Estranho Conhecido

24 Capítulo 24 - Descobrindo o passado parte 1


Notas iniciais
4ª edição – 13-03-14

Capítulo 24 – Descobrindo o passado parte 1

Kagome amanhecera nervosa, hoje voltaria a comparecer as aulas, o festival acabara e não tivera nenhuma notícia de Inuyasha.

Será que o encontraria no colégio? E como faria para que conversassem sem que ninguém soubesse? – perguntou-se.

Vestiu-se novamente de negro, não sabia por que, mas não sentia a mínima vontade de fazer uso de cores, sentia-se que não era mais a mesma pessoa que havia sido antes daquele dia fatídico no festival.

Respirou fundo. Tinha que ir a aula, enfrentar os amigos e tentar não mergulhar em depressão ao passar por perto do local onde quase fora violentada. – arrepiou-se, não devia pensar nisso. – se repreendeu.

Desceu as escadas de sua casa e encontrou-se com a mãe e o irmão para o desjejum.

Os dois já haviam se acostumado com o jeito estranho que ela adquirira nas ultimas duas semanas, nunca mais usara roupas coloridas, estava mais silenciosa e reservada.

A morena não contara a ninguém sobre o segredo de Inuyasha, e seu coração pesava sempre que pensava nele e nas descobertas que fizera na semana anterior.

Depois de um desjejum silencioso, Kagome se despediu dos familiares e saiu de casa.

oOoooOoOOo

— Kagome! – Sango gritou a abraçando em seguida – Você está bem?

Kagome olhou para o casal de amigos à sua frente e sutilmente indicou que não estavam a sós, Inumaru e Ayame estavam ali e eles não sabiam de nada do que tinha acontecido a ela.

Pelo menos não sabiam que a tentativa de estupro que ocorrera durante o festival tinha tido Kagome como vítima.

— Ah oi Ayame, oi Inumaru – Sango e Miroku cumprimentaram.

Inumaru bufou e saiu sem falar nada.

Ayame sorriu – Oi! Hey San, você sabe por que essa mocinha aqui faltou todos esses dias? Insisti o caminho todo para que ela me contasse, mas ela só disse que foi viajar. – declarou com os olhos brilhando de uma falsa inocência.

Sango elaborou um pequeno sorriso – Oras Ayame, se ela disse que foi viajar é por que foi né? Você foi visitar seu pai nos Estados Unidos, certo?

— Claro que fui – Kagome assentiu, aliviada com a desculpa inventada. Fora um sacrifício o caminho até o colégio, Ayame a enchera de perguntas e Inumaru nem se quer olhara-lhe na cara, mas com isso já estava se acostumando. Depois de tudo que passara, Inumaru era o menor dos seus problemas, na verdade iria tratar de ignorá-lo, não era importante.

Miroku decidiu se intrometer então – Hey Ayame o Kouga já chegou e está te esperando lá na sala.

— Sério? – perguntou a ruiva – Ai! Então eu vou indo, finge que acreditei ta? – Subiu as escadarias deixando o trio a sós.

— Como você está? – Sango e o namorado perguntaram à Kagome em uníssono.

— Estou bem, não se preocupem duas semanas de deprê foram o suficiente.

— Sua mãe te disse que eu liguei? – a morena perguntou.

— Sim, ela disse, desculpa por não ter atendido, não queria falar com ninguém. – respondeu Kagome. — Sango, você tem notícias de Inuyasha?

— Não falei com ele, mas ele apareceu no festival, quase todos os dias. Tenho para mim que foi para não reprovar por faltas, porque ele já deve estar cheio delas.

Kagome assentiu pensativa. Então, ele viera. Será que hoje estaria ali no colégio também?

— Vamos subir então? – Miroku que permanecera calado enquanto as garotas conversavam, perguntou olhando no relógio de pulso.

— Vamos. – o trio subiu as escadas e Kagome observou os corredores à procura de Inuyasha.

