Esse é o Meu Pai
8 Perdido
A viagem foi longa, chegaram na noite do dia 7 de setembro, mas valeu muito a pena. O lugar que Ikki os levou tinha um lago enorme, formado por um rio que desaguava nele, este lago ficava em uma clareira, que ficava no meio de uma enorme floresta e era visitada com frequência, pois tinha várias famílias ao redor do lago acampando, em tendas e trailers, e muitas mesas de piquenique.
¬ Devo admitir. — comentou Seiya. — O Ikki tem bom gosto.
Fukano, que tinha sido acordado a pouco por Shun, saio sonolento do carro sem que os demais notassem a sua presença. Ao ouvir as palavras do Cavaleiro de Pégaso o menino teve seu ódio atiçado.
¬ É claro que o Tio Ikki tem bom gosto! — retrucou mal educado.
Os Três Pesos Mortos Da Viagem, segundo Ikki, se viraram mais do que depressa para encarar a figura que emanava um cosmo tão ameaçador. O menino os assustou, de certa forma, não só por ser a cara de Shun, como também pelo poder que emanava e pelo total desconhecer daquela existência até então.
¬ AHH!! — Seiya quase pulou para trás e apontou para o menino. — Quem é esse ai!?
Fukano era um menino educado, mesmo estando bravo pelas palavras de Seiya, ele ainda tinha que se apresentar. Então engoliu seu orgulho e se curvou levemente.
¬ Meu nome é Fukano. — depois ergueu-se com ar de igualdade e importância. — É um prazer conhecer os mais bravos Cavaleiros de Atena. Shiryu de Dragão. — indicava cada um com a cabeça. — Hyoga de Cisne. — sabia quem eles eram, já os tinha visto outras vezes, mas era a primeira vez que lhes dirigia a palavra. — Seiya de Pégaso.
¬ E você é...? — Hyoga tentou não parecer descortês.
¬ Filho e aprendiz de Shun Amamiya ou Shun de Andrômeda. — a forma com que ele falou deu um ar absurdamente comum a frase, era como se dissesse: Tô indo na padaria.
¬ Cumé quié!? — Seiya foi quem perguntou, mas a careta era coletiva.
Shun suspirou, enquanto Ikki pousava a mão no seu ombro com um sorriso que misturava vingança e pena. Shun, então se sentou no banco do carro, que ainda estava aberto, e começou a contar tudo aos amigos. TUDO! Não deixou escapar nada, nem mesmo como foi os primeiros meses de convivência com Fukano. Foi uma conversa bem longa e cansativa, pelo menos para Shun, ele falou tudo e mais um pouco para prevenir perguntas, agora só tinha que esperar a reação dos amigos.
Enquanto processavam a história e Fukano, que tinham comido um pacote de batatinhas durante o relato de Shun, mais uma vez, dormia no banco de trás do carro, Shun ajudava Ikki a descarregar o veiculo e organizar as coisas, ao termino de tudo estava exaurido física e mentalmente. Antes de cair com gosto no colchão dentro da barraca, pode ver que os amigos já estavam apresentando alguma reação quanto a história, mas não se preocupou muito com aquilo, ele só queria dormir.
Claro que Ikki fez o irmão se levantar e buscar Fukano no carro antes de dormir, mas venhamos e convenhamos, a gente pensa quando tá com sono? Shun pegou o menino no colo, que deu um leve protesto, o deitou do lado dele e dormiu antes que alguém dissesse: Shun!?
Na manhã seguinte, Shun se viu obrigado a levantar cedo para preparar o café da manhã. Deu risada do estado dos demais, Seiya estava dormindo estatelado dentro de uma barraca mal feita, Hyoga estava dormindo encolhido dentro da vã, Shiryu dormia no teto da vã, Ikki dormia jogado dentro da barraca e Fukano ocupava um grande espaço dentro da mesma barraca. Os dorminhocos só acordaram bem depois.
Ficou feliz, de certa forma, ao ver que os amigos aceitaram Fukano. Eles conversavam, brincavam, reclamavam de dores nas costas – também, não tinha lugar e modo mais criativo para dormir? – e comiam , principalmente Seiya, parecia um morto de fome.
