Estranha Sensação
49 A maior loucura da minha vida
Notas iniciais
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A chegada em casa não poderia ser mais feliz. Desde o primeiro dia na Cidade do México, Heriberto se mudou para a casa de Victoria e eles passaram a apreciar o que seria sua vida juntos, aproveitar cada detalhe da vida em comum, especialmente um detalhe muito especial.
Nenhuma manhã era diferente daquela. As carícias naturalmente se transformavam em paixão. A atração, sempre tão viva e latente entre aquele casal, tomava forma em beijos cálidos e desesperados na cama de Victoria, agora, a cama do casal. Costumavam dormir nus, mais que abraçados, entrelaçados, e amanheciam acariciando-se e beijando-se desde o primeiro segundo numa assimetria perfeita.
Com muito calor, sem que nunca faltasse lenha, desejavam-se com loucura e não podiam disfarçar esse desejo sempre que suas peles se encontravam e se inflamavam. E eles amavam contentar suas peles com esse contato que seguia para a incandescência daquela paixão, era uma necessidade que compartilhavam, à que amavam obedecer.
O grito para fundirem-se em fogo e desejo era sempre intenso e envolvente como o canto de uma sereia que embevece, hipnotiza, apreende. Se moviam na cama desarranjando os lençóis e tirando tudo do lugar enquanto seus corpos, que era tudo que importava, se acoplavam vendo crescer um desejo que ia além da compreensão, aliás, quando se amavam, compreensão era o que menos precisavam.
O que vinha na sequência era uma forte inundação quando Victoria, ao estalar em delírio, gritava alcançando o pico enlouquecendo Heriberto com sua paixão que delirava ao vê-la queimar em brasa. As descargas de prazer percorreriam suas veias culminando no formigamento dos pés e a sequência de espasmos permanecia acontecendo para o deleite de Heriberto. O ápice sempre chegava para ambos, cada um a seu momento, e a imagem dos dois sobre aquela cama era de um casal sexualmente satisfeito, mas que não deixava de querer sempre mais um do outro. Sempre mais!
Heriberto observava o banho de Victoria, sempre com aquela cara de abobado, ainda não havia se acostumado com a beleza dela, enquanto ela parecia ter consciência do desejo que sempre lhe provocava. Ele observava como a água deslizava por sua pele aveludada e chegava a sorrir brincando com a espuma do sabonete.
— Se já terminou seu banho, o que ainda está fazendo aí parado, doutor Ríos Bernal? — Ela indagou de um jeito sedutor.
— Não está óbvio? — Ele respondeu usando a toalha para secar os cabelos. Ela achava que ele ficava muito sexy de roupão. — Te observando. Eu já te disse que nunca vou me cansar disso.
— Nem comece que eu já sei exatamente onde essa sua observação com essa cara aí vai parar. E eu não posso me atrasar hoje... como venho fazendo todos os dias desde que você veio morar aqui há vinte dias! — Acusou saindo do chuveiro e beijando-o ao pegar o roupão que estava dobrado atrás dele, sobre a pia.
— Vai me dizer que lamenta? — Ele indagou prendendo-a num delicioso abraço com cheiro de shampoo. — Vai me dizer que não ama a forma quente como começamos nossas manhãs?
— Eu não vou dizer. — Respondeu ela convicta. — Mas é justamente por isso que hoje, eu não posso me atrasar. Meu advogado ligou. Osvaldo aceitou os assinar o divórcio, mas exige que seja numa "reunião" num café que costumávamos frequentar.
— Victoria, você não pode ir sozinha, eu vou te acompanhar! — Afirmou Heriberto preocupado.
— Não, ele não quer que você vá. — Ela suspirou enxugando seus cabelos. — O doutor Giuseppe vai comigo, não se preocupe. Pense que é o último obstáculo antes do nosso casamento, da nossa felicidade completa. Se tudo der certo, hoje mesmo o doutor Giuseppe marca nosso casamento. Fique tranquilo, tudo vai dar certo.
