Era uma tarde qualquer de setembro quando vi pela primeira vez aquele homem. Os olhos dele eram claros como um dia de verão e o sorriso aqueceria o mais avassalador frio, era impossível para o olhar humano não render-se a forma como ele era intimidante e insistia em fitar os olhos de seus admiradores. Eu notei a minha insignificância perto de sua presença quando enfim ele parou na minha frente e perguntou-me meu nome. A resposta que deveria ser dada automaticamente ficou presa em alguma parte de mim fazendo-o sorrir.

Estavamos no meio da praça pública e eu sentia-me incapaz de reagir diante dele, era um único olhar entre mil, mas ele intimidava-me de uma forma assustadora. Na ausência dos meus sentidos ele apenas sorriu e levantou meu queixo penetrando minha alma com o olhar. Assim ele disse pela primeira vez aquelas palavras.

- Você não é capaz?

- Hãm!? — Fiquei confusa e as palavras fugiam em uma velocidade alucinante. Não importava o que ele dissesse ou fizesse, naquele momento eu não seria capaz de reagir a nada.

- Não consegue falar? — Ele suavizou a expressão dominante e logo assumiu um ar debochado como se ignorasse-me.

- Con... Con... Si...sigo!

- Então qual é o seu nome? — Eu... Não sabia qual era o meu nome... Não naquela hora.

- Por que quer saber?

- É justo que eu saiba o nome de uma pessoa que esteja me olhando dessa forma.

- Que forma? — Ele...

- Parece que você dá mais importância ao que digo do que ao infeliz do teu nome. — Ele debochou.

- Norma. — Respondi sem pensar. Então eu sabia, obviamente, o nome que eu carregava na minha identidade.

O homem reprovou-me com o olhar, sorriu discretamente e carregou-se de desdém pelo meu nome. Eu lembro de ter odiado aquilo e de como senti-me inferior com a confiança que ele transbordava. Os olhos de verão novamente penetraram minh’alma sem deixar qualquer sentido meu funcionar devidamente.

- A norma é tudo o que impede o homem de superar-se e tudo o que protege-o de si mesmo. Normas, regras... O conjunto de limites humanos para humanos. Você é o limite? Ou será capaz, Nemu?

- Do que está falando? É só um nome! O que pode haver de errado em um nome? E O que é Nemu? — Tive minha primeira grande reação perto dele, naquele dia também.

- Nemu é você e se o nome é só um nome então por que você diz que é seu? Você é um humano e só humano, então acho mesmo que é perca de tempo fazê-la minha.

Normalmente eu fugiria de qualquer maluco que dissesse algo como aquilo para mim, mas permaneci imóvel e não me abalei com o que ele disse. Eu sabia exatamente como era ser menosprezada pelas pessoas, como era viver no subúrbio sem expectativas de estar viva no outro dia, sabia como era perder as pessoas que amava e como era não ser amado por quem deveria. Sabia como era sobreviver, mas nunca havia vivido há 18 anos de humanidade. Por algum motivo o verão dos olhos dele fazia que eu acreditasse nas loucuras que ele dizia e fazia meu peito não fragmentar-se ainda mais.

- Você não é capaz? — Daquele dia em diante eu ouvi essa frase insistente e irritante quase todos os dias.

Capaz de aceitar um novo nome eu era, sim... Era. Mas, a nova vida que ele me prometeu com os olhos facinava. Ele não disse uma só palavra no entanto eu o segui. Dali em diante eu o seguira onde quer que ele quisesse ir e nem ao menos eu sabia o porquê de fazer aquilo. Simplesmente admirei-o de uma forma tão intensa que atribuí a ele todas as expectativas que atribui-se a um Deus. Ele passava a ser a minha lei e eu a ser NEMU.

- Por que? — Questionei depois do meu décimo oitavo passo em seu caminho.

- Por que, o que?

- Eu?... — Eu apenas não conseguia falar.

- Quer saber por que está me seguindo ou por que eu perguntei o seu nome?

- Por que estou te seguindo? — repeti em voz alta para mim mesma, aquela era uma das perguntas que eu havia esquecido de responder.

- Você veio por que não quer ser o limite e sim o paralelo infinito.

- O que você vai fazer comigo? — Foi a primeira vez que senti medo dele.

- Vou ensinar a você aquilo que sei.

- Por quê? — Num mundo de cães você age como um. Eu não entendia o que ele estava pedindo em troca da vida que prometia tão intenso. Ele mentia? Eu não era capaz de discordar dele nem por um segundo, então o que ele queria em troca?

- Não estou interessado em nada no momento, mas em breve precisarei de sua ajuda, mas você ajudará se quiser. Não quero nada em troca além de respeito que é um sentimento necessário entre pessoas.

Ajudar? O que alguém como eu poderia dar a alguém como ele? Muitas perguntas chocaram-se contra meu cérebro fazendo-me sentir dor tamanha a minha convulsão de realidade. Tudo que eu deveria ter pensado ao vê-lo bombardeou minha mente naquele momento. Não havia mesmo o que perder. Por que dizer não?