Essências Divinas
1 Capítulo 1 - O Calor em Minhas Mãos.
Notas iniciais
Capitulo 01 – O Calor em Minhas Mãos.
— — Ukyo — -
Começo a tossir fortemente, nuvens negras de fumaça adentravam abruptamente minhas narinas, inundando completamente meus pulmões, a sala crepitava ruidosamente, toras de madeira ardiam em chamas, línguas de fogo ascendiam ao ar, chocavam-se contra o teto e retornavam ao solo. O calor infernal deteriorava todos os pontos do recinto, exceto um.
Lágrimas rolavam minha face, encontro-me sentado em meio ao fogaréu, abraçando meus joelhos. O fogo não me atingia, na verdade, não parecia nem ao menos existir. Eu sabia que estava ali, sabia que destruía tudo ao meu redor, mas simplesmente não conseguia senti-lo. As chamas não me machucavam, o calor não me fazia suar, tudo o que sentia eram os frutos de sua destruição: a densa cortina de fumaça escura que se formara e, naquele momento, me sufocava.
Começo a escutar gritos femininos, pareciam vir do andar de baixo, olho ao redor, mas não vejo ninguém, na janela, a nevasca continuava ininterruptamente. Os gritos ficam mais e mais altos, mais e mais agonizantes. Ouço uma voz falar dentro de minha mente.
— Você consegue escutar não é mesmo? Você está escutando esses gritos? — Seu tom era espectral e sádico, uma risada de escárnio ecoava em meus tímpanos. – Hã? Diga! Diga de quem são esses gritos! — Inquire a voz, a situação parecia diverti-la.
— Mamãe... – choramingo, indefeso e com medo. – Mamãe!
— Isso! Chame por ela! — Vejo um rosto se formar em meio as chamas, não era humano, os olhos eram cavidades vazias preenchidas com ódio e o sorriso era maléfico como a própria visão do demônio. – CHAME MAIS ALTO! GRITE! CLAME! ESPERNEIE! CHORE PELA MORTE DE SUA MÃE E SAIBA QUE FOI TUDO SUA CULPA! TUDO POR QUE VOCÊ ME DEIXOU ENTRAR! E AGORA, MORRA COM ISSO EM SUA MENTE!
A boca do rosto se abre e começa a emitir um ruído alto e repetitivo, estridente. Pisco por um segundo e me vejo encarando um teto escuro. O despertador alarmava freneticamente, me obrigando a desliga-lo e me sentar sobre a cama, minha pele coberta por uma fina película de suor. Estalo os dedos dos pés e meu ombro, bocejando logo em seguida. Ouço passos a se aproximarem do lado de fora do quarto e alguém bate, logo em seguida chamando-me.
— U! Vem comer. O café da manhã tá pronto. – Reconheço a voz de July do outro lado. Desde que me mudei para esta residência universitária, July sempre foi a pessoa mais próxima a mim. Estudávamos na mesma escola e éramos relativamente próximos, não andávamos juntos, mas conversávamos todos os dias e passamos juntos no vestibular, embora para cursos diferentes, então foi natural que nutríssemos uma amizade quando nos vimos morando no mesmo lugar. Foi ela também que me ajudou a me enturmar com os outros moradores da REU (como é chamada a residência universitária) e, acima de tudo, me explicou onde ficavam as coisas dentro do campus. Apesar de ser tão novata quanto eu, ela simplesmente não agia assim. As vezes parecia até que ela já estava prestes a se formar, tão inteligente ela é.
Meu estômago ronca, não sei se por sentir o cheiro de bacon sendo frito ou por lembrar que tenho aula em meia hora e que, pelo professor ser um porre, não teremos intervalo algum e ficaremos quatro horas sem comer nada. Que droga. Eu devia largar o curso e virar atendente de fast food. Levanto da cama e vou para meu banheiro. Essa residência consiste em alguns quartos com banheiro, aproximadamente uns vinte, uma cozinha, sala de jantar, área comum, lavandeira e algumas salas de estudo, cinco individuais e três em grupo. Era um lugar agradável de se viver, normalmente eu não interajo muito com os outros alunos, a maioria deles está em aulas quando saio de manhã e já estão em festas ou dormindo quando chego à noite. Minhas amizades nesse lugar se resumem a três: July, Tyler e Laila.
