II

GRITOS

“Mas aquele era apenas o começo.

E elas sabiam disso”

Adentrando por algumas frestas na cortina os primeiros raios de sol daquela manhã ao baterem nos cabelos de Arya deixavam-nas idênticas, as feições das garotas estavam tranquilas, embora um tanto cansadas e elas ressonavam calmamente durante o sono.

Uma bela cena de fato. Que Esther e Michael não tiveram piedade nenhuma em acabar.

Piscando os olhos repetidamente e se encarando atordoadas, ambas apenas trocaram olhares antes de sussurrarem juntas.

–A segunda parte da tortura.

–O que temos para hoje, Michael? –Anna perguntou enquanto Esther terminava de ajudar Arya com suas rupas, uma cena estranha para desconhecidos, mas que já se tornara comum para eles quatro, afinal demônios eram só mais duas entre as milhares de coisas que elas compartilhavam.

–Miladys, hoje além da segunda consulta com a Srtª. Campbell, temos agendado na casa de campo dos Ryans um almoço entre Arya e Theodor e na Mansão Phillips Anna esta sendo convocada para conhecer as irmãs de seu noivo.

Ambas as garotas suspiraram, claramente já haviam feito diversas visitas aos noivos, juntas ou separadas, mas nunca receberiam aquela noticia bem. Não que estariam presos a aquelas pessoas, não que um vínculo eterno fosse novidade para elas, já que sabiam que Esther e Michael nunca desapareciam, mas o contrato fora feito por vontade delas, diferente dos noivados.

–Mais alguma coisa? –Dessa vez foi Arya com um sorriso sinistro na face angelical.

–Pela manhã teremos a apresentação dos novos empregados.

As garotas ficaram um tanto surpresas, mas não demonstraram, andavam calmamente os vestidos, ambos negros com detalhes em dourado, deixavam seu humor horrível a mostra.

Pararam na sala de estar onde em frente a escada três pessoas estavam paradas.

–Estes são Lilith, sua nova professora de línguas, etiqueta e dança. Lucifer seu novo professor de pintura, música e história. E por fim Soren o novo cozinheiro.

–Ok.

Uma troca de olhares foi mais do que suficiente para que todos se retirassem e deixassem-nas sozinhas ali, poucos minutos depois seguiram para o escritório que dividiam.

Sentaram-se frente a frente, fitando com certa inquietação um livro de capa negra encontrado por Michael na noite anterior. Livro seria perfeitamente normal se o nome “Andrew McClarie” não estivesse gravado em letras douradas neste.

Com um suspiro elas abriram o livro em pagina aleatória e começaram a ler.

“Nove de Dezembro, foi a data em que a primeira visita ocorreu.

Ele, D.R., retornou diversas vezes depois disso, mas sempre tratando do mesmo assunto: meu filho mais velho.

Poucos sabem mais sobre Oliver do que sua data de nascimento, mas ele parece estar realmente disposto a conseguir respostas. Temo seus motivos, por Sarah e por Oliver.

E pelo segredo que nossas famílias guardam.

Andrew Thomas McClarie.”

–Isso é algo como um diário?

–Acho que devemos nos preocupar mais com esse segredo que imagino não se tratar da nossa lealdade a Rainha.

–Continuamos lendo?

–Você tem alguma duvida? –Ambas sorriram de maneira idêntica, fazendo tal como anteriormente ao abrir um livro em uma pagina qualquer.

“Sinto que tudo está próximo a desabar.

Oliver está cada vez mais perto do caminho sem volta que Sarah tanto quer o afastar. E mesmo que hajam aqueles como ela e meu pai que tentam a todo custo distrai-lo desse destino que parece puxa-lo com cada vez mais força, minha mãe e a dela, as tão famosas Condessas Arya Winter e Anna Brown parecem ser as primeiras a mostrarem o “caminho do desespero” para meu primogênito.

