Estranha Sensação
39 Familiar Sensação
Notas iniciais
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Heriberto conseguiu poucos segundos de paz até chegar ao hotel. Bernarda insistiu para que dividissem o táxi e não desgrudou dele até que terminassem o check in. Ela sabia se fazer presente. Mas, à certa altura dessa marcação tão cerrada, Heriberto sentiu a necessidade de respirar. Desapareceu logo depois que pegou a chave de seu quarto e ela não teve outra alternativa senão ir para o seu relaxar um pouco.
Usou a banheira da suíte para sentir o calor da água e o aconchego dos sais envolvendo sua pele já que não podia ter o homem que queria abrasando-a. Logo que saiu do banho, a campainha tocou e ela se animou pensando que era Heriberto. Ajeitou o roupou e planejou seduzi-lo, se sentia sexy e poderosa, não podia sequer imaginar o que aconteceria a seguir.
— Victoria... o que quer aqui? — A pergunta estava carregada de muito temor, jamais imaginou ver ali a rival.
— Tenho umas coisinhas para você e não via a hora de te entregar! — Respondeu carimbando sua mão no rosto de Bernarda.
— Não ouse me agredir, eu te coloco na cadeia, cadela safada! — Insultou retrocedendo alguns passos. — E não pense que eu não vou saber me defender de você.
Victoria, por sua vez, tinha muito, muito ódio acumulado. Deu dois passos e agarrou a rival pelos cabelos jogando-a em cima da cama, imobilizando-a com as pernas. Aquela raiva lhe dava tanta força que era como se ela fosse duas.
— Pipino, feche esse porta e fique aí no corredor. Se aparecer alguém, diga que está tudo bem! — Ordenou segurando os braços de Bernarda.
O estilista ítalo-mexicano tinha o temor estampado no rosto, mas não ousaria sequer pensar em não obedecer Victoria. Fechou a porta para abafar o barulho e que Victoria pudesse colocar toda sua fúria para fora e, roendo as unhas, olhava aflito para os lados temendo pela ameaça de Bernarda de colocar Victoria na cadeia. E se ela a cumprisse? Uma deusa como Victoria não podia macular seus pés num lugar como a cadeia.
— O que você quer? — Bernarda, apesar do incômodo por estar imobilizada, deu um de seus risinhos e tentou virar o jogo. — Se desquitar ficando em cima de mim como seu homem já esteve?
— Não ouse mencionar Heriberto. — Victoria disse segurando o pescoço dela. — Bernarda, eu não vim aqui conversar. Eu vim aqui esfolar essa sua cara vulgar, e te dar um gostinho da humilhação que você vai sentir se ousar apresentar aqueles seus trapos imundos na Miami Fashion Week.
— Mas, fale a verdade, estando aí em cima, numa cama, você se lembra do que viu naquele flat, não se lembra? — Insistiu.
Victoria sentiu os lábios tremerem antes de responder. O ódio pulsava por suas veias e ela não conseguia suportar recordar as imagens daquele dia. No fundo até gostou que Bernarda o tenha rememorado. Assim, ela podia reportar sem medo toda aquela fúria que estava guardada havia tantos dias.
— Quer saber... — Disse ela saindo de cima de Bernarda. — Vamos deixar isso aqui mais divertido. Não quero te bater imobilizada. Quero te deixar no chão, para que você se recorde onde é que é o seu lugar.
Bernarda deu um sorrisinho, no fundo estava com medo, e ameaçou ir para cima dela, mas Victoria se afastou e a segurou pelos cabelos, na nuca, deixando-a, de novo, sem muitas possibilidades de se mexer. De impulso, a puxou para trás, derrubando-a no chão. Ela se levantou e, ao tentar se aproximar de Victoria, ela deu outro tapa em seu rosto, mas, dessa vez, com a força de um bofetão, chegou a arrancar sangue da boca da megera que começava a ficar com o rosto roxo.
— Você é patética. — Bernarda tentou ficar de pé a certa distância e se defender com palavras já que no braço estava ficando muito para trás. — A mulher traída que vem agredir a amante do namorado. Será que aquele dia não foi humilhação o suficiente para você? Porque, Victoria, você não tem noção de como Heriberto fode gostoso e de como nós rimos da sua cara de idiota depois que você saiu. É que... você chegou num momento muito impróprio, não tivemos sequer vontade de parar para te receber. — Tentou sorrir, mas a dor nas bochechas impediu.
— Como você é baixa, Bernarda. Dá pra ver na sua cara que as coisas não foram como você diz. Você é uma víbora. Age pelas sombras, nos estoques, nos apartamentos vizinhos, nos hotéis fora da cidade, não sabe dar a cara. Você pode até ter conseguido o que quer que seja com Heriberto, mas eu sei que não se compara ao que aconteceu entre nós. O que ele me fez sentir, você nunca vai sentir porque você é uma mulher que desperta pena, desprezo... Não amor!
— Amor! — Gargalhou Bernarda. — A sua cara nos vendo foder não parecia a de alguém que recebeu amor.
Victoria se aproximou dela e a segurou pelo colarinho do roupão revelando sua nudez por baixo da roupa e a imprensou contra a porta aproximando-se dela sem nenhum medo.
— Esses roxos no seu rosto, você pode esconder com maquiagem. Mas sua baixeza e incompetência ainda continuarão estampados aí. Bernarda, é meu último aviso. Fique longe de mim e de tudo que me pertence ou, da próxima vez, você não terá condições de sair da cama para passar vergonha em desfile nenhum.
— Eu sempre consigo o que quero, Victoria. Goste você... ou não! Você ainda não sabe de tudo. Quando souber... é você quem vai se envergonhar.
Victoria voltou a empurrá-la no chão, não sabia de onde tirava tanta força, só sabia que o fato de que Bernarda mencionasse Heriberto só a deixava ainda mais furiosa. Se dirigiu à porta já enojada da presença dela, mas, dessa vez, se sentindo menos derrotada do que quando foi à casa dela um mês antes...
Ao recordar essa visita, outra ameaça de Bernarda tomou forma em sua mente. Bernarda falava daquela noite com Heriberto como um trunfo, um troféu e, naquela visita, havia dito que faria isso, suas palavras a haviam deixado verdadeiramente atemorizada:
— E quando eu não aguentar mais de tanto gozar, porque saber que ele é seu homem vai aumentar muito meu tesão, — Bernarda ignorou a advertência de Victoria e continuou, sorrindo — aí eu vou te chamar porque eu quero ver a sua cara quando souber que o homem por quem você é louca de amor, me comeu como nunca comeu você!
— Rainha, você está bem? Essa cobra não fez nada com você? — Indagou Pipino preocupado.
— Fez. — Disse Victoria reticente. — Me fez ver que eu fui uma idiota em não esclarecer um flagrante e, agora, eu não tenho mais certeza de nada. Se o que estou suspeitando for verdade, posso ter sido injusta com... ele.
Caminhavam pelo corredor do Hilton e entraram no elevador enquanto Pipino tentava decifrar as palavras de Victoria, apesar de não conseguir. Quando a porta do elevador se abriu na recepção havia um homem esperando para entrar. Victoria, que estava com a cabeça baixa e só viu seus sapatos, foi levantando os olhos reconhecendo aquela sensação de presença que há muito havia deixado de ser estranha até encará-lo de frente naqueles olhos tão profundos. Era Heriberto! Ali, diante dela, no mesmo hotel que Bernarda.
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