Esquecer você

10 Parte II - Recomeço


Notas iniciais
Capítulo com um moooooonte de informação. Pode até estar corrido, mas iria ficar muito enrolado se fosse detalhar tudo que acontece. ;) Caso fique alguma dúvida, me perguntem!

Toda a sua morte passou como um borrão. Não quis saber dos detalhes, as informações que tinha já eram dolorosas demais.

Lembrava-se vagamente de que Mycroft não deixou que ela levasse nada consigo.

– Sherlock investigará. – Ele dissera. – Qualquer coisa que sumir será suspeito.

Ela simplesmente concordava com as ordens que recebia, sem dizer nada. Foi apresentada a Robert, um senhor muito simpático que trabalhava no mesmo laboratório para onde ela iria. Ele falou animadamente sobre como era a vida no Brasil e como ele a ajudaria a se estabelecer por lá. Garantiu que a ajudaria a aprender o idioma o mais rápido possível. Tinham também arrumado uma mala para ela, com roupas e outros acessórios que ela poderia precisar. Molly ouvia tudo como se estivesse em um sonho. Ou seria pesadelo?

Sentia sua cabeça enevoada e agia automaticamente, dando resposta padrões a tudo que diziam ou perguntavam. Lembrava-se com dificuldades de ter entrado no avião, talvez tenha dormido não muito tempo depois. Robert estava na poltrona ao seu lado e tentou puxar assunto, mas com a falta de atenção e respostas dela, ele desistiu.

Uma tristeza tomou conta de Molly quando o avião pousou. Londres ficara para trás e agora se via diante de uma cidade desconhecida, em um país que não era o seu. Quando desembarcou, com Robert logo atrás dela, sentiu o calor que sabia ser típico no país. Mesmo assim, ela tremeu. Sua nova vida começava. A Molly Hooper tinha ficado em Londres, morta. Agora ela se chamava Kate Hastings.

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Percorreram um longo percurso em um táxi, a cidade parecia cheia e caótica. Não achou ruim, talvez todo esse agito ajudasse ela a esquecer o que se passou.

Entrou em sua nova casa. Pequena, mas confortável. Toda a mobília e decoração tinham sido feitas com bom gosto. Parece que queriam que ela se sentisse bem, apesar de tudo.

Robert ajudou-a com a mala. Tentou mais uma vez conversar com ela e sentiu-se apiedado quando ela virou-se com aqueles grandes olhos castanhos cheios de lágrimas.

– Me deixe sozinha. Eu me viro a partir daqui.

Ele assentiu. Deixou sobre o aparador uma agenda, onde continha todas as informações e números que ela poderia precisar. Molly fechou todas as portas e ouviu seu celular apitar, era uma mensagem de Mycroft.

“Espero que tenha tido uma boa viagem.”

Ela olhou com raiva para o celular e com um grito jogou-o contra a parede do outro lado da sala. Só então seus olhos voltaram-se para a pequena imitação do Big Ben que estava numa mesinha ao lado do sofá. Agarrou a pequena estátua e chorou abraçada a ela. Era a única lembrança que teria do seu passado.

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Depois do que pareceram horas, Molly decidiu levantar-se. Tinha esgotado todas suas lágrimas, mas ainda sentia-se extremamente triste. Pensava em como seus amigos reagiriam a sua morte. Em como Sherlock reagiria. Deixara todos para trás. E no fim, a única certeza é que salvaria a si própria. Decidiu recolher os pedaços do seu celular. Tinha sido insensatez arremessá-lo, precisaria dele mais cedo ou mais tarde. Respirou com alívio quando ele funcionou. Em sinal do seu desespero constava apenas um arranhão na tela.

Procurou algo para comer e descobriu que a cozinha estava cheia de alimentos, muitos dos quais ela não conhecia. Pegou um iogurte na geladeira e uma fruta. Por ora, bastaria.

Sentia lágrimas começando a se formar novamente. Foi até a janela e observou um mundo que ela não conhecia. Tudo ali seria diferente. Quanto tempo até que ela se adaptasse? Será que ela esqueceria a todos? Sabia a resposta. E era não. Como poderia esquecer-se dos seus amigos e do único homem que amara?