Sinto-me tentado a intervir, mas sei que é impossível, tanto quanto todos os envolvidos sabem que no momento final apenas Oliver terá a palavra.

Será uma escolha somente dele

Andrew Thomas McClarie”

Naquele instante elas perceberam que até mesmo sua família, Oliver principalmente, poderia ter mais segredos do que elas imaginavam.

“Todos pagamos nossos pecados um dia.

Não importa se estamos no fundo ou no raso na interminável piscina preenchida de todos os erros por nós já cometidos, um dial aqueles que chamamos de Shinigamis viram e recolherão nossas almas livrando o mundo de algumas das inúmeras impurezas que o mancham de negro.

Mas admito que sou uma das manchas mais escuras e permanentes, na verdade é isso que a família McClarie representa na opinião de muitos: pecados que atraem pela beleza ilusória, que te prendem e tornam impossível escapar, que mancham até mesmo a mais pura das almas do mais profundo negro.

Mas, Oliver, Arya e Anna parecem ser diferentes, os três equilibram-se na mais fina das cordas, na maior das alturas e nem a menos temem cair, eles não bambeiam para nenhum dos lados. Conseguem atingir o tom negro que por muito foi o único representante de minha família, mas também tem constante presença do branco que herdaram da família de Sarah.

Realmente extraordinários, e por isso os mantenho escondidos pelas frequentes inclinações para um dos lados que poderiam ter se a influência de certas pessoas fosse fincada em suas mentes.

Andrew Thomas McClarie”

–Acho que eu já ouvi essa da mistura entre o branco e o negro.

–Todos aqui! –Gritaram sabendo que além delas não restava nenhum humano na casa.

Michael, Esther, Soren, Lilith e Lucifer surgiram em questão de segundos na frente das gêmeas, que iniciaram a ler em voz alta o ultimo relato.

–Então já descobriram sobre sua verdadeira origem, não? –Indagou Lilith com um sorriso de canto.

–O que vocês sabem? –Dessa vez foi Anna quem tomou a palavra

–Que graça teria se vocês descobrissem tudo no inicio? –Lilith sorriu e sai logo após terminar a frase, e com uma troca de olhares as garotas pediram que os empregados se retirassem.

Elas viviam num jogo. E que graça o jogo teria se todos os truques fossem revelados no começo?

E pensando nisso cada uma foi para o próprio quarto para trocarem as roupas e irem cada uma para casa de seu noivo. Trajando um elegante vestido do mesmo tom de seus olhos Arya terminou de colocar o anel que comprovava o fato dela ser a Condessa Winter, ao seu lado Anna trajava um vestido semelhante só que de tom mais claro.

Dentro de carruagens distintas com apenas os mordomos como acompanhantes ambas as garotas tinham seus pensamentos focados em algum lugar longe dali, na Alemanha, mais precisamente, de onde haviam acabado de receber uma carta.

Margareth Louise Miller, sua única tia materna que nunca ficara sabendo da morte da irmã e do cunhado, estava voltando para a Inglaterra e provavelmente esperava ver Sarah e Andrew McClarie vivos, tal como as irmãs dele e como a noiva escolhida por ela do sobrinho.

Arya só parou de tentar lembrar das feições dela, ao ver que a carruagem parara e se depara com Theodor com um sorriso grande a aguardando. Tratou de apagar temporariamente e o assunto Margareth da cabeça e focar-se em coisas mais importantes, como tentar ser amigável com o noivo, ou talvez ser o mais fria e distante possível, naquele dia ela se via entre as duas opções.

Ainda indecisa entre isso ela seguiu Theodor até o quarto dele, os pais do garoto haviam saído e além dos empregados, que estavam todos no andar de baixo, eles estavam sozinhos. Arya aumentou seu sorriso ao perceber o quão fácil seria mata-lo numa situação como aquela.

Mas, o manteria vivo.

...Por enquanto.

