O mundo evoluíra, e uma espécie passou a dominar terra e ar. Porém, passaram a ignorar a região aquática que predominava seu planeta, passaram a esquecer das criaturas que habitavam as profundezas.

Durante milênios aquela criatura adormecera debaixo d’água, aos poucos se desenvolvendo, mesmo inconscientemente.

Seus sentidos estavam há muito completamente desligados, mas atualmente, os dias são outros.

Acima do espaço onde a criatura dormira por tanto tempo, construíram um parque aquático. Todos os dias, as pessoas jogavam restos pequenos de seus lixos naquela água.

Aquilo se juntara por anos, e aos poucos descia mais e mais, quase alcançando as profundezas oceânicas onde a fera dormia.

Ela aos poucos ia acordando. Recuperando sentidos, passando a se situar. Lá em cima, as águas tão tranquilas das piscinas se agitavam, criando ondas que batiam contra suas barreiras e ameaçavam à tudo destruir. Era a fera, se mexendo lá embaixo, quase como se quisesse avisar que sim, as profundezas oceânicas foram ignoradas por tempo de mais.

Mas, depois de alguns meses causando certa má fama ao parque, a fera se acalmou. Adormeceu novamente, por anos. Ninguém mais se lembrava do ocorrido. Humanos são especialistas em esquecer eventos desse tipo, eventos que só a natureza causa e ceticamente todos ignoram.

A calma e paz reinava no parque, os negócios decolavam. E quanto mais gente chegava, mais lixo se acumulava. Lixo esse que, sim, novamente chegou às profundezas.

A criatura não poderia ignorar. Não poderia simplesmente ignorar que aqueles seres desconhecidos faziam tudo ao redor dela se estagnar e acabavam com sua água. Então, ela levantou a cabeça. Olhou para cima, encarando a luminosidade que vinha de lá de cima. De repente, um ponto aumentava e descia com rapidez, seria aquilo… Um daqueles seres que tanto estragaram suas águas? Experimentou mexer-se com força, tentando visualizar melhor com seus olhos fluorecentes.

As águas agitaram-se, as pessoas lá em cima gritavam percebendo que aquilo certamente não era comum, não era um espetáculo.

Os donos, assustados. Evacuaram o parque, gritando avisos à qualquer um que passasse.

A certa altura, todos haviam saído.

Mas uma pessoa continuava na água, descendo rapidamente, sentindo a pressão achatar-lhe. Não haveria forma de salvar aquele ser, era impossível.

Quando o fundo atingiu, não passava de uma forma irreconhecível. A criatura observou, olhou novamente, e concluiu que aquilo deveria ser como eram os seres da Terra.

Não lhe convinha que só um ser daqueles poderia causar tanto lixo, mas sim, causamos. Todos nós, todos os dias. Naquele instante, a criatura adormeceu novamente, talvez sonhando com os seres da terra.

Lá em cima, o parque se fechara. Nunca mais reabriram, e convenientemente, a raça humana esqueceu. E talvez venha tendo feito isso há tantos séculos que ninguém jamais repararia se houvesse um ser marinho milenar habitando as profundezas de seus parques aquáticos.

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