Eternal Flame – O Fim
13 Destinos Incertos
Notas iniciais
– Renesmee, preciso que me escute – Jennifer pediu calmamente, ainda mantendo certa distância entre nós.
Olhei para ela e balancei a cabeça em discordância, esforçando-me para manter o ritmo suave da respiração. Tentei livrar a mente de qualquer pensamento incriminatório, o qual certamente a vampira utilizaria como argumento contra mim assim que descobrisse que rompi o tratado.
– Não é necessário que omita nada de mim. Eu sei o que você fez. Estava aqui o tempo todo, observando cada passo seu – murmurou serena, não demonstrando qualquer reação diante do que presenciara. – Assim como Edward, sou uma leitora de mentes, então acredito que será bastante ineficiente caso tente me enganar.
Senti a fúria impregnando cada fibra de sensatez que me restava, porém não ousei me mover.
– Então, se já sabe de tudo, por que diabos resolveu dar as caras por aqui? – inquiri ácida. – Já não basta você e seu irmão terem abalado toda a paz que levamos meses para restabelecer, deixando minha família à mercê novamente, trazendo a tensão que a tanto custo conseguimos enterrar... – bradei incapaz de conter as lágrimas. – Como teve a ousadia de reaparecer? Por um momento acreditei que estávamos estáveis, seguros... Mas isso acabou assim que vocês resolveram se rebelar.
– Ness, você não tem ideia de quanto eu lamento – balbuciou. Eu sentia um intenso repúdio ao ouvir cada palavra dela. – Estou disposta a me redimir.
– Mentirosa! – acusei com o dedo em riste.
Não consegui mais me conter. Minha visão se nublou e a primeira reação que tive foi atacá-la, distribuindo tapas e socos que rasgaram suas roupas e desgrenharam suas madeixas loiras. Jennifer não revidou, sequer se moveu. Apenas me observava enquanto eu tentava, sem êxito, dilacerá-la.
– Por favor, não torne as coisas difíceis entre nós – suspirou pesadamente e segurou meus punhos.
– Tarde demais – rebati desvencilhando-me de seu aperto e desferindo um golpe certeiro com as mãos novamente livres.
O corpo da vampira se chocou contra a parede, provocando uma rachadura disforme que ia desde a têmpora esquerda até a região da mandíbula. Porém, com a mesma velocidade que se formou, desapareceu, restando apenas uma cicatriz quase imperceptível acima do local.
– Nessie, não quero machucá-la. Será mais fácil se me escutar – Jennifer argumentou enquanto se recompunha.
– Nunca! – exclamei exaltada.
Atirei-me sobre ela e pressionei meus dedos trêmulos um pouco abaixo de seu queixo, na tentativa de decapitá-la. Talvez acabar com ela pudesse ser uma forma viável e indireta de enfraquecer Arthur.
– Garanto que não – disse ao ler meus pensamentos, buscando desesperadamente conter minhas atitudes violentas. – Não sou mais aliada do meu irmão.
– Por que insiste em me ludibriar? – murmurei desconcertada enquanto aplicava um chute em sua perna.
Jennifer empurrou as mãos para frente e eu cambaleei alguns passos, fato que lhe deu tempo para segurar meus braços e colocá-los em uma posição totalmente desfavorável. Não consegui mais me mover. Por um instante tive receio do que poderia vir a seguir.
– Como já expliquei, não pretendo machucá-la, portanto não me obrigue a fazer isso, Renesmee – disse ela, dessa vez com a voz mais firme e expressão beirando severidade.
– Largue-me! – ordenei retorcendo-me entre suas mãos rígidas e extremamente gélidas.
– Solte minha filha imediatamente! – Bella irrompeu pela porta numa velocidade inumana, os olhos dourados flamejando.
O rosto de Jennifer se contorceu em uma expressão que não pude decifrar.
– Isabella, eu... – começou ela.
– Estou sem tempo para ouvir seus discursos – interveio minha mãe, segurando-a pelo pulso e colocando-a contra a parede. – Não entendo por que resolveu aparecer, mas, para sua segurança, é melhor ir embora.
– Não vim até aqui para machucá-los, meus propósitos são totalmente altruístas. Eu juro... – garantiu. – Ao menos me dê uma chance para explicar...
Bella ficou pensativa por um instante, e me perguntei se ela cederia ao pedido de Jennifer. Seu olhar, antes flamejante, agora parecia opaco, apenas encarando o rosto da vampira à sua frente. Sob a luz tênue do amanhecer, Jennifer era mais linda do que qualquer outra coisa que eu pudesse imaginar, inclusive Rosalie. Apesar de todo o mal que consumia seu interior, este era um fato completamente irrevogável.
– Seja rápida – murmurou Bella, atirando o corpo da vampira que caiu com um baque surdo no piso rígido.
Jennifer assentiu e tomou uma posição mais adequada. Ela ficou em silêncio por algum tempo, seus lábios retorcidos pela amargura das lembranças pelas quais divagava.
– Eu e meu irmão somos alemães. Originários da cidade de Dortmund, para ser mais exata. Meu verdadeiro nome é Leona, e Arthur se chama Heinrich. Fazíamos parte da classe média alemã, ambos mundanos e fúteis como qualquer outro adolescente mortal.
As sobrancelhas de Bella se uniram e ela interrompeu:
– Vá direto ao ponto, por favor.
