Eternidade e a beleza passageira

3 Capítulo III - Voo da morte


Com os vestidos em mãos, ele se preparou para retornar ao castelo, ansioso para ver a reação da fada ao recebê-los.

Asinha estava acordada, ainda acomodada no emaranhado de tecidos velhos, que se desfaziam sempre que ela se mexia muito bruscamente. Apesar de exausta, a poeira e o mofo do castelo intoxicavam seus pulmões, impedindo-a de respirar tranquilamente.

Ela tossia levemente, sentindo o peso do ar impuro em seus pulmões delicados. Sua mente estava confusa, incerta das intenções do predador noturno. Se perguntava se podia confiar no vampiro ou se ele tinha motivos ocultos para ajudá-la. Afinal, ele era um ser das trevas, diretamente ligado à morte, e naturalmente rejeitado pela natureza, e ela não podia ignorar o fato de que ele a encontrara em meio à solidão de seu castelo sombrio.

Apesar de suas dúvidas e do desconforto causado pela atmosfera opressiva do castelo, a fada sabia que não tinha escolha senão confiar em seu salvador, pelo menos por enquanto. Com esse pensamento em mente, ela fechou os olhos por um momento, tentando encontrar um pouco de paz em meio ao caos que a cercava. Mas era difícil, estava inquieta, seus olhos brilhantes focalizando a asa quebrada que pendia ao seu lado. Com cuidado, ela tentou esticar a asa, mas um desconforto agudo a fez recuar. Não era dor, exatamente, mas sim uma sensação estranha e incômoda que se espalhava por todo o seu corpo.

Ela observou as costuras grossas e irregulares que o vampiro havia feito para manter a asa no lugar. Embora os pontos parecessem firmes, eles eram desconfortáveis e pesados, como grilhões que a prendiam ao chão. Asinha suspirou, desejando poder voar livremente mais uma vez, mas sabendo que isso ainda era impossível com sua asa danificada. Com cuidado, ela continuou a examinar a asa, tentando encontrar alguma maneira de aliviar o desconforto, experimentando posições diferentes e formas de se deitar, tendo sucesso em alguns momentos, tornando a sensação mais tolerável, mas o mesmo desconforto lhe atingia com tudo quando tinha de tossir. A frustração tomava conta da criaturinha, que buscava por conforto e ar puro. Via uma janela de vidro ao lado de uma penteadeira velha, mas dificilmente conseguiria atravessar o quarto, quanto mais abrir a janela, que parecia estar fechada por muito tempo. Alguns vasos com plantas acrescentavam ao sentimento macabro, visto que estas pareciam estar a um toque de se tornarem pó.

Todo o castelo fedia a morte: as plantas, a madeira, até mesmo as lembranças. Fadas eram criaturas extremamente empáticas, capazes de reviver memórias de outros seres e compartilhar sentimentos através do Toque da Compreensão. Normalmente, ambas habilidades eram uteis às criaturas na natureza, ao cuidarem de animais de plantas enfermas, mas, naquele lugar infestado de más lembranças, a fadinha sentiu que seu hábito de colecionar memórias deveria ser evitado a todo custo, visto que nada naquele local parecia ser feliz.

Enquanto a criatura investigava seus arredores, buscando por algum alivio ao desconforto de sua asa, ela ouviu o som da porta rangendo, se abrindo lentamente. Levou os olhos até o lado do quarto, e viu o vampiro entrar, com sua figura imponente, contrastando com a atmosfera decadente do quarto.

Nikolai observou a coisinha por um momento, mas sua expressão impassível pareceu revelar um pouco de seus pensamentos por um breve momento, quando seus olhos pareceram brilhar ao vê-la desperta e mais ativa que quando a deixou. Ele se aproximou lentamente, com o olhar fixo na fada que parecia paralisada com a chegada do vampiro. Deixou suas compras ao lado da mesa de carvalho, rapidamente se aproximando de Asinha, tocando e esticando suas asas, investigando se seus pontos amadores ainda estavam firmes. Em resposta, a fada recuou, visivelmente assustada com os movimentos bruscos do vampiro, o que o fez hesitar por alguns instantes. Havia se esquecido de que ele assustava a pobre criatura. Ao vê-la tremer, se afastou, se contentando apenas com palavras que esperava que ela entendesse.

“Como está se sentindo, Asinha?” Perguntou ele, sua voz profunda ecoando no silencio do quarto. “Lhe trouxe algumas coisas, espero que esteja se sentindo melhor.”

A fada olhou atentamente para Nikolai, seus olhos investigativos tentando compreender o que a figura estava dizendo. “♪ ✿ ♪respondeu, em sua língua nativa, com a voz hesitante e baixa. "♪ ♪ ⚘" continuou, reclamando dos pontos pesados e do ambiente abafado, tossindo algumas vezes no processo.