—Arya?! –Ele chamou, percebendo o quanto a garota parecia estar longe dali em seus pensamentos.

E como mesmo assim a garota não reagira, Theodor achara um modo mais interessante de acordar a noiva.

Agiu cuidadosamente evitando chamar a atenção dela.

E quando Arya McClarie finalmente despertou de seus pensamentos, estava no chão, com o noivo acima de si, segurando seus braços de modo que ela ficasse imóvel.

—O q... –Ela não concluiu a pergunta, em choque tanto pela posição quanto pelas as ações do garoto que começava a acariciar suas bochechas. Naquele momento o primeiro impulso de Arya foi empurra-lo para o mais longe possível e gritar por ajuda. —Me solte Theodor! –Recuperando-se do choque ela bradou, certa urgência na voz e impaciência.

—Ary, porque você nunca tira as luvas? –Ele indagou, um sorriso travesso na face.

—Theodor, largue-me! –Ela aumentou o tom de voz, não queria ser obrigada a chamar Michael, mas isso fazia-se mais necessário conforme o tempo passava.

—Ary, o que tanto esconde? –Ele indagou, e Arya pela primeira vez olhou nos olhos do noivo desde que chegara, e ela se assustou com o que viu. Os olhos normalmente esverdeados e acolhedores do garoto, que haviam feito ela dar-lhe uma chance, haviam se tornado negros, tão negros quanto a própria escuridão, e pareciam carregar um brilho mortífero. Aquele não era Theodor Ryans, ou pelo menos não a faceta deste que ela conhecera. —Vamos fazer um jogo. Eu deixarei você escolher. Se você me deixar tirar sua luva eu lhe soltarei ou...

—Ou oque? –Ela não se conteve, se Theodor, ou seja lá quem fosse, queria jogar, ela jogaria, mas, jogaria um jogo com regras criadas por si mesma.

—Isso! –Ele falou. Pouco antes de selar os lábios com os da garota. Uma das poucas ações que foram capazes de deixar Arya McClarie em choque. E com certo temor. Sim temor, temor por relembrar tudo de ruim que já passara, e que se relacionara com aquele simplório gesto.

Longe dali, nos jardins da mansão Phillips, mais exatamente, Anna McClarie e Daniel Phillips conversavam e riam, o clima ameno apenas tornava aquela tarde mais agradável, embora aquilo fugisse muito do que estava costumada Anna se deixou ser apenas uma nobre normal naquele momento, sem tudo que realmente a cercava.

Certa hora ela se pôs à frente do garoto e mandou-o parar. Sorriu vendo o quão belos os cabelos ruivos dele ficavam em contraste com o sol daquele final de tarde. Os olhos do garoto procuraram os dela, que parecia estar imersa em pensamentos.

E por conta de um movimento não calculado, Daniel tropeçou numa das pedras do jardim, Anna não se afastara, por nem ao menos perceber o que acontecia, e ele acabara caindo em cima dela. E por mais que ela demonstrasse apenas certa confusão por fora, choque e uma leve irritação tomavam conta da McClarie.

O garoto tentava recuperar-se da queda, sem reparar a tamanha proximidade de ambos, na verdade ele só reparou nesta quando começou a sentir o hálito quente de Anna contra si, foi para ele quase inevitável não sorrir ao comprovar o aroma doce semelhante ao de maçãs que seu hálito exalava.

—Dan... –Ela ia falar algo, quando ele, sem motivo aparente, se aproximou ainda mais, beijando os lábios avermelhados da noiva.

O choque mesclou-se a vergonha naquele momento e o primeiro impulso que Anna teve foi afasta-lo, mas algo a impediu, algo que nem mesmo ela sabia o que era. E após alguns instantes ele finalmente separou-se dela. Os olhos de ambos se focaram um no outro e os dois pareciam travar algum tipo de conversa apenas se fitando.

