Eternizando Cobrade

1 Capítulo Único - Um ano após o "sim"


Ela está com os cabelos desgrenhados e uma camisa do marido, os pés descalços e o sorriso contagiante no rosto. Dança de acordo com a música e tenta se achar na receita que pediu ao Google. Ela olha para o relógio e torce para que alguma coisa atrase Cobra na academia, talvez o pai queira conversar, assim ela teria tempo de terminar o jantar de comemoração de um ano de casamento. Ela ainda não é muito familiarizada com as panelas, mas tenta por ele.
Jade pega os ingredientes que a receita manda, coloca a água para ferver. A mecha do cabelo desliza no rosto quando ela se abaixa para pegar o macarrão na parte de baixo do armário, ela coloca atrás da orelha e o cabelo desgrenhado era estranhamente maravilhoso, como Cobra sempre lhe dizia no café da manhã "Lindamente natural". Com o macarrão no fogo ela pode se concentrar no molho branco. Ela pega a garrafa de leite na geladeira e arrisca alguns passos de dança ao som de "garota cheia de charme", sim, ela tinha isso no pen drive, flashes passam na sua cabeça, os olhares com seu Vagabundo.

Cobra guarda as coisas na bolsa e consegue despistar Gael, ele gostava muito de conversar com o pai, mas queria chegar em casa, desde que casou era assim, não via a hora de chegar em casa, mas hoje tinha algo em especial. Um ano do "sim", ele era grato por isso.
Cobra joga a mala nos ombros e corre para o carro, ele havia trocado a moto pelo carro pouco depois do casamento, era mais seguro para ela, então ele vendeu sem pensar duas vezes, sua segurança era o que importava. O lutador profissional pega o celular e sorri com as mensagens nele, eram mais de vinte mensagens, mas duas eram da esposa, ele clica e eram áudio no whatsapp, mandados há vinte minutos.
"Vagabundo, não esquece de comprar um vinho", a voz era doce e dava para ouvir a música alta no fundo.
"Amoooor ta tocando a nossa música!" Ele se assusta com o grito e imagina ela dançando pela casa, então liga o carro e corre para a adega.
Pega o melhor vinho que o rapaz lhe recomenda, olha para o lado e avista uma floricultura do outro lado da rua. Rosas, era disso que precisava. Cobra atravessa e espera a senhora montar um buquê, olha no relógio e é quase oito, as mãos estão suadas, ele estava esperando já três semanas para lhe dar a surpresa e o fato de estar tão próximo do momento o apavora.

Jade tenta acelerar, mas ainda estava com a camisa do esposo e o cabelo bagunçado, nenhum tipo de maquiagem e ainda sim ele se apaixonaria mil vezes por ela. Está quase tudo pronto, ela monta a mesa com tudo que tem direito, escolhe as taças que usaram no casamento, havia os nomes gravados nelas, Jade acende as velas e termina de ajeitar as coisas, olha ao redor e tudo parece perfeito, ela ia começar a se arrumar, mas se conhecesse bem o marido, ele a amaria daquele jeito, então só para confirmar ela grava "Natural ou produzida?", ele recebe a mensagem e a resposta é instantânea "Natural, de preferência com a minha camisa", ela sorri por o conhecer tanto. Mas ela corre para o closet e escolhe o vestido que havia comprado, era óbvio que ela não ficaria daquele jeito. Ela toma um banho rápido, mal sai e já liga o secador, tenta ir colocando a meia fina e se equilibra para pegar o sapato que estava no alto da prateleira. O cabelo estava seco, então ela prende para poder se maquiar, ela abusa nos olhos pretos e apaga a boca, apenas a contorna e passa um vermelho mais cor de boca, ficaria bom para contrastar com o vestido vermelho justo e propositadamente provocante. Ela solta o cabelo e modela um pouco ele, olha no celular e já são oito e vinte e três, ele chegaria a qualquer momento.

Os segundos no elevador eram assustadores, ele segura firme as flores e o vinho, e claro, o envelope. Ele olha para cima e respira fundo, sacode o envelope e sorri constantemente por já imaginar o que ele causaria. As portas se abrem no andar cinco e Cobra custa a sair do elevador, ele caminha lentamente e para em sua porta e segura tudo com uma mão só para poder pegar as chaves no bolso.

