Notas iniciais
Desculpa a demora gente '^^ ultimamente tá difícil até respirar. Bem, sem mais delongas, aqui esta mais um cap. fresquinho para vocês :)

Quem olhasse para o Amamiya mais novo durante o trabalho, poderia jurar que ele não estava passando por nenhum tipo de problema ou dificuldade, poderia até mesmo jurar que ele era uma pessoa feliz, porém somente quem trabalhava naquele hospital e assistia a rotina incansável do virginiano, é que sabia da verdade. Para eles, se Shun tirasse uma garrafa de Sakê da gaveta de sua mesa não seria surpresa alguma.

Fukano estava cada vez pior e não tinha como enganar o pai do menino. Shun era médico, sabia quando as esperanças deveriam ser perdidas e quando era inútil mantê-las, mas, por mais que ele tivesse consciência disso, Shun não conseguia deixar de acreditar que logo ele e Fukano estariam em casa fazendo pipoca para assistir algum filme que ambos gostavam e que Ikki chegaria reclamando do trabalho para logo se juntar aos dois.

Era doloroso e difícil ver aquilo.

Fukano chorava durante o tratamento com hormônios e a fisioterapia, ninguém sabia o porque, pois o menino tinha perdido a capacidade de falar, agora, o máximo que ele conseguia eram palavras curtas e de fácil vocalização, o que fazia o menino estar sempre usando palavras das muitas línguas que sabia. Inglês, francês, japonês, grego, latim, russo, chinês, turco, sueco, espanhol, italiano, dentre outras, faziam parte das línguas usadas pelo menino, isso quando ele não falava nada, apenas vocalizava coisas incompreensíveis e passava a escrever o que queria num bloquinho de notas.

Por conta dos testes com as glândulas adernais, o menino foi obrigado a cortar o cabelo, o que antes fora um cabelo invejável, agora não passava de um corte semelhante ao corte militar. Os testes também o privavam do sono e, por vezes, do alimento, isso quando ambos não eram negados pelo menino.

Das poucas vezes que uma conversa era desenvolvida com o pequeno, ela girava entorno do futuro, cada vez mais distante, e do passado, que, para Fukano, eram apenas um amontoado de imagens cada vez mais embaçadas. E por conta disso houve vezes em que, durante uma conversa, o menino começava a chorar, afirmando, como podia, que não conseguia lembrar. Uma vez, ele não conseguiu lembrar-se de June, ele não conseguia se lembrar da própria mãe.

O dia em que o menino começou a gritar foi um dos piores. Fukano acordou, mas não entendia o porque de não conseguir abrir os olhos, só mais tarde foi entender que tinha perdido a visão, nisso ele começou a gritar. Seu grito de terror ecoou por todo o hospital, o menino gritava como um louco, tamanho era o seu medo de nunca mais poder ver o pai, o tio, ou qualquer outra pessoa, da qual, ele sabia, poderia se esquecer aos poucos, até não saber de mais nada. Shun passou aquele dia abraçado ao filho, que lhe suplicava:

¬ Papa... — sua voz era embargada. — Onegai... Não me deixe...

A visão do menino voltou, parcialmente, dois dias depois. Porém, essas perdas e voltas tornaram-se normais, e não era apenas a visão, a audição também, a fala já estava comprometida fazia tempo.

Com o passar do tempo, Fukano não conseguia mais andar direito, passou a precisar de muletas, só que suas mãos também começaram a apresentar uma séria falta de coordenação e força, logo as muletas foram substituídas por uma cadeira de rodas. Fukano preferiu ficar preso ao leito hospitalar do que usar uma cadeira de rodas, atingir a velocidades da luz tinha se tornado algo impossível para o menino. Mas ele ficou verdadeiramente feliz ao perceber que ainda era capaz de segurar um lápis.

Desde que fora hospitalizado, Fukano vivia agarrado à um estojo de lápis, borracha e apontadores, assim como cinco blocos de papel Canson e um pequeno MP3, que ganhara de Ikki no Natal. Ele não deixava ninguém tocar ou ver aqueles objetos, segundo ele, ainda não estava pronto. Nem mesmo o psicólogo designado para cuidar de Fukano conseguia se aproximar dele.

O psicólogo afirmava que o menor não se abria, não o deixava se aproximar de jeito nenhum e que o menino só se portava como ele mesmo quando Shun estava por perto. Fukano também era atendido por uma professora pedagoga, que cuidava da educação no menino, ela dizia que o menino tinha uma capacidade de aprendizagem incrível, porém, o retardo que ele sofria devido a doença o fazia regredir tão rápido quanto aprendia, ou seja, ele estava estagnado no que dizia respeito à aprendizagem.

Era doloroso para quem via e para o próprio Fukano.

Apesar de tanta dor, o menino não se deixava abalar, não deixava de sustentar um sorriso, aquele sorriso era como se dissesse que tudo ficaria bem, que tudo daria certo e que logo a tempestade passaria. Quem devia estar com um sorriso desses era Shun, não o menino, era ele quem devia estar tentando encontrar uma luz no fim do túnel, mas quem fazia isso era Fukano, enquanto o virginiano mais velho só conseguia tomar todas as dores para si.

¬ Papa. — dizia o pequeno em várias línguas misturadas. — Não fique triste.

COMO?! De início, Shun não queria nenhuma espécie de ligação com o menino, mas a criação de um laço foi inevitável.

