Estranho jeito de amar
1 Capítulo único
1950 — Rússia
Após a destruição do Projeto Viúvas Negras.
Enquanto seus colegas da récem-fundada S.H.I.E.L.D. comemoravam a primeira vitória, Peggy Carter estava apreensiva. O Projeto Viúva Negra, que treinava russas desde a infância para se tornarem armas humanas, havia finalmente sido derrubado. No entanto, Peggy sabia que um renascimento seria certo em algum momento. A União Sovética ainda contava com muitos fiéis seguidores que podiam já estar planejando seu renascimento. Como uma das fundadores da nova agência – junto com seu amigo Howard Stark – ela se preocupava com quão capaz seriam os agentes quando isso acontecesse.
Essas preocupações ocupavam sua cabeça de forma que ela não conseguisse relaxar. Por isso, ela percebeu facilmente que estava sendo observada. Em um canto, sozinha, estava uma mulher de cabelos pretos que tentava passar despercebida, embora fosse claro que ela não pertencia àquele lugar. Mais óbvio do que isso, era o fato que ela era uma agente. Peggy riu internamente, sabendo que a mulher estava fazendo um trabalho ruim. A primeira regra de perseguir alguém é nunca deixar que seu alvo saiba. Mas a desconhecida não para de olhar para ela. Na dúvida se a mulher era uma má agente ou se a intenção era justamente que Peggy percebesse, ela resolveu tomar uma atitude. Seguiu para o banheiro. Se a intenção era passar despercebida, sua observadora não sairia de seu lugar. Se fosse intencional, ela certamente a seguiria – e ela poderia interrogar a estranha.
Não teve erro, Peggy foi seguida.
— Uma boa agente não se deixaria ser notada. – disse Peggy – Então devo presumir que a missão não é simples vigilância. O que quer comigo?
— Claramente não aumentaram suas qualidades, Agente Carter – a mulher deu um sorriso de lado – Não queria estragar sua noite, mas precisamos da sua ajuda.
— E quem é você?
— Sou a Agente Hill. Maria Hill. Diretora da S.H.I.E.L.D. – respondeu, fazendo Peggy rir
— Claro, senhora diretora da S.H.I.E.L.D., e você espera que eu acredite nisso? – Agente Hill fez menção de falar, mas foi interrompida – Eu conheço a S.H.I.E.L.D., eu fundei a S.H.I.E.L.D., tenho conhecimentos que quase ninguém tem e tenho certeza de que nunca ouvi falar em você.
— Eu nunca disse que sou diretora da S.H.I.E.L.D. em 1950, Agente Carter.
— Porque isso faz muito mais sentido. – respondeu Peggy com a intenção de ir embora.
— Agente Carter, por favor, me ouça. – Peggy deu um suspiro pesado e esperou – Eu realmente serei a Diretora da S.H.I.E.L.D. em alguns anos, e nós realmente precisamos da sua ajuda. Olha, – ela suspirou – eu sei que fundou a S.H.I.E.L.D. com o senhor Stark, eu sei que conheceu o Capitão América e sei que acabaram de fechar o Projeto Viúva Negra. Isso é o suficiente para que acredite em mim?
— Talvez. Nesse caso, o que iria querer comigo?
— O Projeto Viúva Negra foi reativado. E com mais força do que em sua época. Felizmente, obtivemos êxito em trazer uma dessas garotas para trabalhar conosco. Por isso sabemos quão prejudicial ele é.
— Isso é informação nível seis, Agente Hill, – Peggy desdenhou – como obteve acesso?
— Essa classificação de nível é excelente, Agente Carter, mas não é o suficiente. De onde, ou melhor, de quando eu venho, foi preciso incluir mais níveis. Meu acesso é nível dez, o mais alto. Por favor, venha comigo. Certamente seu acesso será liberado até o nível nove, ao menos, por todo seu conhecimento e sua importância para a organização.
— Vamos dizer que eu acredito em você. Como exatamente eu iria para o futuro? Não creio que temos um estoque de máquinas do tempo.
— Se me permite dizer, podemos ir para algum lugar mais reservado? Tenho um quarto… – Peggy a interrompeu
— Se vamos sair daqui, pode ter certeza de que vamos para algum lugar que eu decida. Posso até estar inclinada a acreditar em sua história, Agente Hill, mas isso não significa que eu confie em você.
— Perfeitamente.