Já de banho tomado, acendo a luz me deparando com o espelho que havia na porta do guarda-roupas. Fito-me. Cabelos ruivos desarrumados, olhos verde claros sonolentos e cheios de olheiras, pele branca e corpo esguio, eu realmente tenho que começar a ir para a academia. Abro a porta atrás do espelho e começo a, literalmente, revirar minhas roupas. Não sou a pessoa mais organizada do mundo, pelo menos não com roupas, quando as tiro da lavanderia, jogo-as dentro do guarda-roupas e vou dormir. Zero paciência com essas coisas. Catar é melhor. Pego uma calça escura, uma blusa branca e um casaco preto com capuz vermelho. Visto-me e saio do quarto, descendo as escadas até chegar na cozinha. Lá vejo uma pessoa comendo sozinha.
Ela aproximadamente mede 1,65, ou seja, dez centímetros mais baixa que eu, sua pele branca e olhos azuis como água do mar, seus cabelos possuem uma tonalidade de loiro claro muito agradável de se ver e desciam até metade de suas costas, usava botas de salto marrons, uma calça escura, uma camisa azul-bebê e um cachecol rosa, tinha óculos escuros sobre a mesa e um gorro cinza sobre a cadeira, devia estar fazendo frio lá fora, afinal, estamos no meio do inverno. Ela comia um sanduíche com bacon e uma xícara de chá quente, também tinha feito um para mim e colocado um pouco de café. Adoro essa garota.
— Bom dia, dorminhoco. – ralha ela ao me ver. – Pensei que ia perder o horário, de novo.
— Desculpe, estava tendo um pesadelo e não dormi bem, acho que eu não deveria mesmo ir para a aula hoje. – Sento-me e coloco a mão no bolso, noto que não lembro onde estava minha carteira apenas quando a vejo sobre a mesa e a loira a devolve a mim.
— Você é muito desorganizado, nem parece virginiano. – Ela sorri ternamente.
— Obrigado, July. – Falo revirando os olhos, July adorava estudar Astronomia, mas seu verdadeiro hobby era a astrologia, nunca vou entender isso. – Aula de quê? – Questiono solvendo o café, que por Deus, ainda está quente. Não sei se suportaria sair no frio lá de fora se não o tomasse agora.
— Física Experimental I e Introdução à Astronomia. – Ela termina seu chá, colocando sua xícara sobre a pia e a lavando, nem ao menos notei que ela já havia comido o sanduíche, enquanto devorava o meu. – E você?
— História Ibérica I. – Solto um suspiro, mordiscando a ponta do sanduíche.
— Gostando?
— Ás vezes é chato, as vezes só quero morrer. – Murmuro e ouço-a rir.
— Quer trocar?
— Não, é um bom curso, isso ou vender arte na praia.
— Você não sabe desenhar.
— Por que acha que tô insistindo no curso? – Ela apenas sorri, colocando seu gorro.
— Não desista então, e boa sorte hoje. – Ela se despede e sai, me deixando a sós. Ok, o dia vai ser uma droga, mas não vai se viver sozinho não é mesmo? Termino de tomar o café e vejo minha carteira brilhar estranhamente. Fixo meu olhar nela até que a luz para, abro-a para averiguar e não vejo nada que chame atenção, nem mesmo aquela coisa.
