Estranho

1 Estranho


I

A porta de tela da cozinha range e bate devagar quando Clare sai numa corrida saltitante para o pátio dos fundos. A manhã ainda não tornou-se quente o suficiente para abafar todas as coisas sob aquele ar sonolento dos dias de verão, de modo que o ruído dos insetos confunde-se com o som da música tocando no rádio de pilhas do pai e que os lençóis recém lavados pela mãe ondulam de leve no varal. A menina passa por eles, sentindo o frescor do tecido úmido nas pontas dos dedos, e desvia da bacia com os prendedores deixada no meio do caminho. Atrás da casa há uma cerca alta de madeira, e é para lá que ela vai.

A cerca é uma espécie de limite entre sua casa e a mata que se estende do outro lado. Naquela terra de ninguém, as árvores parecem crescer umas sobre as outras, grandes e selvagens, percorrendo o solo com suas raízes nodosas e que às vezes levantam-se do chão em arcos sinuosos. Elas cobrem o sopé dos morros que margeiam toda Covered Fields e seguem terreno acima quando ele se eleva sobre a cidade.

Clare sabe que a mãe detesta todo aquele mundo verde e coberto de musgo porque frequentemente aparecem coisas indesejadas ao redor da casa – aranhas do tamanho da mão de seu pai, cobras que rastejam pelo gramado e insetos estranhos que às vezes batem contra o vidro da cozinha com um ruído asqueroso. Mas Clare pensa que, se a mãe passasse com ela pela brecha na cerca e percebesse o quanto aquele lugar é mágico, certamente mudaria de ideia. Entretanto, a menina também pensa que talvez aquilo não devesse mesmo acontecer, porque então seu esconderijo seria descoberto.

O segredo para lá da cerca pertence apenas a ela e a Nolan.

E quando espreme-se pelo espaço deixado por uma tábua solta, ela respira fundo e sente, com satisfação, que o ar ali é diferente, como se tivesse deslizado para um mundo à parte. Com a ingenuidade destemida própria das crianças da sua idade – Clare tinha acabado de completar oito anos –, ela avança para as sombras da mata. Enquanto as folhas estalam sobre seus pés, as copas das árvores se fecham sobre ela. Às vezes, raios de sol penetram por entre os ramos mais altos e então a mata ganha uma tonalidade entre o verde e o dourado. Ao redor, tudo parece vivo – as árvores, as pedras cobertas de musgo, os arbustos que farfalham quando ela passa.

Nolan está onde ela soube que ele estaria, sentado sobre um dos galhos da árvore deles.

— Vamos construir uma casa da árvore. – ele informa-lhe.

Clare atravessa a bolsa sobre o peito, a bolsa de pano florido que a mãe costurou e que ela encheu com biscoitos, e começa a subir também. Depois de tantas vezes, ela já sabe exatamente onde segurar e onde apoiar os pés. É como se, com o hábito, a árvore tivesse se contorcido para tornar a escalada mais fácil. Seu tronco é pesado e antigo, e os galhos firmes o suficiente para suportarem o peso das duas crianças.

Sentados lado a lado lá em cima, os dois formam uma imagem curiosa. Nolan tem aquela expressão decidida, quase rude, que não combina com a fragilidade dos braços finos e com a palidez da pele. Os cabelos negros cobrem-lhe a testa e caem sobre os olhos de um verde escuro. Ele balança os pés descalços enquanto arranca com as unhas a casca seca de um graveto. Clare, por sua vez, o observa em silêncio enquanto pensa sobre a história da casa da árvore. Seus cabelos loiros descem em ondas sobre os ombros e seu rosto une o encanto de lábios rosados com a perspicácia do olhar.

— Como? – ela quer saber.

— Como o quê?

— Como vamos construir uma casa da árvore?

— Bem se vê que garotas não sabem nada mesmo sobre essas coisas.

Ela empertiga-se, na defensiva, não porque se sente ofendida com aquela parte de Nolan que é audaciosa e arrogante, mas porque havia decidido que esse é o único modo decente de lidar com esse tipo de situação. O garoto ao seu lado é seu melhor amigo, além de seu vizinho, e ela o conhece suficientemente bem para saber que Nolan está com vontade de irritá-la.

— Nem você! – ela diz.

— Eu poderia construí-la sozinho.