Sherlock. Seu coração apertou-se ainda mais ao pensar nele. Será que ele reviraria Nova Iorque atrás de evidências da sua morte? Por uns instantes torceu para que ele descobrisse tudo. Então, ela estaria livre.

Lembrou-se dos seus olhos, do seu sorriso quando ninguém estava olhando. Da forma com algumas marcas de expressão aparecia nos cantos dos seus olhos quando ria. Nunca tinha se dado conta do tanto que sentia falta dele. No fundo, sempre esperou reencontrá-lo, sempre teve esperanças de que ele a procuraria. Agora, sabendo que ele pensaria que ela estava morta, a dor veio com força total. Não existiria um futuro para eles.

A constatação fez com que as lágrimas recém formadas caíssem novamente de seus olhos. Levou de volta para a cozinha a fruta que nem chegou a tocar e foi para o quarto. Dormiu imaginando um mundo onde ela e Sherlock pudessem ser felizes.

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No dia seguinte, Robert apareceu pela manhã. Trazia consigo sua esposa, uma senhora chamada Fran. Ela era moradora local e prometeu ajudar Molly a manter a casa em ordem e também acompanhá-la em lugares que ela precisasse no dia a dia.

Molly teve um breve pressentimento de que essas pessoas estavam ali para vigiá-la. Deu de ombros, o que poderia fazer? Era claro que Mycroft colocaria pessoas o tempo todo atrás dela, para que ela não tentasse entrar em contato com ninguém.

Robert a levou até o laboratório. Ali, sentiu-se mais próxima de casa. Todos a trataram bem, arriscando-se até mesmo a falar no mesmo idioma que ela. E tendo paciência suficiente para ensiná-la algumas palavras e expressões básicas.

Quando voltou para casa, que era confortavelmente próxima ao laboratório, foi que Molly se deu conta da agenda em cima do aparador que Robert tinha deixado no dia anterior. Começou a folhear as páginas e encontrou os números do próprio Robert, de Fran, de Mycroft. Tinha também algumas orientações em caso de emergência, algumas dicas sobre lugares e orientações sobre a cidade. Mas na última página algo chamou sua atenção, havia o número de uma conta em nome de Kate Hastings.

Vencida pela curiosidade, Molly pegou o laptop que tinha visto no quarto e acessou a conta que teoricamente era dela. Não conteve uma expressão de espanto ao ver o valor que continha no extrato.

Mycroft, seu filho da puta.

O idiota do Holmes mais velho achava que poderia comprá-la. Mas isso talvez fosse a única coisa que estavam além da capacidade dele.

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Os dias posteriores foram passando de forma tranquila quando ela estava trabalhando e de forma assustadora quando voltava pra casa e tinha que enfrentar todos os seus pesadelos, que agora eram sua realidade.

Fizera amizade com Fran, já que era a única pessoa que ela conversava fora do trabalho. Descobrira que ela quem tinha decorado toda a casa e tido a sensibilidade de comprar a miniatura do Big Ben. Sentiu uma enorme gratidão por ela quando soube. Robert também tinha se tornado um amigo. Ele a acompanhava todos os dias ao trabalho e parecia interessado em saber sobre sua vida. Apesar de imaginar que eles só estavam fazendo tudo isso a mando de Mycroft, ainda eram as únicas pessoas com as quais Molly podia contar. Somente uma coisa a irritava: a insistência deles em chamá-la de Kate.

Ainda sentia-se extremamente solitária quando ficava sozinha, principalmente à noite. Era quando tudo ficava escuro que suas lembranças apareciam, tão fortes como se tivessem acabado de acontecer. E por muitas vezes, ela chorava.

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Foi durante uma simples coincidência três meses após sua chegada, onde trombou sem querer com seu vizinho, fazendo com que o celular dele caísse no chão. Quando abaixou-se para pegar, viu um leve olhar de pânico passando em seus olhos. Discretamente olhou para a tela do celular e viu, com surpresa, um segundo antes que a tela se apagasse, que ele trocava mensagens com o mesmo número que tinha em sua agenda. O número de Mycroft.