“Desculpe, Asinha,” disse o vampiro “mas eu não falo ‘fadês’”. Tentou entender o que a coisinha dizia, mas o dialeto não fazia o menor sentido. Deduziu que ela estava melhor, e isso foi o suficiente. “Aqui, você precisa comer algo.” Alcançou as frutas que havia trazido da vila, colocando uma delas em cima da mesa empeirada, ao lado da fada. A ameixa parecia ser um pouco menor que a fada, mas ela estava relutante a investigar o item. “Não está envenenada, Asinha, pode comer” disse de forma calma, tentando passar confiança pelo seu tom, já que suas palavras não faziam muito sentidos para a criaturinha.

Enquanto Asinha cautelosamente se aproximava da ameixa, hesitante em tocar a fruta, tentava não tirar os olhos de Nikolai, que a fixava com curiosidade. Estava incerta sobre as intenções do vampiro, mas definitivamente faminta, visto que não se lembrava da última vez que comeu. Sua recuperação se beneficiaria muito com aquela fruta, mas ainda tinha suas dúvidas sobre toda essa generosidade de uma criatura conhecida pela carnificina e pela morte. Verbalizou suas preocupações, perguntando “ꕥ?”, mas não obteve resposta do vampiro. Rodopiou em volta da ameixa, reunindo confiança para tocar a fruta, mas tentando manter o contato visual com o vampiro, chegando a perguntar mais uma vez: “?E dessa vez mais alto e com mais entonação. O vampiro, deu os ombros, deixando claro de que o que ela dizia não lhe fazia muito sentido.

Enquanto observava a criaturinha investigar a fruta, aproveitou para pegar um dos vestidos, o que ele particularmente achou mais bonito: O vestido rosa. Ajeitou-o com as mãos antes de expor a peça para ela, em seguida tentando tocar a seda frágil que a cobria, mas Asinha se afastou do toque, fazendo-o apenas apontar para ela. “Trouxe algumas vestes para você. Espero que sirvam.” Disse, e então virou o vestido de costas, mostrando a área onde ficariam as asas de Asinha, e então continuou “Mas vai ter que o vestir por baixo.”

Aquela conversa fez pouco para nenhum sentido para a fada. Aquelas roupas humanas não lhe agradaram muito, mas os tecidos que a cobriam eram desconfortáveis e coçavam. Imaginou que o vampiro queria que ela se cobrisse com aquilo que ela estava o mostrando, mas resolveu ignorá-lo. Não iria vestir coisas humanas, não era uma mascote, e expressou isso virando o rosto, como antes. Então, disse firmemente: “⚘.”

Não quer?” Nikolai não estava mais com sua voz suave habitual, demonstrando uma frustração em seu tom. “Pois então fique nua, eu não dou a mínima.” Ali, falou muito mais alto, e expressou até mesmo uma pontada de raiva, largando todos os vestidos de boneca sobre a mesa e virando as costas, se sentando no que restava do banco da penteadeira de Victoria.

A ação brusca e a mudança de comportamento apavoraram a fadinha, fazendo seu coração bater tão rapido que era impossivel o vampiro não ouvir. Enquanto tentava se acalmar, olhou para ele rapidamente, para ter certeza de que ele não estava focado nela, e não estava, mas fissurado na janela fechada ao lado da penteadeira.

O movimento dos vestidos e a movimentação rápida e agressiva do vampiro pelo quarto levantou todos os grãos de poeira do chão e da mesa de carvalho onde Asinha se encontrava, sufocando-a no processo. Tentou, de início, não tossir para não chamar a atenção do vampiro, mas quanto mais tentava chegar perto dos vestidos, e quanto mais respirava, mais seus pulmões eram intoxicados pela poeira, levando-a a uma crise de tosse. Uma tosse baixa e consistente, um barulho que o vampiro, já frustrado, começou a achar incrivelmente irritante.

Tentou se distrair, pensando em Victoria, enquanto segurava um broche de ferro que ela havia dado a ele. Nunca lhe disse onde encontrou tal ornamento, mas nunca o deixava sair do castelo sem este broche no peito. Infelizmente, devido ao tempo, o pino quebrou, forçando Nikolai a ter que carrega-lo consigo em seu bolso do peito.

Seus pensamentos foram interrompidos com mais tosses baixas e irritantes, porém, mais uma vez, tentou ignorar, mas sua paciência estava se esgotando rapidamente.

