Eternity
3 Bittersweet Symphony
Notas iniciais
“A gente não vai sobreviver... A gente não vai sobreviver...”
Semanas se passaram e a situação saiu completamente do controle das autoridades. As transmissões da televisão eram cada vez mais escassas e o pânico era generalizado. A esperança desaparecia a cada dia, e a insanidade de Ethan era cada vez mais difícil de ser controlada.
Lá estava ele, novamente, chorando com a cabeça sobre o colo de Carol, que o afagava, acalmando-o.
A comida estava, como previsto por ele, acabando e a água havia sido cortada. Ainda possuíam energia elétrica, mas não se sabia por mais quanto tempo. Os carros de resgate nunca chegaram ao centro da cidade, onde moravam, e o pânico nas ruas era cada vez maior. Quem possuía carros ou vans já havia ido embora dali, em busca dos campos de refugiados, de forma que eram pouquíssimos os veículos na rua, que agora acumulava lixo, papeis voando e o mais silencioso deserto. Da janela do quarto de Sophia, pouquíssimo dos arredores do prédio era visível, o que aumentava ainda mais o pânico do menino.
— Ethan – Carol disse, fazendo-o erguer seu encharcado olhar – Olha para mim, meu amor – ela acariciava o rosto dele – Eu sei que você está com medo. Também estamos. E eu me arrependo todos os dias de não ter te dado ouvidos antes. Sabe-se lá onde nós estaríamos se eu tivesse, então me perdoa. Por favor?
Ele juntou o restinho de forças que lhe sobravam e se levantou, sentando-se sobre o sofá. Fungando um pouco, ele secou as lágrimas.
— É claro que eu perdoo, meu amor. Você não precisava nem ter pedido. Não é culpa sua. Aqui pelo menos temos o conforto do lar, um pouco de água e comida, energia, abrigo. Estamos bem, de certa forma – ele tentou sorrir, mas acabou afundando o rosto nas mãos em seguida – Vamos ficar bem – ele disse, contra as palmas de suas mãos, o que dificultou um pouco a compreensão da frase.
Carol o abraçou, naquela posição mesmo, o que o impediu de abraçá-la, pois suas mãos ainda cobriam seu rosto.
Após uns instantes, Ethan respirou fundo e criou coragem para se erguer do sofá e estufar o peito. O fato de não haver água ou papel higiênico em abundância para secar suas lágrimas, limpar seu nariz ou lavar seu rosto tornaram levemente mais árdua a tarefa de se esquivar daquele sentimento de fraqueza. A família não vinha comendo bem, pois precisavam fazer as provisões durarem.
Ethan caminhou pela casa lentamente, admirando-a. Desejava poder ter tido mais tempo com a namorada e a filha antes de tudo isso. Ele odiava sentir-se preso e aquele confinamento de segurança era, de fato, desesperador. Especialmente porque não se sabia se as autoridades efetivamente ajudariam a população, ou se haveria alguma esperança de futuro para eles. Tudo lhe dava muito medo.
O rapaz se aproximou de sua família, sentando-se sobre a mesa de centro, frente a elas, e conseguiu sorrir por um instante, encarando o fundo dos olhos de cada uma demoradamente.
— Olha só para vocês – ele disse, sorrindo e secando suas últimas lágrimas – Cuidando de mim esse tempo todo... São tão fortes. Eu as amo muito, ok? Obrigado por tudo.
Vê-lo conseguir dizer aquelas palavras encheu as duas de alegria momentaneamente. Ethan passara tantas semanas sendo incapaz de pronunciar uma frase racional sequer e comportando-se de maneiras tão estranhas... Aquele era o primeiro momento em muito tempo que ele conseguia, de fato, se acalmar.
— Te amo, papai – Sophia apressou-se em enterrar o rosto na camiseta do pai, abraçando-o forte, deixando-se chorar de alegria, afinal.
Carol não demorou a se juntar àquele abraço. Logo, lágrimas rolavam pelas bochechas dos três e, pela primeira vez em séculos, não eram lágrimas de medo. A esperança preenchia aqueles três corações, que se permitiram sentir corajosos.