Já estava nervosa com a expectativa de revê-lo, afinal não tinha notícias dele desde aquele dia.

Sentia o coração na garganta, quando finalmente passaram pela porta da sala, ela soltou o ar que não percebera que estava segurando. Inuyasha não estava lá.

Kagome passou a primeira aula se perguntando se ele apareceria, precisava tanto falar com ele! O colocaria contra a parede de uma vez por todas! Saberia de tudo!

Assim que o sinal do término da primeira aula soou, Inuyasha e Bankotsu entraram na sala.

Inuyasha nem se quer olhara na direção onde Kagome sentava e ela se sentiu deprimida. Será que estariam de volta à estaca zero? Ele a ignorando?

Kagome continuou fitando enquanto ele se sentava no lugar de sempre.

Então ele finalmente ergueu a cabeça e os olhos dourados se iluminaram ao encontrar-se com os castanhos.

Porém ele não sorriu como de costume, continuou apenas a fitando intensamente e Kagome assentiu com a cabeça. Ela olhou em volta para ver se tinha alguém a observando e quando não viu ninguém fazendo isso, ela fez mímica com os lábios: Precisamos conversar. Mais tarde vá lá em casa. É importante— concluiu.

Inuyasha assentiu de leve dando a entender que compreendera o recado e voltou a conversar com Bankotsu.

Kagome o observou por alguns instantes e ficou imaginando o que ele fazia da vida.

Será que vendia drogas? Bem, ele sabia atirar.

Não – ordenou-se – Não vou pensar nisso.

Ela se pôs então a olhar a sala, reparou que Ayame e Kouga estavam mais unidos do que nunca. Sango e Miroku conversavam no maior amor e percebeu que Inumaru não se sentava mais ao lado deles. Procurou o garoto com os olhos e encontrou-o do outro lado da sala, conversando com a monitora Jessy que era skatista como ele.

Kagome ficou feliz, tinha a impressão de que agora ele seria capaz de esquecê-la, não queria vê-lo sofrer por causa dela. Seu coração já tinha dono, e era de Inuyasha.

A aula de filosofia passou num borrão, Kagome passou a aula inteira prestando atenção nas pessoas à sua volta. Notara que Kikyou estava de volta ao seu eu de sempre, parecia uma patricinha conversando com as amigas, o sorriso debochado enquanto apontava para uma ou outra pessoa. No entanto, ela estava diferente, não era mais a megera, parecia um pouco melhor. Só um pouco. Um brilho na mão de Kikyou lhe chamou atenção. Uma aliança! Kikyou estava namorando? Quem será? Afinal havia pouco menos de duas semanas que vira a garota suspirando por Bankotsu.

Ela riu com o pensamento, tinha coisas mais importantes para pensar do que em Kikyou e seus namoros. Voltou a olhar Inuyasha e seus olhos se encontraram novamente. Ela não soube o que pensar, os olhos dourados eram intensos, mas indecifráveis. Ela se perguntou o que ele estava pensando.

A manhã se passou daquela maneira, silenciosa, monótona e repleta de troca de olhares entre Kagome e Inuyasha.

oOooOOooOOoOOoOOoo

Kagome voltou para casa com o coração batendo acelerado de expectativa, mal podia esperar confrontar-se com Inuyasha. Esperava ser forte!

Ela correu para dentro de casa e foi ao quarto retirar a fita da janela.

Estremeceu ao encarar o seu feito, aquilo é que era um extravaso de sentimentos. Não queria sentir-se daquela forma nunca mais.

Depois de jogar toda a fita usada no lixo, ela voltou à cozinha onde encontrou a mãe preparando o almoço.

— Olá filha. Como foi à aula? – Rumiko perguntou, cortando um tomate.

— O de sempre. Cadê o Souta?

— Tá lá no quarto dele, estudando. O coitadinho ainda tem mais essa semana de prova.

