Estandartes de Prata

2 Entre banhos e porta na cara


A cena do dia anterior ainda ecoava na mente Saotome Rin e Masayashi Shin.

As serviçais do lado de fora sumiram de vista. A que estava dentro do quarto, a Kaseifu Kajiyashiki Irie-san, os acompanhou para fora. Contudo, para a surpresa dos dois, ela fechou a porta por dentro — lançando um olhar tão arteiro como significativo. Para Rin, com certeza, de puro repúdio. Para Shin, de descrença de que ele teria sucesso nessa nova empreitada.

Com lábios carregados de veneno e expressão de megera, disse:

— Sentem-se com sorte?

Aparentemente, Shinado-dono ficou doente na mesma época que o velho Saotome-dono. Porém, o governador da província estava em sua casa de inverno — um pouco mais adiante da Montanha Tateshina. Assim que percebido o mal acometido, ele foi levado para um templo no alto da montanha, fortemente protegido por soldados e pelo próprio relevo local. Ao menos, era o que diziam. Três dos cinco filhos herdeiros ficaram na casa, esperando boas notícias. Ou, pelo menos, era o que se esperava. Todos sabiam da viagem da dama Saotome e seu guarda-costa para lá. Uma carta declarava que esperavam ansiosamente pela chegada dos convidados. O itinerário informava que duraria pelo menos 2 dias, se mantivessem ritmo constante e poucas paradas de descanso. Considerando o inverno se tornando cada vez mais rigoroso e o relevo bastante acidentado, provavelmente não gastariam tempo combatendo qualquer gatuno espertalhão. Provavelmente.

Sairiam logo pela manhã, de madrugada.

Mal passou três dias e logo estavam arrumando os preparativos para uma nova viagem. Saotome-dono mal deixava Rin visitá-lo, trancado no quarto a maior parte do tempo. O lar que tanto sentiu saudades lhe causou um leve desconforto, vazio desse jeito. Se havia uma única pessoa no mundo com quem pudesse contar, esse alguém era a serviçal Takako-san. Enquanto a megera da Irie mantinha as coisas funcionando e vigiava a criadagem com mãos de ferro, Takako se postava como o coração da casa. Quando as esposas faleceram, uma se tornou os pilares de sustentação e a outra o travesseiro no qual chorariam. A sinceridade e lealdade de ambas eram absolutamente notáveis, mas Takako era muito mais leal e próxima dos filhos. Tão próxima a mulher era que foi arrumar as malas de Rin. Pertences essenciais, algumas roupas pesadas de neve, jóias não muito valiosas, maquiagem e... algo que ela não faz questão alguma de esconder. Um estranho kimono é jogado sobre a mesa, munido de acessórios de casamento.

Seu pai sempre dissera que, se um dia ela assumisse a liderança do clã, seria por uma reputação criada por si mesma. Uma mulher forte, de renome, que poderia escolher com quem se casaria e sob critérios que achasse necessário para a manutenção do poder da família. Jamais arranjado. Teria ele mudado de ideia?

[SAOTOME RIN (P.O.V.)]

É perceptível minha simpatia por Takako que por Irie. Sou quase um monge toda vez que preciso apaziguar meus pensamentos para não partir para cima da criada indisciplinada. Só não me livrei dela pela competência excelente da serviçal. Um dia Irie me traria problemas, sem dúvidas, mas, por enquanto, seria um problema ainda maior, especialmente sabendo como grande parte dos criados apenas me suportam. Minha irmã Naomi era muito mais carismática nesse quesito.

Franzo o cenho ao ver os trajes matrimoniais, mas desvio do assunto.

— O que houve com Naomi?

— Finja surpresa caso souber por outra pessoa que não seja eu. Naomi-chan estava estudando na capital Edo. Aparentemente, a pequena senhora estava fugindo para brincar na parte pobre do vilarejo. Se envolveu com alguns chineses, refugiados ilegalmente aqui. O senhor ficou irado e não descartou a ideia de que... naomi-chan consumiu ópio. Não o culpo, minha querida. O preconceito quanto aos chineses, qualquer estrangeiro, está se disseminando mais rápido que a fome. Logo, mal o sol nasceu e a menina já estava a caminho de Edo. Tempos depois, foi enviada para o exterior.

Respiro fundo e digo quase rindo.

— Eu não vou conseguir reproduzir essa mesma reação quando ouvir a história pela segunda vez...

— Falando nisso, continuo visitando o túmulo de Daichen. E...perdão a minha ousadia, contudo... sempre evitei perguntar. Por que não gostava do seu irmão?

— Inveja, ciúmes... qualquer tipo de sentimento fútil que você possa imaginar. (Suspirou, tentando ocultar a careta amarga.) Ele tinha tudo, e, mesmo quando as coisas finalmente melhoraram, essa mancha negra em meu peito já havia crescido e se alastrado. Se você alimenta o pior de si por tempo demais, isso acaba te consumindo. Não compartilhamos... das mesmas virtudes, afinal.

Não esclareço se me refiro a Daichen ou à Naomi. Talvez a ambos.

[MASAYASHI SHIN (P.O.V.)]

Enquanto o tempo passava, Saotome-dono me recomendou alguns exercícios para me preparar para a viagem. Iria machadar uma árvore antiga da família.