— Amo vocês, família – Ethan disse, beijando a testa de cada uma.
— / — / -
— Pois bem, este é nosso plano – o garoto debruçou sobre a mesa de centro da sala uma folha de papel rabiscada às pressas.
Ele apontou as ruas da cidade com o dedo indicador, exibindo o plano de fuga que havia arquitetado na primeira manhã em que se sentira inteiramente são. Os três sairiam do centro da cidade e encontrariam carona perto da estrada. Uma hora depois, o trio já sabia de cor e salteado toda a estratégia, e estariam prontos para partir pela manhã.
Os três pegaram os suprimentos que restavam e os colocaram nas malas de roupa que Ethan preparara semanas antes, tirando delas algumas peças para aliviar o peso, afinal, não se sabia quanto eles precisariam caminhar até encontrar ajuda.
A família revirou o loft em busca de utensílios, como lanternas, sacolas, canivetes e alicates – qualquer coisa que lhes parecesse útil – e checaram cada uma das malas infinitas vezes.
— Carol, me ajuda aqui um minutinho? – Ethan chamou, no banheiro, ao fim da tarde.
— Claro, amor! – ela respondeu, deixando Sophia arrumando sua mala sozinha no quarto – Diga – a mulher disse, adentrando o cômodo.
Seu parceiro estava apoiado na pia, sorrindo à toa. Ela não o via sorrir daquela forma havia tanto tempo que aquilo até a pegou de surpresa. Ele estendeu a mão para ela, chamando-a para mais perto, e isso a fez compreender a situação. Um pequeno sorriso gracioso surgiu no rosto da mulher, que fechou a porta atrás de si e pegou a mão do parceiro, caminhando para junto dele.
— Eu te amo, linda – ele disse, descansando suas mãos ao redor da cintura dela.
Ela pôs os braços sobre os ombros dele, suas mãos se encontrando atrás da nuca dele e, por um instante, o casal conseguiu se esquecer de tudo o que os rodeava, de toda a realidade horrível que os aterrorizava, e até mesmo de onde estavam. Transportados para outra dimensão onde eles eram os únicos universos, constelações e planetas que existiam, eles sorriam como crianças, desejando-se como adolescentes, amando um ao outro como idosos que passaram a vida inteira juntos.
— Eu te amo, príncipe – ela sorriu de lado e o beijou apaixonadamente.
Durante uma infinidade de incontáveis segundos, os dois riram, sorriram, trocaram carícias, beijos e toques como se não houvesse amanhã.
— Você é a melhor coisa que me aconteceu na vida, Carol – Ethan sorriu uma última vez, olhando fundo nos olhos dela, antes que eles precisassem soltar um ao outro.
— Eu não sei o que seria de mim sem você, meu amor – ela o abraçou forte, de olhos fechados, suspirando profundamente contra o peito dele.
De mãos dadas, os dois saíram do banheiro, indo encontrar Sophia no quarto. A menina checava seus pertences de novo e de novo, até que o som da porta se abrindo a fez erguer o olhar para eles. Vendo-os juntos e alegres, a menina sorriu também e os três se abraçaram.
— Vamos, gente, é melhor nós dormirmos – Ethan disse, bagunçando os lisos cabelos de Sophia.
Pouco antes de o rapaz apagar as luzes, a filha o chamou. Meio sem graça, ela começou:
— Eu sei que já sou meio grandinha para isso, mas... – o olhar dela oscilou da mãe para o pai repetidamente, por alguns instantes – Será que eu posso dormir com vocês esta noite?
Um sorriso divertido tomou conta do rosto de Ethan e ele não hesitou em dizer sim. Apagou a luz e se juntou a elas, com alegria no rosto, porém um certo pesar no coração. Sabia, de certa forma, a razão pela qual a filha fizera aquele pedido. Ela tinha consciência do quão perigosa a manhã seguinte seria e... Ethan sequer ousava terminar aquele pensamento. Abraçou carinhosamente a namorada e a filha e tratou de dormir.