— Me acompanhe. – as duas Agentes se dirigiram à um local seguro para continuar sua conversa.
2016 – Cidade de Nova York
Torre dos Vingadores
— Coulson, da próxima vez que seus agente encontratem um objeto 084 que seja capaz de viajar no tempo, faça o favor de me lembrar que eu não quero fazer isso? – Hill fala para o Comandante assim que ele entra na sala.
— Farei isso, Maria. – ele riu – O que aconteceu, Diretora?
— Exatamente o esperado. Reuna a equipe como combinado. É melhor que Romanoff e Walker já estejam prontas. Chame Simmons também, vamos precisar de alguém que possa atualizar a Agente Carter.
— Certamente – ele vira para sair.
— Coulson, quero Jones na minha equipe. Dê um jeito de convencê-la a fazer parte dos Vingadores.
— Ela disse que não quer, nem a Agente Walker conseguiu convencê-la.
— Não me importa, descubra um jeito. Quero Jessica Jones na equipe. Ela derrotou Killgrave, precisamos dela na equipe.
— Claro, Diretora, mas…
— Sem mas, isso é uma ordem. Até logo, Agente.
2016 – Hell’ Kitchen, Cidade de Nova York
Codinome Investigações / Apartamento de Jessica Jones
— Trish, você sabe que acho o máximo você brincar de super heroína, você tem uma fantasia legal e se diverte com um pessoal alternativo, mas isso é demais pra mim. Eu só quero investigar umas coisas, ganhar dinheiro suficiente pra pagar minhas contas e beber tranquila. Não quero ser heroína de nada, Killgrave já foi o suficiente.
— Mas Jess, é isso mesmo que você precisa fazer, a S.H.I.E.L.D. já sabe que você não vai ser nada além de uma investigadora, e é isso que precisamos!
— Vocês tem espiões treinados, pra que precisam de mim?
— Porque essa missão vai ser difícil, vamos enfrentar coisas complicadas e tenho certeza de que ter minha melhor amiga ao meu lado vai me ajudar a evitar sérios problemas psicológicos.
— Você é doida. Tenho mais o que fazer, Trish.
— Por favor, Jess.
— Te odeio, viu.?
— Odeia nada, você disse que me ama. Se continuar falando isso, vou colar na parede o print da tela com a mensagem onde você declarou isso.
2016 – Norte do Oceano Antlântico
— Maria, como exatamente você convenceu a Agente Carter a ser congelada?
A diretora da S.H.I.E.L.D. e a Viúva Negra observavam enquanto os agentes retiravam do mar o bloco de gelo que protegia Agente Peggy Carter, co fundadora da SHIELD e modelo para muitas.
— Quem não adoraria saber como a agência que ajudou a fundar estaria décadas depois? Se fosse eu, ficaria radiante com a oportunidade. Você não?
— Claro que não! Quero morrer em paz. Nada de me congelar, por favor.
— Natasha, seria tão legal, ter a oportunidade de saber como as coisas serão no futuro, como estará a S.H.I.E.L.D..
— Diretora? – um dos agentes responsáveis pelo resgate interrompe.
A expectativa era enorme, como Peggy enfrentaria o mundo atual? Muita coisa havia mudado desde o momento em que foi congelada. Como explicariam a morte do Capitão América após a Guerra Civil? Seria bom Stark tomar cuidado, talvez nenhuma armadura seja capaz de protegê-lo da Agente Carter.
2016 – Cidade de Nova York
Torre dos Vingadores
Peggy Carter observava a cidade do alto enquanto tomava um café quente. Havia sido descongelada há alguns meses e tudo ainda estava muito confuso. Steve Rogers estava morto. Howard Stark estava morto – embora seu filho, Tony, fizesse jus à sua herança. A derrubada do Projeto Viúva Negra estava demorando mais do que eles imaginaram. Diretora Hill – ela estava começando a acostumar com a ideia – tinha rompantes de raiva constantemente, ao que aprecia, alguém chamado Jessica se recusava a ajudar.
Pelo o que ela tinha entendido, Jessica era alguém especial, amiga da Agente Walker que se recusava a entrar para a S.H.I.E.L.D. ou simplesmente ajudar a deter o Projeto Viúva Negra. Agente Walker garantiu que a traria para a torre naquele dia e todos pareciam bastante agitados com isso.
