Estrelas
1 Estrelas
No meio do caminho, havia uma casa. Era uma casa feia, com as paredes manchadas pelo mofo e a sujeira de tanto tempo passado. Havia algumas partes em que o reboco caía melancolicamente a cada mínimo vento que se aproximasse da construção. As janelas, que em outros tempos eram grandes e de uma cor castanha brilhante, agora se resumiam a escassos tocos de madeira quebrados, que balançavam e, volta e meia, caíam no jardim de flores mortas. Era o retrato de uma morte lenta, gradual e dolorosa.
Assim como a noite, que surge vagarosamente após a queda do Sol, uma luz começou a emanar do outro lado da rua. Era de um tom de azul extremamente cintilante, que se aproximava de um anil repleto de vida. Ela estava concentrada em um círculo, que girava incessantemente, agressivo, por vezes pendendo para algum dos lados, mas logo se reequilibrando novamente. Não havia ninguém na rua que pudesse presenciar aquele fenômeno.
O círculo cresceu assustadoramente, quase se tornando do tamanho da casa. Não parava de girar por nenhum segundo sequer e, com o passar lento dos segundos, começou a tomar forma, como se fosse uma massa de modelar. O que antes mostrava algo redondo, começou a ficar muito achatado. Bem no centro, o círculo se fechou, criando duas figuras imensas. Elas se uniram, diminuindo um pouco o tamanho massivo.
Haffir dormia tranqüilo, ameaçando soltar um ronco agudo a qualquer momento. Estava coberto por um lençol de seda transparente, manchado num dos lados de uma cor que se assemelhava a sangue seco. Seus cabelos negros encontravam-se espalhados por toda a extensão do travesseiro, que era visivelmente três vezes maior que a sua cabeça. Ele estava sem camisa e os pelos no peito recém haviam começado a se mostrar para o mundo. Estava na flor da idade, na flor do amadurecimento juvenil. Virou-se de lado, mas manteve-se sonolento.
O quarto estava uma zona: as paredes haviam sido riscadas com tinta e, assim como o lado de fora, estavam com o reboco imensamente comprometido. Havia sujeira, muita sujeira, e os ratos corriam velozes procurando qualquer fonte de alimento que pudesse lhes manter vivos mais uma noite. Mas não havia nada. O corpo desnutrido de Haffir revelava que ele deveria estar sem comida há dias, talvez até semanas. Devia estar se alimentando apenas de restos de lixos que encontrava pela rua, isso se saísse para a rua.
O círculo, que naquela altura já havia passado por mais algumas transformações, agora assumia uma forma imponente: duas gigantescas asas se erguiam por cima da casa, feitas de penas azuis que se moviam graciosamente devido à fraca brisa noturna. No entanto, tendo uma visão um pouco mais ampliada, percebia-se que os fenômenos azuis havia tomando conta de todas as ruas. Estavam por toda a parte. Círculos, asas, figuras humanoides, animais… tudo que pudesse ser moldado naquela luz brilhante azul anil se movia, flutuando pelas ruas, em direção a todas as casas que ali se situavam. Era uma imagem linda, mas ao mesmo tempo extremamente assustadora.
Uma águia passou batendo asas e desapareceu em meio a nuvens escuras e carregadas de chuva e cinzas. Um garotinho muito pequeno, quase transparente, caminhou em direção a uma casa e, sem nem estacar por alguns segundos em frente à porta, atravessou-a como se não fosse feita de algo concreto. As asas, que pareciam ter diminuído drasticamente de tamanho, havia flutuando por cima dos jardins da casa de Haffir e, naquele momento, elevavam-se muito devagar acima de sua janela. Na casa vizinha, uma mulher de quase três metros de altura, que tinha suas feições borradas por causa da enorme quantidade de energia azul que emanava, fez uma reverência às asas.
Se elas pudessem expressar algo, se é que não expressavam em sua profunda essência, teriam respondido à reverência com um gracioso movimento, ou talvez um brilho diferente num possível olhar que nunca existiria. Eram apenas duas asas, que flutuavam lado a lado, sem a presença de alguém que as ostentasse nas costas. Não havia figura, mas a alma era algo que não podia se apartar daquela linda figura alada.