Na manhã seguinte, Ethan preparou diversas latas de comida, pois sabia que ele e sua família precisariam de energia para caminhar e suportar o peso de seus pertences. Os três comeram em silêncio, fazendo força para engolir os alimentos, uma vez que estavam tão nervosos que não tinham apetite algum.
O garoto separou as maiores e mais resistentes facas de cozinha que possuíam, já que eram as armas mais poderosas das quais dispunham. Entregou duas a Carol e uma a Sophia, embrulhando as outras num pano e pedindo que elas as guardassem em suas bolsas. Ethan ficou com uma faca também e, em sua mão direita, carregava o bastão de basebol de metal que comprara no mercado antes do confinamento.
Ethan vigiou a rua uma última vez, novamente verificando que ela parecia deserta. Virou-se para a parceira e para a filha e fez um sinal afirmativo com a cabeça, indicando que eles estavam a ponto de partir.
Com cuidado, ele subiu sobre a escrivaninha que bloqueava a porta de entrada, examinando o corredor e o que sua vista alcançava dos lances de escadas do prédio. A energia havia sido cortada, então as luzes das áreas comuns do prédio não funcionariam; por isso, eles precisariam descer pela escadaria cercados por puro breu. Tudo parecia calmo, de forma que eles removeram o móvel da frente da porta e, com o coração a mil, destrancaram-na.
O rapaz saiu primeiro, a fim de se certificar de que eles não seriam pegos de surpresa por alguém infectado. Vendo que tudo estava deserto, fez sinal para que a família saísse do loft, e aquela foi a última vez que eles viram seu lar. Carol fechou a porta, e eles prosseguiram pela escadaria: Ethan na frente, Sophia no meio e Carol atrás, pois dessa forma protegeriam a menina com maior eficácia.
O trio chegou ao andar da rua com tranquilidade, sem encontrar um vizinho sequer. Deduziram que todos ou haviam obedecido às autoridades e ficado em casa ou já haviam fugido para os campos de refugiados. Ethan carregava no bolso a lista com os endereços e as cidades nas quais eles se localizavam.
Na rua, tudo parecia deserto também. Eles saíram pela porta principal do edifício e trocaram de posição. Carol ia na frente, porque a visibilidade na rua deserta não era comprometida por nada e era fácil avistar qualquer coisa que se movesse num raio de muitos metros, iluminados pelos raios do sol da manhã, de maneira que eles não seriam pegos de surpresa. Sophia continuava no meio e Ethan vigiava a traseira do grupo, olhando em volta pelo caminho que já haviam percorrido.
Os três conseguiram chegar ao fim da rua do loft com tranquilidade, ocasionalmente vendo pelas janelas dos prédios um rosto ou outro de pessoas abrigadas em casa. Não havia nenhuma pessoa infectada a vista ainda, porém tampouco havia sinal de alguém com quem eles pudessem pegar uma carona.
Várias ruas foram percorridas conforme o plano de Ethan e os três já caminhavam mais despreocupadamente, começando a crer que a única adversidade que encontrariam no caminho para o campo de refugiados seria a distância e o cansaço físico, o qual ainda não os havia atingido.
Uns quarteirões adiante, porém, Carol ouviu um ruído estranho vindo de seu lado esquerdo e não pôde evitar soltar um grito agudo e breve ao ver algo se movendo sob as rodas de um carro. Para sua surpresa, porém, não se tratava de algo, mas de alguém.
A coisa tinha o formato de uma pessoa e até podia haver sido uma. Estava em estado de decomposição, emitindo um cheiro terrível de cadáver, mas... ela se movia. Era como se aquilo tentasse se arrastar na direção dela, e o faria, se não fosse pelo o peso do carro sobre seu corpo.
Sophia engoliu em seco e tampou o nariz, completamente enjoada pela visão e pelo cheiro daquilo. Carol tratou de se afastar, mas não conseguiu evitar continuar encarando fixamente o defunto. Ethan, porém, curioso, abaixou-se perto dele, com a cabeça meio caída para o lado, como quem tenta entender uma imagem confusa. Então assim eram aquelas coisas que ele via no jornal. Aterrorizantes, de fato.