Heriberto não conseguiu ficar tranquilo. Quando ela já estava pronta, sempre muito elegante e se despediu dele no meio da sala, ele sentiu um forte aperto no peito. Ainda que tivesse deixado de ser padre há meses, ainda era um homem de fé. E, dentro de seu coração sentia que aquele encontro com Osvaldo terminaria mal.
— Me ligue assim que sair de lá. — Pediu ele depois de mais uma negativa dela à sua insistência em acompanhá-la. — Por favor, Victoria, no momento em que essa reunião se encerrar, me ligue!
— Eu prometo! — Ela afirmou beijando-o muito carinhosa antes de sair.
***
— Eu pensei que tivesse dito que assinaria esses papéis se você viesse sozinha, Victoria! — Exclamou Osvaldo muito incomodado ao ver o advogado acompanhando-a.
— Ele veio para proceder a transferência do dinheiro, Osvaldo. Ou você acha que eu vou querer ter o desprazer de te encontrar de novo? Assim que ele confirmar que está tudo certo com o divórcio, ele vai transferir o dinheiro. — Ela explicou imponente.
— Então peça que ele fique na área externa do Café. Eu não vou assinar nada antes de conversar sozinho com você! — Falou com a certeza de que tinha algum direito a exigir algo.
— Está bem, está bem. — Ela cedeu à contragosto impaciente para acabar com aquilo de uma vez. — Espere ali fora doutor, por favor.
Depois que o advogado saiu e ficou observando-os pelo vidro, Osvaldo pareceu finalmente relaxar.
— Sente-se, Victoria. Não aja como se não tivéssemos sido casados por quase dezenove anos. Vamos nos despedir de nosso casamento com um último café. Para você eu pedi suco, como você sempre fazia quando vinha aqui. — Falou com um risinho cínico.
— Assine os papéis, Osvaldo. — Ela disse se sentando e colocando a pasta com os papéis sobre a mesa. — Por favor, vamos acabar com isso. Depois de você ter metido a Fer nessa história, eu não suporto mais nem sequer olhar para sua cara.
— Ah, então eu descobri seu ponto fraco? — Ele deu um sorriso. — Você pode ter uma imagem de estilista de sucesso frente às revistas e aos meios de comunicação, Victoria. — Ele seguiu puxando os papéis do divórcio e assinando sem parar de falar. — Mas em família você é um fiasco. Não pôde enganar a mim, não pôde enganar a Fer e não pode enganar a seu mais novo amante. — Sorriu empurrando o papel de volta para ela.
— Do que você está falando? O que você acha que sabe sobre Heriberto? — Ela se alterou ao perceber que ele tinha muito deboche no tom e na expressão.
— Agora você se interessa, pelo que eu possa lhe dizer? Que interessante que tocar no nome do seu amante chame mais atenção do que falar de sua filha. — Ele seguiu provocando-a.
— Fale de uma vez, seu verme maldito! — Ela levantou o tom batendo na mesa. Algumas pessoas presentes no café olharam para eles. — O que é que você está insinuando sobre Heriberto?
— Não está claro? Ele e Bernarda são cúmplices. Eles estão te fazendo de idiota, rindo de você por trás enquanto você acredita que está vivendo um sonho de amor. Esse médico nunca te amou, Victoria, ele não se aproximou de você por acaso, foi tudo um joguinho arquitetado por Bernarda.
— Isso não é verdade, você só está falando isso para me afetar, eu não vou cair no seu joguinho. Aqui a única pessoa que é cúmplice de Bernarda é você e foi ela quem te mandou me dizer essas coisas. — Victoria, apesar de mexida com suas palavras, permaneceu firme.
— Fernanda tem razão. — Ele disse olhando para cima nos olhos dela que tinha se levantando e feito um sinal para o advogado concretizar a transferência do dinheiro. — Que baixo você caiu, Victoria. Nunca pensei que você se deixaria enganar tanto por um homem. O que ele faz? O que ele faz para te levar a trocar sua família, sua única filha por uma foda meia boca?