— Então faça isso. – Clare dá de ombros e abre a bolsa sobre o colo. – Sobra mais pra mim.

Ela deixa que ele veja os biscoitos de chocolate e então come um deles, mastigando lentamente e exagerando uma expressão de deleite que tem a pretensão de causar inveja. E que causa, realmente. Ambos sabem que os biscoitos de chocolate da mãe de Clare derretem na boca. Então Nolan faz o que costuma fazer quando sente-se impotente e resolve o impasse daquele seu modo intempestivo – agarra a bolsa e joga-a longe.

Clare vê os biscoitos esparramando-se lá em baixo, a boca meio aberta de espanto e um sentimento quente revolvendo-se dentro do peito. Nolan conseguiu deixá-la furiosa.

— Olha o que você fez, idiota!

Ela chuta um dos pés do garoto, que solta uma risada, e ergue-se para segurar-se no galho logo acima. Descerá da árvore, catará os biscoitos, um por um, e voltará para casa com a intenção obstinada de não falar mais com Nolan até que ele lhe peça desculpas de joelhos. E ele pedirá, porque é assim que eles sempre fazem as pazes. Mas então algo dá errado – a palma da mão suada, um movimento atrapalhado ou talvez a raiva que a sacode no momento – e o galho escapa do alcance de seus dedos.

Clare prepara-se para cair.

A queda será o suficiente para fazê-la quebrar um braço ou qualquer outra coisa, mas ela não pensa nas consequências do impacto. Nesse momento, tudo o que lhe vem à mente é uma palavra. Nolan. É como se algo dentro dela gritasse, embora sua voz tivesse sido engolida pelo susto. Depois, Clare se lembraria de ter fechado os olhos com força enquanto seu corpo caía devagar.

E de ter sido agarrada pela blusa – de ter sido salva.

Eles ainda ficam em silêncio durante um longo tempo, ela respirando daquele modo estranho, o corpo todo rígido como uma pedra e segurando com uma força incomum o galho da árvore sobre o qual está sentada, e ele agarrando-a pela roupa, mudo e de olhos bem abertos, como se Clare ainda corresse o risco de cair. Os dois só despertam desse estado de torpor quando ouvem a mãe de Clare chamando-a, sua voz vindo de longe num tom impaciente. Então Nolan a solta e eles descem lentamente da árvore.

Enquanto caminham para fora da mata, ele ainda sente as pernas tremendo e ela uma vontade silenciosa de chorar.

II

Desde que Clare podia se lembrar, Nolan sempre esteve ali – andando ao seu lado pelo caminho entre a escola e suas casas, dividindo o sofá com ela enquanto assistiam desenho animado e, mais tarde, filmes de suspense, esperando na porta da cozinha pelos biscoitos de chocolate que a mãe de Clare tirava do forno, pedindo ajuda com o dever de História e resolvendo os problemas de Matemática que ela não entendia, chamando-a para irem nadar na piscina do clube, reclamando nos dias em que ela se recusava a sair de casa porque sentia cólicas, aquelas “bobagens de mulher”, como ele dizia, contrariando-a e irritando-a apenas porque achava aquilo divertido, sendo seu melhor amigo, quase uma extensão dela própria.

E assim passaram-se mais oito anos.

Nolan já tinha dezessete anos quando Clare fez dezesseis.

E, por algum motivo que ela não compreendia, Nolan tinha mudado com o tempo. Não era como se ela continuasse a ser a mesma garotinha que, um dia, quase caíra daquela árvore. Não. Clare sabia que havia mudado também. Tornara-se mais indecisa, menos destemida, talvez. Porém, o que acontecia com Nolan às vezes a deixava sem saber o que pensar. Agora ele andava com garotos que ninguém mais gostaria de ter como amigos, garotos que pareciam maus, bebia ao ponto de tornar-se estúpido, saía com garotas que depois fingia não conhecer e tinha, na maioria das vezes, um sorriso de sarcasmo que a confundia e a assustava.

Quando estavam sozinhos, contudo, Nolan ainda era Nolan – era o pensamento em que ela se agarrava. Sentados sob a árvore que era só deles, naquela mata intocada por qualquer outro ser humano, a sensação que os envolvia era a de que o tempo mal havia passado. Exceto pelos corpos que haviam espichado e adquirido novas nuances, nada mais parecia ter mudado ali. Embora Clare tivesse desenvolvido curvas e Nolan tivesse ganhado traços mais duros e definidos, a mata continuava a mesma, o sol penetrava pelas copas das árvores do mesmo modo e os dois continuavam a formar aquela imagem única num mundo que apenas eles conheciam.

