Estrela Polaris

4 Apenas uma dança


Eu a odeio, odeio como ela dá ordens, odeio seu sarcasmo, odeio como ela me toca sem permissão, odeio aquele sorriso, odeio seu corpo, sua voz, suas mãos e seus olhos, mais importante, eu me odeio quando me pego a observando tão cautelosamente gravando sua silhueta em meus olhos.

— E foi assim que meu povo descobriu que a lua afeta diretamente os rios e mares. — Dalua termina sua longa história que eu não escutei

— Uau, devem mesmo ser muito inteligentes, mas por que eles se chamam Homens?

— Ah, ótima pergunta, senhorita, bem, a muito tempo a trás.....

”Por que eu fui perguntar?”, reclamo comigo mesma tentando me livrar de todos os pedacinhos de madeira do deque antes que algum dos tripulantes pisasse em uma farpa e eu tivesse que receber as reclamações de Lena.

— Como vai o trabalho? — Lena aparece sorridente

— Falando no diabo. — murmuro baixo para mim mesma

— Muito bom dia, capitã! — diz Dalua

— Por que não é gentil como ele? — me pergunta

— Talvez por você ser o diabo na minha vida

— Mesmo? — dá um sorriso perverso e me prende contra a beira do deque se segurando no corrimão com os braços me impedindo de passar — Não sou especialmente religiosa, mas..... fiquei sabendo que o diabo é sedutor. — passa seu dedo indicador pela parte debaixo do meu queixo até a ponta

Dalua se esconde timidamente atrás de suas pequenas mãos e desce do barril onde estava de pé conversando comigo antes.

— E-eu vou ver o garotinho na cozinha, se precisarem de mim e só chamar. — fala correndo para longe

— Parece que o baixinho não se dá muito bem com esse tipo de cena. — ela ri

— É, eu também não. — tento passar por ela, que se aproxima mais reduzindo o pouco espaço que eu tinha

— Vamos, não seja assim, só vim te fazer um convite

— Convite?

— Vamos parar em um pequeno planeta próximo, um reino está tendo uma festa e eu tenho uns velhos acordos com o rei, tenho que entregar a mercadoria dele

— E o que isso tem a ver como um convite? — faço uma expressão de confusão

— Ele vai dar um baile hoje, sabe, apenas para distrair a todos quando a entrega da mercadoria for feita

— E você quer....

— Quero que seja minha acompanhante hoje

— Eu? Não, não, não. — rio um pouco — Poderia apenas levar alguém da tripulação, acho que um homem e uma mulher chamaria menos atenção

— Já olhou para o homens daqui? — olhamos pra o lado e vemos os grandes, fortes e gordos homens suados e sujos

— Ok, você tem um ponto. — suspiro

— Além do mais.... — ela aproxima seus lábios do meu ouvido — Eu realmente quero ir com você

Coro involuntariamente, ela costumava causar esse efeito em mim, me fazia odiá-la apenas para depois dizer ou fazer algo que faz meu subconsciente sentir vontade que ela continue.

— Tudo bem,... eu vou com você

— Espero vê-la bem bonita. — sorri bem perto do meu rosto — Assim que terminar pergunte ao chefe sobre Edgar, ele vai saber o que fazer

Se afasta me fazendo observar o movimento de seus quadris indo embora, me sentia agitada e nervosa, comecei a limpar o deque mais rapidamente como se a noite fosse chegar mais rápido caso eu terminasse de limpar logo.

Ainda que tivesse demorado algumas horas para terminar, me senti feliz de ter acabado antes de ser tão tarde, desci até a cozinha pra falar com o chefe.

— Hey, parede de escola, não apareceu pra ajudar hoje, o deque estava tão sujo assim? — ele ri como se costume

— Ah, sim, na verdade eu....

— O que foi? Você parece nervosa

— Edgar, isso, eu preciso ver Edgar. — digo um pouco nervosa

— Edgar, é?..... — ele coça o queixo — Naquela porta por ali. — aponta pra porta no canto

— Mana, mana. — Gabe aparece com uma cesta pra mim — Veja, eu aprendi a limpar lulas. — sorri

— Uau, Gabe, isso é incrível. — sorrio e afago a cabeça dele — Está se divertindo aqui com o chefe

— Muito! Mal posso esperar pra você ter mais tempo pra ficar aqui também

— Espero que seja logo também. — o abraço — Agora a mana tem que fazer um trabalho, ok?

