Notas iniciais

Durante o inverno de 2022, logo no início da lenta retomada da normalização pós-pandemia, centenas de milhares de pessoas se lançaram às ruas em busca de empregos. A crise sanitária gerou consequências catastróficas, como o aumento de preços nos alimentos. Em meio ao caos da fome e do desemprego, muitos recorreram à informalidade para conseguir pagar as contas.

Rafael era uma dessas pessoas, aceitando a recomendação de um amigo da faculdade, sobre um emprego num posto de gasolina. Não era o emprego dos sonhos, longe disso, mas já era alguma coisa.

Seu turno começaria às 10 da noite e iria até as 6 da manhã, e o salário seria decente. Pela distância e pela localização, era inviável ir até lá de metrô ou de ônibus.

— Deu 38 reais.

— Perdão? – disse o garoto, distraído em seus pensamentos e em sua ansiedade do primeiro dia de emprego.

— A corrida.

— Ah sim – ele leva a mão até o interior do bolso em seu casaco, retirando a carteira e entregando o dinheiro ao motorista – me desculpe, fiquei distraído olhando a estrada.

— Tudo bem – o motorista confere o dinheiro, balançando a cabeça em sinal de aprovação – vem cá, tem certeza de que é aqui?

O posto encontrava-se à frente. Era o único ponto iluminado dos últimos 10 minutos, com exceção de um ou outro poste cuja luz ainda funcionava. De resto, era apenas estrada e mato.

— Sim, o endereço que me passaram é esse mesmo. Por quê?

— É que esse posto fica no meio do nada. Não acha perigoso?

— Sendo alguém que trabalha tão tarde e que divide o carro com desconhecidos, você vai me entender. – Rafael diz, saindo do carro e agradecendo a corrida. – Ser adulto é uma merda.

O carro permanece durante alguns segundos, como se estivesse considerando aquilo que foi dito. Mas logo depois também partiu, deixando para trás apenas o jovem a caminho do posto.

Ali havia uma pequena loja de conveniência 24 horas, onde ele trabalharia. Cada passo

Uma escuridão procurava tomar conta do lugar, impedida apenas pela luz do estabelecimento. O vento soprava forte, com folhas movendo-se ao fundo. A porta de vidro, fechada, guardava um número limitado de prateleiras com produtos para viagem, bebidas, alimentos... coisas que viajantes e caroneiros poderiam precisar.

Ao empurrar a porta e enfim entrar, ele é recebido por uma voz que conhecia bem.

— Rafa, cara! – achei que não fosse vir.

— Tá brincando? Eu preciso do emprego. E mais uma vez, obrigado por me indicar. Salvou demais – Ele colocou a mochila em cima do balcão – Como foi hoje? Tranquilo?

— Bastante – o colega responde, arrumando-se para sair dali – Só duas pessoas o dia inteiro. Não faço ideia como o senhor Rodrigues mantém isso aqui, com quase nenhum cliente. Ah, o último cliente fez a festa no banheiro, então boa sorte.

E quando foi isso, seu preguiçoso de merda? Duvido muito que tenha sido 2 minutos atrás— Rafael pensou, mas decidiu não falar. Mas invés disso, simplesmente respondeu:

— Tá bem, obrigado por me avisar. O esfregão e os produtos de limpeza continuam no depósito?

— Sim, tá tudo lá. E eu vou nessa, meu Uber já tá chegando. Bom turno pra você.

— Valeu, bom descanso.

O amigo coloca a mochila nas costas e sai da loja, conforme duas esferas de luz se aproximavam do lugar. As esferas iluminavam o chão de concreto da estrada, e conforme se aproximavam do posto, revelavam ser a parte dianteira de um carro.

Com seu amigo partindo no Uber, Rafael teve uma sensação estranha – um medo. Estava ali, sozinho, a vários quilômetros de distância de qualquer cidade. Era mesmo uma boa ideia ter aceitado o emprego? Já não sabia mais.

Decidiu distrair a cabeça ocupando-se com tarefas. Verificou o estoque, conferiu o caixa. Estava tudo em ordem. As câmeras funcionavam perfeitamente também, mas ele preferia não usá-las. Era como ver um filme de terror real. De qualquer forma, o vidro antirruído era tão bem feito que não podia ouvir nenhum barulho vindo de fora.

Com tudo aparentemente tranquilo, ele deixou o balcão onde atendia e andou por entre as prateleiras até o interior da loja, onde havia uma porta com a famosa placa “Só é permitida a entrada do pessoal autorizado”. Dentro dela, um corredor com duas portas laterais e um caminho cujo destino levava a porta dos fundos da loja. A lâmpada do corredor tinha quebrado recentemente, então o chefe resolveu ter a brilhante ideia de comprar uma mais barata no lugar. Só que a tal “lâmpada mais barata” era da cor vermelha, o que dava um aspecto bizarro no local. Teve que usar a lanterna do próprio celular para poder enxergar direito.