Haviam crescido juntos, e Clare acreditava que permaneceriam assim para sempre.

Até o dia em que se deu conta de que não o conhecia mais.

Foi num fim de tarde de outono. O sol começava a se pôr e tudo tinha aquele tom alaranjado que indicava o prenúncio da noite. Sentada sobre um galho baixo da árvore que os conhecia desde que eram crianças, Clare ainda usava o vestido azul que havia escolhido para ir no supermercado com a mãe, no início da tarde, e observava Nolan sentado no chão de folhas secas, curvado sobre um caderno em que rabiscava qualquer coisa.

Ela reparou em como os ombros dele tinham se tornado largos e enrubesceu.

— Está escurecendo. – ela disse. – Vamos embora.

— Agora você tem medo do escuro?

— Por que você sempre me toma por uma...

— Por uma garotinha tola? – ele a interrompeu, sorrindo.

Nolan tinha aquele sorriso, outra vez. Aquele sorriso que Clare ainda não sabia se adorava ou se detestava. Ele fechou o caderno e o enfiou de qualquer jeito na mochila antes de levantar-se e de esticar as costas que haviam endurecido com a ausência de movimento. Clare já tinha percebido o quanto Nolan havia crescido nos últimos anos, mas agora, recortado contra a primeira escuridão da noite, ele parecia ainda mais alto.

Ainda achando graça de alguma coisa, ele foi até ela e esticou os braços na sua direção.

— Pule, garotinha tola.

— Pra você me deixar cair? – ela o olhou desconfiada.

— Eu nunca te deixei cair de lugar nenhum. – e era verdade. – Confie em mim.

Clare confiava até mesmo mais do que gostaria. Então desfez o bico num sorriso e, deslizando do galho da árvore, deixou-se amparar pelos braços de Nolan. Os dois riram enquanto ele fingia cambalear para lá e para cá, apertando-a desajeitadamente naquele abraço e fazendo com que o vestido dela subisse pelas coxas. Achando graça daquilo, mas também desconfortável pela proximidade, Clare contorceu-se até que ele a colocasse de volta no chão.

Ainda assim, Nolan continuava perto demais.

Eles trocaram um olhar inesperadamente longo. Clare sentiu seu sorriso murchando na medida em que o dele se esvaía também, agora num silêncio estranho só cortado pelo som da respiração ofegante de Nolan. O hálito morno dele tocou-a no rosto. Como se aquilo não fosse certo, Clare sentiu-se subitamente quente e sua primeira reação foi empurrá-lo para longe, mas Nolan a segurou. Obedecendo a uma espécie impensada de instinto, ele a abraçou com força.

E beijou-a.

Ela sentiu a dor e a estranheza daquele beijo ao mesmo tempo, e teve vontade de chorar. Seus punhos queriam bater naquele peito largo e duro como uma porta que a esmagava, seu corpo inteiro tentava libertar-se daquele abraço que a apertava com uma violência até então desconhecida, sua boca queria negar o beijo que a machucava, e, paralelamente a tudo isso, sua mente insistia numa única coisa – “é apenas Nolan.”

Nolan. O garoto com quem ela dormira no sofá da sala mais de uma vez. O garoto que costumava protegê-la dos trovões e dos cachorros bravos. O garoto que a acalmava com um “shh” e que soprava sobre o ferimento quando ela se machucava. O garoto que afugentava com um olhar furioso qualquer um que tentasse se aproximar dela. O garoto que coçava a cabeça quando ficava confuso, que estalava os nós dos dedos quando sentia raiva e que tinha profunda aversão a gatos. O garoto em quem ela sempre pôde confiar de olhos fechados. Ela o conhecia desde sempre e o amava em segredo.

Mas quando ele empurrou-a contra a árvore e desceu uma mão até sua coxa, Clare entendeu que não conhecia mais aquele garoto. Nolan, seu Nolan, jamais a machucaria. Ela não sabia o que tinha acontecido com ele, em que parte do caminho havia se perdido, mas compreendia agora que o cara diante dela era um estranho.

