Esse é o Meu Pai
11 Bônus: Luz
Fukano estava desesperado. Não tinha ideia do que fazer, sentia que tinha perdido o chão sobre seus pés.
June de Camaleão estava desaparecida a três dias. Desde o terremoto que assolou a Grécia, ninguém em todo Santuário conseguia sentir um único traço do cosmo da Amazona de Bronze, sinal de que ela fora levada pela morte há muito tempo. Só lhes restavam encontrar o corpo, assim como o de muitos outros desaparecidos, em sua maioria Aspirantes.
Fukano estava sobre os cuidados de Dohko, que mesmo sobrecarregado de trabalho por tudo o que aconteceu, não deixava o menino sozinho um minuto se quer, mas por mais que tentasse, Fukano parecia estar em um mundo a parte, já que não ouvia uma única palavra do libriano. Não comia e nem dormia direito, parecia um boneco que andava sozinho, o menino não expressava nenhuma reação desde que presenciou a morte da mãe, mas seus olhos exibiam uma tristeza profunda e avassaladora.
No dia que encontraram o corpo da Amazona, Fukano finalmente demonstrou uma reação. O menino estava ao lado de Dohko quando recebeu a noticia, ele se escondeu parcialmente atrás do chinês, agarrou parte de seu manto e escondeu o rosto em lágrimas. Dohko pediu que o mensageiro se retirasse e se ajoelhou diante do menino, que tinha vergonha de chorar na frente de todos, MENOS na frente do libriano que sempre lhe foi um grande exemplo. O menino olhou Dohko nos olhos, tentou buscar paz nos olhos do homem que considerava como um irmão mais velho – mesmo que a idade cronológica do mesmo o deixasse mais apto a função de Bisavô –, mas nada encontrou além de uma tristeza contida, Fukano agarrou o pescoço do mais velho e se deixou chorar.
Dohko passou o resto da noite tentando acalmar o menino. Nunca gostou de ver os demais sofrendo, ainda mais aqueles por quem tinha um grande apreço e carinho.
Dois dias depois, todos os corpos tinham sido encontrados, os velórios e enterros ocorreram durante a manhã, Fukano não quis ir, recebendo permissão para visitar os túmulos quando achasse melhor. E na calada da noite, como sempre fazia, foi ao cemitério dos Cavaleiros carregado de flores. Conhecia todos que foram levados no terremoto, sabiam do que gostavam e não gostavam, deixando a flor favorita de cada um em suas lápides. Percorreu o cemitério inteiro deixando flores em todos os túmulos, só então voltou ao de sua mãe, onde deixou um buquê de lírios e ali ficou de cabeça baixa.
Fukano estava desolado, nem percebeu que havia se cortado com o espinho de uma das flores, quando viu o pequeno machucado se lembrou de um episódio interessante de sua vida.
Fukano tinha 1 ano e pouco, tinha acabado de começar seu treinamento, não entendia o porque, mas sempre corria o mais rápido que podia até cansar, socava a palma da mão dos adultos com toda sua força até não aguentar mais, batia em pedras até machucar, jogava coisas estranhas que envolviam paciência e estratégia com Dohko e tentava ao máximo compreender tudo que os adultos falavam. Esse era o treinamento de um aspirante no nível baby, treinamento rigoroso, mas proporcional a idade e pensamento.
Um dia ele se cortou no treinamento e era em horas como aquela que era impossível negar parentesco com Shun Amamiya. O menino começou a chorar e a balbuciar que não queria fazer mais aquilo, June foi ao seu socorro mais do que depressa. Nenhum dos Cavaleiros ou Aspirantes, que assistiam ao treino do pequeno com algum interesse, sabia que June e Fukano eram mãe e filho, os dois fingiam muito bem, mas logo todos viram que June amava aquele menino, aquele pequeno Aspirante, mais do que tudo na vida. Concluíram que era um forte laço de Mestre e Aprendiz, algo quase maternal. Ai, se soubessem da verdade...