Tiro-a do compartimento escondido da carteira, se assemelhava a uma carta de pôquer, mas ao mesmo tempo parecia distante disso, possuía o número sete e o símbolo correspondente ao naipe de paus, mas as semelhanças acabavam aí, o fundo era escuro e, no centro, havia um desenho de uma chama alaranjada, por toda a extensão da carta haviam escritas muito antigas, do tipo que estão perdidas, suponho que, talvez, tenha sido criada ao mesmo tempo ou até antes da escrita cuneiforme, a mais antiga conhecida, mas não encontrei registros a respeito, entrei no curso de arqueologia para tentar descobrir mais coisas, ter acesso a escavações e coisas assim, mas já estamos quase no fim do semestre, e nada, mas o que mais me preocupa é: se essa coisa realmente for de um jogo de pôquer antigo, deve ter outras que sigam o mesmo estilo, mas onde?
Solto um longo suspiro e guardo-a novamente no compartimento secreto, termino meu café e subo as escadas para pegar minhas coisas, sinto um calafrio percorrer meu corpo e como se alguém estivesse me observando, viro-me e não vejo ninguém, a REU estava vazia também.
— Que estranho... – Murmuro, mal sabendo que aquela sensação continuaria me perseguindo o resto do dia.
Já passava de meio-dia quando finalmente sou liberado da aula. Ouço murmúrios variados dos alunos que envolviam sono, fome e professor chato. Concordo com todos, mas não revelarei isso. Olho meu celular e noto ter uma mensagem de July, ela me chamara para comer alguma coisa na cafeteria aqui perto. Laila vai estar lá. Pode ser uma boa.
Caminho uns quinze minutos até lá, o chão frio e a brisa congelante faziam-me erguer o zíper até o mais próximo possível do pescoço, subir o capuz e socar minhas mãos dentro dos bolsos e, ainda assim, tremer de frio. Não sei ao certo quantos graus estão fazendo, mas com certeza é menos do que eu gostaria.
Após um tempo, chego no local combinado, uma cafeteria de médio porte, dois andares, um balcão, cinco mesas no primeiro andar e oito no segundo, quando me aproximo, July acena para mim do andar de cima, meneio a cabeça, sinalizando que já a vi e me dirijo ao balcão, pedindo um cappuccino quente, espero alguns minutos até ser servido e, quando sou, subo as escadas, encontrando July ao lado de uma garota, seu nome é Laila, ela estava no quinto semestre de gastronomia, ela é baixinha, 1,52 cm, pele branca e aparência frágil, na parte de trás, seus cabelos alcançavam a nuca, na frente, uma franja caía sobre seu olho direito até seu queixo, já no lado esquerdo, ia até sua orelha, seu cabelo era escuro, mas assumia uma coloração avermelhada à medida que chegava próximo ás pontas, ela usava um longo suéter azul e meias longas, ela tomava um Mocha, já July optara por um chocolate quente.
— Olá July, Laila. – Cumprimento ao me sentar. – Como vão? – Laila sorri, acenando com a cabeça.
— Vou bem, acabei de sair de uma aula de confeitaria, e você? – Abro um fraco sorriso.
— Eu não morri ainda, se é o que quer saber. – July me fita com seus orbes azuis, ela sempre parecia notar quando havia algo de errado comigo, mesmo que não diga nada na maioria das vezes.
— Aconteceu alguma coisa? – Fixo meus olhos na bebida quente entre minhas mãos.
— Não gosto muito dessa época do ano. – Solvo um pouco do cappuccino, sentindo o calor me preencher completamente.
— Por que? – Questiona Laila. – Esse friozinho é tão bom, e em breve estaremos de férias para ver nossas famílias.
— Quando eu era pequeno, minha mãe morreu nessa época do ano. – Noto os olhos se arregalarem quando conto a elas. – Morávamos no norte do país e minha casa pegou fogo, ela morreu e de algum jeito meu pai conseguiu me resgatar. – Engulo em seco, tentando afastar as memórias da minha cabeça. – Nunca comemoramos juntos essa data desde então.
— Lamento, eu não sabia. – Laila encolhe os ombros, envergonhada.