—Desculpe-me. –Foi o que Theodor disse após ser empurrado por Arya e ter, aparentemente, recuperado sua consciência normal.

—Porque fez isso? –Ela indagou, os olhos azuis marinhos pareciam mais indecifráveis do que de costume naquele momento, e Theodor não pode evitar se perguntar o que se passava pela cabeça dela naquele momento.

—Arya... –E foi a vez de Theodor Ryans não completar uma frase. Havia caído no chão, aparentemente inconsciente.

—Alguém! Socorro. –Arya gritou para atrair a atenção dos funcionários em relação a situação do noivo, com cada vez mais dúvidas povoando sua mente, já normalmente conturbada.

—Senhorita o que aconteceu? –Uma empregada adentrou o aposento demonstrando todo o seu choque e confusão ao ver a cena. Arya deitada sobre o chão arfante e com as bochechas tingidas de vermelho e Theodor desmaiado, também no chão, mas longe dela.

—Eu não sei! –Ela murmurou inocência e preocupação se tornando nítidos em sua face, embora por dentro houvesse certa diversão reinando em volta daqueles mistérios.

Algumas horas depois, Arya se via naquele quarto de hospital ao lado do noivo que ainda jazia adormecido, Oliver resolvia alguns assuntos com o pais do garoto e com o médico fora da sala, enquanto Anna e Karen estavam em casa, as duas não tinham muito conhecimento da situação.

Os cabelos castanhos dele se espalhavam pelo branco do travesseiro, sua face estava calma, parecia não ter preocupações. Ela buscava algum sinal de que o garoto iria acordar em breve, nem mesmo ela sabia por que buscava os olhos verdes de sempre, e ao mesmo tempo desejava saber mais sobre o par de ônix nos quais os olhos dele haviam se transmutado horas antes.

Sentiu um aperto na mão que estava abaixo da do noivo, e foi lhe impossível não fitar novamente a face dele, os olhos ainda estavam fechados, mas um sorriso mínimo estava presente em seus lábios.

—Arya? –A voz soara baixa e rouca, a garota surpreendeu-se dele não ter gaguejado enquanto falava.

—Sim. –Ela murmurou em voz baixa, enfim vendo novamente o par de olhos esverdeados dele.

Os dois trocavam olhares, em vários momentos ele apertava novamente a mão enluvada da garota, algum tempo, que nenhum dos dois contou depois, Theodor caiu na inconsciência novamente. E nesse exato momento Oliver adentrou o quarto, ela despediu-se silenciosamente dos pais do noivo, não comentara sobre ele ter acordado por breves momentos.

—Como se sente? –Oliver indagou os olhos impassíveis, enquanto abraçava a irmã de lado.

—Como eu deveria me sentir? –Ela retrucou, os olhos encobertos pela frieza.

—Arya, Arya, Arya sabe que não consegue se esconder de mim, não sabe?

—Infelizmente.

Ele beijou-lhe a testa, e logo em seguida chegaram em casa, ele falou algo com Karen beijando-lhe e em seguida seguiu junto com as gêmeas para o quarto de ambas.

Deitou-se junto das irmãs, que como fizeram anos antes naquela mesma data adormeceram abraçadas ao irmão mais velho.

—Boa noite. –Ele murmurou, quando percebeu que ambas já dormiam, cobriu-as do melhor jeito que podia e beijou a testa de cada uma. Olhou para trás apenas no momento anterior ao de fechar a porta.

No corredor andando em direção ao próprio quarto, Oliver sorriu para Michael e Esther. O tempo passava conforme ele andava, e ele não parou nem mesmo quando passou do quarto que dividia com a esposa.

Do lado de fora, ele encarou os novos empregados, Lucifer e Lilith, e acenou para os mesmos.

Os três seguirão para a floresta que cercava a Mansão McClarie, os olhos azuis de Oliver cintilavam de modo quase idêntico ao das irmãs mais novas, enquanto se distanciava de sua casa.