícia e os desgraçados me prenderam por suspeita de ter assassinado minha ex-namorada, logo eu que daria a própria vida para a Cristina ter uma segunda chance.

Fiquei 48 horas numa cela com assassinos, estupradores e pedófilos por negligencia e precipitação da justiça. Alguns dizem que só “foram 48 horas”, mas para um inocente, 48 horas numa cela com animais irracionais é uma ofensa. Meu agente e melhor amigo, Nicolau Ambrósio, também duvidou de mim, por isso esse ano eu passo a escrever para uma nova editora, um editora nova, com profissionais recém formados, mas com uma proposta revolucionária.

Meu novo agente e amigo, Tigo Arper, me prometeu o primeiro lugar na lista dos mais vendidos no mundo, eu acredito no trabalho dele, mas ainda mais no meu. Por isso estou voltando para casa, para minha pequena e paradisíaca ilha. Estou indo terminar minha história de amor.

Tudo está como deixei, quer dizer, é claro que a polícia andou por aqui, mas ainda é familiar. Algumas coisas estão fora do lugar, mas aos poucos eu vou ajeitando. Minha vida está fora do lugar, mas aos poucos eu vou ajeitando.

Talvez eu ligue para Tereza, uma senhora de 52 anos que sobrevivi de bicos de doméstica nas poucas casas da ilha, preciso de ajuda na limpeza do chalé, meu quarto ainda tem a mancha de sangue no assoalho.

Queria deitar minha cabeça no travesseiro e esquecer o que aconteceu, mas o fardo dos últimos acontecimentos está enraizado nos meus pensamentos, só consigo ficar sentado aqui no beiral da cama olhando alternadamente para as mobílias do quarto, totalmente inerte. Ficaria neste coma por horas, até mesmo dias se não fosse pelo objeto que chamou minha atenção.

Dentro da gaveta do criado-mudo eu encontrei centenas de folhas com o meu romance impresso, 125 páginas de conteúdo inacabado, mas algo que não era meu estava escrito à lápis no verso da última página.

“Alan!”

“Certa noite quando o frio me consumia, você, gentilmente e amorosamente me abraçou, com ou sem vontade você ficou até a minha mente cair no inconsciente, mas em um turbulento pesadelo eu despertei e você não estava mais comigo”.

“Entregue a insônia estimulada por pura cafeína, você passou a madrugada digitando incontrolavelmente no seu computador. Você parecia feliz, por isso preferi ficar inquietante na cama até a alvorada chegar do que te tirar do seu isolamento”

“Cansada de mais para continuar na cama, levantei e fui novamente procurar você. Você não estava mais onde eu havia deixando, mas o motivo de sua insônia estava lá com o cursor piscando... Só esperando as próximas palavras.

“Cristina disse uma vez... Esse era o título do seu novo romance. Desculpe Alan, mas não pude conter a curiosidade, tirei uma cópia para mim e comecei a ler escondida no telhado enquanto você estava distraído com suas tarefas... Você ia ficar chateado se soubesse que eu estava lendo antes de você terminar... Pois é Alan... Era isso que eu estava fazendo em cima da casa.

“Sabe? Eu estou com medo. Eu queria ter uma esperança, mínima que fosse, mas uma esperança. Se eu tivesse uma chance voltaria para a clínica e passaria anos se preciso fosse, fazendo o dolorido tratamento de quimioterapia, porque curada, eu poderia viver esse lindo amor que você escreveu pra nós, mas infelizmente o eterno será só no livro”.

Amor. Sinto que me hora chegou, mas deixe a porta aberta...

Cristina

Quando estava no velório, um dia depois de sair da cadeia, sem querer, encontrei o médico que tratou do caso da Cristina, o Dr. Tadeu Mazonni, ele parecia gostar muito dela, pois por qual motivo ele iria no seu enterro? Eu nem sei se isso é ético, mas que diferença isso faz agora?

O homem de meia idade sabia da minha existência e o grau do vínculo que eu e Cristina tínhamos. Não sei como meu sofrimento mexeu com ele, mas do jeito dele, tentou me confortar. Ele disse:

– Fiz tudo que eu podia, mas Cristina não tinha nenhum parente nem um doador de medula compatível; a fila de espera é gigantesca e como ela estava internada em um hospital particular e ninguém estava mais pagando suas despesas... Ela foi convidada a se retirar e tentar um tratamento público. A realidade nos leitos públicos é bem diferente. Certo dia ela me ligou e perguntou quanto tempo ainda tinha de vida... Cristina precisava de um transplante urgente, os tratamentos não estavam sendo mais suficientes... Então eu não menti, disse uma ou duas semanas no máximo... Ela ficou alguns segundos sem falar; percebi que chorava, mas logo recuperou o fôlego e disse. “É só o que eu preciso saber”. Depois desligou o telefone.

Mais tarde fiquei sabendo por alto que o Dr. Mazonni, também tentou doar sua medula para Cristina.

Estive pensando em um final para meu romance, eu já sei. Não existe um lugar melhor onde a Cristina queira estar que não seja aqui, comigo, nesta ilha, o paraíso que ela escolheu morrer e agora... Viver Eternamente.

Alguém está batendo na porta!

– Entre! A porta está aberta! – Disse.

Eu já estava sentindo seu perfume adocicado, só uma pessoa tinha esse perfume, só uma pessoa tinha aqueles olhos castanhos lindos...

– Como seus cabelos cresceram, estão muito bonitos... E esse sorriso? Eu amo esse sorriso. Por que demorou tanto? Fiquei te esperando! Está com fome? O que quer comer? Talvez eu esteja fazendo muitas perguntas...

– Tudo bem! Não precisa responder Cristina, mas vem aqui, senta do meu lado, temos muitas histórias pra contar.

FIM.

Notas finais
Esse é o primeiro conto de Alan Mendes. Esse personagem é muito importante pra mim, espero que tenha sensibilizado vocês também. Obrigado por acompanhar e até o próximo encontro. Abraços. Thiago Araújo Pereira
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!