— Não se preocupem, isso já faz muito tempo. – Tomo mais um pouco de café e continuo. – Mas e então, alguém sabe do Tyler?
— Ouvi ele dizendo algo sobre sair com alguém hoje. – July pondera
— Uma tal de Emily. – Completa Laila.
— Isso não me parece bom. – Atesto. – Ele vai se envolver muito, terminar e depois ficar três semanas depressivo por isso, como nas outras vezes.
— Ele nem parece ser Capricórnio as vezes.
— Verdade, ele não parece em nada com uma cabra. – Laila solta uma risadinha e July limita-se a revirar os olhos e procurar algo em sua mochila.
— Ei. – Ela chama, colocando um panfleto sobre a mesa. – O observatório da faculdade vai estar aberto para a observação da chuva de meteoros que cairá daqui a alguns dias, o que acham de irmos ver? – Posso ver os olhos de Laila brilharem esperançosamente.
— Sério? Eu sempre quis ver uma. – Seus orbes fixam-se em mim, como se pedissem autorização. – Ei, Ukyo, vamos, vai ser legal, por favor. – Dou de ombros.
— Por mim tudo bem, não terei nada para fazer mesmo. – Laila comemora alegremente e ambas começam a conversar sobre algum assunto feminino. Concentro-me em minha bebida, solvendo-a e sentindo o calor percorrer todo o meu corpo. De repente, sinto uma forte tontura, seguidas de um calafrio e uma voz estridente ressoando em minha cabeça.
— Ei garoto, chegou a hora! — Sinto minha visão escurecer enquanto minha coxa parece queimar, tento me erguer e minhas pernas perdem a força, antes de cair ao chão, meus sentidos começam a desfocar e perco completamente a consciência.
Sinto as pálpebras pesadas e meu corpo parecia pesar uma tonelada, vozes cochichavam em algum próximo, mas era impossível discerni-las. Sinto como se meu corpo e minha mente não estivessem ligados, mas sinto claramente o calor que emanava de dentro de meu bolso, de dentro da carteira, dentro daquela coisa.
— Parece que você acordou. — a voz odiosa sibila em minha mente.
— Quem é você?
— Diga você. Estou a mais tempo contigo do que qualquer outro.
— Outro? Do que diabos você está falando?
— Não temos tempo a perder garoto, diga meu nome, temos que nos preparar.
— Preparar para o que?
— Para o jogo.
— Ukyo! – A voz de July me ajuda a recobrar a consciência, sinto como se meu rosto tivesse sido acabado de ser estapeado. Conhecendo a July, provavelmente foi. Abro os olhos vagarosamente, vendo os orbes azuis da loira se satisfazerem. – Ainda bem que você acordou, tomamos um baita susto lá fora, sabia? Você desmaiou do nada.
— Você, por acaso, me bateu? – Ela desvia o olhar, afastando-se um passo.
— Não...
— Muito. – Corrige Laila, sentada á meu lado na cama. – Como você tá se sentindo?
— Parece que pegaram minha cabeça, colocaram em um saco, fizeram dezoito caras chutarem ela, jogaram em um triturador, bateram e colocaram tudo no lugar com grampeador. – Sento-me sobre o colchão, ainda me sentindo meio tonto. – Mas fora isso, tudo numa boa.
— Viu? Ele tá bem. – July pareceu falar aquilo para tranquilizar a si mesma, mas ela era a única que não parecia acreditar.
— Mesmo assim, por que você desmaiou daquele jeito? Você não parecia mal quando chegou. – Dou de ombros e noto que minha visão começara a se focar novamente.
— Nem sei, eu não estava sentindo nada e puf, apaguei.
— Você devia ir ao médico. – Sugere Laila.
— Um psiquiatra de preferência. – Completa July.
— Falou a retardada que toda santa vez cai na piada do Você Conhece a Camy?
— Que Camy? – Pergunta Laila, pobre garota.