Ela não conhecia aquele homem.

Então acertou-lhe um tapa no rosto e, desvencilhando-se finalmente, correu para longe dele. Quem iria salvá-la agora que Nolan havia partido? Ela soltou um grito que expressava raiva e medo ao mesmo tempo quando ele a apanhou por um cotovelo e a puxou de volta com uma força que os fez cair. Clare tentou arranhar o rosto dele enquanto lutava para se soltar, mas o peso do corpo dele sobre o seu a fez soltar um gemido que pedia, que implorava, para que ele a deixasse em paz. Sentiu que ele apertava-lhe os seios de um modo que doía e teve a consciência de que aquele homem que um dia tinha sido o seu melhor amigo não pararia até ter destruído o que havia de melhor dentro dela.

Clare chorou, e enquanto chorava, as palavras escaparam involuntariamente.

— Então... Foi nisso que você se tornou...?

De súbito, como se tivesse sido trespassado por algo doloroso, Nolan parou. E então percebeu, com horror, o que estava fazendo. Ele ainda tinha uma mão sobre um dos seios de Clare, pois a outra acabava de rasgar a lateral do vestido que ela usava, quando ouviu o choro dela e sentiu que ela tinha o corpo sacudido pelo pranto. Clare chorava de um modo que ele nunca tinha visto, com um sofrimento que ele jamais imaginara que ela pudesse experimentar.

Porque Clare era aquela coisa pálida e inocente como um sonho.

Clare.

Ele afastou-se, atordoado, os cabelos grudados sobre a testa molhada de suor, e a observou encolher-se como uma criança num quarto escuro. Aquela parte baixa e vil de seu próprio corpo ainda pulsava sob o jeans e ele odiou-se profundamente. Lágrimas vieram-lhe aos olhos e ele gemeu um pedido de desculpas. Sentia nojo de si mesmo. Sentia vergonha e arrependimento. Sentia aquela dor lancinante por ter se transformado naquela nódoa repulsiva que manchara para sempre a vida de Clare.

Nolan a amava.

Mas agora a porta se fechara para nunca mais ser aberta.

E enquanto se afastava, cambaleante de dor e desejo, ele soube que a havia perdido para sempre.

III

Depois daquilo, Clare nunca mais o viu. Na escola, ela ouviu falarem que Nolan tinha ido morar com pai em outra cidade. Sobre o motivo da mudança repentina, existiam vários boatos – que Nolan havia se metido em alguma confusão e que precisara desaparecer, que tinha batido na mãe, que se envolvera com coisas ilegais e até mesmo que fora ameaçado de morte por sair com a namorada de outro cara. Enquanto ouvia esses absurdos e outros semelhantes, Clare permanecia em silêncio. Ela nunca contou a alguém o que tinha realmente acontecido.

Entretanto, não podia esconder a verdade de si mesma. A lembrança daquele fim de tarde continuou machucando-a como ferro quente sobre a pele durante anos, até que o tempo encobriu-lhe as cicatrizes e a memória ocupou-se de guardar aquilo bem no fundo de um compartimento escuro. Era o único modo de conviver consigo mesma. Então Clare fingiu esquecer o passado e tudo o que se relacionava com Nolan.

Ela só compreendeu muitos anos depois.

Numa manhã em que o marido tinha saído para o trabalho e os dois filhos para a escola, numa dessas manhãs comuns que nada prometem, Clare olhou através da janela da cozinha para as flores recém plantadas no canteiro lá fora enquanto bebia um gole de café e, involuntariamente, a ideia atingiu-a, pronta e clara como a luz do dia. “Os homens são ilhas.” Ela apoiou-se na bancada da pia e sentiu a cabeça rodar. Sim. Os homens são ilhas, e não podemos imaginar o que há dentro deles até que eles resolvam nos mostrar. Não pensava em homens apenas como seres do sexo masculino, mas em Homens enquanto seres humanos. Sobretudo, pensava em Nolan – o garoto por quem ela havia se apaixonado e que a deixara chorando na escuridão da mata.

Um estranho.

Clare abriu um sorriso triste para si mesma.

E pensou que, no fundo, todos são estranhos uns aos outros.

Notas finais
Obrigada a quem leu.
Não esqueçam de comentar.
Até!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!