Haffir agora roncava, com a mais leve serenidade de um garoto. Provavelmente sonhando, mas não havia como ter certeza. Os sonhos eram comuns naquele lugar, porém normalmente mantinham seu status de sonhos inatingíveis, utopias criadas por mentes desgastadas. Era uma região de dor e os sonhos costumavam crescer em um lugar desses, mas nunca se desenvolver por completo, como deveria ser feito. Eram embriões, que morriam. E morriam. E continuavam morrendo sem que ninguém pudesse fazer nada. Ou será que alguém poderia?
O garoto novamente virou-se de lado e as suas costelas ossudas se revelaram com mais clareza. A pele estava pálida e os lábios completamente roxos. Haffir possuía um machucado logo abaixo do olho direito, que havia deixado uma marca roxa bem escura. Seu rosto, mesmo destroçado devido a todas as circunstâncias, mantinha a esperança que se via apenas nas pessoas mais sonhadoras. Sim. Haffir estava sonhando. E ele sonhava longe, tão longe que talvez fosse num lugar fora da Terra, talvez um paraíso que ninguém conseguisse conceber em suas visões simplificadas do universo.
As asas, que haviam se diminuído tanto que pareciam pequenos bonecos de pelúcia, atravessaram a janela de Haffir e estacaram em frente à cama. Se elas pudessem sentir algum cheiro, sentiram um cheiro fétido de fezes de rato e urina, muito forte. Era o cheiro característico daquela região, que já não dispunha de um sistema de saneamento eficiente. Dispunha, alias, de muito pouca coisa. Haviam sobrado apenas destroços do que antes poderia se considerar um grande bairro.
Vagarosamente, elas começaram a crescer de novo, aumentando para todas as direções. Era um movimento quase celestial e tão silencioso que Haffir não ameaçou acordar em nenhum momento. Seu sono, mesmo que não fosse o mais pesado de todos, estava entrelaçado em sonhos dos quais ele não pretendia acordar. Nem mesmo se ouvisse tiros ou os ameaçadores sons de botas marchando abaixo de sua janela. Nem mesmo se sentisse o fedor de morte que costumava cair sobre seus telhados. Nem mesmo se o sangue lhe jorrasse na face e visse algum amigo morrendo com uma bala perdida ou uma bomba cega. Mas, se a morte batesse na sua porta, talvez acordasse.
Quando finalmente atingiram um bom volume, quase que totalizando a parte vazia do quarto, as asas encerraram seu processo de crescimento. Havia passado apenas alguns segundos desde então e elas permaneciam imóveis em frente ao garoto, como se aguardassem que algo acontecesse antes de tomar qualquer iniciativa. E estavam aguardando. O tempo era precioso e tudo seria feito conforme deveria.
Os segundos passavam tão lentos que pareciam infinitos. As asas repousaram nos pés da cama, deixando que sua energia de coloração azul inundasse o lençol, tornando-o tão brilhante quanto aquela figura celestial. Haffir piscou forte algumas vezes, sentindo que havia algo de diferente no quarto. Ele não teria acordado por nenhum outro motivo. Nenhum.
No instante em que abriu os olhos e viu aquela imagem, ele não se sentiu surpreso. Mesmo que nunca tivesse visto nada como aquela energia na sua vida, parecia conhecê-la profundamente, como se fossem velhos amigos. Como se já tivessem se cruzado por distintos caminhos, trocados olhares, toques na escuridão e palavras que se perderam no tempo. Não era uma imagem de toda desconhecida e parecia ter sido implantada no fundo do consciente do garoto, que manteve sua calma completa e sua face sem expressão alguma.
— Você… – disse ele, com a voz titubeante, – é exatamente igual aos meus sonhos. Até mesmo a sua cor.
As asas não esboçaram movimento algum que pudesse indicar comunicação. Permaneceram imóveis. A surpresa de Haffir era compreensível, afinal, aquele momento já havia passado em frente aos seus olhos tantas vezes que já perdera a conta.
— Nós vamos agora? – perguntou ele, deixando escapar, no fundo dos seus olhos, uma expressão de tristeza completamente vazia. – Eu… eu não quero ir. Não agora.