O rapaz foi até uma das portas laterais, onde ficavam guardadas ferramentas e outras coisas úteis para o trabalho. Era como se fosse uma versão macabra da entrada da loja, com prateleiras velhas e coisas nada convidativas. Ele enfim pegou o esfregão e um dos produtos de limpeza de uma das prateleiras, mas teve que guardar o celular antes. Com ambas as coisas em mãos, ele foi até o final do corredor e encaixou a chave na fechadura, destrancando a mesma.

A parte de trás do posto era ainda pior, com um muro de concreto baixo e uma densa mata do lado de lá. Dando a volta, poderia voltar para a entrada do posto – a parte mais iluminada dali. Mas sua tarefa agora era conferir o banheiro e limpar a bagunça de um porco em forma humana. Mais alguns passos e lá estava, a porta encostada e um cheiro nada agradável vindo dela. Ele respirou fundo e lá foi com coragem, limpar a literal cagada alheia. O banheiro era pequeno, mas grande o bastante para ter uma pequena pia com um espelho acima dela, uma privada, um cesto de lixo, uma estante com papel e uma plataforma com sabão líquido. Bem, agora o papel estava todo espalhado pelo chão, bem como o sabão.

Enquanto limpava, não ouviu o barulho de rodas e nem pôde ver os faróis do carro que ia virando em direção ao posto. Estacionando, a pessoa saiu do veículo e foi até a entrada. Minutos depois, e de estômago embrulhado, Rafael finalmente lavou as mãos e saiu dali enjoado. Devolveu as coisas ao depósito e procurou voltar para o balcão.

Teve uma surpresa quando voltou para a entrada.

— Perdão! – Ele diz, olhando para uma figura parada de costas em uma das prateleiras. – Espero não ter te deixado esperando por muito tempo.

— Tudo bem. – O cliente se vira, com um estranho sorriso e olhos fechados. Parecia ser um senhor de meia idade, vestia um sobretudo social e gravata listrada. Também tinha luvas nas mãos, mas devia ser por causa do frio — Sorte sua que não roubei nada.

Rafael engoliu o seco. Aquilo foi dito de forma educada, mas por algum motivo soou como ameaça.

— E como posso ajudar o senhor hoje?

Ele puxa um objeto da prateleira, mostrando-o explicitamente. Era um maço de cigarros. Rafael vai até o balcão e registra o produto no computador, puxando o preço.

— São 7 reais, senhor.

Aquele sorriso medonho parecia ter piorado ainda mais depois que o cliente abriu os olhos. Duas esferas escuras e maliciosas atrás de um óculos sujo. Ele paga o cigarro com uma nota de 10, recebendo o troco de volta com três moedas de 1. A presença dele trazia uma energia pesada para o local, e isso só melhoraria quando saísse.

— Você trabalha sozinho?

— Não — mentiu — tenho mais três colegas.

— Ainda bem.

Após isso, sai da loja e acende o cigarro ainda na porta. A fumaça, um vapor cancerígeno que misturava branco e cinza, recua para trás como se fosse um ser vivo, querendo entrar na loja. O cliente então vai até o carro, dando partida e sumindo de vez. A única coisa que Rafael pôde reparar do carro, antes que ele sumisse, é que era uma vã preta com uma película de vidro fumê.

Depois que aquela figura estranha foi embora, Rafael sentiu um alívio. Por mais estranho que fosse, parecia estar mais seguro na solidão absoluta que na companhia de pessoas como aquela.

Alguns minutos depois, o telefone toca. O rapaz deixou o celular no balcão e tratou de atender de uma vez. Podia ser seu chefe, afinal. Ao colocar o alto-falante numa das orelhas, ouviu um chiado estridente que provocou uma careta de dor. Ao fundo, algum grunhido que nunca tinha ouvido antes. O coração palpitou como se fosse sair na boca. Tratou logo de deslizar, e decidiu que tiraria o interruptor se recebesse outra ligação assim.

Duas horas se passam, e nada do telefone tocar. Rafael já estava se acostumando com a calmaria novamente, assistindo séries pelo celular enquanto esperava seu turno chegar ao fim. Sua colega chegaria de manhãzinha, e ele poderia enfim voltar para casa e dormir.

Concentrado na tela, ele leva um susto quando a porta abre trazendo risadas e barulhos desagradáveis num tom maior do que o que o horário permitiria.

Ah, não...— ele pensa, desanimado – Adolescentes.