Observo, entre machadadas e suspiros profundos de cansaço, marcas de corte longe do lugar onde Irie-san disse que os serviçais tentaram por décadas. Fraturas profundas, que chegaram a atingir quase o cerne dela. Há tecido velho enroscado nas farpas da madeira, indícios de que alguém tentou irracionalmente abrir o ferimento da árvore com as próprias mãos. Sem sucesso, claro.

Mas a dificuldade da tarefa não é a pior coisa com o que tenho que lidar.

— Ridículo. Ainda está atrás do falecido Saotome Daichen-sama. — e ri baixinho, claro escárnio.

Ela é o meu pesadelo acordado.

— Bem, pelo menos estou melhor que muitos serviçais daqui. Ah e obrigado pela água e comida, Irie-san. Pretendo permanecer aqui mais um pouco, descansar e logo de manhã, bem cedo, retornar.

Shin, após horas sob o frio, que mostrava-se cada vez mais impiedoso mesmo no começo do inverno, se retirou da função. Estava disposto, o cansaço ainda não o castigava. Contudo, mal sentia os dedos. O machado frequentemente escorregava. As mãos estavam completamente machucadas, vermelhas e com farpas.

Irie-san o encaminhou para um dos quartos na casa principal, um cubículo mal cheiroso, apesar de bem decorado e aparentemente recém arrumado. Logo que lhe deu um lugar para dormir, Irie-san sai — rosto aparentando completo nojo. Um chão de tatami verde, futons para dormir, uma pequena mesa de chá e uma janela de vidro meio turvo. "Aproveite o luxo, Xogun." as palavras venenosas da serviçal se repete na mente dele.

[MASAYASHI SHIN (P.O.V.)]

— Bem, vou sair então desde quarto e procurar um banheiro. Neste estado, não acredito que seja uma boa idéia.

Converso comigo mesmo e saio do quarto.

Já é tão tarde que mal vejo a criadagem enquanto caminho até a área de águas termais artificiais, o onsen dos Saotome. As velas clareiam o que podem, mas continua bem escuro. Por sorte, encontro duas serviçais no caminho. Uma fala com outra, esta que pega um baú com alguns objetos fica parada na minha frente — como se esperasse alguma coisa.

— Ah. É... você pode se retirar já. Se quiser. Não entenda como grosseria de minha parte, por favor. Muito obrigado por ter me levado até aqui.

— Masayashi-sama, é meu dever ajudá-lo com o banho... como tradicionalmente é feito. Eu... prometo que não irei constrangê-lo.

— Ah, perdão. Me desculpe. Não precisa se preocupar com o constrangimento. Confesso que não estou muito acostumado. Prossigamos então...

Continuo ainda um pouco tímido. Respiro profundo e aos poucos vou retirando as minhas vestimentas, entrando na fonte termal. Tento me concentrar e me manter relaxado, aproveitando o calor da água.
— Bem... parece que tivemos um começo "errado". Erro meu. Se não se importa, qual o seu nome?

Ela fica ruborizada quando dou atenção mais do que necessário. Aparentemente, não é algo comum — talvez não nessa casa, talvez só "não" no geral.

Lavo o rosto e as mãos primeiro. Ela é eficiente e rápida em me ajudar com o banho, até porque ambos estamos desconfortáveis.

Antes de sair, ela diz:

— Minato, Masayashi-sama,..- e sai correndo ao som de uma risadinha contida, travessa, indo embora antes que eu pudesse sequer reagir.

Após sair do onsen, passo no quarto de Rin. Bato na porta dela baixinho. A expressão dela não é muito receptiva, como se quisesse me enforcar ali mesmo.

— Boa noite, desculpe o horário. Só gostaria de saber se está bem. Recebi, e imagino que a senhorita também, cartas estranhas e ameaçadoras. Estou apenas cumprindo meu trabalho de guarda costas…

[SAOTOME RIN (P.O.V.)]

Quase berro um "Você está ficando insano?!" ao receber a súbita visita do samurai no meio da noite, mas logo me calo. Já sei das sombras que se esgueiram pelos cantos.

— Estou ciente.

[MASAYASHI SHIN (P.O.V.)]

— Agora, preciso ir. Não possuo muito tempo. Se Irie-san me ver...

Uma parte dos meus pensamentos estavam corretos desde o início. Tanto eu como Saotome Rin-sama temos um alvo bem em nossas testas. Mesmo que aqui. Irie-san é a primeira na minha lista. Estou desconfortável e desconfiado das intenções dela. Mas... por mais que Irie não goste de mim, por ser um samurai de Shinsengumi ou não, ela não deixaria logo de cara que seria a responsável por isto tudo, estas correspondências ameaçadoras.

[SAOTOME RIN (P.O.V.)]

Observo Shin refletir por um momento, frente ao meu quarto àquela hora da noite.Tenho um súbito e profundo desejo de chutá-lo dali. Por sorte, ele parece ter posto a mão na consciência e decidido se retirar por conta própria o quanto antes.
A sorte acabou. Pela sua expressão, espera ainda alguma ordem adicional minha quanto ao assunto.

Suspiro impaciente.

A minha resposta?

A porta do quarto é fechado abruptamente.

Shin permanece no local, encarando a madeira por um tempo e murmura enfim:

— Rude.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.