– Feliz um ano, meu Vagabundo — Jade abre a porta antes dele girar a chave.
– Feliz primeiro ano, minha Dama — ele entrega as flores, a puxa pela cintura e a beija e os dois caminham para dentro.
– Gostou? — ela dá uma voltinha.
– Por que eu não consigo ficar bravo por ter me feito de bobo com o "natural"?
– Porque eu estou maravilhosa — ela dá mais uma volta — E fiz um jantar maravilhoso para nós dois.
– Você é maravilhosa — ele a aproxima e morde o lábio inferior dela.
– Hum, sorte a sua — ela sorri sarcástica.
– Depois do presente, você vai ser a sortuda.
– Presente?! — ela se anima.
– Sim, mas só depois do jantar.
– Não amor, não faça isso — ela o provoca beijando o pescoço dele.
– Não, não Dama, não me provoque porque não vai adiantar.
– Eu te conheço — ela continua com os beijos.
– Jantar, agora — ele fala com a voz mansa e se afasta rapidamente dela.
– É o jeito, né?

Ela o pega pela mão e leva para a sala de jantar, o cheiro estava maravilhoso, a música de fundo e tudo cuidadosamente preparado por ela. Cobra lhe dá um selinho apertado quando vê tudo, era tudo muito louco para ele, fazia um ano que eles estavam vivendo o tal do "sonho".

– Isso deve ter dado muito trabalho, não é? — ele beija as costas nuas dela.
– Deu sim, mas valeu a pena.
– Hoje é sua folga, devia ter descansado, amanhã você tem plantão.
– Não tenho, consegui que Paula trocasse comigo.
– Hum ... — ele sussurra no ouvido dela.
– Vamos jantar, não quero que esfrie.
– Vamos sim, mal posso esperar para experimentar, o cheiro está ótimo.
– É bom mesmo que goste e, caso não goste, elogie do mesmo jeito.

Eles riem e se sentam, nesta noite é Cobra quem serve Jade, ela não recusa, ainda estava cansada da noite passada por causa do plantão e ainda tinha acordado cedo para poder preparar tudo. Ele também serve o vinho para os dois, o rapaz opta por deixar o envelope ao lado do vinho, Jade imediatamente segue o envelope com o olhar e Cobra sorri para ela. O olhar de "mais tarde" dele, fez com que o estômago da esposa recebesse borboletas.
Ela tilinta a sua taça na dele e depois bebe um gole do vinho, parecia delicioso, a julgar que ela fechou os olhos ao engolir. Cobra coloca a primeira garfada na boca e os olhos também se fecham.

– Está delicioso — ele saboreia — Bem melhor que o meu miojo, lembra?
– Claro que sim — ela sorri com a lembrança — Não trocaria aquele miojo por nada — ela acaricia a orelha dele.
– Eu amo você — ele sorri, pois as palavras, agora, saiam com facilidade.
– Eu te amo cada dia mais.

Eles comem mais um pouco e conversam sobre o dia de cada um, coisas corriqueiras de casal, ele se interessa pela dança dela e ele conta como o treino foi pesado. Um silêncio acaba invadindo os dois, um silêncio cheio de falas, ele a observava e ela sorria.
– Até hoje não entendo porque me escolheu — ele beija a mão dela e quebra o silêncio.
– Como não?
– Ah minha Dama, viu? Só o "dama" já explica a minha dúvida, você sempre foi maravilhosa.
– Você também.
– Não, eu aprendi com você a mudar.
– Lindo — ela se derrete — E você acha que não me ensinou?
– Posso ter ensinado a dançar — ele sorri e se levanta.
– Isso é um pedido? — ela olha para a mão dele estendida.
– Dança comigo?
– Todos os dias — ela segura a mão dele e Cobra aumenta a música.
– Se nem a dança eu te ensinei... Eu ainda não entendo — ele sorri e a aproxima.
– Você me salvou, Vagabundo — ela coloca uma mão na nuca dele.
– Não foi bem assim, foi você quem me salvou — ele rodopia ela e a puxa de volta.
– Eu era doente — o corpo dela estremasse e ele a segura mais forte contra seu corpo.
– Não precisamos lembrar.
– Isso é uma boa lembrança, acredite — ela beija o pescoço dele — Não sei explicar, mas amando você eu acabei me amando.
– Estranho seria se eu não te amasse — ele continua em passos calmos.
– Todas as vezes que você me olhava, eu me sentia mais forte, mais bonita... — ela beija o pescoço dele de novo.
– Você é maravilhosa, só precisava do espelho certo.
– E seus olhos foram ele, o meu espelho... Como é aquela frase?
– Qual?
– Acho que é "meu valor está nos olhos do meu amado".
– Só o primeiro, de uma vida toda.