Jennifer – ou melhor, Leona – suspirou pesadamente e recostou-se na traseira do jipe de Emmett, cruzando os braços sobre o colo.
– Após a batalha em Portland, quando o clã dos Volturi foi quase dizimado, Aro e Jane iniciaram uma busca árdua por aliados – recomeçou ela. – Eles percorreram os quatro cantos do mundo à procura de vampiros experientes ou até mesmo humanos para a transformação, como é o caso de Heinrich e eu. Aro nos encontrou no Hospital St. Johannes após um grave acidente de carro. Enquanto meu irmão estava na UTI, em um estado clínico considerado irreversível, eu levei um pouco mais de sorte. O caminhão que colidiu com nosso veículo acertou o lado oposto ao qual eu repousava. Portanto, eu estava em um dos aposentos do hospital e, apesar dos múltiplos ferimentos, eu possuía certa consciência do que acontecia ao meu redor.
Eu já me encontrava impaciente. Não estava disposta a ouvir longas histórias, especialmente vindas de uma inimiga. Apesar de minha inquietação, Jennifer concedeu a si o direito de prosseguir:
– Fazia frio na noite em que os vi. Não me recordo de muita coisa, mas lembro-me de ter observado uma movimentação incomum no quarto em que eu me recuperava. E então, senti como se pequenas lâminas perfurassem meu pescoço, pulsos e tornozelos. A dor era quase imperceptível se comparada ao veneno se espalhando por todo o meu corpo. Era uma sensação agonizante que parecia não querer cessar, apenas ardia mais a cada minuto – um sorriso amargo irrompeu no canto de seus lábios, mas logo foi substituído pelo mesmo semblante sério e inabalável de segundos atrás. – Eu estava completamente confusa quando despertei. Vi Heinrich ao meu lado, mas não era o mesmo... Ele parecia impecável, perfeito aos olhos humanos. E sua íris possuía um tom carmim intenso. Fiquei completamente maravilhada, no entanto, algo muito maior e incontrolável passou a dominar meus sentidos... a sede – seu rosto ficou ainda mais inexpressivo, semelhante a um mármore cuidadosamente esculpido. – De início, eu estava amedrontada, mas Aro me explicou no que eu havia me transformado. Demorei algum tempo para processar, e assim que entendi o que ele queria me dizer, parti caçar imediatamente. No caminho, encontrei-me com os outros aliados: Harry, Brigitte, Tommy, Cheron e Jean.
Aquela série de nomes pareceu revirar meu estômago, trazendo à tona as lembranças da última guerra, algo que eu certamente não gostaria de ter em mente.
– Aro e Jane também me explicaram sobre seus propósitos... E isso incluía a destruição de seu clã. Disseram-me que a rivalidade entre vocês já acontecia há muito tempo, quando Bella ainda era humana.
Mamãe cerrou as mãos em punho ao lado do corpo, levemente exaltada.
– O clã nos abrigou e nos ofereceu vários bens materiais em troca dos nossos trabalhos. Porém, quando percebeu os poderes valiosos de Heinrich, decidiu que não participaríamos da batalha. Permaneceríamos na Itália como uma espécie de “reserva” até que ganhássemos permissão para perseguir sua família. Tivemos que nos camuflar como humanos enquanto descobríamos formas de enfraquecê-los, até que chegasse o momento do golpe final. Aro nos ensinou a língua inglesa e mudou nossa identidade, e Jane, por sua vez, ajudou-nos a aperfeiçoar os poderes para que adquiríssemos a aparência física humana. Dessa forma, mesmo que o restante fosse destruído, Aro ainda teria maneiras de lutar contra vocês – sua voz agora era fraca, como se ela relutasse para concluir o pensamento. – No início, eu realmente estava seguindo o plano imposto pelos Volturi, uma vez que estava consumida pela vaidade e ganância. Aro nos deu tudo aquilo que qualquer pessoa poderia desejar: casas, carros de luxo, jóias... Porém, quando conheci Seth e descobri sobre o imprinting, fiquei em dúvida entre qual caminho seguir. Além disso, com vocês eu sentia que estava junto à minha família, a qual deixei para trás assim que fui transformada.
Leona olhou subitamente para nós, como se esperasse uma deixa para continuar. Bella maneou a cabeça em um gesto afirmativo e ela prosseguiu, suspirando:
– Ao contrário de mim, Heinrich havia jurado fidelidade a Aro e não descansaria até que alcançasse seus objetivos. Meu irmão foi quem mais se beneficiou... Ele era uma verdadeira dádiva para os Volturi. Assim que soube que ele havia coletado todas as informações necessárias e estava prestes a fugir, eu me neguei a segui-lo, mas ele me ameaçou de morte caso eu não o auxiliasse.
Aquelas palavras me causaram desconforto, mas não me deixei abater. Eu sentia a repulsa nos olhos de Leona, como se as lembranças acertassem-na com punhais afiados.
– Relutante, prontifiquei-me a ajudá-lo. Entretanto, desapareci assim que a primeira oportunidade surgiu. Eu não conseguia mais suportá-lo, muito menos aturar seus planos de destruição. Era repugnante – Leona torceu o nariz, a voz subindo uma oitava. – Heinrich deve saber que eu vim até aqui, mas está muito ocupado com seu exército para se preocupar em me resgatar.