Conforme o dia passou, a própria Peggy se viu ansiosa para que a tal mulher chegasse logo. E não poderia ficar mais surpresa quando a viu. Aparentemente, ela estava esperando alguém... Diferente. Jones parecia alguém normal, apesar de suas roupas ainda causarem certa estranheza em Peggy, que não estava completamente acostumada com a moda atual. Ela percebeu quando Jones a olhou dos pés à cabeça, mas acreditou que era pelo estilo – algo que a Agente Walker dizia que era um visual “retrô”.
Amenidades foram trocadas e Jones parecia bem mais interessada na torre em si do que no que os outros agentes lhe falavam. Peggy ficou um pouco surpresa quando se tornou o alvo das atenções.
— Então você é a moça congelada? – Jones disse sarcásticamente
— Acredito que sim. A não ser que tenham descongelando alguém sem que eu saiba. – Peggy respondeu séria, fazendo a outra rir.
— Gostei do seu senso de humor. Acredito que você seja a nova arma contra mim, certo?
— Como? – Peggy ficou confusa
— Todo mundo nesse lugar já tentou me convencer a ajudar na nova missão, exceto você.
— Bom, eu honestamente não entendo porque você não ajudaria.
— E eu não entendo porque eu ajudaria. Vamos ser honestas, a humanidade é uma merda, não merece ser salva.
— Como você pode dizer algo assim? – Peggy ficou escandalizada.
— É a verdade. – Jones deu de ombros – Nem todo mundo é uma boa pessoa, a maioria não é. Não vale a pena.
— Imagino que isso seja bastante crível. A maioria das pessoas podem não valer a pena. Mas ninguém é perfeito. – Peggy se alterou – Eu não sou, você não é. Ninguém é! Mas existem boas pessoas e é por elas que fazemos isso. Elas não merecem viver em um mundo horrível simplesmente porque existem pessoas ruins! Essa é a justificativa mais covarde que eu já ouvi em toda a minha vida! – Jones começou a rir descontroladamente
— Eu adorei essa mulher! – disse se virando para a Agente Walker – Quando você disse que tinham recrutado alguém de décadas passadas eu realmente achei que fosse uma princesinha que fica esperando o cavaleiro de armadura brilhante em um cavalo branco. Parece que você não são um bando de cabeças-ocas como eu imaginava.
— Eu disse que ela era uma mulher de fibra, Jess. – disse Walker sorrindo para as duas.
— Sim, você disse. Embora isso não tenha sido o suficiente. – ela respondeu, fazendo Peggy bufar.
— Ora, francamente, se você não conhecesse a S.H.I.E.L.D., daria para entender. Poderia ficar horas falando sobre o que a agência faz. Agência que eu ajudei a fundar, diga-se de passagem. Mas você sabe, pelo visto. Você sabe o que fazemos, você sabe quão importante isso é. Você só é egoísta de mais para se importar!
— Ei, eu me importo! Só não importo o suficiente para sair brincando de ser super-herói! E arriscar minha vida! Já tive problemas demais para compensar até quando eu morrer. Não vou sair por aí procurando mais problemas.
— Isso se chama covardia, sinto lhe contar. E eu não irei perder meu tempo discutindo com alguém que claramente não se importa com o mundo no qual vive. – Peggy se despediu dos colegas ainda irritada e foi para seu encontro.
2016 – Cidade de Nova York
Alguns dias depois do ocorrido, Agente Walker chegou com boas notícias. Ao que parece, Jones havia aceitado ajudar a S.H.I.E.L.D. temporariamente.
— Ela focou bastante no temporariamente. – ela disse com um semblante derrotado
— É um começo, pelo menos – Hill comentou suspirando.
— E o mais importante é ajudar a derrubar o Projeto Viúva Negra. Qualquer ajuda é bem vinda nesse momento.
No começo, era muito difícil para Peggy ficar perto de Jones. Agente Jones, agora. Ela desconfiava de que colocavam as duas juntas por causa da leve discussão que tiveram quando se conheceram. Uma noite, em que Agente Jones estava particularmente irritante, elas tiveram um problema quando ficaram sem reforços. A missão era simples na teoria, só precisavam encontrar um mercenário e levá-lo para interrogatório.
Peggy desconfiava que Jones fazia todo o possível para irritá-la. Sua abordagem consistia em racionalizar com o alvo, mas Jones rira de sua cara quando disse isso.