— Melhor a gente continuar... Não sabemos quando vamos encontrar um carro, e eu não quero ficar zanzando à noite com esse pessoal à solta. Vocês duas estão bem?
A resposta foi um sim uníssono, de forma que eles continuaram se movendo em formação.
— Oh-oh... – Carol exclamou, uns quarteirões adiante, arregalando os olhos. Não havia um, ou dois, nem três infectados naquela rua, mas uma meia dúzia deles – Vamos dar meia volta – ela sussurrou, sem tirar os olhos deles. O trio aparentemente ainda não havia sido notado pelas criaturas.
— Ok – Ethan disse, fazendo sinal para elas trocarem de lugar com ele, para manter formação. O garoto não tirou os olhos do pessoal à frente, querendo se assegurar de que ele e sua família continuassem passando desapercebidos.
Ele tentava manter a calma, mas por dentro seu coração batia acelerado, a adrenalina sendo disparada em seu organismo como bombas ou tiros de metralhadora. Precisavam sair dali o mais rápido o possível.
Ethan se virou para continuar na escolta de sua namorada e sua filha, quando sentiu uma mão sobre seu braço esquerdo. Virou-se numa fração de segundos, para descobrir que um infectado o tocava. De onde diabos aquilo havia saído? Seu primeiro impulso foi empurrá-lo no peito com o braço tocado, fazendo-o cambalear em direção a um beco sem saída, e assim descobrira a origem da criatura. Seu coração acelerara e a respiração se tornara descompassada.
Os olhos de Ethan se arregalaram num misto de medo, pânico e surpresa. Tentou correr, mas os pensamentos ferviam em sua mente. Desviou o olhar para sua família um instante e viu que elas o observavam assustadas, a poucos metros.
Antes que o rapaz pudesse ter qualquer reação física, o infetado se recompusera e começara a se mover na direção dele novamente. Ethan reagiu, finalmente, lembrando-se de que carregava duas armas, e podia lutar contra ele. Afinal, doente ou não, aquele era um homem, e não há nada mais fácil no mundo do que morrer. Umas facadas deviam bastar para que ele estivesse novamente em segurança.
Ethan respirou fundo, tentando afastar a hesitação. Nunca havia matado ninguém na vida, tinha medo de como iria reagir àquilo. Perguntava-se se conseguiria sequer fazê-lo, até que se lembrou de que precisava proteger sua família e, para isso, precisava estar disposto a fazer sacrifícios. Com toda a coragem que havia em seu corpo, ele enfiou a faca de cozinha no estômago da criatura, imaginando que em poucos segundos ela perderia os sentidos e cairia no chão frente a ele. Ao contrário disso, porém, ela continuou a tentar alcançá-lo, o que era agora até mais fácil, pois estava muito mais próxima dele.
Foi então que lhe ocorreu. O infectado que haviam visto mais cedo fora atropelado por um carro e continuava operante. Uma facada não bastaria para derrubar aquele. O que fazer então?
Ethan puxou a faca de volta, chutando a criatura para longe, e investiu novamente uma facada contra ela, acertando-a em seu peito, fazendo jorrar sangue novamente sobre suas roupas e pele. Nada. Aquilo continuava tentando abocanhá-lo. Ethan puxou a faca novamente para si, mas ela ficara presa nas entranhas do infectado, de forma que só lhe restou chutá-lo novamente e tentar fugir, abandonando a faca fincada nele.
O chute derrubou o infectado no chão, e o garoto começou a correr na direção da família. Finalmente a adrenalina deixava seu pico, e ele começara a poder decifrar os sons que seus ouvidos captavam. Ele ouvia e compreendia com clareza o pânico e a urgência nas vozes das duas, enquanto elas gritavam:
— Cuidado, meu amor!
— O que você está fazendo, papai? Atrás de você!