– Desculpe... Eu... – Sorriu, fingindo um embaraço com o português, e torcendo para que ele não tivesse percebido que ela vira a tela. Estendeu o celular para ele. – Seu, não?

– Sim, muito obrigado. – Ele sorriu com alívio. Tinha acreditado que ela não desconfiara de nada.

Molly continuou andando, como se nada tivesse acontecido. Mas com uma única certeza em sua mente: estava sendo vigiada em todos seus movimentos.

Começou então a observar o morador da casa em frente a sua. Percebeu como fora burra em não notar antes que ele a vigiava, mesmo quando Fran e Robert estavam com ela. Um dia, saiu para o trabalho e pediu para que Robert parasse com ela em uma farmácia. Logo viu seu vizinho vindo atrás. Desde então, teve certeza.

No momento não tinha muito o que fazer quanto a isso. Mas ficou feliz em ter sido mais esperta que Mycroft, ao menos uma vez.

Robert e Fran tinham se tornado cada vez mais especiais para ela. Eram como os pais que ela perdera tão cedo. Esquecia-se, e achava mais fácil assim, do porque deles estarem ali.

Certa vez, cerca de seis meses após sua chegada, desabafou com Fran sobre tudo que tinha acontecido. Falou sobre Mary, John... Sobre as férias... Falou tudo sobre Sherlock... Choraram juntas e Fran a embalou até que ela dormisse.

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A previsão de Mycroft começava a acontecer em Londres. Molly lia as notícias em seu laptop, passara-se quase um ano desde que ela partira. Os atentados tinham aumentado em grande número. Pessoas estavam morrendo por todos os lados.

Soldados americanos e ingleses já estavam sendo mandados para o Oriente Médio, visando um revide. A diplomacia e a Inteligência estavam agindo para tentar acabar com os ataques e proteger a população, dizia os jornais. Isso a fez pensar em Sherlock e em como ele estaria se saindo. Será que tinha sofrido por ela? Se sim, será que tinha se recuperado? Voltado a ser o Sherlock de sempre? Ela esperava que sim.

Pensou em Mary, John, Sra. Hudson, Lestrade... Como estariam todos?

Molly caminhou até sua janela. Olhando as estrelas pediu para que, se realmente houvesse um ser superior, protegesse seus amigos.

Todo esse tempo teve pouquíssimo contato com Mycroft. Exceto a mensagem de boas vindas quando ela chegou ao Brasil e um relatório mensal que ela forçara ele a enviar para o seu e-mail com notícias sobre seus amigos, ele só tinha mandado outra mensagem quando ela abriu uma nova conta em seu nome, ou melhor, no nome de Kate Hastings, e solicitou que seu salário começasse a ser depositado ali. Não queria seu dinheiro misturado com o de Mycroft, não usaria aquele dinheiro se pudesse evitar. Mycroft não gostou muito desse ato e enviou uma mensagem mal humorada, que ela ignorou.

Ela já se virava bem com o português e andava pela cidade sozinha. Tinha visto, mais de uma vez, seu ilustre vizinho seguindo-a. Parecia que ele não era muito experiente nessa missão. Molly tinha certeza de que todos seus passos eram enviados para Mycroft, isso a incomodava.

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As notícias ruins sobre Londres chegavam cada vez em mais números e com maior frequência. O fato dela não poder fazer nada a estava deixando maluca. Mais pessoas tinham morrido e muitas estavam feridas em hospitais lotados. Leu que os hospitais de Londres e cidades vizinhas estavam precisando de médicos e enfermeiros capacitados para ajudarem a cuidar dos feridos.

Olhou pela janela, mas dessa vez não buscava as estrelas. Olhou para a casa de seu vizinho. Uma ideia acabava de passar por sua cabeça e tinha uma ínfima chance de dar certo. O que nesse caso era melhor do que nada.

Notas finais
o/ Amanhã tem mais!