— Tadinho nada. – Kagome retrucou – Queria eu voltar a ter a idade dele. As aulas da oitava série eram muito mais tranqüilas. Precisa de ajuda mãe?

— Não filha – respondeu a mãe, mais aliviada por ver a filha um pouco mais parecida com o seu estado normal.

— Vou subir então – Kagome afirmou.

Subiu as escadas de sua casa e foi ao quarto esperar por Inuyasha. Será que conseguiria ser forte o suficiente para agüentar saber de tudo sem sucumbir?

Parecia que sua vida se resumia à 'Serás.'

Não sabia mais de nada ultimamente. Tudo era tão incerto.

Rumiko a chamou para almoçar, e depois do almoço Kagome retornou ao quarto.

Já estava ficando agoniada! Cadê o Inuyasha?

Ela estava deitada na cama desenhando o semblante dele quando ouviu um barulho na janela, no mesmo instante se sentiu ofegante e nervosa. Levantou-se devagar e olhou na janela. Lá estava ele.

Ela abriu a janela e permitiu que ele entrasse.

— Oi – ele disse afagando os cabelos sem saber o que fazer com as mãos.

— Oi, senta aí – ela apontou para a cama.

Ele se sentou e continuou a fita-la, do mesmo modo que de manhã cedo. Kagome o observou sentindo-se nervosa, respirou fundo e começou:

— Inuyasha – ela suspirou – Eu quero que você me conte tudo, mas tuuudo mesmo, não me esconda nada.

— Kagome – ele resmungou – Foi para isso que me chamou aqui? – ele perguntou arqueando a sobrancelha.

— Foi e você não vai sair daqui enquanto não me dizer tudo. – ela se colocou entre ele e a janela.

Já havia trancado a porta previamente, portanto estavam os dois presos ali dentro.

— Você vai me contar tudo, por que eu preciso saber, não quero mais segredos entre nós.

Ele arqueou as sobrancelhas, desconfiado – Nós?— perguntou confuso. – Ainda quer ter algo comigo? Mesmo sabendo que sou um traficante— ele sussurrou a ultima palavra. Ele pareceu triste por uns segundos.

— Você disse que é traficante, mas por que não pode simplesmente deixar de ser? – ela indagou séria.

Inuyasha observou-a melhor, ela parecia mudada, mais decidida.

— Kagome... – ele a fitou por alguns instantes. – Não é assim tão fácil e muito menos simples... – ele se sentou na cama dela e ficou a olhar para as próprias mãos.

— Inuyasha – ela começou de novo e sentou-se ao lado dele – Olha para mim. – pediu.

E ele olhou. Kagome arrepiou-se ao fitar a expressão de Inuyasha. Ele era lindo demais com aqueles olhos dourados, as roupas negras, o cabelo espetado em todas as direções. Magnífico. Hipnotizante. Comparou-o com o Inuyasha criança no qual ela relembrara na semana anterior. Ele era a mesma pessoa. – seu coração dizia isso. Ele não havia mudado. Só fazia-se de diferente, na essência, no que realmente importa, ele era o mesmo.

Eles continuaram a se olhar por alguns instantes.

Kagome reparou que o olhar dele percorreu lentamente seu rosto para concentrar-se nos seus lábios. Ah que saudade que tinha de beijá-lo. – pensou sentindo o ar faltar.

Ela mordeu o lábio ligeiramente ofegante. – Inuyasha...

Ele se aproximou lentamente e Kagome se rendendo a uma força imaginária inclinou-se na direção dele.

Quando os lábios se tocaram, Kagome sentiu seu coração acelerar. Inclinou-se mais de encontro à ele buscando apoio e repousou os braços ao redor do pescoço masculino.

Kagome sentiu as mãos dele em suas costas e permitiu-se somente sentir a boca dele contra a sua, não deixando nenhum outro pensamento tomar conta de sua mente.