Confuso, ele virou a cabeça a noventa graus, para descobrir que a horda de infectados que até então não haviam notado sua presença estavam agora perigosamente próximos dele, praticamente cercando-o. Ethan correu a princípio, mas sentiu suas roupas serem puxadas por eles, que pegajosamente o arrastavam para trás.
Quando sentiu que os infectados se encontravam mais fortes que ele, Ethan desistiu de tentar fugir, e decidiu lutar. Chutando-os para longe, tentava abrir espaço para atacar com seu taco de basebol, o qual não fazia estrago muito maior do que sua faca de cozinha fizera. Desvencilhando cegamente chutes e golpes de bastão para todos os lados, começou a crer que não haveria mais solução, até que surpreendentemente viu um deles cair diante de si após um golpe. Observou, pasmo, por um milésimo de segundo, tentando compreender o que fizera para derrotar aquela criatura, mas o resto deles não permitiu que ele raciocinasse por muito mais tempo.
Agora esperançoso por ter conseguido acabar com um deles, Ethan se sentiu revigorado e pronto para derrubar o resto do bando. Atacava-os, chutava-os, empurrava-os, mal sentindo que eles o cercavam. Fosse como fosse, ele iria conseguir derrotá-los.
Ethan ergueu os braços para atacar um deles na cabeça com seu taco quando tudo começou a passar em câmera lenta. Ouviu um grito ecoar por todos os cantos de sua mente e se perguntava qual seria a origem daquele som. Aos poucos uma dor insuportável tomou conta de seu corpo e, como se houvesse desencarnado por um instante e voltado a si, Ethan olhou para baixo e identificou o homem que gritava: era ele mesmo. Um infectado deliciava-se ao morder seu magro abdômen, fazendo suas roupas se encharcarem em sangue e seu corpo perder velocidade e movimento, até que se encontrou completamente estático.
Os infectados puxaram o corpo de Ethan e o fizeram cair sobre o concreto da rua, de forma que ele pôde ver os rostos de suas amadas uma última vez. As duas choravam desesperadas, gritavam, estavam sem rumo, assustadas, perdidas, petrificadas. Ele olhou para elas e sentiu lágrimas rolarem por suas bochechas, aquecendo-as por onde passavam. Seu corpo ardia enquanto partes dele eram arrancadas pelas criaturas.
— Vão! – ele teve forças para dizer, esperava que alto o suficiente para que elas pudessem ouvir. A única coisa que ele queria naquele momento era que elas fugissem e vivessem ainda muito tempo, mesmo que ele não pudesse fazer o mesmo.
Tendo seu último desejo atendido, Ethan viu as duas partindo, ainda que sem forças e chorando, para longe dali. Ele não sabia como, mas tinha fé e sabia que elas encontrariam seu caminho e sobreviveriam sem ele. Ethan se foi, carregando em si um único arrependimento: partir sem ter a chance de dizer que as amava.
— / — / -
De fato, o corpo de Ethan conseguiu entreter os infectados por tempo mais do que suficiente para Carol e Sophia partirem em segurança. Devastadas, com os olhos inchados e vermelhos, as duas caminhavam sem rumo pelas ruas desertas da cidade, sem conseguir tirar da mente a imagem do homem que mais amavam na vida sendo devorado por aquelas bestas. Elas não conseguiam abrir a boca para pronunciar uma palavra sequer, mas sabiam que nada no universo poderia fazê-las sentir pior que aquilo.
— Ora, ora...
Atrás de si, elas ouviram o motor de um carro e uma voz conhecida. Com sua força completamente drenada, Carol juntou toda a sua coragem para se virar de frente para aquele pesadelo.
— Como vão, meninas? – Ed ria-se, seguro dentro de seu carro.
Não restara nada de Carol que pudesse resistir ou responder àquela provocação. Toda a vida havia se esvaído de seu corpo, de forma que ela apenas o encarou silenciosamente, puxando a filha para perto de si.
— Onde está aquele bostinha? – Ed olhou em volta, estranhando a ausência de Ethan – Finalmente aquele pirralho cansou de mamar na tua teta e voltou pro berço?