— Ok! — acena animadamente enquanto eu viro de costas e vou até a porta

Bato na porta e ninguém responde, giro a maçaneta, a porta estava destrancada, entro cautelosamente perguntando se tinha alguém ali.

— Querida, você está absolutamente fabulosa hoje, talvez com aquela novo batom que comprou fique mais sexy ainda. — ele falava com o espelho

— Eh.... olá? — falo me aproximando, ele dá um pequeno grito quando me vê se aproximando, tosse como se nada tivesse acontecido e começa a falar

— Como posso ajudar hoje, meu bem? — pergunta o homem magrelo, usando uma roupa feminina colorida, maquiagem e unhas postiças vermelhas

— Bem, eh....... Lena me pediu para falar com você e....

— Lena, é? — ele sorri apoiando o queixo em uma mão — Não me lembro a última vez que a capitã se permitiu ser chamada pelo nome

— M-mesmo? — começo a me sentir mais nervosa ainda com ele sorrindo desse jeito

— Ela passou aqui mais cedo, me disse para ajudá-la com o vestido e, querida, você precisa de muita ajuda. — diz se levantando e me rodeando

— V-vestido?

— Nunca tinha visto esse vestido antes, então muito provavelmente a capitã o comprou recentemente

— É?

— Isso não é comum dela. — ri — Então vamos trabalhar com isso logo

Edgar me ajuda a colocar o vestido tomara que caia cor de creme na altura dos joelhos, ajeitou meu cabelo com um penteado que chamou de “coiffure de mariée boheme”, mas para mim era apenas uma versão muito bonita de um coque, eu não entendia muito sobre isso. Me maquiou fazendo com que minha pele pálida ganhasse um pouco mais de cor e me passou um batom de cor parecida com o do vestido.

— A capitã vai ficar bem feliz com uma companhia dessas. — diz me olhando como se admirasse seu trabalho

— Obrigada pela ajuda

— Imagine, apenas não se demore, a capitã já deve estar pronta a essa hora

Agradeço mais uma vez e vou para fora, passo rápido pelo chefe e por Gabe, subo as escadas, Lena já estava ali me esperando, seu vestido era mais longo que o meu, era preto e tinha uma abertura vertical na parte da perna esquerda, seus cabelos negros ondulados soltos sobre seus ombros estavam tão lindos como de costume, eu a observer de cima a baixo, me senti uma pouco mais agitada.

— Está pronta? — pergunta

— Claro

Ela segura minha mão enquanto descemos do navio no porto, fomos levadas por um carro preto até o local. O castelo era grande, haviam muitos homens e mulheres bem vestidos por ali, aquela velha sensação de não pertencer àquele lugar me fez sentir incomodada.

— Está tudo bem. — ela sussurra para mim e me sinto mais tranquila

Lena me deixa sentada em uma das mesas enquanto vai conversar com o rei, os tripulantes do navio era os responsáveis por levar a carga, mas não achei que levaria tanto tempo. Não sei bem quanto tempo estava ali, podiam ter sidos apenas alguns minutos, mas para mim pareceram horas, entediadamente balançava a taça com água apoiando meu queixo em minha mão.

— Demorei muito? — ela fala no meu ouvido por trás de mi e eu me assusto

— Ah, já está de volta

— Já terminei o que tinha que fazer. — se senta ao meu lado — Hora de fazer o que você quer fazer. — sorri

— Então...... — paro pra pensar um pouco me perguntando se era ou não constrangedor pedir o que estava imaginando — Você poderia dançar comigo?

— Hm? — ela sorri

— Q-quer dizer, já que estamos aqui achei que seria o mais comum a se fazer e....

— Ok. — ela segura minha mão encima da mesa — Se é isso que você quer

Lena puxa minha mão e vamos para o centro onde varios outros casais dançavam, uma música de valsa comum e genérica como todas, mas a música não estava me interessando no momento, era a garota a minha frente, seus cabelos negros caindo sobre os ombros, uma de suas mãos segurando na minha enquanto a outra se posicionava em minha cintura, sentia seu cheiro tão perto de mim e não conseguia parar de olhar para os seus olhos que me fitavam, aquele sorriso direcionado a mim, deve ter sido uma das únicas vezes que sorri de volta para ela, o mesmo sorriso, para a garota que eu tanto odiava.