Ele beija a lágrima dela, o sorriso de Jade aparece com o toque dos lábios do esposo. Era uma lágrima de felicidade, ninguém conhecia o lado escuro dela, até Cobra chegar e mostrar que ele não precisava existir. Ela então desenha o rosto dele com os dedos, como sempre fez, gostava de sentir as linhas de expressão, gostava de saber que era real e era seu e ela podia fazer isso quantas vezes quisesse. Cobra então a pega no colo e imita o dia de seu casamento, ele a leva para o quarto, ainda de acordo com a música.
Ele a coloca na cama e eles se olham, os olhos deles também estavam marejados, o toque dos dedos dela em seu rosto era reconfortante, o sorriso largo dela era a imagem favorita dele. Então ele a beija, aquele beijo de um ano, aquele do primeiro beijo no QG, aquele beijo depois de a ver arrancando cabelo, o beijo depois do pequeno acidente de moto, o beijo do hospital, o beijo depois da luta, o beijo na mata, o beijo de desespero quando ele acordou no hospital, o beijo do pedido de casamento, o do casamento... O beijo após o aborto espontâneo, ele tinha a encontrado sentada no chão do banheiro, nua, os olhos vermelhos e não conseguia falar. O corpo dela treme com a lembrança. Eles haviam suportado tudo.
Ele desliza o zíper lateral do vestido, ela se arrepia, mas não para o beijo. O vestido já não existia mais, parecia tudo tão novo, ele sente os dedos dela deslizarem em sua pele enquanto ela tira sua camiseta, o toque que fazia qualquer coisa que estivesse em sua mente se apagar. Não lembravam mais do macarrão no prato, muito menos do vinho nas taças, os corações sintonizados.

Jade: Eu nasci para ser dele, nasci para me sentir assim protegida por ele. Eu o amei antes de mim, mas o amor era tanto que se tornou meu.
Cobra: Vou me perguntar por mil anos o motivo de eu tê-la, talvez uma as respostas seja porque eu não exista um "eu" sem ela. Ah como eu a amo.

Narrado por Cobra

A luz fraca de manhã passou por uma fresta da cortina, estava frio, então não era um raio de Sol, embora agora iluminava parcialmente a minha estrela. Ela estava com o cabelo desgrenhado, tinha vestígios do batom na boca, assim como eu também tinha [ele sorri com a lembrança], estava com a minha camiseta, estava linda. Coloquei uma mecha do cabelo dela para trás e beijei seu olho que ainda estava fechado, queria que acordasse logo. Ela se mexe um pouco e abre os olhos e sorri, eu beijo os lábios dela.

– Minha esposa sabor manhã, que delicia.
– Você ama essa frase, né?
– Eu amo é você — a beijo de novo.
– Por que tão cedo? — ela olha para o relógio ao lado da cama.
– Porque precisamos nos apressar, precisamos ir em um lugar.
– Não tem nenhum outro lugar que eu queira estar a não ser aqui — ela rola na cama e me abraça fechando os olhos.
– Que tal Paris? — eu entrego o envelope para ela.
– Paris seria maravilhoso — ela abre o envelope sem ainda perceber e esfregando os olhos.
– Então faça as malas.
– São para hoje — ela sussurra incrédula enquanto olha as passagens.
– Então precisamos nos apressar.