Aquela foi a gota d’água. Carol se transformou num animal e rugiu para cima de Ed, esbravejando e esmurrando a lataria e a porta daquele carro, gritando as maiores grosserias, coisas que estavam presas dentro de seu peito desde a época em que moravam juntos. Era a primeira reação que ela tinha em horas, e descontava em seu maior pesadelo toda a raiva e tristeza que sentia pelo que ocorrera com seu príncipe.
— Isso, continua gritando aí, sua louca. Vai acabar comida por essas coisas – ele disse, tranquilamente, com um sorriso cruel no rosto – Não sabe que elas são atraídas pelo barulho? – vendo que aquilo não fazia efeito, ele cutucou uma ferida um pouco mais profunda: – Quer que eles comam nossa menina também?
Aquilo a calou. Carol olhou para trás um instante, no intuito inconsciente de certificar-se de que Sophia ainda estivesse inteira.
— Isso, boa menina, quietinha – Ed continuou a afrontá-la – Agora é uma boa hora para dizer que sentiu minha falta, não?
— Nunca, seu monstro – Carol disse e cuspiu na lataria.
— Ah, não? – Ed sorriu, provocador, novamente – Eis a situação, benzinho: já está ficando tarde, daqui a pouco o sol termina de se pôr. Você vai ficar sozinha aí com a nossa filha, e as duas vão acabar mortas por causa da sua teimosia. Especialmente agora que você atraiu a cidade inteira para cá com esse seu showzinho— ela começou a compreender a dimensão do problema – Enquanto isso, eu estarei longe daqui, rumo ao campo de refugiados, tranquilinho, ouvindo Bruce Springsteen.
Sophia caminhou para perto da mãe, com medo da cidade, que começava a ficar escura sem os raios do sol, postando-se imediatamente atrás dela, igualmente com medo de Ed.
— Ou – ele continuou – você pode entrar nesse carro agora com a menina, e ser a boa cadelinha que você sempre foi para mim. Eu meio que sinto falta da minha roupa lavada e da sua comida, entende? Além de... Você sabe – ele lhe deu uma piscadela, fazendo-a sentir nojo de si mesma – Daí você se salva, salva nossa menina, todo mundo acaba feliz. Tem bastante comida aqui no carro, e eu posso levar vocês até o campo de refugiados. Então, o que vai ser?
Carol olhou em volta, a noite já havia caído sobre a cidade. Cada segundo que passassem à deriva era um risco. Não podia permitir que o sacrifício de Ethan fosse em vão. Ethan... A mera visita daquele nome à sua mente a fez sentir-se fraca novamente. Queria cair de joelhos no asfalto e chorar o resto da noite. Carol não tinha mais forças sequer para ficar de pé.
Ela olhou para Sophia um instante. A menina estava assustada, tremia de medo e frio. Logo estaria com fome, com sede, choraria. Se lembraria do pai que acabara de perder. A mulher então fraquejou e permitiu-se entrar no carro.
— Vamos, Sophia – ela disse. Logo um plano se arquitetaria em sua mente, e ela teria coragem o suficiente para executá-lo, da maneira como Ethan gostaria que ela tivesse feito: ela se submeteria às vontades de Ed até o instante em que chegassem no centro de refugiados; a partir de então, quando estivessem em segurança, ela e Sophia jamais precisariam aturá-lo novamente. “Isto é uma promessa, meu amor”, ela pensou, olhando para o céu.
E assim os três seguiram viagem rumo à estrada principal indicada pelas autoridades.
— A puberdade está fazendo bem para a nossa menininha, não é não? – Ed comentou, rindo-se com um cigarro pendurado no canto da boca, encarando a criança pelo retrovisor, fazendo Carol sentir-se enjoada. Aquela seria uma longa jornada...
— / — / -
Algumas horas depois, o que restou de Ethan se transformou, assim como aconteceria com quase a totalidade da população do planeta. E assim permaneceu o charmoso menino: perambulando sem rumo e sem mente, ao lado do resto da horda de infectados que antes lhe arrancaram pedaços, pelo resto da eternidade.
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