Exército? Repeti em minha mente. Não consegui digerir a informação; um nó prendeu-se a minha garganta, porém não ousei interromper. A vampira estava prestes a avançar seu discurso quando um barulho praticamente imperceptível pairou pelo ambiente. O rosto de Bella contorceu-se, assustado.
– Eles estão acordando – anunciou ela.
Foi então que percebi que havia esquecido completamente dos nossos familiares, até então desorientados. Eu e mamãe nos entreolhamos, sobressaltadas. Infelizmente, Heinrich ainda estava à solta e precisávamos manter a farsa.
– Saia já daqui – minha mãe disse a Leona. – E não ouse reaparecer.
A vampira assentiu brevemente, virando as costas para nós e caminhando para fora do recinto.
– Se precisarem de mim, basta pensarem em minha presença e estarei aqui antes que vocês possam piscar os olhos – murmurou ela, mantendo a postura perfeitamente ereta e expressão facial intrépida. Em seguida, disparou portões afora.
Suspirei completamente nauseada. Bella, em sua habitual velocidade inumana, tirou Alice do porta-malas do carro de Carlisle e depositou-a recostada na parede. Segundos depois, ela despertou. Parecia atordoada, esquadrinhando o ambiente ao seu redor como se não conseguisse reconhecê-lo ao primeiro impacto. Alternou olhares entre mim e mamãe, buscando entender como havia chegado àquele lugar. Em seguida, fitou os carros luxuosos e vincou a testa, totalmente confusa.
– O que estou fazendo na garagem? – indagou Alice com as sobrancelhas unidas.
Engoli em seco.
– Você estava conversando conosco há três segundos... – adiantou-se Bella, a face tão veemente que era impossível reconhecer vestígios de falsidade. – Não se lembra?
Minha tia balançou a cabeça negativamente, as sobrancelhas aproximando-se ainda mais.
– Está tudo bem? – perguntou mamãe.
– Sim... – balbuciou Alice, vacilante. – Acho que foi apenas visões tentando me pregar uma peça – ela riu sem humor, certamente tentando disfarçar sua confusão.
Suspirei subitamente aliviada e lancei um olhar de agradecimento a Bella, que correspondeu ao meu gesto com um breve sorriso complacente. Eu lhe devia muito por ter conseguido contornar a situação.
(...)
Minutos depois, adentramos a casa. Tudo parecia perfeitamente normal, ninguém havia tocado nos nomes dos dois irmãos inimigos. Nem sequer haviam notado a ausência de Leah, que provavelmente levava o plano adiante junto a Heinrich.
Enquanto vampiros entretinham-se assistindo ao noticiário local, lobisomens contemplavam o delicioso aroma que emanava dos wafles recém-preparados por Esme. Eram nove da manhã e eu não havia me preocupado em comer, uma vez que não sentia fome em meio a tanto caos. O perigo iminente revirava-me o estômago, mas me esforcei para ao menos experimentar a receita.
Jacob chegou instantes depois, abraçando minha cintura e apertando-me contra seus músculos definidos. Virei-me para beijá-lo, sentindo o toque de seus dedos cálidos em minha face. Pressionei ainda mais meus lábios nos dele, preocupada em termos pouco tempo para nós dois. Afastei-me por um momento, observando cautelosamente seu sorriso estonteante contrastar com a pele avermelhada. Seus olhos negros como breu penetravam nos meus. De repente, desejei derreter ali. Repousei a cabeça em seu peito, absorvendo o calor confortável de sua pele por um tempo que parecia insuficiente. Eu poderia passar a eternidade envolta pelos braços de Jacob. Porém, havia assuntos mais importantes com os quais eu teria de lidar.
– Por que saiu tão cedo de casa? – Jacob perguntou casualmente, beijando o topo da minha cabeça.
– Não consegui mais adormecer, então resolvi matar o tempo com a minha família – dei de ombros.
Como eu odiava ter de mentir para Jake, pensei comigo mesma. Meu coração se retorceu dentro do peito.
– Ah – murmurou ele, o hálito quente roçando em meus cabelos acobreados. – Meus roncos eram altos demais e obrigaram você a sair, é isso? – o lobo ergueu uma sobrancelha, um sorriso bobo iluminando a face.
Ri nervosamente, desferindo um soco de leve em seu abdômen.
De repente, Jake vincou a testa e o semblante transformou-se em uma careta enquanto ele procurava por alguma coisa em meio à mansão.
– Onde está Leah, afinal? – inquiriu, finalmente.
Engoli em seco, perplexa. Não sabia o que dizer, tampouco estava disposta a contar mais uma mentira. Meus olhos encontravam-se tão arregalados que receei que eles saíssem das órbitas caso eu os esbugalhasse mais.
– Eu... Leah... Não... – balbuciei incapaz de formular as frases racionalmente.
– Ness, o que foi? – Jacob chacoalhou insistentemente meus ombros, como se quisesse me despertar de um transe.
Se antes eu não conseguia raciocinar com precisão, agora eu mal podia falar.
– Renesmee quis dizer que Leah foi caçar. Próximo da fronteira com Minnesota, nos Estados Unidos. Provavelmente leve dias para voltar – interferiu Bella.
Dias? Esse realmente seria um prazo suficiente para que conseguíssemos exterminar o suposto exército de Heinrich e trazer Leah de volta? Arfei, sentindo o pânico alertar-me de que restava pouco tempo. Meus lábios comprimiram-se, formando uma linha fina enquanto eu tentava repelir o nó na garganta.