Cinco indivíduos entram e nem sequer o cumprimentam, vão direto nas prateleiras de comida e bebida. Olhando pra fora, conseguiu ver um carro vermelho e aparentemente bastante espaçoso. Tinha mais alguém ali, no volante. Voltou a atenção para os cinco baderneiros, incomodado tanto com o som quanto com as atividades. Respirou fundo, contando os segundos para que saíssem logo dali e o deixassem de volta a paz do silêncio.

Um deles pegou uma revista e ficou rindo da capa, fazendo alguma palhaçada qualquer para chamar a atenção da amiga. Outro estava na geladeira ao fundo da loja, escolhendo qual bebida levar. Ele colocou duas garrafas numa das mãos e preparou-se para pegar a terceira, enquanto o pé mantinha a porta da geladeira aberta. Num movimento descuidado, uma garrafa cai no chão e se estilhaça em vários pedaços – com um deles inclusive indo parar no dedo mindinho do cara mais próximo.

— Quero os cinco fora daqui. AGORA!

— Calma aí, meu parceiro – um deles protesta – meu amigo ali acabou de se machucar. Não tem um paninho nem nada aí não?

— Se machucou porque é um idiota – Rafael retrucou – agora, fora! Não me façam repetir.

O garoto sai de trás do balcão e vai ver o estrago, enquanto os cinco saem dali. O estrago era bem feio, pior do que imaginava. Rachou parte da porta, molhou alguns produtos... Isso daria trabalho. Quando voltou para pegar a chave do depósito, notou que os cinco já tinham saído e que o carro já havia dado marcha, mas notou também o caixa aberto e vazio.

Puta que pariu, meu chefe vai me matar...

Antes mesmo que pudesse correr até o carro, ele já estava longe. Só podia mesmo registrar um boletim de ocorrência online e puxar a placa do carro pelas câmeras, mas primeiro decidiu ir limpar aquela bagunça.

Foi até o depósito pegar um pano e um balde, mas notou que a porta dos fundos estava aberta.

Eu lembro de ter trancado ela. Ou será que não?

Ele saiu, olhou para o lado e para o outro. Um vento gelado soprou, e então ele voltou o olhar para o banheiro. A porta também estava aberta. Andou calmamente, nada ansioso para ver qual surpresa desagradável a noite tinha lhe reservado. Empurrou a porta, mas de início não notou nada demais. Tentou ligar a luz, mas não funcionava mais. Mais um circuito queimado, o prejuízo daquela noite era o bastante para ser demitido. Parecia estar tudo como havia deixado, exceto...

Exceto uma esfera esquisita na pia. Decidiu se aproximar e focar a lanterna do celular. Aquilo não era uma esfera. Levou a mão até a mesma, tocou e tentou entender o que era. Uma espessa camada de fios tomava conta daquele objeto. Pareciam... cabelo. Então ele virou a coisa do outro lado e confirmou sua suspeita, para o seu desespero. O susto foi tão grande que deu um passo para trás, tremendo. Era uma cabeça humana!

Rafael nem quis saber, só saiu correndo dali e deu a volta até a entrada, trancando-se do lado de dentro. Ele precisava chamar a polícia. Enquanto discava o celular com os dedos trêmulos, ele acessa as câmeras atrás de uma possível explicação para aquilo tudo.

— Emergência. – Uma voz feminina atendeu.

— ALÔ??? PRECISO DE AJUDA AQUI!

— Mantenha a calma, senhor. O que aconteceu?

— CALMA É O CACETE! TEM UMA CABEÇA DECAPITADA NO MEU BANHEIRO!

Enquanto era tranquilizado pela telefonista, ele procura nas gravações os possíveis horários em que aquilo possa ter acontecido. Devia ser entre o horário que limpou o banheiro e agora.

— Senhor, mande a sua localização por favor. Vamos enviar uma viatura.

A fita de segurança mostrava uma pessoa entrando no banheiro cerca de uma hora depois da limpeza, e logo em seguida, outra figura a seguiu. Era alto, tinha algo que cobria a cabeça, e vestia um avental manchado acima de uma camiseta de flanela nas cores vermelha e preta. A gravação mostrou a figura saindo dali com o corpo nos ombros, indo em direção a porta dos fundos.

AQUILO PODE ESTAR AQUI!!

— Senhor? Senhor, está na linha?

Quis falar, mas a voz não saiu. A vista escureceu, e só pôde ver que dedos cobriam seu rosto. Um odor estranho invadiu seu sistema olfativo, enfraquecendo seu corpo completamente. Só teve tempo de ver, através da tela do computador, o reflexo daquela coisa sem rosto.

E então o mundo escureceu.

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