Estações

4 Treino!?


- Levante-se! Você não é capaz?

Poupei o esforço da palavra e concentrei-me em erguer meu corpo do chão com a força dos braços. Era a trigésima flexão seguida, mas eu não conseguia mais. Meu corpo tremia e já não respondia aos meus impulsos nervosos. Senti meu olhar fixo no suor no chão a corrente elétrica que impulsionou pela última vez os braços foi mais forte e eu pudi sentir um flash percorrer minha medula.

- 30, 31, 32, 33... — Gritei desesperada gastando ainda mais a energia da flexão. Trinta é um número mínimo, mas eu nunca havia feito aquilo.

Depois das flexões vieram abdominais e provas esquisitas de resistência e quando eu pensei que não era mais capaz de ficar em pé vi um garoto entrar na sala com uma grande cara de tédio.

- Que bom que veio.

- Eu não acho que você tenha me deixado outra opção. — Ele reclamou. Se Heidh tinha olhos de verão os dele eram uma tarde fria de outono.

- Esta é Nemu. — Ele apresentou-me sorrindo.

Eu estava ajoelhada no chão apoiada nos braços sem conseguir levantar, o corpo todo tremia e eu empregava toda força em observar o olhar de outono castanho.

- Ela não vai aguentar nem um segundo. — O garoto comentou olhando pra mim sem emoção.

- Você não é capaz? — O homem perguntou desafiador.

- Sou. — Teimei.

- Viu? — Ele lançou um de seus olhares quentes ao garoto.

- Você achou uma suicida na rua? — O menino não se abalou.

Ele não respondeu ao garoto apenas sorriu e afastou-se um pouco. Sinceramente eu concordava com o menino, mas eu não conseguia admitir que estava acabada. Eu queria provar que era capaz e aquilo era o que eu precisa mais no mundo, como uma droga que eu estava completamente viciada.

- Não se matem crianças. — Foi a última coisa que ouvi.

Meu corpo estava completamente envolto de ataduras, eu não conseguia levantar de tanta dor que eu sentia, a única coisa que eu recordava era a frase... \" Não se matem crianças.\" Tentei abrir os olhos, mas as pálpebras pesavam que nem tijolos eu não conseguia abrir os olhos por mais que eu tentasse. Senti muita raiva, não sabia exatamente por que mas senti os impulsos do meu corpo produzindo a adrenalina, eu estava furiosa por não ter conseguido o que fosse que eu disse que era capaz.

- Heidh! — Ouvi uma voz delicada gritar ao mesmo tempo que senti as ataduras partindo-se e meu corpo ficando mais livre. Abri finalmente os olhos para ver de perto duas grandes esferas lilases confundindo o meu cérebro, eram olhos... Discerni tardiamente que a paisagem de primavera também eram olhos como o verão e o outono. Relaxei meu corpo e senti um imenso alívio. — Heidh! — A voz gritou e as esferas aproximaram-se demais das minhas próprias. Fiquei com medo.

- Não assuste a menina. — A voz era do menino com olhos de outono.

- Cadê o Heidh?

- Tomando chá.

- Ele não virá?

- Como eu posso saber?

- perguntando. — A menina falava com ele mas olhava fixamente para mim em uma proximidade desnecessária.

- Vai beijar ela? — O garoto entediado perguntou sem muita emoção.

- Não, ela parece viva.

- Ela está viva. — O que eles estavam discutindo? Era óbvio que eu estava viva.

- Mas os...

- Vejo que já conheceu a Scarlet, Nemu. — As pupilas da garota dilataram-se de uma forma estranha deixando o olhar dela colorido... Talvez ela estivesse próxima demais... O salto que ela deu para trás confundiu minha vista e clareou as coisas ao mesmo tempo. — Apenas diga que é capaz quando realmente for, Nemu. — Heidh continuou ignorando completamente a reação da garota.

- Você poderia ter morrido. — A menina disse agarrando-se ao braço dele.

- hum... — grunhi.

-Eu achei que ela era melhor. — O menino disse bagunçando um cubo colorido e concertando-o imediatamente.

- Foi o primeiro dia dela. Você nem mesmo quis lutar... — A menina provocou. Lutar? O que havia acontecido.

- Foi o sensato, eu não era capaz. — Ele respondeu sem interesse ainda brincando com o cubo.

- Autton está certo. Tentar quando não é capaz é falta de senso, mas pelo visto ela está bem. Você sabe que não era necessário tanta força naquele chute, certo?

- Foi mal, já disse. — O rosto do menino ficou levemente insatisfeito.

Como uma alavanca aquela conversa paralela despertou minha memória adormecida e eu lembrei que logo após daquela frase o menino correu em minha direção e chutou meu adomem fazendo-me voar até o teto. Eu estava VIVA? Muita coisa na menina começou a ter sentindo para mim. Tentei sentar na cama e tive meu primeiro sucesso com o corpo arrebentado, notei que eu não sentia dor e imaginei o tanto de morfina que tinha aplicado em mim para eu estar tão... Viva!

- Você é ótima Scarlet. — Ele disse sorrindo contido e olhando para mim emanando o calor do verão em minha direção.- levante-se Nemu. Você já dormiu demais.