Eternizar: Um conto de Alan Mendes
4 Parte 4
Notas iniciais
Apesar do frio, não havia nuvens de chuva, o sol das dez horas radiava nossa pele pálida.
Cristina e eu estávamos empolgados como o passeio, entretanto ela não parecia estar a vontade já que estava dependente da cadeira de rodas. Decidi leva-la para conhecer a cachoeira primeiro. Havia um caminho mais rápido, mas a trilha era estreita com muitos obstáculos, nas condições que estávamos não seria possível ir por esse caminho, por isso fomos pela trilha tradicional que todos os turistas usavam para ir ao interior da floresta.
Os olhos dela brilhavam ao ver a cristalina água da cachoeira. Sentamos numa rocha e deixamos nossos pés submersos na gelada água, conversamos sobre muitos assuntos e depois ela deitou a cabeça na minha perna – Naquele momento pensei que ficaríamos quietos, meditando somente com o som da natureza, mas... – Cristina continuou com a cabeça deitada em mim, mas começou a questionar alguns tópicos dos meus principais livros publicados, a conversa rendeu por horas, até que ela mudou de assunto.
– Durante esses dois anos você não conheceu ninguém? – Perguntou ela.
– Conheci muitas pessoas!
– Você entendeu!
Fiquei pensando na pergunta. Conheci algumas mulheres, mas nada que durasse mais de uma noite. A maioria eram fãs que me prestigiavam nos lançamentos dos meus livros, no fim eu convidava a que fosse mais agradável para um jantar e se estivéssemos afim, dormíamos juntos. Eu estava passando por uma fase de carência, por isso aceitava a companhia, era interessante, não havia dinheiro relacionado com esses encontros, simplesmente, de ambas as partes, a vontade de estar com alguém.
– Não que me prendesse – Respondi.
– Sério? Pensei que você fosse do tipo que se apaixonava fácil.
– E sou, por uma mulher só... E eu já estava apaixonado.
Cristina levantou a cabeça para olhar nos meu olhos.
– Uau! Eu conheço?
– Talvez não mais, confesso que eu mesmo tenho dificuldades para reconhecer.
– Mudou tanto assim?
– Demais.
– O que mudou?
– O que eu mais admirava. O otimismo.
Ela voltou a fitar a queda d'água, mas eu continuem.
– Ela simplesmente se entregou para câncer, sem ao menos pensar em como as pessoas que a amam vão ficar ou ao menos pensar em ter uma vida. É muito egoísmo.
É claro que ela já sabia de quem eu estava falando.
– Ainda não estou pronta para falar sobre isso.
– Por que é tão difícil falar sobre isso?
– Por que eu não quero pensar e nem lembrar disso, só quero viver, só isso.
– Tem certeza que está vivendo? Olha! O pior cego é aquele que não quer enxergar, você está mesmo feliz?
– Qualquer coisa é melhor do que aquela cama de hospital e a propósito, pessoas morrem todos dos dias, estou cansada, meu corpo não me aguenta mais, quero descansar.
– Cristina cadê sua força?
– O câncer tirou de mim.
Os olhos dela estavam molhados.
– Você não pode fazer isso comigo, não estou preparado para me despedir.
– Adorei este lugar é um bom lugar para morrer, mas se estou de angustiando posso embora, mas saiba que não irei para casa, meu apartamento cheira doença.
– E para onde você iria?
– Qualquer lugar que eu possa respirar a brisa do atlântico, correr em uma campina cheia de lírios, e comer um ótimo queijo caseiro com café e bolo de aipim... Estou cansada Alan, preciso que compreenda, quero estar em paz quando a morte me abraçar.
– Quer ir embora e me deixar a culpa de não ter feito nada para te salvar?
– Você já me salvou! Só de estar aqui comigo neste paraíso eu já me sinto digna.
Cristina entende uma das mãos para tocar meu rosto e enxugar a lágrima que sem querer deixei escorrer.
– Me ajude esquecer o que nos afligi e vamos resgatar dois anos que perdemos... Me abrace Alan!
Não hesitei. Prendi seu frágil corpo nos meus braços e ela enterrou a cabeça no meu peito e chorou. Me silenciei para que ela botasse toda tristeza para fora.
Naquele momento eu queria tornar os últimos dias da Cristina os mais felizes que ela já teve, mas não estava convicto se minha escolha de não interferir na decisão dela era uma boa ideia. Se eu não tivesse tanta esperança dela conseguir vencer a leucemia talvez seria mais fácil de aceitar a despedida.
Solto um pouco os braços dela para poder ver seu rosto, devagar ela me fita, havia gratidão nos seus olhos, não sei por que, pois a qualquer momento eu posso mudar de ideia e arrastar ela de volta para a cidade – Espero estar fazendo a coisa certa mantendo ela aqui – Apanho ela pelos braços e a carrego colina acima, havia um segundo lugar que eu queria lhe mostrar.
– Onde vamos?
– No meu segundo lugar favorito – Respondo.
– Suponho que a cachoeira seja o primeiro?
– Não! O primeiro lugar é meu humilde chalé, lá é meu refúgio, essa natureza toda é só um complemento.
– E o que é que tem de tão especial lá.
– Nada. É até simples demais. Talvez seja por isso que eu gosto tanto, é do jeito que eu sempre sonhei.
Ela estava sorrindo de novo.
– Chegamos! – Não estávamos no topo da montanha, mas o lugar que eu também gostava de estar era consideravelmente alto. Era possível ver a imensidão azul, a praia, o cais e até mesmo o meu chalé.
– Que lindo! Esse lugar é incrível.
– É mesmo!
– Eu fico pensando...– Começou ela.
– O quê?
– O chalé deve ser muito bom mesmo para você deixar esse lugar lindo em segundo colocado.
– É sim, mas é como eu disse, a natureza a aqui é complementar, com certeza só o chalé não seria o suficiente... Eu encontrei o lugar certo para me redescobrir, para me desconstruir e reconstruir de novo, mas não diferente e sim melhorado.
– Você está feliz? – Ela perguntou fitando o oceano.
– Acho que sim... Sim, estou! Agora não me falta mais nada.
Segurei a mão dela, mas ela não pareceu sentir, pois continuou a fitar o atlântico sem reagir.
– Talvez... – Começou ela – Se eu não tivesse te reencontrado nas redes sociais você teria conseguido me esquecer e hoje as coisas seriam diferentes.
– Talvez! Se o plano fosse te esquecer... Mas nunca foi, pelo contrário. O plano era lembrar, lembrar de cada detalhe em você, nas fotografias, nas canções, nas palavras e nas lembranças.
– Por quê?
Respirei fundo.
– Quando você terminou comigo inesperadamente... Senti que havia algum problema, mas você estava tão relutante que preferi deixá-la em paz, assim você podia colocar as ideias no lugar, pois eu acreditava que mais cedo ou mais tarde você voltaria pra mim. Contudo, dias, semanas e meses se passaram e onde você estava? Comecei a te procurar, fui no seu apartamento, mas acho que você já estava internada...
– Você me procurou?
– Procurei, mas ninguém sabia de você. Portanto eu me refugiei na ilha para pensar em outras coisas, foi aí que escrevi uma saga policial dividida em três livros que graças Deus foi um sucesso, mas você ainda estava no meu pensamento, nunca saiu.
Não havia mais vozes, apenas o som do vento indicando que uma tempestade estava por vir. Pela magnitude das nuvens escuras o temporal será hostil.
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