Estrela Branca - Antologia do Amor
3 Parte III - Ponte
Era possível enxergar da janela do quarto da pousada, o local onde aconteceria o tal festival. Na beira de um lago, azul e calmo, de onde saltava uma ponte que interligava as barracas de doces e festividades às imediações do vilarejo.
Durante o dia não pude nada escrever; não tive inspiração. Além disso, nada mais me saia da cabeça, a não ser a moça das flores. Decerto devesse escrever sobre ela!
Assim que a noite chegou, desci até a rua mais baixa, e um senhor que vendia enfeites me ofereceu algumas coisinhas. Acima de tudo, naquela noite calorosa, estava minha ansiedade; mas não pude deixar de comprar daquele simpático senhor um presente, que talvez pudesse eu oferecer à ela.
Um colar. Era o que de mais idílico e sincero possuía; porém mesmo após a aquisição, questionei-a. Por fim, deixei-o no bolso do casaco, e parti à festa. Aproximei-me da ponte, e quando me pus a cruzá-la, alcançou-me aos ouvidos um cântico de seda, puro e doce. Segui-o com o rosto, e vinha de um palanque de tábuas, delicado e bem decorado, de onde ela cantava.
Confesso que foi difícil me manter concentrado. Fui ganhando a ponte e não lhe desgrudei os olhos. Não conseguia. Ao seu redor haviam os músicos, munidos de um acordeão, um violão, um violino e alguns tambores. Mas ela era só o que me importava.
Entoava comigo mesmo gracejos para lhe dedicar como uma oração. Ensaiava um colóquio, uma prosa, adiantava os elogios que iria fazer ao seu canto, já sentia-me junto a ela, tamanho era o aconchego daquela voz, quente e macia, apaixonada.
O público aplaudiu-a após a apresentação, e ela o aplaudiu de volta. Nesse instante, já me via prostrado frente ao palco. Sorriu-me com faceirice e alegria, saltando ao chão, e neste assomo me veio perto, e me abraçou.
— Que bom que veio! Fico tão feliz!
Nada adiantou toda aquela preparação. Não pude soltar uma palavra! Qual seria o feitiço? Ai, não sei. Estava grato, compartilhava da mesma felicidade, então algo havia de dizer!
— Cantas tão bem! Como pode?
Corou o rosto. Resguardou-se, parecia tímida, portanto, diferente. Sempre me surgiu tão enérgica e alegre... Foi diferente vê-la daquele jeito.
— Ora, como é cortês...! — Disse-me ela. — Veja, logo cantarei mais uma. Minha última por hoje, pois muitas irão se apresentar.
Solucei. E me dispus a cortar o silêncio dessa vez.
— Bem, estarei esperando então. Depois da apresentação, podemos, bem, passear?
No lépido suspiro que sucedeu meu alvitre, turgi-me internamente mas senti um calor de uma coragem que não sabia que possuia.
— Mas é claro! É o que eu iria lhe propor..!
Um assovio chamou-a de novo ao palco, e ela foi. Era adorada pelos moradores da região, que muito prestigiavam sua presença. No palco era cômica, dançante, peralta, eu diria. Porém, apenas nos momentos em que a canção propusesse. A nova peça a ser executada não propunha; era mais silenciosa e tristonha.
A festa inteira parou de dançar com brio e passou a dançar com ternura. Juntaram-se uns aos outros em cálidos abraços de bailado enamorado. Percebi que dentre todos eu era o único sozinho frente ao palco. Mas será mesmo..?
Com toda minha experiência breve de vida, cético fui ao falar sobre amores, claro equívoco meu. A vida tem dessas, de nos mostrar a realidade das coisas no momento certo. A voz dela me envolvia; seus vibratos, melismas, notas lisas de um timbre amável. Eu bem tento aqui descrever com todas as formas o que eu sentia, mas não posso; sou escritor, mas limitado. Não há vocabulário para exprimir aquilo. Creio que por tal beleza, mística, sagrada, ou simplesmente humana, me sentia completamente abraçado. E era cada salto de tom que nos fazia bailar. Estávamos dançando.
Jamais olvidarei desta noite, tenho total certeza. Parece-me exagero as vezes, mas às vezes em que sinto exagero me arrependo. Era amor, e eu já sabia disso. Apenas confirmei ao ouvi-la cantar desde a ponte..!
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