Pela primeira vez desde que Haffir acordara, as asas movimentaram-se suavemente em sua direção, mantendo a graciosidade que lhes era habitual. O lençol foi ficando cada vez mais brilhante e a luz irrompeu na face do garoto, que agora parecia um pouco assustado. Ele continuava a acreditar que seu sofrimento em Terra iria passar, em algum momento, e que todo aquele conflito iria cessar. Não havia evidência nenhuma que pudesse justificar a esperança de Haffir, exceto a confiança na humanidade.
— Vai doer?
O movimento das asas pareceu dar a entender que não haveria dor, mas não tinha como saber. Nenhuma comunicação estava estabelecida entre ambos, mas o garoto sentia como se uma voz no seu interior conseguisse lhe responder todas as suas dúvidas.
Com um movimento rápido, as asas se enroscaram no frágil corpo desnutrido de Haffir e o ergueram sobre o ar. Ele sentiu um frio na barriga transformar-se num arrepio rápido que lhe percorreu a espinha. As asas, mesmo que parecessem ser extremamente transparentes e transponíveis, possuíam uma concretude que surpreendeu ao garoto. Ele parecia estar flutuando acima de uma nuvem tão espessa que se assemelhava a uma cama quente e confortável, ou tão real quanto.
As asas, bem mais apressadas que na sua chegada, carregaram o corpo de Haffir através da parede, deparando-se novamente com a noite fria e escura da cidade. As outras energias também estavam deixando suas residências e, naquele instante, carregavam uma pessoa cada uma. A mulher que se aproximara anteriormente trazia consiga uma pequena menininha nos ombros, de no máximo seis anos. Ela olhava para tudo, com os olhinhos miúdos arregalados, deixando escapar algumas lágrimas comoventes. Ao lado da mulher, caminhava um rinoceronte grandioso, com um chifre que se estendia por quase o dobro do seu tamanho, pontudo como um arranha-céu. Ele carregava um homem gordo e careca, que estava deitado por suas costas com as mãos sob a nuca. O homem possuía machucados por todo o corpo e estava nu.
As energias elevaram-se aos poucos, conjuntamente, passando por cima dos telhados e revelando mais dezenas, centenas e milhares por toda a parte, com todos os formatos que se pudessem imaginar. Era uma cena tão grandiosa que não poderia ser medida em palavras. Haffir olhava tudo com a curiosidade da juventude, os olhos arregalados que, antes assustados, agora pareciam maravilhados.
— Por que estão todos aqui?
Ele não fazia ideia do porquê de ver tantos rostos conhecidos flutuando ao seu lado. Sua curiosidade era do tamanho de sua admiração. Foi quando avistou pequenas luzes no horizonte, breves segundos depois, que Haffir finalmente teve a total compreensão do que estava acontecendo ali. As asas apertaram-no contra si mesmas, segurando-o com mais firmeza, mas sem perder o conforto. Os pequenos pontos de luz amarelada cresciam numa velocidade impressionante, a cada milésimo de segundo maiores. Já sobrevoavam a cidade e pareciam ser o completo oposto daquelas figuras graciosas: traziam consigo a imagem e o fedor da morte, da destruição e do mal.
As bombas caíram exatamente às 3h41 da manhã, ocasionando uma das maiores explosões que a cidade já havia presenciado. O brilho no olhar de Haffir não era mais ocasionado pela maravilha daquelas cenas, mas sim pelo horror. Pela luz que emanavam de cada foco das explosões. Os destroços foram lançados para todos os lados. Uma nuvem densa de poeira escura começou a se erguer e as figuras elevaram-se ainda mais em direção aos céus, tentando fugir daquela sujeira podre. Em poucos segundos, nada mais conseguia ser visto lá embaixo, exceto pelo nevoeiro. O cheiro de carne queimada e morte subia, penetrando nas narinas sensíveis do garoto, que coçou o rosto incomodado.
— Olá, Haffir. – disse uma voz desconhecida, que Haffir imaginou ouvir de dentro da sua cabeça. Lentamente sentiu seu corpo ficando mais fraco do que já estava e as pálpebras ganhando um peso incalculável. Adormeceu, assim como fizera algumas horas atrás, sonhando com um mundo – não totalmente melhor – mas, pelo menos, diferente.
A noite estava fria e escura, mas o céu… o céu estava coberto por estrelas.
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