Victoria pegou o copo de suco de laranja que estava sobre a mesa e jogou todo nele de uma vez. Tremia dos pés à cabeça, era puro ódio sobre um par de salto 15. O advogado correu até lá, bem como alguns funcionários do estabelecimento, mas ela parecia descontrolada:
— Deixe minha filha fora de suas porcarias, Osvaldo! — Ela gritava já segura pelo doutor Giuseppe, mas ele não era capaz de contê-la. — Eu exijo que você pare de envenenar a Fer contra mim ou senão eu paro você! Eu juro que te paro Osvaldo! A qualquer preço!
A confusão durou alguns minutos antes que Victoria pudesse ser contida e foi assistida por poucas pessoas. Entretanto, um jovem que estava ali com seu celular e, possivelmente reconheceu o ator e a estilista, filmou toda a discussão. Em poucas horas o vídeo estaria em vários sites de fofoca e nenhum dos dois poderia evitar que o escândalo se tornasse completamente público.
Depois de efetivar a transferência, o advogado acompanhou Victoria até em casa onde ela precisou ficar recolhida para evitar o assédio da imprensa que não dava trégua no telefone e nem na entrada da mansão. Todos queriam uma declaração dela sobre suas ameaças ao seu, agora oficialmente, ex-marido, mas o advogado a aconselhou a divulgar apenas uma nota esclarecendo os fatos e assim ela fez.
Longe dali, em sua casa de classe média, Bernarda assistia tudo em um tablet sobre sua cama e sorriu quando Osvaldo entrou no quarto se despindo bem animado.
— Ninguém sabe que você veio para cá, não é? — Indagou Bernarda enquanto ele terminava de tirar suas roupas. — Não quero a imprensa na minha porta. Esse presentinho, eu deixo para Victoria.
— Não. Eu tomei todos os cuidados. — Ele respondeu subindo na cama e beijando a modista. — Eu só não entendi o que você ganha com isso além de mais publicidade para Victoria.
— Não pense, queridinho! — Ela afirmou se despindo também. — Vem aqui que eu vou te dar um prêmio à altura de sua grande atuação de hoje.
Emaranharam-se entregando-se à uma paixão da qual, claramente, Osvaldo desfrutava muito mais do que Bernarda, mas lhe servia muito bem para fugir do assunto que o ator queria falar e não lhe convinha que ele soubesse.
***
Heriberto teve muita dificuldade para entrar em casa com tantos fotógrafos e repórteres acampados ali na entrada quando retornou de seu trabalho. Victoria não havia cumprido sua promessa de ligar para ele assim que saiu do encontro com Osvaldo e, horas depois, aquelas notícias o deixaram estarrecido, ansioso por estar com ela e muito preocupado.
Ele a encontrou sentada no escritório, seguramente seu ambiente preferido da casa, observando alguns papéis. Quando ela o viu, seu olhar rígido não se alterou para a alegria característica de todas as vezes que se viam ao final do dia e Heriberto entendeu que era por causa do incidente no Café.
— Amor, eu fiquei muito preocupado, você não me ligou. — Ele disse carinhoso.
— Eu não pude. — Foi econômica com as palavras como acontecia quando ela estava preocupada.
— Eu sinto muito pela confusão. Eu posso imaginar o que ele disse para que você reagisse daquele modo. — Ele se sentou na frente dela.
— Heriberto, você sabe que papéis são esses? — Ela o questionou séria enquanto ele negou com a cabeça. — São os papéis do nosso casamento, daqui a uma semana com todos os detalhes que acertamos.
— E você me diz isso assim? — Ele se animou. — Vem aqui, amor, vamos comemorar!
— Heriberto, eu não sei se devia te perguntar isso, mas eu acho melhor isso do que deixar que essa dúvida me consuma. — Ela falou sem se levantar de sua cadeira. — Eu posso mesmo confiar em você ou estou fazendo a maior loucura da minha vida me casando com você?
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