Esqueletos no Armário
1 Capítulo Único
O que é se sentir segura? É todas as portas estarem trancadas ou a taxa de homicídios nos últimos meses estar baixa? Os dois costumavam acontecer comigo, mas desde que uma notícia saiu no jornal, a palavra “segurança” não tem mais sentido para mim.
“Homem desconhecido assola casas de mães solteiras, cometendo o terceiro crime em Detroit.” Me lembro bem do título, e o geral da notícia. A forma de matar era as torturando por horas com objetos da casa, cortando sua garganta quando se cansava e tirando partes de seu corpo até em alguns lugares só ter osso. Para esconder o corpo, o colocava em algum objeto grande e fechado.
Minha garganta se fechou instantaneamente ao ter acesso desses detalhes. Como deixavam uma pessoa solta assim na rua? Ou pior, como podia haver alguém que cometa esses atos horríveis? Eram as perguntas iniciais de todos os informados, mas eu fui além. Quem era aquele cara? O que queria? Quem e onde atacaria? Perguntas rodavam em minha mente, e escondida em silêncio dentro de meu armário, tenho tempo para tentar achar as respostas.
Estou aqui há uma hora, quando percebi uma movimentação estranha na frente de minha casa. Alguém entrou na casa da vizinha enquanto eu preparava o meu jantar sozinha – minha filha está em um aniversário, longe daqui – e barulhos altos e bizarros eram ouvidos. Lembrei daquele título, e larguei tudo o que estava fazendo. Achava que a paranóia salvaria minha vida, mas tudo o que ela fez foi me dar um tempo a mais para vivê-la com medo. Na hora de trancar a janela e fechar as cortinas, eu vi o seu rosto. E ele viu o meu. Hans, o cara da cafeteria do centro. 20 anos e cabelo castanho, é tudo o que sei sobre ele. Seu olhos não tem vida, seria por isso que roubava a vida das pessoas, para preencher o seu vazio?
Eu não sei o seu sobrenome, a única coisa que tenho certeza é que minha vizinha não tem um namorado que a visite no meio da noite ou que ela mantenha visitas com o pai de seu filho. Pensei em ligar para a polícia e minutos depois, há o escuro e o silêncio. O estranho deu um jeito de desligar a energia e meu celular está no conserto faz uma semana. Com minhas mãos tremendo, tateio a segunda gaveta e acho uma lanterna.
Ligo na luz fraca, iluminando o chão e às vezes um pouco a frente, não chamando atenção. A tentação de correr é grande, e o risco de esbarrar em algo é maior ainda. Com dificuldade, chego ao meu quarto. Paro ao lado do armário antigo e grande, abrindo a porta, entrando e a encostando – a porta é pesada demais para ser puxada e fechada por completo -. Minha respiração está pesada, meu coração acelerado e minha sanidade em teste. Tento me convencer que se eu permanecer calada, ele não irá me encontrar tão cedo. Ele virá. Inteligente para não deixar testemunhas e como se não fosse o bastante, virá para fazer uma nova vítima.
A lanterna iluminou um caderno e uma caneta presa a ele. Uma forma de passar o tempo, me dedicando a palavras. Aqui estou eu até o momento, dividida entre fragmentos de memórias do passado relacionado ao presente e vislumbres da realidade.Quando era criança, na maioria das vezes eu ganhava o jogo de esconde-esconde, ficando mais tempo oculta que as outras crianças. Mas agora, vários anos depois, tem algo que eu desejo mais do que ser encontrada. Eu mereço isso pelo meu esforço, de manter a calma quando eu quero gritar por ajuda e chorar antecipadamente pelo meu próprio enterro. Eu peço com todas as minhas forças que o encontrem. Depois de escrever essas minhas últimas palavras, deixarei esse texto escondido no fundo desse armário. Para que as peças desse quebra cabeça se encaixem. Encontrem esse ser que dá passos leves e confiantes em minha direção. Sei que não tinha ninguém na casa ao lado, ela havia saído para casa de parentes.
Sei também que ele me procurou em todos os cômodos, todos os esconderijos, faltando apenas um. E agora a pessoa errada me encontrou. Encontrem esse humano que se alimenta de almas e sofrimento. Se não, do mesmo jeito que ele me encontrou, ele te encontrará. Sempre haverá mais deles por aí, por todos os cantos. Não se sinta desolado ou perdido com as minhas palavras, se você não se encontrou, ele com certeza irá. Você deve apenas esperar.
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