Shun passou boa parte da manhã arrumando as coisas, não só as suas como a dos amigos também, Seiya não sabia montar uma barraca e Hyoga esqueceu a sua na mansão, só Shiryu não deu trabalho. Fukano estudou um pouco durante a manhã, Ikki quase bateu no menino, eles estavam ali para relaxar não estudar. Ikki foi quem fez o almaço, em que Shun foi o morte de fome da vez.
De tarde, Shun se encostou em uma cadeira de praia no intuito de cochilar.
¬ Oe! Shun! — Hyoga o chamou da entrada da floresta, Shun se dignou apenas a olhá-lo de soslaio. — Nós vamos caminhar, quer...
¬ Acho que o termo correto seria: Vamos tentar não matar um ao outro. — Ikki tinha um sorriso malicioso, o que deixou o Cavaleiro de Cisne visivelmente irritado.
¬ Ok!! — Shiryu cortou a briga que mal começou. — Quer vir conosco, Shun?
¬ Você só pode estar louco. — disse exasperado, chegou a pular na cadeira. — Viu o quanto comi e trabalhei até agora? Preciso de um cochilo, então vão sem mim. — voltou a se encostar.
¬ Tem certeza? — perguntou Seiya.
¬ Absoluta. — os olhou de soslaio mais uma vez e percebeu a presença de Fukano entre eles. — E cuidem de Fukano! — completou antes que entrassem na floresta.
¬ Hai! Hai! — responderam um tanto desinteressados, como se ouvissem aquilo todo dia.
Shun tirou um bom cochilo, não tinha o que reclamar, acordou bem melhor e com nenhum tipo de dor nas costas ou pescoço. Seus amigos e irmão chegaram pouco tempo depois, sendo recebidos com um sorriso, que logo morreu pela falta de alguém.
¬ Ikki... — Shun quase sussurrou. — Onde está Fukano?
¬ Como assim, Shun? — Ikki olhava confuso para o irmão. — Fukano voltou.
Ikki tentou continuar seu trajeto, pensando que Shun não tinha visto Fukano voltar por estar dormindo, mas foi impedido pelo irmão, que o segurou firme pelo braço.
¬ Ikki. — Shun estava mais sério. — A última vez que vi Fukano e senti seu cosmo, ele estava indo caminhar com vocês. — Ikki engoliu seco com a seriedade do irmão, chegou a ver uma gota de suor escorrer pelo rosto de Shiryu, pelo jeito eles também estavam pensando o pior.
¬ Shun, você está me assustando. — Ikki tentou se manter otimista. — Fukano estava de sandálias, sandálias são inadequadas para aquela trilha, eu mandei ele voltar e ficar com você.
Shun olhava para floresta fixamente, não conseguia sentir o cosmo de Fukano, ele estava muito longe e a floresta era muito densa. Lágrimas começaram a se formar nos olhos do Cavaleiro de Andrômeda, sua respiração começou a se tornar entrecortada, a batida de seu coração estava mais do que acelerada. Shun olhou nos olhos do irmão.
¬ Ikki... — havia um toque de desespero em sua voz. — Cadê o meu filho!?
Shun não esperou uma resposta, começou a correr entorno do lago, perguntando a todos que encontrava se tinha visto Fukano. As pessoas começaram a se agitar e começaram a ajudar Shun em sua busca, a policia e bombeiros também foram chamados para ajudar.
¬ Calma, Shun! — Hyoga tentou segurar o amigo, quando este se decidiu em entrar na floresta sozinho. — Nós vamos encontrá-lo!
¬ NÃO QUEIRA QUE EU TENHA CALMA!! — gritou enfurecido, e se afastando violentamente do amigo, que se assustou, Shun respirou fundo. — Hyoga, meu filho de 6 anos está perdido no meio dessa floresta. — Shun ainda segurava o choro, mas não pode evitar que uma lágrima escorresse. — Quer que eu me acalme!? Então me ajude a procurá-lo.
As pessoas começaram a procurar Fukano em tudo que era lugar. Tinha equipes de busca na floresta, equipes de busca no lago, policias recolhendo relatos e, que Atena os livrasse de tal dor, bombeiros procurando pelo corpo de Fukano, suspeitando que ele podia ter se afogado.
¬ FUKANO!?
Os gritos ecoavam pela floresta, todos pronunciando o mesmo nome, todos na esperança de encontrá-lo bem. Shun não parava por nada, ele era o que gritava mais alto e estava a frente de todos na floresta, junto com Ikki e Hyoga, temerosos que em seu desespero Shun se perdesse também. A noite caio, mas as buscas não acabaram.