Olhei furtivamente para Bella, transmitindo todo o meu desespero. Éramos apenas duas contra uma quantidade de vampiros ainda desconhecida. Dez, vinte, trinta? Não sabíamos. A chave do enigma dependia de Leona, a única que até então possuía informações suficientes para que pudéssemos descobrir meios de derrotá-los.
Além disso, precisávamos proteger nossa família. Eu não suportaria a ideia de perdê-los, especialmente Jacob. O fato de eles são se recordarem da atual situação e terem seus dons bloqueados por Heinrich dificultava ainda mais as coisas. Eles não teriam como se defender ou antecipar os movimentos do inimigo. Estávamos em completa desvantagem.
– Ela resolveu ir por conta própria, sozinha? – o grunhido de Jacob tirou-me dos devaneios, fazendo-me lembrar de que eu ainda permanecia em seu abraço reconfortante. – É típico de Leah querer se isolar – Jake franziu o nariz, irritado. – Ela sabe que é perigoso deixar a alcatéia. Há humanos e outros sanguessugas vagando por aí.
– Eu garanto que ela está totalmente segura – disse Bella, uma pontada de fúria invadindo os olhos dourados.
É claro que está, pensei trincando os dentes. Ela está na companhia de Heinrich.
Em um segundo, mamãe havia se afastado, reunindo-se com Edward e Rosalie no sofá. Jacob e eu nos dirigimos à mesa para nos servir da imensa refeição que os lobisomens estavam consumindo. Era impressionante a velocidade com a qual eles conseguiam devorar uma quantidade absurda de comida. Enquanto eu me limitava a comer apenas algumas fatias do waffle, Jake partia para seu sétimo prato, isso sem contar a porção de panquecas que os lobos disputavam entre si.
– Estou tremendamente satisfeito – disse Jacob ao ingerir o último pedaço de panqueca em seu prato.
Ele recostou-se nas costas da cadeira e afagou a barriga, a qual ainda permanecia plana, embora eu já tivesse perdido as contas de tudo o que ele havia comido naquela manhã.
– Seria bastante improvável se não estivesse – zombei com um sorriso travesso nos lábios.
Jake soltou um riso gutural e puxou-me para mais perto, aninhando-me em seu aperto firme.
De repente, senti-me enjoada e fraca. Retornei à postura ereta e cobri a boca com as mãos, sentindo dores agudas na região do abdômen. Jacob acariciou minhas costas. Surpreendi-me ao sentir o enjôo passar, embora a fraqueza ainda perdurasse.
– Você está bem? – perguntou-me ele, a expressão preocupada tomando forma em seu rosto.
– Sim... Sophia está com fome. Preciso caçar – sussurrei com a voz entrecortada.
– Tudo bem – concordou ele, ajudando-me a levantar.
Um tremor de expectativa fazia meu estômago vibrar. Segurei uma das mãos cálidas de Jake e dei as costas para a matilha. Atravessamos silenciosamente o amplo corredor que ligava a cozinha à sala de estar e nos tornamos alvos dos olhares quando abríamos a porta principal.
– Vão caçar – a voz de Edward soava mais como afirmação do que como uma pergunta. Certamente ele havia lido a mente de algum de nós.
Apenas assenti brevemente, disparando em direção da floresta. Jacob metamorfoseou-se assim que irrompemos entre árvores densamente agrupadas, transformando suas roupas em pedaços.
Tirei meus sapatos e atirei com força na varanda da mansão. Alice os segurou antes que eles pudessem danificar alguma coisa, grunhindo por eu não ser tão apegada a bens materiais quanto ela. Sentir o solo úmido em contato com os pés descalços era uma sensação da qual eu não abriria mão.
O grande lobo avermelhado ao meu lado rosnou, gesticulando com a cabeça para que eu subisse em suas costas. Fiz o que ele pediu, e de imediato ele começou a correr numa velocidade tão intensa que suas patas mal tocavam o chão. Agarrei-me aos pelos do pescoço de Jacob, sentindo o vento lançar meus cabelos para trás. Aquilo me trazia uma sensação de paz e liberdade, palavras que há algum tempo não se enquadravam em meu dicionário. As árvores à nossa volta se agitavam, e os pássaros voavam sobressaltados para um lugar mais seguro. O sol da manhã brilhava no céu, atravessando a copa dos abetos e batendo com força em meu rosto. Devido a minha parte meio vampira, eu podia observar tudo com uma clareza quase impecável: eu via cada pequena criatura que constituía a floresta; ouvia os mais diversos sons e ruídos; sentia o cheiro amadeirado dos animais em contraste com o aroma agradável das flores. Era uma aventura extremamente excitante, sem sombras de dúvida.
Jacob parou de supetão e eu fui projetada para frente, caindo com um baque surdo na grama. Recompus-me em segundos, confusa ao ver o lobo ganindo baixinho e retrocedendo alguns passos. Esquadrinhei cegamente a floresta a minha volta e deparei-me com um grupo de escoteiros que atravessava o riacho, vindo em nossa direção.
– Não sabia que os humanos visitavam essa região – sussurrei.
Estávamos prestes a mudar de rumo quando um vento forte vindo do norte atingiu-me em cheio, trazendo consigo uma fragrância quente e tentadora. Minhas narinas inflaram quando inspirei o cheiro, que passou a dominar todos os meus sentidos. A sede era tanta que chegava a ser dolorosa.