Em sua mente tumultuada, pensou da reação assustada de Asinha, e uma pontada de culpa se misturou com sua frustração. Ele só estava tentando ajuda-la e ainda assim, a coisinha não parecia entender. O que Victoria faria numa situação dessas? Certamente a vestiria à força. Apertou o broche com mais força, se concentrando ainda mais, mas para seus ouvidos aguçados, as tosses persistentes eram impossíveis de se ignorar por mais tempo. A irritação de Nikolai atingiu seu limite quando Asinha começou a tossir ainda mais, perturbando sua tentativa de concentração. Com um suspiro frustrado, ele se levantou abruptamente e marchou em direção à janela ao lado da penteadeira.

Sem hesitação, agarrou a velha janela com força, ignorando a fragilidade da madeira. Com um empurrão brusco, Nikolai tentou abrir a janela para permitir que o ar fresco entrasse no quarto sufocante, no entanto, a madeira envelhecida cedeu sob a pressão de seus dedos, e a janela se desprendeu de suas dobradiças enfraquecidas.

Com um estrondo alto, a janela caiu para o chão com um estalo, deixando um rastro de poeira e destroços no ar. Nikolai olhou para o desastre com uma mistura de raiva e choque, percebendo tarde demais que sua tentativa de ventilador havia saído pela culatra. Asinha, assustada com o barulho repentino, recuou ainda mais, se escondendo por meio dos tecidos que serviam de ‘cama’, seus olhos cheios de temor. Ela olhou para Nikolai com uma mistura de incredulidade e medo, sem entender completamente o que havia acabado de acontecer.

O vampiro, consumido pela frustração e pela raiva, sentiu uma onda de energia percorrer seu corpo. Seus olhos rubros brilharam com uma intensidade sinistra quando ele se aproximou da janela danificada. Sem dizer uma palavra, ergueu uma mão trêmula em direção à janela e, num piscar de olhos, uma transformação começou a ocorrer. Asas que se assimilavam às de um morcego se materializaram em suas costas, acompanhadas por um brilho carmesim, estendendo-se com uma envergadura ameaçadora e rasgando toda a parte traseira de suas roupas. Seus dedos se alongaram em garras afiadas, e seus dentes se alongaram em presas ainda mais visíveis e ameaçadoras. Nikolai em sua forma mais primordial e aterrorizante.

Com um movimento rápido e decidido, ele saltou pela janela aberta, levantando voo nos céus noturnos com uma agilidade surpreendente. O som de suas asas batendo ecoou no ar enquanto ele se afastava, desaparecendo de vista em questão de segundos.

Asinha ficou ali, atordoada e temerosa, observando a figura sombria de Nikolai desaparecer na escuridão da noite. Ela se sentia mais indefesa do que nunca, incapaz de compreender completamente o que acabara de acontecer. Com um suspiro trêmulo, ela se encolheu em meio aos tecidos, olhando para destroços da janela quebrada, seu coração apertado com uma mistura de medo e incerteza sobre o que o futuro reservava.

Nikolai sobrevoava a floresta sombria que circundava o castelo, suas asas negras cortando o ar noturno com uma graciosidade sinistra. Seus olhos vermelhos brilhavam com uma intensidade feroz enquanto ele procurava qualquer criatura viva para descontar sua raiva. A floresta estava mergulhada em trevas densas, seus segredos ocultos sob um manto de sombras. Abaixo, os galhos retorcidos das árvores se contorciam como garras, prontos para capturar qualquer coisa que se aventurasse em seu território. Mas para Nikolai, aquele era um lugar familiar, um domínio que ele conhecia tão bem quanto conhecia a palma de sua própria mão.

Seus olhos brilhavam com uma excitação selvagem enquanto ele procurava por sinais de vida na escuridão abaixo. Estava faminto por sangue, sedento por violência, e a floresta sombria lhe prometia carnificina. De repente, um movimento capturou sua atenção. Uma presa vulnerável, uma corsa desavisada com seu filhote, caminhava cautelosamente entre as árvores, alheia ao perigo que se aproximava. Nikolai mergulhou na escuridão da floresta, como a morte que vinha de cima. A corsa percebeu o perigo tarde demais, sua cabeça se erguendo em alerta enquanto o vampiro se aproximava em um borrão de asas negras. Mas era tarde demais. Com um mergulho preciso, Nikolai agarrou a mãe pelo pescoço, rasgando sua carne com garras afiadas enquanto saciava sua fome com uma voracidade predatória, rasgando o pescoço a dentadas ferozes, como um monstro enlouquecido. Ouviu o filhote correr, coração pulsando e desespero instintivo, mas não se importou, seu foco estava na presa adulta, ainda viva.

À medida que o sangue escorria por suas presas e a vida deixava o corpo da corsa, Nikolai sentiu um breve alívio de sua raiva, substituída pela satisfação primitiva de uma caçada bem-sucedida. Mas a fome por violência ainda ardia em seu peito, e ele sabia que essa não seria sua última presa naquela noite.