Perdeu-se na sensação de beijar aquela boca novamente, de sentir o calor que irradiava do corpo dele. Ela afagou os ombros fortes e sentiu as mãos dele deslizarem por suas costas. Kagome inspirou pelo nariz e concentrou-se em senti-lo com as mãos, acariciou o pescoço dele, e desceu pelos ombros largos, passeou pelas costas, sentindo cada músculo. Ofegou quando as mãos fortes agarraram seu traseiro impulsionando-a para ele, sentiu seus seios prensados contra o peito masculino e uma onda de calor a atingiu em cheio, fazendo com que ambos se arrepiassem.

As mãos dele apalparam-na por alguns instantes para logo tomarem o caminho de volta pelas costas dela. Kagome sentiu uma mão quente em seu pescoço, puxando-a mais ainda de encontro a ele e sobressaltou-se ao sentir a outra afagar suas costelas e roçar seu seio.

— Inu...yasha – ela murmurou ofegante contra os lábios dele. Kagome abriu os olhos e observou as íris douradas dele aparecerem nubladas.

— Inuyasha – repetiu fitando-o nos olhos – Eu... – ela sentiu as mãos dele se afastarem e então subirem e acariciarem seu rosto. Ela fechou os olhos enquanto ele traçava os contornos delicados do rosto feminino.

Inuyasha repousou um dedo sob os lábios dela e ela o olhou.

Kagome observou o olhar dele sob seus lábios e não resistiu, um suspiro longo escapou por entre eles.

— Kagome – ele sussurrou com a voz rouca. Ela o viu respirar fundo, fechar os olhos e se levantar repentinamente.

Permaneceu em silêncio enquanto ele a olhava por alguns instantes. O calor do toque dele ainda estava queimando-a por dentro.

Inuyasha virou-se de costas e perguntou respirando com dificuldade, apoiando a testa no armário, ele sussurrou — O que você quer saber?

— Tudo. – ela respondeu respirando fundo, estava um pouco tonta, o coração batendo acelerado dentro do peito.

— Desde o começo? – ele sussurrou se recompondo.

— Sim. – sussurrou ela seguindo o exemplo dele.

Sentindo-se ofegante por causa dos beijos e das carícias, ela respirou fundo e ordenou-se para que pudesse pensar sobre as coisas que queria saber.

Afinal, por que ele não podia simplesmente mudar de vida? O que o levara à ser um traficante?

Kagome esperou por alguns minutos enquanto os dois se acalmavam. E ele nada disse.

— Por favor – ela pediu – Quero fazer parte da sua vida – sussurrou.

Inuyasha voltou-se para ela. Ele suspirou e sentou-se no chão com as costas encostadas no armário.

— Tem tanta coisa que eu nunca te contei...Nem à você...nem à ninguém. – ele tomou fôlego, como se estivesse buscando forças para fazer algo realmente difícil. — Desde pequeno...meu pai sempre foi um cara esquisito. – começou ele. – Ele sempre tratara Sesshoumaru melhor do que a mim e Shippo, mas...eu não ligava muito para isso...com o tempo você se acostuma...o problema eram as brigas... – ele fitou o chão e continuou com a narração – Sempre que eu e Sesshoumaru brigávamos, eu apanhava. Por mais que eu estivesse certo e ele errado, meu pai sempre batia em mim – Kagome viu ele fechar as mãos em punhos, sentindo raiva do que lhe acontecera há tantos anos – Minha mãe...

Kagome assistiu o rosto dele se contorcer numa máscara de dor à menção da mãe, e sentiu vontade de chorar. Ela não queria interromper a narrativa, mas a morte da mãe dele estava martelando em sua cabeça fazia dias. Indecisa pegou-se dizendo:

— Ela e-está morta, não é? – gaguejou com a pulsação acelerada. Os sentimentos em conflito. Tinha medo de confirmar e sentia dor ao vê-lo sofrer.

Inuyasha arregalou os olhos.- C-Como você sabe? – perguntou atônito.