– O que está acontecendo? – indaguei assustada, sentindo a garganta queimar como se estivesse em brasa.
O vento tornou-se ainda mais intenso, atiçando meus instintos. Meu lábio superior ergueu-se por conta própria, colocando à mostra os dentes levemente pontiagudos. A atração do cheiro irresistível aumentava à medida que eu me aproximava da presa. Jacob me seguida, em estado de alerta.
E então, percebi que a fragrância era de... sangue humano, mais precisamente do grupo de escoteiros que eu observara segundos atrás. Um som indistinguível escapou dos meus lábios e eu os cobri com a mão, horrorizada. Eu não poderia pensar da hipótese de matar um humano, isso fugia completamente dos padrões “vegetarianos” de minha família. Porém, eu nunca havia me sentido mais tentada. Meus instintos eram muito maiores do que minhas vontades.
Corri compulsoriamente até o grupo. O ambiente ao meu redor não passava de flashes distorcidos. Eu estava concentrada apenas no sangue denso correndo pelas veias dos mortais a poucos metros de mim. Meus pés desaceleraram e fiquei à espreita, esperando que eles viessem até mim.
Jake assumiu a forma humana atrás de mim, não se preocupando em estar completamente nu. Estava prestes a atacá-los quando ele estendeu os braços em minha volta a fim de me conter. Tentei me desvencilhar, mas isso só colaborou para que Jacob estreitasse mais os braços. Seus dedos cálidos me agarraram e eu cambaleei, fazendo-nos cair de joelhos no solo, dessa vez coberto por flores do campo.
– O que deu em você? – perguntou ele, o rosto próximo do meu.
– Preciso sair daqui – murmurei engasgada.
Segurei a mão de Jake, disparando numa corrida outra vez. Minha única meta era correr o mais longe possível para que a fragrância atrás de mim se perdesse completamente. Jacob se transformou novamente, seguindo-me enquanto eu me esgueirava por entre as árvores. Prendi a respiração e tentei me concentrar somente no caminho pelo qual eu percorria.
Quando acreditei que era seguro, me detive. Respirei com cautela, sentindo o gosto do ar – ali não era poluído, não havia nenhum vestígio do cheiro irresistível que atormentava minha sede. Desabei sobre a grama, meus cabelos acobreados tingindo o verde vívido das plantas. O lobo aconchegou-se ao meu lado e inclinou a cabeça para que eu o afagasse. Passei os dedos pelos seus pelos grossos e Jacob emitiu um som diferente, quase como um ronronado.
Ficamos ali por um tempo, repousando e encarando a paisagem. Fechei os olhos e inalei profundamente o perfume das flores, logo me deparando com um cheiro quente e amadeirado que arrebatou todo o meu foco.
– Alces – sussurrei, já enlouquecida pela sede.
Com um salto leve, eu estava de pé. Jacob também se levantou, trotando para perto de mim. Começamos a correr mais uma vez, o lobo esforçando-se para acompanhar meu ritmo frenético. O chão assumiu um declive acentuado, fazendo meus pés praticamente deslizarem pelo chão. O odor almiscarado ficava mais forte, e logo pude ouvir o som de cascos tocando o solo. A vegetação rareava enquanto nos aproximávamos, agora sendo constituída basicamente de grama e capim.
E então, meus olhos finalmente localizaram o animal. Era grande e tinha tranquilamente dez vezes a minha massa corporal. Não perdi tempo; lancei-me contra ele, derrubando nós dois no chão da floresta. O alce tentou resistir, desferindo patadas em meus ombros. Segurei-o com força, impedindo sua movimentação. Meus dentes procuraram ansiosamente pelo seu pescoço – o ponto onde o fluxo de sangue se concentrava – e minha mandíbula se fechou facilmente no local. O sabor do líquido era denso e quente, nem de longe um dos melhores, mas era o suficiente para atenuar a sede intensa que se apossava dos meus sentidos. Suguei o sangue com avidez implacável. A luta do mamífero se esvaia aos poucos, até o momento em que ele não tinha mais forças.
O alce se acabou antes que minha sede fosse completamente saciada. Afastei a carcaça de meu corpo e me levantei num único movimento, limpando os lábios sujos na parte sensível do pulso.
Jacob apenas me observava a alguns metros, a cabeça repousada sobre as patas. Caminhei até ele e um sorriso de lobo surgiu entre seus dentes afiados. Ele me recebeu com uma lambida colossal, e eu ri, acariciando seu focinho.
– Podemos voltar – balbuciei.
Jake assentiu. Subi novamente em suas costas com um salto leve e iniciamos uma caminhada, dessa vez a caminho de casa.
Meu estômago se revirou, trazendo consigo o mal-estar repentino. Encarei a barriga levemente saliente e, de repente, eu soube o motivo de minha sede intensa: Sophia.
(...)
Chegamos à mansão uma hora depois. Jacob aproveitara para caçar alguns pequenos roedores pelo caminho. Também arrebatei três felinos. Eu nunca cacei em grande escala, mas, naquele dia, a sede era quase incontrolável. Eu não conseguia me saciar totalmente, mesmo que bebesse uma quantidade absurda de sangue.
Jacob permaneceu na floresta, assumindo a forma humana e vestindo-se com um calção abarrotado. Enquanto isso, bati à porta. Jasper a abriu, suas cicatrizes brilhando contra a luz do sol.