¬ FUKANO!?
Eles procuraram pelo menino até altas horas, até o mais fundo que puderam chegar na floresta, mas nenhum sinal do menino. Shun quis continuar as buscas madrugada adentro, mas tinha uma tempestade se formando e todos estavam exaustos, precisavam descansar, até mesmo Shun, ele era o mais cansado. Ikki passou horas tentando fazer o irmão parar e descansar, até Shiryu e Hyoga tiveram que ajudar. E cadê o Seiya nessas horas? Bem, ele estava falando com as autoridades, discutiam o que fariam na manhã seguinte. Disseram, também, que as chances de encontrar Fukano vivo já tinham diminuído consideravelmente. Essa era a única noticia que Seiya menos queria dar aos amigos, ele ainda queria ter esperanças.
Do lado sul da floresta, na entrada de uma clareira, Fukano mais uma vez suspirou desanimado, não era a clareira que procurava. Estava com medo, mas conseguia contê-lo, na situação em que se encontrava medo não ajudaria. Encheu o pulmão mais uma vez e gritou o mais alto que pode.
¬ PAPA!? TIO IKKI!? SHIRYU!? SEIYA!? HYOGA!? — se assustou com um raio que cruzou o céu. — CADÊ VOCÊS!? — o trovão veio logo em seguida.
A chuva começou a cair sem piedade, Fukano estava começando a ficar preocupado, ainda mais com os raios e trovões que despontavam no céu. Fukano entrou na floresta mais uma vez e começou a rondar a clareira, juntava todo o cosmo que conseguia em seus punhos e atirando-o na floresta, mesmo que só uma pequena parte conseguisse chegar ao extremo da floresta devido a sua densidade, ainda era um uma “corda de salvamento”, ainda era uma forma de achá-lo, ainda era uma trilha até ele, isso se estivessem o procurando.
Ao termino da tarefa voltou para clareira, onde viu um raio cair a alguns metros de si. Assustado, se escondeu em um tronco caído e ali ficou apenas observando a chuva implacável. Estava com fome e sede, estava sujo e descalço, pois perdera a sandália ao cair de um barranco, o mesmo barranco em que torceu o pé, fazendo cada passo doer como uma queimadura. Adormeceu pensando em como passaria a ser teimoso, se tivesse teimado quando Ikki o mandou voltar, talvez não estivesse nessa enrascada.
A manhã nem se quer tinha começado e a chuva mal tinha parado quando as buscas recomeçaram. Shun nem mais gritava, estava preso dentro de seu mundinho pensando o pior e o melhor, debatendo seu comportamento com Fukano e debatendo como seria sua vida se o menino não estivesse mais nela.
¬ Papa!?– Shun estancou no lugar, aquele era o cosmo de Fukano.
¬ Ikki! — este saio correndo na direção de Shun.
Shun estava com a mão estendida em uma direção e olhando para o nada, sua expressão dava a entender que estava com a mente trabalhando a mil.
¬ O que foi Shun? — Shun pegou o pulso do irmão.
¬ Tio Ikki!?– Ikki ficou se reação temporariamente.
¬ O que estão fazendo? — perguntou Hyoga.
Ikki se desvencilhou de Shun e puxou os três Cavaleiros de Bronze para o mesmo lugar em que Shun estava com a mão estendida, agora parecia que ele segurava uma corda.
¬ Shiryu!? Seiya!? Hyoga!? Cadê vocês!?
Aquele definitivamente era o cosmo de Fukano, o menino ainda estava vivo. Eles viram o rosto de Shun se iluminar levianamente.
¬ Eu estou em uma clareira. Não consigo voltar, torci meu tornozelo, doí andar.
¬ Já procuramos aqui! — ouviram um dos policiais falar ao achar uma fita vermelha, o símbolo escolhido para dizer que aquele lugar já tinha sido percorrido. — Estamos andando em círculos.
¬ Procuraremos em outra direção! — disse uma das pessoas que ajudava.
¬ Que direção sugere? — retrucou outra pessoa.
¬ Que tal esta? — Seiya apontou para direção de onde vinha o cosmo de Fukano.
Logo a equipe de busca dirigiu-se à aquela direção, seu caminho foi temporariamente interditado ao encontrar um barranco, pensaram em desistir daquele caminho, mas uma das pessoas que ajudava encontrou uma das sandálias de Fukano. O achado fez o animo geral ser restaurado e as pessoas se aventuraram barranco abaixo.