— Eu fui até o bairro onde nós morávamos. – ela afirmou, sentindo-se petrificada. Era verdade, Izayoi estava morta. Morta...

Kagome se sentiu zonza e estremeceu.

Inuyasha percebeu que ela estava passando mal e correu em seu auxílio, segurou-a para que não caísse.

— Você... não sabia. – compreendeu ele, sentando-se na cama com ela.

— E-Eu não tinha certeza – ela afirmou com olhos lacrimejantes. Não podia crer que Izayoi estava mesmo morta.

— Ah Kagome... – ele soluçou. E ela viu quando as lágrimas apareceram nos olhos dele. – S-sim. Ela está morta... – ele confirmou abraçando-a apertado.

Kagome deixou que as lágrimas lhe escorressem pela face, envolveu o corpo dele com os braços e permitiu-se dar vazão as lágrimas. Não podia crer que aquilo era mesmo verdade...

Ela inspirou com força o ar e tentou se recompor em quanto os minutos passavam lentamente. Ela virou o rosto e encostou a testa na de Inuyasha.

Fazia muito, muito tempo que não via os orbes dourados molhados de lágrimas. – percebeu.

Permaneceram daquela forma por mais alguns instantes. Inuyasha sentindo toda a dor do passado, como se uma faca tivesse sido encravada nas feridas que ainda sangravam em seu peito. E Kagome sentia-se ainda atordoada, Izayoi estava mesmo morta...não conseguia acreditar.

Ela sentiu a respiração dele contra seus lábios quando ele respirou fundo.

— Kagome...deixa eu te explicar desde o começo. – ele afirmou, afastando-se um pouco para que pudessem ficar frente a frente, sentados no colchão.

Kagome afastou as lágrimas com as mãos e Inuyasha fez o mesmo.

— Feh...fazia tempo que eu não chorava – ele reclamou.

Kagome sorriu fracamente. Inuyasha respirou fundo e começou mais uma vez:

— Minha mãe, desde que eu era pequeno sempre tentou me proteger do meu pai. E mais tarde proteger a Shippo. Ela encobria as bagunças que nós fazíamos...para ele não ficar sabendo e nos bater depois... Mas, naquela época as surras eram todo meu problema...eu mal esperava que coisas piores estivessem por vir... – ele fez uma pausa – No dia que eu te conheci, e-eu estava chorando...Sesshoumaru tinha quebrado meu brinquedo favorito e meu pai tinha me dado uma surra por eu ter ficado reclamando, ainda me lembro das palavras dele: Você é muito criancinha! Pare de chorar por causa de um brinquedo estúpido. Vê se cresce! Não quero ver você chorando nunca mais!— E a partir daquele dia eu nunca mais chorei.

— Eu percebi isso – Kagome disse. – Me lembrei que havia pouquíssimas vezes no qual tinha te visto chorar.

— É – ele bufou – Aquele foi um dos últimos dias. Mas nem vale de nada, o quanto que chorei depois da morte da minha mãe, não está escrito – ele balançou a cabeça e abaixou os olhos fitando as próprias mãos. Ficou em silêncio por algum tempo e então continuou– Durante toda a minha vida eu pensei que não era amado. Sabe...Achava que minha mãe ia ser sempre tudo para mim, a única coisa boa na minha vida. E então você apareceu. – ele riu sem emoção. E Kagome observou que mais lágrimas escorriam pelo rosto dele. Ela limpou as lágrimas dele com suas mãos e tentou impedir que as suas escapassem dos olhos.

Inuyasha a olhou e acariciou o rosto de Kagome – Ah Kagome...você sempre foi o raio de luz na minha vida sombria.

— Inuyasha, você também é meu raio de luz, eu t-te amo. Não vou deixar de te a-amar, não importa o que aconteça – ela soluçou sentindo uma necessidade extrema de deixar isso claro para ele. Inuyasha sorriu tristemente.