– Está tudo bem, Nessie? – questionou sereno. – Você parece nervosa.
– Ela tentou atacar um grupo de humanos na floresta – explicou Jake, já ao meu lado.
Os olhos de Jasper se arregalaram, cheios de preocupação, mas ele assentiu de leve. Retirou as mãos do batente da porta, permitindo nossa entrada. Jacob enlaçou minha cintura quando alcançamos a sala de estar.
– Eu já volto, meu amor – murmurei.
Depositei um beijo casual em seus lábios e me libertei lentamente de seus braços firmes. Em seguida, caminhei rumo ao terceiro andar, onde encontrei Carlisle em seu consultório, trabalhando concentradamente em um novo equipamento hospitalar.
– Carlisle? – chamei adentrando cuidadosamente no aposento.
Ele se desviou de sua tarefa por um instante, lançando um sorriso radiante ao me ver.
– Sim, querida?
– Será que posso conversar com você um minuto? – perguntei insegura, mordiscando a cutícula do polegar.
– Claro, sente-se – ele apontou para uma poltrona branca sob a janela.
Fiz o que ele pediu, confortando-me no couro rígido do móvel.
– Em que posso ser útil? – inquiriu atencioso.
– Quero falar sobre Sophia – respondi num fio de voz.
Carlisle deixou de lado tudo aquilo que fazia segundos atrás, andando prontamente até mim. Um misto de curiosidade e preocupação moldava seu rosto pétreo.
– Eu saí caçar com Jacob de manhã e... não consegui me sentir saciada com o sangue animal – contei hesitante. Meu avô vincou a testa, aguardando maiores explicações. – Eu senti atração por sangue humano, Carlisle.
Vovô não conseguiu reprimir uma exclamação surpresa. Seus músculos, de repente, ficaram tensos. Ele permaneceu imóvel por um tempo que pareceu infindável. Esfreguei as mãos úmidas de suor, receosa.
– E você acredita que isso tenha relação com seu bebê, certo? – sua voz era rouca enquanto ele perdia-se nos devaneios.
Assenti com um gesto de cabeça.
– Foi como eu pensava – continuou ele. – Híbridos costumam optar pelo sangue humano. É muito mais nutritivo e satisfatório do que o animal.
– Mas eu não quero sacrificar a vida de ninguém! – exclamei exaltada. – Não haveria outra alternativa para que eu possa saciá-la?
Carlisle pensou por um longo segundo, os lábios formando uma linha rígida enquanto ele tentava buscar uma solução. Ele levantou a mão e posicionou-a sob o queixo, pensativo.
– Talvez... – conjecturou ele.
– Sim? – indaguei subitamente esperançosa.
– Não sei se é uma boa ideia...
– Diga-me, vovô – insisti veemente. – Tento qualquer coisa.
– Eu pensei em tentar algo que fiz com Bella há alguns anos, quando ela estava grávida de você – começou ele a contragosto. – Posso conseguir algumas bolsas de O negativo para você beber.
– Isso é uma ideia brilhante, é ótimo! – comemorei. Porém, quando notei que Carlisle não compartilhava da mesma animação que eu, comecei a me preocupar. – O que foi?
– Isso vai exigir muito do seu autocontrole, Nessie – explicou cautelosamente. – Quando se entra em contato com o sangue humano é quase impossível se desligar.
Suspirei apavorada. Era algo muito mais complexo do que eu imaginara. Franzi os lábios, tentando engolir o nó na garganta. Não sabia se eu poderia ser capaz de me controlar. Dado o fato que acontecera de manhã, era bastante improvável.
– Tudo bem – murmurei quase inconscientemente. – Não custa nada testar a teoria.
– Como quiser – Carlisle deu de ombros, sabendo que eu não desistiria enquanto não alcançasse meus objetivos.
Eu tinha consciência dos riscos, assim como estava disposta a enfrentá-los. Uma parte de mim era humana, e isso fazia com que eu sequer pensasse na hipótese de matar um indivíduo, seja qual for a situação. Eu me concentraria nesse propósito e impediria que meus instintos falassem mais alto.
Deixei o consultório, batendo a porta trás de mim. Desci lentamente o lance de escadas até o primeiro andar e fui surpreendida por Alice, que saltou subitamente diante de mim. Gritei por impulso, pondo a mão sobre o peito e sentindo as batidas incessantes do coração após o susto.
– Caramba, Alice! – censurei-a, tentando normalizar a respiração ofegante. – Quer me matar?
– Argh! – exclamou escandalizada.
Franzi o cenho e me perguntei se havia feito algo de errado.
– Olhe para estas roupas! – ela tocou o tecido fino da camisola que eu ainda não havia me incomodado em retirar. Estava rasgada e suja de sangue.
Revirei os olhos teatralmente. Alice fechou a cara, agarrando-me pela mão e puxando-me para algum dos cômodos da casa.
– O que está fazendo? – perguntei irritada enquanto tentava me desvencilhar do aperto em meu pulso.
– Você precisa tomar um banho agora mesmo. E eu vou providenciar novas roupas – ela se virou em minha direção, fuzilando-me com os olhos cor de topázio. – E não ouse estragá-las novamente.
Ri, percebendo o modo como seu nariz franzia quando ela aparentava estar tempestuosa. Alice grunhiu, torcendo os lábios delicados. Meu riso agudo preencheu a sala, deixando Alice ainda mais rabugenta.