— I CAME LIKE A WRECKING BALL! — Grito, arrancando risadas sonoras de July e fazendo Laila revirar os olhos.
— Vocês são todos retardados. – A jovem se levanta. – Vou fazer algo para comermos, July, você me ajuda? – A loira assente prontamente, se levantando. – Quando estiver se sentindo melhor, venha comer conosco. – Assinto com a cabeça, vendo-a sair.
— Ei, se sentir qualquer coisa, só grita que venho correndo, ok? – July dá um último aviso antes de ir, apenas meneio a cabeça positivamente antes de vê-la ir. Quando a loira fecha a porta, sinto um arrepio percorrer minha pele ao ver que havia uma espécie de vulto atrás da porta, vulto este que sumiu após apenas uma piscada. A sensação de estar sendo observado ainda era presente. Que droga está havendo aqui?
Coloco a mão no bolso e retiro a carteira que estava ali, abro o compartimento secreto e vejo aquela coisa, parecia igual a última vez que a vi, mas ao mesmo tempo, havia algo diferente, fito-a por alguns segundos e percebo que os escritos, antes em uma língua desconhecida, agora encontravam-se em um inglês bem simples.
— Como naquela vez... – Murmuro para mim mesmo. Afasto aqueles pensamentos de minha mente. Não posso deixar ninguém descobrir sobre essa coisa, é perigosa demais, até eu descobrir do que se trata, é melhor eu a deixar o mais próximo possível de mim. July, Laila, Tyler, é melhor nenhum deles saber também. Aperto a coisa, que mais se parece uma carta de pôquer, entre minhas mãos. Sinto que algo ruim está começando, mas... O que?
— Ukyo! Vamos logo! Vamos nos atrasar. – Laila praticamente corria sobre o chão gelado, era natural a empolgação dela para ver umas pedras caindo do céu? Ou eu não estar empolgado era o fato estranho?
Ao longe posso ver o observatório da faculdade, um caminho se formava pelos azulejos brancos dispostos simetricamente entre a verde grama, que já começava a dar as caras mesmo com a neve branca cobrindo-a. O inverno está chegando ao fim, e com ela a primavera se aproxima. O céu estava estrelado e não haviam nuvens, o vento soprava fraco e gélido como era de costume. Não sei se já falei que odeio frio, mas odeio o frio.
Ao fim do caminho havia uma construção, a base era em forma de cubo, suas paredes eram feitas de concreto por fora enquanto uma segunda camada de aço faz o forramento interno, não sei ao certo por quê, mas tá lá, na parte superior, era como uma esfera, com a ponta do telescópio gigante saindo para fora, eu realmente não sei como essas coisas funcionam, só sei que andar alguns quilômetros para subir até o alto desse monte e chegar aqui não é algo que eu me divirto fazendo.
— Ukyo! Mais rápido. – Apesar de ser alguns anos mais velha, às vezes, e só as vezes, a Laila parece uma criança, mas eu não ousaria dizer isso na cara dela, ela quebrou o nariz do último cara que chamou ela de baixinha, imagina se eu a chamasse de infantil, quem estaria caindo em chamas da estratosfera para a terra seria eu.
— Calma, já estamos chegando. – Murmuro, torcendo para que ela não me escutasse e simplesmente continuasse seu caminho. A brisa gelada trazia uma mistura de frescor e frio agonizante, não sei ao certo se prefiro ficar aqui fora, mas provavelmente congelarei antes de ter tempo de decidir, então apresso o passo e rapidamente chegamos no observatório, ele era ainda maior de perto, mais robusto e parecia mais quentinho também.
Adentramos o lugar e sinto uma sensação estranha, subitamente escutando um zunido ecoar em meus tímpanos, como se a mudança de pressão os estivesse incomodando, mas não subimos tanto a ponto de isso ser passível de acontecer, July trouxe-me aqui durante todo o semestre e isso nunca ocorreu, Laila não parece estar sentindo também, talvez seja só coisa da minha cabeça.
