Estorietas de Gaveta
2 Pessoas Perdidas
Notas iniciais
Na estrada noturna para o Gama me lembrei de sombras de pessoas a muito perdidas. Não perdidas para sempre, mas perdidas para mim. De anos que me moldaram e que me feriram de formas estranhamente carinhosas.
Helena tinha um tom de fala levemente nasalado, percebi enquanto cantávamosMarjiorie Estiano atrás das salas da escola, a voz dela era uma graça mesmo assim. Calma, séria demais para uma criança de 10 anos.
Julia tinha o maxilar mais bonito que já vi até hoje, e lábios finos perfeitos. Eu nunca disse isso a ela.
Leonardo tinha uma cicatriz muito charmosa na têmpora, muito perto do olho. Eu nunca perguntei como ele a conseguiu. Fazia carão e sorria com os olhos as vezes. Me pergunto o que ele está fazendo agora. Queria pedir desculpas.
Mariana era mimada e tinha um rosto estranhamente pequeno para sua estrutura óssea, mas tinha olhos negros lindos, que aliás, a irmã mais nova também herdou. Uma graça.
Mariana tinha uma irmã mais velha também, ela já estava no ensino médio, mas nós gostávamos de conversar depois da aula. Ela me emprestou toda a coleção dela de mangás da Sakura. Eu li como se fossem feitos de açúcar, preciosos segredos de encadernação barata.
Natasha era a feliz n°2, logo depois de mim. Tinha o rosto em forma de coração, e dentes regulares e brancos. Adorava o jeito que o formato da boca dela fazia com que ela sempre parece estar sorrindo.
Pedro disse que não tinha sido minha culpa. Ele estava errado, mas me ajudou naquele dia. Tinha a pele e os cabelos quase da mesma cor, o que eu achava encantador. Era um maroto.
Luísa tinha dificuldades de aprendizagem, tinha dificuldade em por os números em ordem, mas era um amor de pessoa, muito tímida. Conversávamos sempre sobre WITCH e Clube das Winks, tentando convencer uma a outra de que o seu preferido era melhor.
A Barbie era um doce. Uma garota tão diferente e tão igual. Amava a Barbie, queria ser igual a ela. Eu não sei se cheguei a dizer isso a ela, mas ela era mais bonita, simpática e inteligente que a Barbie.
Leonardo era uma machistinha, mimado e xenófobo. Eu chorei mais de uma vez na frente dele, todas de raiva. O carro dos pais dele era um Cross Fox amarelo. Ele sempre usava amarelo. Eu odiei amarelo por anos.
Gabi foi a primeira menina feminista que conheci. Ela era um pouco direta demais para o meu eu da época, mas era uma figura maravilhosa. Responsável e confiável, não conseguia deixar de compará-la a uma mãezona.
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