— Você não pode me dar ordens! — ela perdeu a paciência quando Jones, pelo que parecia a milésima vez, disse que deveriam tentar uma outra abordagem – uma abordagem bem mais violenta, na verdade. Ela se dirigiu até o alvo, sendo seguida por Jones, que revirava os olhos o tempo todo e bufava audivelmente.
Infelizmente, Jones estava certa. Elas deveriam ter abordado o alvo de forma mais violenta. Depois de uma boa briga, uma perseguição e um monte de golpes trocados, elas finalmente conseguiram prender o alvo e levá-lo para interrogatório.
— Eu disse que não ia adiantar conversar. – Jones disse se vangloriando.
— Não é culpa minha. – Peggy se irritou – Não era assim no meu tempo. As pessoas eram mais civilizadas. É tão difícil obter respostas diretas esses dias. O que aconteceu com uma boa xícara de chá e um interrogatório civilizado? — Jones riu. – E porque você ri tanto? Não é como se eu ficasse contando piadas o tempo todo.
— É engraçado. – Agente Jones respondeu – Você tem essa roupa de uma boa garota, mas é irônica, não se comporta com o que seria o ideal para uma dama, e com certeza não parece esperar um cavaleiro em armadura brilhante. Você é mais parecida comigo do que com a Trish, para ser honesta. – Peggy parou e olhou Jones nos olhos.
— Eu estive na guerra. Eu fui uma das primeiras mulheres na S.S.R. Eu ajudei a fundar a S.H.I.E.L.D. Eu posso não ter super poderes, mas eu sei o que faço. Eu gosto do que faço. E eu faço meu trabalho muito bem feito.
2026 – Cidade de Nova York
Peggy Carter se arrumava em frente ao espelho. Suas amigas ainda não haviam chegado. Durante todo aquele dia, as mais esquecidas memórias apareciam em sua mente. O dia em que conheceu a Agente Hill. O dia em que foi congelada. O dia seguinte ao que foi congelada. O dia em que conheceu Jessica Jones.
Algumas memórias eram apenas flashes, como quando Jessica tentou ensinar ela a usar o que chamavam de smartphone, tantos anos atrás. Peggy demorou um bom tempo para aprender a usar e se acostumar com toda a tecnologia daquele século. Hoje, nada mais a surpreendia. Já tinham se passado dez anos desde quando ela “acordara” e tanta coisa mudou nesse tempo. Agora, ela era a Diretora da S.H.I.E.L.D., cargo que a Agente Hill havia deixado quando chegou a uma certa idade. E – mais importante – hoje era o dia do seu casamento.
Um dos motivos pelos quais ela havia aceitado ser congelada, era a promessa de reencontrar o Capitão América. Ela nunca havia imaginado a possibilidade dele não estar mais lá quando ela acordasse. E com certeza, não considerou a ideia de se apaixonar. Peggy riu quando uma lembrança em especial apareceu. Jessica e Trish haviam feito uma aposta, em um dia que levaram Peggy para conhecer os bares “certos” da cidade – como elas colocaram. Peggy não se lembrava da aposta em si, mas não conseguia esquecer o momento em que Jessica foi obrigada a subir ao palco e cantar uma música. Se fosse para ser honesta, Peggy teria que admitir que não era a vergonha alheia que marcou esse dia. Já havia meses que ela estava nessa linha temporal, e ela e Jessica se aproximavam cada vez mais. As missões em conjunto deixaram de ser uma tortura e passaram a ser legais. Depois de mais algum tempo, Peggy começou a ansiar por essas missões.
O que ela não sabia, era que Jessica sentia o mesmo. Alguns sinais eram trocados, mas nenhuma tinha coragem de dar o primeiro passo. Uma troca de olhares ali, um toque de mãos, um sorriso cúmplice. Peggy sentia seu coração bater mais forte quando encontrava a outra, mas demorou bastante para entender esses sentimentos – e mais um pouco para aceitá-los. Afinal, ela costumava pensar, não era possível que ela, logo ela, justo ela, estivesse sentindo mais do que amizade por outra pessoa. Havia passado por um coração partido com o Capitão e outro com Sousa. E havia jurado que não se abriria novamente, nunca mais, para não se machucar. Não que fosse fazer diferença, ela imaginara, porque seria um sentimento só dela. Jessica com certeza não retribuía, ela imaginara. Mas, naquela noite, tudo mudou.