(...)
Após um longo e relaxante banho de banheira, Alice insistiu que eu vestisse as peças de roupa cuidadosamente selecionadas por ela – uma saia florida, uma regata branca simples, um cardigã vermelho e um par de sapatilhas brancas incrustadas com lantejoulas.
Nesse momento, estávamos no banheiro, a bancada repleta de produtos para diferentes finalidades, mas com um único propósito: embelezar-me. Eu permanecia sentada em uma cadeira improvisada enquanto Alice escovava meus cabelos úmidos num movimento lento e ritmado. Rachel e Rebecca também estavam conosco – enquanto Rebecca coloria minhas unhas de vermelho vivo, Rachel estava sentada sobre as grandes placas de mármore que circundavam a banheira, balançando as pernas no ar e observando as mãos hábeis de Alice e sua irmã agirem.
Pendi a cabeça para trás para fitar o rosto impecável de minha tia.
– Posso lhe fazer uma pergunta?
– Qualquer uma – respondeu sem desviar os olhos de meus cabelos.
– Hoje de manhã, quando estávamos na garagem... – busquei pelas palavras certas em minha mente. – O que exatamente aconteceu?
Uma expressão de sobressalto pareceu surgir em sua face concentrada. A velocidade em que ela penteava meus cabelos diminuiu subitamente à medida que ela procurava uma resposta.
– É difícil explicar – seus olhos ficaram inexpressivos enquanto ela imergia em devaneios. – É como se eu tivesse adormecido e perdesse completamente a noção de tempo. E sei que isso é impossível, afinal, sou uma imortal. Lembro-me de uma floresta banhada pela luz da manhã e algum indivíduo conversando comigo, mas não consegui identificá-lo. A sua aparência e voz eram distorcidas, totalmente indistinguíveis. E, de repente, fui parar em um lugar diferente do qual eu estava em questão de poucos segundos.
Um silêncio agonizante pairou pelo ambiente após a explicação pouco coerente de Alice. Para mim havia muito sentido, uma vez que eu era uma das únicas que sabia da situação perigosa que nos circundava.
– Também tive uma sensação muito parecida – Rachel irrompeu o silêncio.
Franzi os lábios, desejando que ninguém mais ousasse se manifestar.
– Estranho... senti exatamente o mesmo que você, Alice – Rebecca balbuciou, fitando minha tia com olhos apreensivos. – Conversei com Kim esta manhã e ela também pareceu ter essa mesma impressão.
– Algo muito estanho está acontecendo – disse Alice com os olhos semicerrados.
– Não acho – rebati depressa. – Eu não senti absolutamente nada. Além disso, não temos mais nenhum inimigo com quem tenhamos de nos preocupar. E se realmente houvesse alguma coisa, certamente Alice preveria.
As expressões das garotas a minha volta se aliviaram.
– Tem razão – concordou Rachel. – Não há nenhuma explicação plausível, deve ter sido apenas uma grande coincidência.
Suspirei pesadamente, sentindo-me mitigada por conseguir contornar o impasse com precisão. A desconfiança sobre o que acontecera nesta manhã estava tomando forma, e eu precisava ser extremamente cautelosa. Eu não queria envolver meus familiares em eu problema que eu criei. Eles já me defenderam uma vez, há quase dez anos atrás. E agora era a minha chance de retribuir.
– Já basta, meninas – murmurei levantando-me da cadeira e afastando-me de Alice e Rachel.
O lábio inferior de minha tia se transformou em um biquinho dramático, exatamente como eu pensei que aconteceria.
– Por quê? – a voz de Alice parecia o tilintar agudo de um sino.
Dei de ombros, parando por um instante para observar meus cachos acobreados caindo em ondas impecáveis sobre os ombros e as unhas carmim cintilando contra a luz intensa e azulada do local.
– Apenas quero ir para casa – respondi, por fim. – Obrigada pelo trabalho.
Um sorriso amigável irrompeu pelos lábios perfeitamente desenhados de Alice. Em um segundo ela estava ao meu lado, tomando-me em seus braços e me girando em um aperto quase esmagador.
– Até amanhã – cantarolou ela enquanto acompanhava-me até a porta.
– Até amanhã – concordei com pesar. Nossos destinos estavam seguindo um rumo tão incerto que eu não tinha certeza se realmente poderia vê-la no dia seguinte.
(...)
– O que você, a sanguessuga em miniatura e minhas irmãs estavam aprontando hoje à tarde? – inquiriu Jacob, os lábios curvados em um sorriso.
– É Alice – corrigi revirando os olhos. O lobo deu de ombros e um riso zombeteiro irrompeu de seus lábios. – Nós estávamos apenas... tendo um tempo de garotas.
– Tempo de garotas? – ele repetiu de forma distorcida. – Isso soa tão... humano.
– Uma parcela de mim é humana. Ou seja, também possuo necessidades humanas.
Eu e Jacob estávamos em casa, abraçados na cama. Jake envolvia delicadamente minha cintura enquanto eu trilhava uma linha imaginária com os dedos em seu peitoral, o qual estava coberto por uma camisa surrada. Já passava das onze da noite e a luz fluorescente da lua cheia ultrapassava o vidro translúcido da janela, batendo insistentemente contra nossos corpos.
– Ness, como você pode ser tão perfeita? – Jacob gemeu de repente, levantando meu rosto com o indicador para que meus olhos encontrassem os seus.