— Ei, Ukyo, cadê todo mundo? Era para esse lugar estar cheio. – Uma névoa branca sai dos lábios de Laila a medida que ela fala e o clima me faz confirmar uma suspeita que tive desde que adentrei esse lugar: Aqui dentro está mais frio do que lá fora.
— Vamos procurar, talvez estejam lá em cima, próximo do telescópio. – A garota assente e subimos, não encontrando nada além de um pátio vazio, apesar do frio, muitas pessoas vinham constantemente para as exibições abertas do observatório, é estranho não ter ninguém aqui e, acima de tudo, é estranho a July não estar aqui, ela provavelmente é a pessoa mais desesperada de todas com a possibilidade de ver um meteoro desde, sei lá, a extinção dos dinossauros?
Um baque seco ecoa pelo local, parecia vir do andar de baixo, murmúrios abafados e o zunido do vento se fazem ouvir da mesma maneira. O que será que está acontecendo? Novamente descemos para o primeiro andar e seguimos por um caminho que dizia “Somente pessoal autorizado. ” Se a louca da July é autorizada em vir para cá, eu também sou. Os murmúrios ficam mais claros a medida que percorremos o corredor, tornando-se audíveis quando chegamos do outro lado de uma pesada porta de metal.
— Ouçam aqui. – Um chiado arrepiante se faz ouvir timidamente, arrancando alguns gritos de desespero vindas de pessoas do outro lado da porta. – Ou vocês me dizem quem é Ukyo Mori, ou eu derreto a cara de cada um de vocês. – Sinto um arrepio percorrer minha espinha, não sei se por ter um maníaco ameaçando derreter a cara de universitários ou se por esse maníaco estar me procurando... Não, provavelmente deve ser só o frio, que finalmente vejo de onde vem, uma das placas de metal e o concreto que a mesma deveria forrar pareciam ter sido... Derretidas. E por isso, o vento frio de inverno adentrava livremente o local. Viro-me para Laila e vejo o desespero nos olhos da moça. Ela estava apavorada, não me surpreende, ouvi o mesmo que ela afinal de contas, mas essa não é hora para perder a calma. Se ela se desesperar, só vai piorar as coisas, preciso que ela saia daqui.
— Laila. – Sussurro para que o maníaco não nos escute, seguro-a pelos ombros, fazendo-a me fitar, me aproximo, falando próximo ao ouvido dela. – Me escute, esse cara está atrás de mim, eu vou conseguir algum tempo, enquanto isso, corra de volta para a faculdade e consiga ajuda, não podemos perder tempo. – Senti que ela estava prestes a retrucar algo a respeito de ser perigoso, mas o chiado volta a se fazer ouvir e ela apenas assente, correndo rapidamente pelo caminho que viemos. Ok, agora é minha vez.
Dou um chute na porta, fazendo o metal ressoar. Ah, sou um imbecil, além de chamar a atenção do maníaco, acho que acabei de quebrar a porcaria do meu dedo nesse chute, eu acho que mereço ter minha cara derretida.
— Ei, seu idiota de merda! – Grito a plenos pulmões. – Meu nome é Ukyo Mori, se você quer tanto assim me pegar, cai dentro. Desce pro fight, otário! – Não sei por quê, mas esperei para ver quanto tempo ele demoraria para abrir as pesadas portas de aço, que já começavam a congelar em seus trincos. Mas acho que entendi o que ele quis dizer com “derreter a cara de vocês. ”
Um líquido verde se choca contra a porta e, em questão de segundos, a degenera como se fosse fogo em papel, havia apenas uma espécie de gororoba cinza esverdeada após o fim da degeneração, permitindo-me finalmente ver o lado de dentro. Haviam dezenas de estudantes, incluindo July, dentro daquela sala, eles estavam aterrorizados, partes do chão estavam no mesmo estado que a porta, provavelmente ele estava ameaçando-os mostrando do que era capaz. Ok, chamar a atenção dele me parece uma ideia pior a cada momento que passa.