¬ Calma, Fukano. — ela o pegara no colo. — Não chore, meu querido. Eu estou aqui, está tudo bem. — ela o balançava de um lado para o outro enquanto andava, isso geralmente o acalmava. — Não há razão pra chorar.
¬ No quelo! No quelo! — sua voz infantil estava embargada e falha. — No quelo mais izo!
¬ Shh. — June tentava de tudo para acalmar o pequeno. — Já passou, bebê.
¬ No. — teimoso. — To masucado. No quelo continua.
¬ Deixe-me ver.
June colocou o filho sentado na arquibancada do campo de treinamento e examinou o machucado no joelho do menino, era um corte profundo, que certamente deixaria uma cicatriz de lembrança. June sempre soube como tratar o filho numa hora dessas, era só fazer uma careta de susto.
¬ Ohhh! Você está certo! — os espectadores não puderam conter os risinhos, June sempre dobrava o menino com aquele discurso. — Está ferido demais para prosseguir, não restou nada aqui pra você.
O menino cruzou os braços e fez um bico, aquele discurso era velho.
¬ Nada mais importa. — ela tocou a testa franzida do menino. — Perdeu a fé, não é mais capaz. — o menino encarou a mãe com uma carinha muito mau humorada.
¬ Me dá uma luz, então. — língua afiada que nem a do tio.
¬ Pra você não se perder? Sem sua fé? — June fingiu uma risada. — É mais fácil você ficar ai, preso ao chão.
O menino emburrou de vez, nem mais olhava para mãe. June sorriu, estava dando certo, ela puxou gentilmente o queixo da criança para assim olhar o par de safiras.
¬ Onde está tua coragem? — o menino pensou um pouco e depois bateu no próprio peito.
¬ Aqui!
¬ Então porque esqueceu quem tu és? — June sorria vendo que Fukano estava começando a se lembrar de tudo que lhe era ensinado.
¬ Eu no esqueci! — retrucou. — Sou um futuo Cavaeiro! Tenho fé em mi e em Atena! No vou desisti! No vou cai!
¬ Mostre-me então, futuro Cavaleiro! — June deu espaço para criança se levantar. — Mostre-me que está pronto para lutar. Mostre-me que será livre. Mostre-me do que é capaz.
Fukano fechou a mão em punho e engoliu o choro.
¬ Serei um Cavaleiro, Mama. — o menino ergueu o rosto. — Não vou decepcioná-la. Não perderei minha fé, nem esquecerei quem sou. A Mama pode ter ido, mas sei que estará sempre comigo. — ele se levantou. — Não se preocupe, Mama. Encontrarei uma luz que me guie em meio a escuridão, alguém que, assim como a Mama, guiará os meus passos e será meu melhor amigo. — Fukano voltou a abaixar a cabeça e se distanciou devagar. — Tchau, Mama.
Poucos dias depois, Fukano ainda sofria com a morte da mãe, mas continuava sua rotina, até que em uma tarde ele foi chamado pela deusa a comparecer em seu Templo.
Fukano subiu até o Templo e ao entrar deu de cara, não só com Saori Kido e Dohko de Libra, como de costume, mas também com um homem alto e forte, de cara fechada, cabelos escuros, olhos índigo e uma cicatriz entre as sobrancelhas. Fukano o reconheceu imediatamente. Ikki Amamiya – o Cavaleiro de Fênix, o cara mais mau humorado do Santuário, o cara mais respondam para com a deusa, o cara mais turrão do mundo – o encarava em um misto de curiosidade, surpresa e raiva.
Fukano se curvou levemente como uma saudação e não questionou nada que os adultos decidissem, apenas seguiu Ikki para fora do Santuário quando este o chamou. Fukano sentia sua tristeza pesar em seu coração por estar “abandonando” seu lar, mas ele prometeu a mãe que encontraria uma nova luz. Naquele momento Ikki se tornou uma das luzes que guiariam Fukano. A outra, ele só viria a conhecer mais tarde, em um apartamento em Osaka.
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