Jessica estava morta de vergonha – expressão que ela aprendera recentemente – de ter que cantar em público. Ela escolheu uma música mais calma, romântica, sobre o que poderia ser um amor não correspondido. Peggy sentiu seu coração afundar com aquela letra tão bonita. E Jessica olhava para ela o tempo todo. Aquela música parecia ter encaixado como uma luva. Ela sentiu no fundo de si quando Jessica cantou aquela parte. A parte que a fez sair do bar às lagrimas.
“Esquece esse jogo, não há vencedor
O mesmo roteiro de sempre cansou
Vou te amando,e me frustrando e sobrevivendo por um fio
Mas tô aqui, sem desistir, volta pra mim
Não tem que ser assim
Tanto desencontro, mágoa e dor
Pra quê que a gente tem que se arriscar
Então Volta pra mim
Deixa o tempo curar
Esse Estranho Jeito de Amar”
Mas o mundo é uma caixa de surpresas. E Peggy jamais poderia esperar, mesmo em seus mais ousados sonhos, o que aconteceu em seguida. Ela estava procurando um táxi quando Jessica apareceu ao seu lado, com uma expressão que dizia tudo. Naquele momento, ela soube. Ela podia sentir, elas amavam, estavam frustradas, mas não desistiriam. Era de verdade.
Diante do espelho, Peggy sentiu seus olhos se encherem d’agua com aquela lembrança. Não imaginava que seus sentimentos poderiam ser correspondidos. Elas deram o primeiro beijo naquela noite. O primeiro de muitos.
Lembrou-se de quando Jessica se declarou para ela.
— Eu sempre disse que pessoas me distraem, mas você foi a primeira pessoa com quem eu imaginei um futuro.
Tantos anos haviam se passado. Tanto tempo, tantas memórias. Peggy não se recordava de ser sido tão feliz em sua vida. Apesar do que parecia, ela e Jessica eram parecidas. Tiveram vidas ruins, não aceitavam desaforos…
— Eu poderia ficar aqui durante horas. – Peggy interrompeu sua lista mental.
Ela cantarolava baixinho a música que seria usada na sua primeira dança depois de casada. Estava ansiosa, elétrica e extremamente calma. Porque ela sabia. Ela sabia que havia feito a escolha mais acertada da sua vida. Em algumas horas, estaria casando com a sua melhor amiga, sua confidente, sua pessoa. Haviam momentos ruins, é claro, como em toda relação. Mas elas sabiam passar por isso. Jessica era uma pessoa com vários traumas quando se conheceram. E elas conseguiram lidar com isso juntas.
Quando Jessica acordava de seus pesadelos frequentes, Peggy a abraçava até que voltasse a dormir. E ela sabia que Jessica faria o mesmo por ela. Era uma relação de cumplicidade, amizade, companheirismo, amor. Ela sabia que a coisa mais importante que se poderia ter em uma relação era a parceria. Amor dá para viver sem, mas aquela perceria, ter na outra um verdadeiro parceiro, isso sim era importante.
Peggy se perguntava como Jessica estaria nesse momento. Talvez não estivesse tão nervosa, já que sabia lidar melhor com seus sentimentos. Peggy não aguentava esperar. Mais algumas horas e estaria casada. Com sua melhor amiga, com a sua parceira.
A campainha tocou e suas amigas – finalmente – chegaram. Suas damas de honra. Trish estava com Jessica, ela sabia, mas ainda assim sentiu a sua falta. Mas ela estava com o coração tão leve, que não se permitiu se sentir mal. A felicidade que sentia era grande o suficiente para preencher todo seu coração.
Depois de algumas horas, Peggy estava pronta. Vestia um vestido branco, com véu, seguindo as tradições. Ela não sabia se Jessica seguiria ou não – e não se importava. Desde que sua noiva estivesse se sentido bem e feliz no dia do seu casamento, nada mais importava.
Peggy suspirou fundo ao pegar o buquê. Era sua vez de sair do quarto e ir se casar. Ela até tentou tirar do rosto o grande sorriso – suas bochechas já estavam doloridas – mas era impossível. Antes de sair, ela deu uma olhada no quarto onde estavam. Sabia que seria limpo e arrumado para sua primeira noite casada. Com um sorriso bem diferente do sorriso de felicidade, Peggy saiu do quarto. Para seu casamento. Para sua nova vida. Para a felicidade completa.
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