O homem parado a minha frente tinha cara de pouco ou nenhum amigo, na verdade, parecia um viciado em crack, ele parecia extremamente desnutrido, tinha olheiras e olhos vidrados, usava luvas e suas roupas estavam em farrapos, parecia um mendigo ou algo assim.
— Você é Ukyo Mori? – Indaga o maníaco, ele parecia.... Assustado.
— Você é surdo? – Muito bom Ukyo, provoca o viciado que acabou de derreter uma porcaria de uma porta de metal, cansou de viver foi? Imbecil.
— Me disseram para pegar o seu 7. – Do que ele está falando? – Me dê o 7! – Exaspera, eu não sei do que ele está falando, mas não é bom deixa-lo aqui com tantos alunos, algo ruim pode acontecer.
— Se quiser, vem pegar. – Viro-me e salto pelo buraco aberto no concreto, o cheiro era como se algo tivesse sido derretido por ácido no laboratório de Química.
Começo a correr totalmente sem rumo, noto que o viciado me seguia. O que ele quer comigo? Que merda de 7 é esse que ele tá procurando? Dou uma rápida olhada para trás e vejo um estranho brilho em sua mão. Espera, aquilo é... Uma carta?
Mal tenho tempo de raciocinar, o líquido esverdeado surge na ponta dos dedos e ele os dispara em mim como se jogasse água em alguém, tão rápido quanto meus músculos sedentários me permitem, salto para o lado, bolando pela neve, por sinal, não sei quando começou a nevar forte de novo, mas do nada as nuvens ficaram carregadas novamente, provavelmente o vento forte as empurrou até aqui. Quando paro, sinto um cheiro de queimado e vejo o líquido esverdeado degenerando a neve. Como pensei, aquilo é ácido.
— Pare de fugir e me dê o 7! – Esbraveja o maníaco, acho que entendi.
— Eu realmente não queria que fosse verdade, mas existem outras coisas dessas. – Retiro minha carteira do bolso, pegando a carta no espaço secreto e mostrando-a para o homem. – É isso o que você quer, não é? – Os olhos dele arregalam-se.
— Sim, é isso que pediram para eu levar, vamos, me dê. – Não sei quem é ele, nem quem são esses eles a quem ele se refere, mas se tem algo que sei, é que não posso entregar essa carta, não a alguém que mantém dezenas de alunos como reféns, mas o que droga eu posso fazer numa situação dessas?
— Você sabe bem o que fazer. — Aquela voz maldita ressoa em minha cabeça como ferro ressoando em ferro. – Você sabe o encantamento. Você já o usou antes. Diga-o! Chame-me! ME DEIXE ENTRAR MAIS UMA VEZ! — Droga, odeio admitir, mas do jeito que as coisas estão, não tenho outra saída. Seguro a carta com firmeza, um brilho alaranjado emanava dela, pronuncio em um inglês quase fluente que não me lembro de possuir.
— Seven of Clubs: Flames! – Chamas indômitas surgem de lugar algum e constituem um pilar ao meu redor, girando sobre si mesmas como um furacão opressivo e destruidor, meu corpo não sentia o calor, mas minha mente parecia queimar como carvão. Droga, eu estou fazendo de novo.
— Muito bem garoto, agora me mostre o que você pode fazer! — Aquela merda de voz ruge dentro da minha cabeça, por mais que me doa dizer isso, se eu quiser que aqueles alunos fiquem bem e se eu quiser continuar vivo, o que quero, terei que fazer o que ela está dizendo.
— Muito bem, cara do ácido. – as chamas começam a se concentrar em um único ponto, dois pra ser preciso, deixando sua forma de tornado-demoníaco-flamejante e cobrindo meus braços tão naturalmente quanto as roupas que visto. – Vou te dar esse 7 que você tanto quer.
CONTINUA
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