Estilhaço Sob Asas
1 Estilhaço Sob Asas
Eu vejo daqui um céu cor de âmbar, cheio de folhas e pássaros que voam em volta da lua. Um, o maior, está dentro, dessa redoma, que o impede de acompanhar os outros. Os pequenos, ainda aprendizes de si mesmos, sobrevoam e conseguem abrir caminho na imensidão. Alguns, com feridas nas penas, outros, com feridas no corpo. Enquanto o grande pássaro, crescido e sabido, não consegue sair do lugar. Já não sabe nada, já não sente nada, apenas as folhas, em círculos concêntricos balançando com o suave do vento, tocando sua pulsação. Os outros, com certa inocência, voam em direção ao norte. seguem em frente, em sincronia, como se fossem atraídos por algo e não pudessem fazer outra coisa a não ser, buscá-lo.
E com a chegada do anoitecer, o grande pássaro se mistura a Lua, de pescoço torto, querendo seguir todo os outros. Mas suas asas não levantam mais, e a sua vontade de sair dali já não é mais importante. Ou é, só que, não parece ser. O grande pássaro sente melancolia, quer despencar do alto, está cansado, exausto de observar a viagem dos outros colegas.
Então, mesmo sentindo que não consegue, ele empurra o bico nas folhas do céu, ele fura, a cada segundo um pouco, o bloqueio natural. E quando percebe, há estilhaços por todas as partes, que entram direto em seu coração.
Mas ele continua vivo, sob suas asas.
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