— Também te amo Kagome, você não imagina o quanto. – ele suspirou e encostou a testa na dela. Depois de alguns minutos em silêncio, ele continuou – Sabe...Minha mãe sempre foi meu sol, mas aos poucos eu observei o quanto ela estava se apagando... Meu pai tinha outras mulheres... Sabe, Shippo é meu meio irmão.

— Como assim? – Kagome perguntou atônita afastando-se dele para poder fita-lo nos olhos.

— É verdade – ele assentiu – Ele é filho do meu pai com uma prostituta. Por isso não se parece comigo ou com Sesshoumaru. Ele só é filho do mesmo pai.

— E-eu não acredito. – ela murmurou estática. Sempre estranha o menino não se parecer com os irmãos..mas...

— Mas é verdade! — ele gritou alterado — Minha vida é uma merda Kagome. — ele tentou se acalmar e respirou fundo.

Inuyasha continuou — Sempre foi. Me lembro como se fosse hoje o dia que ele trouxe o bebê para casa...eu tinha apenas 6 anos, foi um ano antes de você se mudar para a casa de frente à minha...

— Izayoi – o homem alto de cabelos claros e curtos, olhos âmbares mais frios que gelo chamou ao entrar em casa com um embrulho nos braços.

A mulher saiu da cozinha no qual preparava o jantar e sorrindo foi até a sala encontrar o marido.

Inuyasha que estava assistindo televisão na sala ergueu os olhos ao avistar os pais, enquanto Sesshoumaru que jogava pacman no vídeo game continuou alheio ao que acontecia a sua volta.

— O que é i-isso? – a mulher gaguejou, a expressão mudando para uma confusa e frágil enquanto fitava o embrulho nos braços de Inutaisho.

— Isso. É seu novo filho – disse ele estendendo o bebê envolto numa coberta para a mulher.

Izayoi mesmo confusa pegou o bebê no colo e com o olhar confuso indagou ao marido.

— Seu novo filho, Shippo – disse o homem largando a maleta em cima da mesa. Olhou friamente para os filhos na sala e para a mulher parada com o menino no colo e continuou seu caminho escada acima para os quartos. – O que tem para jantar? – perguntou sem olhar para trás.

Izayoi ainda estava paralisada. Ela olhou para o bebê ruivo e de olhos verdes em seu colo e então para as costas do marido e balbuciou – Ramen e sashimi.

— Minha mãe deixou o bebê com Sesshoumaru e voltou à cozinha para terminar a janta. Ela sempre foi assim, nunca dizia nada ao que meu pai fazia. Mais tarde naquele dia eu ouvi meu pai gritando com ela. Pelo que eu entendi, ela perguntara quem era a criança. — ele balançou a cabeça — Ele sempre gritava com ela, e minha mãe abaixava a cabeça, ela voltou à sala e pegou o bebê... Depois ouvi o choro do bebê...e ela ninando-o. Ela nunca, nunca disse nada para ninguém sobre isso e sempre tratou Shippo como se fosse filho dela.

— Eu to sem fala – Kagome conseguiu dizer. – Sua mãe era submissa ao seu pai? E-ele batia nela?

— Ela sempre foi submissa, e sim ele bateu nela, apenas uma vez... — ele voltou a olhar para as próprias mãos fechadas em punhos contra seu corpo.

— Eu nunca percebi nada. — Kagome resolveu dizer, sofria por vê-lo daquele jeito — E-Eu..Quer dizer, eles pareciam felizes e quanto a Shippo sempre estranhei ele ser tão diferente de você e Sesshoumaru...