Logo encontraram uma clareira. Parte do chão estava queimado devido aos raios que tocaram-no na noite passada e tinha um grande tronco caído na clareira.
¬ FUKANO!? — Shun gritou o mais alto que pode.
O menino acordou com grito, estava meio atordoado devido a noite mal dormido, cheia de ruídos estranhos, pesadelos e trovões assustadores, mas começou a reconhecer as vozes que o chamavam, uma em especial.
¬ Papa... — mais um chamado. — PAPA!? PAPA!!
Fukano saio do tronco caído e se levantou com dificuldade por conta da dor no tornozelo. Shun mal viu o filho direito que já corria em sua direção, as pessoas começaram a soltar suspiros de alivio, o menino estava vivo e bem, os policiais passavam a noticia para os demais através dos Walk Tok.
Shun abraçava o filho com força e era retribuído da mesma forma. Ikki e os outros estavam a sua volta, enquanto as demais pessoas se organizavam para voltar e dar a noticia de que o menino estava bem.
¬ Graças aos Deuses. — Shun estava se esforçando para não chorar. — Você está bem? — o menino soltou um grunhido que deu a entender que era mais ou menos. — Nunca mais se afaste. — Shun começou a ditar na tentativa de engolir o choro. — Nunca mais.
Fukano também tentava segurar o choro, nunca gostou de chorar na frente dos outros, porém falhava miseravelmente, as lágrimas escorriam sem parar, o menino chegou a soltar um soluço.
¬ Eu tive medo. — sua voz estava embargada. — Medo de nunca mais ver vocês. Medo que tivessem me deixado para trás. — não se pode esquecer que o maior medo de uma criança era ser abandonado.
¬ Que a verdade seja dita. — proclamou Seiya. — Shun ficou louco atrás de você.
¬ Quase nos matou por causa de nossa irresponsabilidade. — continuou Hyoga se lembrando de quando o amigo gritou com ele.
¬ Ele saio desesperado atrás de você, com nós logo atrás. — Shiryu complementou. — Não parou um minuto se quer, tivemos que obrigá-lo a parar e descansar.
¬ Shun pode até não admitir ou falar. — Ikki deu a volta para olhar Fukano nos olhos. — Mas ele te ama, Fukano. Ele jamais vai te deixar.
¬ Papa...
¬ Nunca mais faça isso. Nunca mais. — Shun continuava a ditar. — Nunca mais.
¬ Papa... — Fukano aproveitou um momento de silencio de Shun. — Feliz Aniversario.
Shun arregalou os olhos, que se encheram de lágrimas. Tinha se esquecido por completo do próprio aniversario, quando chegaram era dia 7 de setembro, Fukano se perdeu no inicio de tarde do dia 8 de setembro e foi encontrado no dia 9 de setembro, o aniversario de Shun. Shun não queria festa nem nada em seu aniversario, mas encontrar Fukano tinha sido o melhor presente.
O choro que segurou por dois dias conseguiu sair de suas amarras, Shun chorava e soluçava sem soltar Fukano. Ikki, Hyoga, Shiryu e Seiya sorriram.
¬ E lá vem o Shun de novo. — disse Seiya de forma alegre.
Com as buscas encerradas, o alvoroço acalmado e o tornozelo de Fukano tratado. Shun escava sentado na mesma cadeira de praia com um Fukano limpinho e alimentado dormindo em seu colo, ele observava o movimento das pessoas. Algumas já tinham ido embora, outras passavam e perguntavam sobre Fukano, os policiais e bombeiros já tinham ido embora, a tempestade já tinha se afastado há muito tempo, agora a calmaria reinava. Shun ainda poderia aproveitar mais um dia naquele lugar, afinal passou 24h em total desespero.
¬ Ikki. — Ikki estava parado atrás de Shun a algum tempo, apenas observando a paisagem.
¬ Diga. — respondeu.
¬ Se você perder meu filho de vista mais uma vez... — Shun olhou para trás sorrindo sádico. — Eu te mato.
¬ Devo admitir que agora você está me assustando. — Ikki tinha uma sobrancelha arqueada e as mãos nas costas. — Desde quando fala que vai matar alguém, especialmente EU, com um sorriso desses no rosto?
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