O mundo parecia sumir à minha volta quando eu entrava em contato com o olhar penetrante do lobo. Meus lábios involuntariamente procuraram pelos dele, logo relaxando ao senti-los contra minha boca. Jake me afastou por um momento. Relutante, separei-me alguns centímetros dele, confusa por sua reação súbita. Ele levou a mão a minha barriga levemente saliente e começou a afagá-la. Sorri radiante, novamente encontrando seus olhos negros e penetrantes.
– Aposto que ela será tão linda quanto a mãe.
Meus olhos encheram-se de lágrimas e eu lutei para evitá-las, mas foi um ato inútil. Quando me dei conta, gotas que brilhavam sob a luz da lua contornavam silenciosamente as maçãs do meu rosto. Limpei-as imediatamente na parte interna do pulso.
– Eu amo você, Jacob Black – murmurei depositando um beijo carinhoso em sua bochecha.
Jake lançou-me um sorriso resplandecente em resposta.
– Durma, meu amor – balbuciou em meus cabelos.
O lobo me trouxe para mais perto, aninhando-me em seu abraço cálido. Pousei a cabeça em seu peito, absorvendo seu calor reconfortante. Minhas pálpebras foram se fechando gradualmente, até que finalmente imergi na realidade paralela de meus sonhos.
(...)
Crack.
O estalo definido fez meu coração dar um solavanco. Suas batidas eram tão fortes que coloquei a mão sobre ele, como se conseguisse silenciá-lo se o pressionasse.
O que era aquilo? Seria Heinrich novamente, querendo prestar contas comigo? Minhas entranhas se contraíram ao pensar na hipótese.
Libertei-me dos braços de Jacob e me sentei na cama. Permaneci completamente imóvel, exceto pelas mãos que insistiam em tremer compulsivamente.
Ainda estava paralisada quando ouvi novamente a batida. Saltei, abafando um grito involuntário com o edredom. Agora meu corpo inteiro tremia, como se uma corrente elétrica atravessasse meus músculos rígidos.
O próximo barulho me fez entrar em ação. O rangido agudo de dobradiças que necessitavam urgentemente de lubrificação indicava que a janela estava sendo aberta. Peguei o castiçal dourado que jazia sobre a escrivaninha de mogno e caminhei com passos minuciosamente calculados até a janela, esperando por cabelos loiros e olhos vermelhos.
– Renesmee, sou eu – a voz aveludada de Bella irrompeu o silêncio do quarto.
Suspirei aliviada, largando o castiçal no chão e correndo para abraçá-la.
– Mamãe, você quase me matou de susto! – exclamei entre os soluços. – Achei que fosse Heinrich e...
– Shii – interrompeu ela, pressionando o dedo indicador em meus lábios. – Siga-me.
Ela saltou da janela, os cabelos longos esvoaçando ao vento, e pousou com graciosidade incomparável sobre um amontoado de pedras lisas. Ela levantou os braços, fazendo um sinal para que eu a acompanhasse.
Dei uma última chegada em Jacob, roncando tão alto que era bastante improvável que tivesse ouvido alguma coisa. Em seguida, peguei distância e disparei na direção da janela. Saltei, deixando escapar uma exclamação de espanto ao sentir o vento desgrenhar meus cabelos e roupas. Pousei com a mesma elegância de Bella, meus pés tocando o chão sem emitir um único som.
– O que você quer? – indaguei enquanto mamãe puxava-me para o meio dos abetos.
As árvores, o céu enluarado e as criaturas noturnas não passavam de um borrão enquanto vagávamos sem rumo pela floresta escura. Agarrei-me à Bella, minhas unhas cravando em sua pele pétrea. Continuamos correndo quilômetros adiante. Minha casa sumia ao horizonte conforme avançávamos. Eu não fazia ideia de quais eram os propósitos de Bella, apenas a segui.
Quando acreditou ser distante ao bastante, mamãe parou e esquadrinhou o ambiente a sua volta. Não sei do que aquilo adiantaria, uma vez que a floresta estava escura como breu.
– Por que nos trouxe até aqui? – perguntei confusa.
Bella retrocedeu alguns passos e recostou-se no tronco robusto de um pinheiro.
– Precisamos da ajuda de Leona.
– O quê? – cuspi as palavras, não acreditando no que ela acabara de me dizer. – Vamos confiar na pessoa que colocou nossas vidas em risco?
– Pense um pouco, Nessie – argumentou imediatamente. – Mesmo que os objetivos de Leona não sejam realmente altruístas, podemos colher muitas informações junto dela. Estamos em completa desvantagem, e o que a vampira sabe pode contribuir muito para que consigamos destruir Heinrich.
Bella tinha toda a razão. O conhecimento que Leona possuía sobre os planos do irmão eram extremamente valiosos. Inspirei profundamente e ergui as mãos num gesto de rendição. Mesmo que eu não fosse adepta a ideia de termos Leona como uma aliada, essa era nossa única saída, levando em conta nosso número completamente reduzido.
Houve um ruído do farfalhar de folhas e alguém saltou atrás de mim, lançando uma lufada de vento gélido em minhas costas cobertas apenas por uma camisola de seda.
– Sabia que confiariam em mim – sua voz era sombria ao ecoar por entre as árvores corpulentas da floresta.
Não precisei me virar para saber que Leona estava ali, em uma proximidade perigosa.
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