— Todo mundo sempre achou estranho – ele revirou os olhos – Mas ninguém nunca questionou abertamente. Só mais tarde eu fui entender, o que era aquilo, que aquele bebê era meu irmão eu já concluíra, mas não imaginava que era filho de uma prostituta, fiquei sabendo depois de uns anos, quando ouvi uma conversa entre eles, numa das únicas vezes que minha mãe o retrucou. Eu achava que era normal minha mãe ser tão submissa, meu pai sempre foi frio e distante daquele jeito. Eu já estava acostumado. Sabe, eu achava que era tudo normal, é claro que eu via na TV outras coisas e na sua casa também. — ele olhou nos olhos dela — O amor sempre reinou na sua casa, mas eu imaginava que era tudo de faz de conta, assim como meus pais eram na frente dos outros.

— É, naquela época o amor reinou de verdade lá em casa – ela concordou amarga.

— Por isso quase não acreditei quando você me contou que seu pai largara sua família – ele respondeu olhando fixamente para ela.

— Eu sei, é difícil mesmo de acreditar. Mas Inuyasha, por que você nunca me contou nada?

— Feh, por vergonha. — ele deu de ombros — Não queria que ninguém soubesse do que eu sofria dentro de casa. Você acha que está sendo fácil para mim, me abrir agora? – ele indagou.

— Não, é lógico que não. Mas, sei lá quem sabe eu não poderia ter feito alguma coisa?

— Feito o quê? – ele resmungou – Não tinha o que ser feito. E foi melhor assim, não gosto que tenham pena de mim. — ele cruzou os braços diante do corpo.

Kagome assentiu. – Você quer continuar falando? Ou é doloroso demais? – ela perguntou num fio de voz.

Inuyasha respirou fundo – Agora que comecei vou até o fim. Bem, assim os anos foram se passando. Meu pai batendo em mim e em Shippo por besteiras, minha mãe calada num canto enquanto nós sofríamos calados e Sesshoumaru – ele bufou – Esse aí é outro, você já tinha percebido que ele e eu não nos dávamos não é?

Kagome fez que sim e ele continuou – Pois bem, ele sempre foi distante, não estava nem aí se eu apanhava ou não. Depois da morte da nossa mãe foi que ele me surpreendeu, ele mudou completamente – ele respirou fundo e Kagome ficou sem saber o que dizer. Ela não fazia idéia do quão dura tinha sido a vida dele. Para ela, ele sempre fora um garoto com pais normais, numa vida normal como a dela, nunca percebera que ele apanhava, que a mãe era submissa ao pai e tudo o mais. Izayoi ao seu ponto de vista, sempre fora uma mulher amável, tímida e contida.

Mas só isso, nada mais.

— O que houve quando eu parti? – ela perguntou depois de alguns minutos.

Inuyasha olhou nos olhos da garota amada e de relance para o relógio em cima do criado-mudo e então ele levantou-se.

— Droga! Olha a hora, eu tenho que ir embora! Tenho coisas a fazer! – ele exclamou.

— Que coisas Inuyasha? – ela indagou.

Olhou para a garota na frente dele, deu um beijo suave nos lábios dela e falou:

— Olha, tenho que ir. – ela tentou interromper, mas ele continuou rapidamente – De noite eu volto e continuamos a nossa conversa.

Kagome olhou para ele receosa e Inuyasha reafirmou: — Eu volto, te juro. De noite eu venho aqui e continuo a te contar tudo.

Ela observou ele abrir a janela e sair por ela. — Oooww! — ouviu ele gritar e correu até o beiral.

— Você está bem? — perguntou ela preocupada, vendo-o estatelado no chão. Ele tinha caído da árvore.

— Estou! — ele gritou passando a mão no joelho. — Merda — exclamou antes de se levantar e sair correndo.

Kagome sorriu assistindo ele desaparecer na esquina. Balançando a cabeça, ela trancou a janela.

Amava tanto esse garoto, estava horrorizada em saber o quanto de sofrimento ele já passara sem ela nem mesmo perceber. E o que será que aconteceu quando ela partiu? Como Izayoi morrera? — ela se perguntou, antes de voltar a deitar-se na cama. Perdida em pensamentos.