Essa é a tal da Mula
1 essa é a tal da mula
— Acho que de escorpiões.
Daniel respondeu, ao chegar a vez de revelar qual era seu maior medo. Jogando pela janela do carro o cigarro fumado, apontou com a cabeça para Patrícia que, no banco de carona, responde:
— Tenho um medo incontrolável de anões.
Todos gargalham exceto por Pedro, notavelmente nervoso, visto sua obsessão por arrumar os óculos, constantemente levantando-os com o dedo indicador. O motorista, Luca, olha para o nervoso colega na parte de trás:
— E o seu, Pedro?
— Olha pra frente, por favor. – Respondeu, enquanto procurava não se incomodar com Jéssica, que dormia, apoiada em seu ombro.
Os outros quatro jovens riram um pouco, envergonhando-o.
— Ai, Pedro. Se isso fosse um filme de terror, você seria o único sobrevivente, o virgem clichê. – Luca comenta, seguido por Daniel:
— Acho que os primeiros a morrer seriam os namoradinhos ali na frente. – Aponta para Luca e Patrícia. – Que acabariam se pegando, por alguma razão, no meio da matança; depois eu. – Mostra o cigarro que acendera. – Aí sobram os dois novatos e a Jéssica sobrevive, já que é menina.
— Parabéns. – Diz Pedro. – Agora vai tudo acontecer ao contrário, só pra ser irônico.
— Cuidado! – Grita Patrícia.
O veículo colide com algum obstáculo, que o faz girar e atirar Jéssica, sentada no banco do meio de trás, para fora, arremessada pelo para-brisa. Batendo em uma árvore, o capô do carro começa a esfumaçar. Os restantes saem do automóvel e vão correndo em direção à garota.
— Meu Deus! – Exclama Luca, observando o corpo jogado contra uma cerca, cabeça esmagada.
— A gente tem que levar ela pra um hospital! Rápido! – Berra Patrícia, tentando levantar a defunta.
— Ela morreu, Patrícia! Nem cabeça tem mais. Deixa isso aí. – Daniel observa, ainda segurando o cigarro. – Nessa hora ela dá um tapa no rosto dele, e se joga aos prantos.
— Justo. – Diz o estapeado.
— Galera, acho que tem alguma coisa errada aqui. – Grita Pedro, que observava um tronco ardendo em fogo; aponta para uma poça de sangue próxima às chamas.
— Que isso, mano? – Indaga Daniel, aproximando-se.
Pedro arregala os olhos quando vê uma figura, trotando por entre o brilho do fogaréu, uma espécie de cavalo, mas no lugar de sua cabeça via-se apenas flamas.
— Essa é a tal da mula. – Daniel aproxima-se do animal.
— O que você tá fazendo? – Pedro, paralisado, exclama.
Calmo, o fumante prepara as mãos para afagar a mula-sem-cabeça. O equino parecia calmo, porém no instante em que é tocado, começa a relinchar sabe-se lá com que boca e ataca o garoto com um coice muito bem dado em sua jugular. Pedro começa a gritar e sai correndo, enquanto observa o cavalo golpeando o corpo caído de Daniel:
— Pedro, me ajuda! – Chama, desesperado.
— Tá loco, meu? – Responde, correndo na direção dos colegas.
A mula rasga a cabeça de Daniel com as patas traseiras. Luca e Patrícia, que observavam espantados o acontecimento, disparam a correr também quando Pedro se aproxima.
— Não me abandonem! – Grita ele.
— Tá loco, meu? – Exclama Patrícia, correndo com seu namorado.
Deixado para trás, o jovem chora e apressa-se em direção ao carro batido. Abre a porta da frente e pula para dentro, fechando os olhos e tapando os ouvidos. O cavalo pula no capô e passa a relinchar, tacando fogo dentro do automóvel. Pedro olha para o lado e percebe que as chamas consomem o chão, tenta fugir pela direita e encontra a porta emperrada, volta a chorar quando percebe que provavelmente ativou a trava de segurança ao debater-se dentro do carro. A mula sai correndo na direção dos dois sobreviventes, logo antes do veículo explodir.
Patrícia e Luca param a corrida por um instante, cansados.
— Estamos sozinhos agora, acho. – Diz ele.
— Espero que sim. Todo mundo morreu. – Ela segura as lágrimas.
O jovem a abraça para acalmá-la, os dois preparam para beijar-se.
— Não deveríamos fazer isso. – Comenta Luca. – O Daniel disse que...
A cabeça dele começa a pegar fogo. Patrícia grita, enquanto o corpo do namorado cai e ela percebe a mula, ao longe, atirando bolas de fogo em sua direção. A garota vê um machado em uma árvore ao lado e o pega, raivosa. Sai correndo na direção do cavalo, rebatendo os projéteis ardentes com a arma; o equino amedronta-se e sai correndo, mas não antes da moça o acertar com um forte golpe que o reparte ao meio, revelando dois anões em uma fantasia.
— Vocês! – Grita Patrícia, vendo os criminosos que assassinaram sua mãe.
Os baixinhos saem correndo, aterrorizados. A garota começa a chorar e adormece ao chão. Acorda com o raiar do dia, presa em uma cela de prisão.
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