Ele pensava no menino a todo momento, se estava bem, do que seria bom para ele e do que ele gostaria de fazer no próximo fim de semana. Quando o menino dizia que iria a algum lugar, ele deixava, ainda mais se fosse perto, só que contava os segundos quando ele demorava para voltar. Ele sempre queria ver o filho, porque se preocupava com tudo que o menino fazia e se preocupava em orientá-lo da melhor maneira possível. Todo momento em que tinha oportunidade, ele demonstrava o quanto amava o menino, não fazia uso de palavras, apenas demonstrava.

Quando necessário, ele pegava o menino pelo braço e o ajudava no que fosse. Se tinha alguém atrapalhando o menino, Shun tratava de dar um basta nisso bem ao estilo Amamiya de ser. Ele sempre estava ao lado do filho, nos momentos bons e nos ruins, principalmente agora, nesses tempos tão sombrios. Ele sempre tentava ser mais do que apenas pai de Fukano, ele tentava ser o melhor amigo do menino, assim como seu herói.

Porém, ao olhar todos os dias para o filho naquele estado, Shun sentia-se o ser mais inútil desse mundo, sentia-se impotente, e o pior, sentia que tinha falhado para com o filho. E agora, tentava consertar seu erro. Era horrível. Sentia-se como se tivesse voltado a estar sobre o domínio de Hades, quando tudo o que via era morte. Ele estava vendo seu filho, sangue de seu sangue, carne de sua carne, definhar aos poucos e de forma dolorosa.

Cavaleiros de Atena não tinham medo da morte, mas no final, Shun descobriu que a morte era seu maior medo. E não era medo da própria morte, ele tinha medo da morte de Fukano, que parecia ignorá-la. O menino apenas vivia um dia de cada vez e parecia não ver que se não melhorasse logo, a morte era o único desfecho.

E para o desespero de Shun, o tratamento não estava surtindo efeito algum, ele seria capaz de vender a alma para ver o filho melhorar, mesmo assim, não importava o quanto ele pagasse, o quanto ele rezasse, o quanto ele desejasse, o quanto ele tentasse, Fukano não melhorava e parecia estar encarando esse fato melhor que o mais velho.

Shun tinha acabado mais um turno, e agora estava entrando no quarto do filho, estava cansado, mas nem por isso deixaria o filho. O menino desenhava e quando notou a presença do mais velho, lhe sorriu como sempre fazia, mas guardou o desenho. Naquele dia, Fukano não estava conseguindo falar, então pegou seu bloquinho de notas e começou a escrever, logo ergueu o bloco na altura do peito, mostrando o que tinha escrito.

“Como foi seu dia, Papa?”

¬ Cansativo e corrido. — respondeu enquanto se sentava ao lado da cama. — Estou exausto. — confessou.

Ele voltou a escrever.

“Então porque não descansa?”

¬ Porque eu tenho que cuidar de você.

Mais uma vez, o menino se colocou a escrever.

“Mas Papa, assim o senhor vai ficar doente. Eu tô bem. Descansa um pouco. O senhor é de bronze, mas também quebra.”

Shun chegou a rir do pequeno trocadilho feito por Fukano. O riso foi evoluindo, se tornando um choro fraco e baixo, ele não queria chorar na frente do filho, durante toda sua vida foi uma pessoa chorona, mas depois que o filho chegou, ele não se permitia chorar na frente do menino, só que aquilo tornou-se impossível.

Fukano tocou o ombro do pai, que ergueu o rosto e assim pode ver o filho secar suas lágrimas e sorrir logo em seguida, aquilo só lhe deu ainda mais vontade de chorar.

¬ Porque?! — questionou. — Porque age como se não houvesse nada?! Porque age como se tudo estivesse bem?! Você está mau, Fukano! Muito mau! Pode acabar morrendo! — desabafou. — Não sei o que faria se você se for! Você não pode morrer! Não pode! Não pode! Não pode...!

Shun estava de cabeça baixa, então não viu bem o que o filho fez. Fukano conseguiu colocar as pernas para fora da cama, com toda a força que lhe restava, o menino foi ao chão e caminhou até o pai, se ajoelhou de frente para ele, apoiando a cabeça em seus joelhos.

Ao perceber o feito do menino, o mais velho tentou colocá-lo na cama novamente, só que o menor não deixou, apenas esticando o bloquinho de notas para o pai, que pegou-o e leu o que estava escrito.

“Eu não tenho medo de morrer. Eu vou poder encontrar a Mama e sempre vou poder ajudar o Papa e o tio Ikki. Sem contar que eu nunca vou morrer de verdade, pois sempre terá uma parte de mim no seu coração e no coração daqueles que gostam de mim. Eu sempre estarei com vocês.”

Shun abaixou o bloquinho com os olhos transbordando em lágrimas, encontrando o sorriso de Fukano, ele sorria como sempre fazia ao ver o pai. Tudo o que o virginiano mais velho conseguiu fazer foi pegar o filho no colo e abraçá-lo com toda força e carinho que podia.

Morrer. Aquilo parecia tão perto, tão real, e ainda sim tão longe quando Shun via o sorriso do filho.

Notas finais
Me pergunto se vocês se assustaram com o título do cap. kkkkk Espero que tenham gostado ^.^ Bjs. L :3