Notas iniciais
Da série "sonhos estranhos, bonitos e dolorosos que temos".

Estou parada em frente à grade da janela que separa o corredor de casa com o interior da cozinha, que é onde você está, na pia, organizando as últimas louças ainda sujas. Você olha pra mim, volta seu olhar à pia e sorri. Você está sorrindo mais, hoje. Está usando uma camiseta branca, e talvez seja esse o detalhe que ilumine ainda mais o seu sorriso, quando você simplesmente o dá, tão voluntário e espontâneo para mim.

Sei que voltou depois de um longo tempo fora. Sei que não quer falar sobre isso, embora seja o que eu mais tenho investigado em pensamentos. Sei que éramos próximos num tempo muito anterior ao tempo de você ir, e que talvez agora não sejamos mais a mesma coisa. Que há uns dias minha amiga finalmente conseguiu ser honesta sobre os sentimentos que tem em relação à você, e que foi uma cena engraçada, você caído no chão e ela montada em cima de você, te obrigando a escutar o que tinha pra dizer. Sei que, nas vezes em que te olho, ainda penso se deixei de usar a pele da menina do tempo anterior ao tempo de você ir, aquela que gostava de apreciar você sorrindo.

Mas você apenas está aí, sorrindo, se livrando de uma louça já limpa e indo buscar o necessário para limpar a pia. Ergo o braço e alcanço a esponja que você deixou no meio da pia. Ela tem um formato estranho, parece uma laranja pontuda, um verde puxado para o amarelo, com superfícies mais ásperas, realmente parecendo a casca porosa de uma laranja. Lembro de mais cedo você ter surtado por ter conseguido uma esponja cujo material era diferente de todas as outras, só não pensei que era uma apropriada para lavar louças.

Sorrio, sentindo-a em meu tato, apertando-a sobre a água corrente para ver quando deixará de expelir espuma, pensando que tudo o que ela me lembra é uma beauty blender.

Nessa altura você já voltou.

— Você não tem nada pra fazer? — você me pergunta, de bom humor

— Hoje é domingo. Eu ainda estou de pijama, é claro que eu não tenho nada pra fazer — eu respondo, e logo depois, num sobressalto, lembro dos meus compromissos de domingo — Caramba, eu nem sei se hoje tem reunião marcada.

E olho, esperançosa, pois você costumava fazer parte delas; das reuniões. Uma parte de mim se contorce em expectativa, pensando em como todos ficariam felizes se você resolvesse aparecer por lá, mas sua expressão tranquila de quem não tem compromissos aos domingos me pega desprevenida.

— Você devia se apressar, então — diz, tranquilo.

Continuo massageando a espuma macia da esponja, expelindo mais sabão dela sem perceber.

— Você devia ser mais aberto sobre o que aconteceu com você. No tempo em que foi embora. Você sabe, um pouco mais do que dividir conosco a saudade que sentiu das suas bandas e grupos esquisitos.

No fundo, eu sei que esse é um mundo esotérico, e que não deveria existir, já que você foi e nunca voltou, mas a força do seu sorriso me engana, me surpreende, me desconcerta. Você sorri novamente, como se houvesse uma força dentro de você que te trouxesse alguma recordação eufórica; feliz, e eu fico me perguntando o que lhe deixou, de repente, tão contente.

Você toma a esponja das minhas mãos, finalizando o que quer que esteja faltando na borda da pia, que não tomo mais conhecimento por que só estou atenta no que você pode me responder.

— Você não lembra, não é? — você me pergunta, e eu me desfaço em expectativa, franzindo o cenho e tentando forçar minha mente a voltar em alguma coisa que passou despercebido.

Há aquele fio de esperança estranho e perigoso que me faz pensar que talvez eu seja o motivo dos seus sorrisos para o nada, mas esse é um exercício arriscado, audacioso, e que não posso desembestar a fazer por motivos muito óbvios que não quero estudar agora.

— Como assim? — eu pergunto, vendo-o se afastar da pia, seguir em direção à porta e surgir no corredor em que estou, ainda com os braços apoiados na grade da janela. Quero ser racional e ponderar sobre como não estava preparada para te encarar assim tão de perto, que talvez eu devesse ter trocado de roupa por algo que não fosse tão curto ou amarrotado, mas tudo o que sinto agora é a maciez da sua camiseta branca em meus dedos quando você se aproxima, com o sorriso que eu sequer sabia que sentia saudade, as mãos no meu rosto e cabelo, dizendo coisas que não compreendo simplesmente por que nada ainda parece real.

Sua maciez, o cuidado, o calor, o riso.

Tudo o que quero no momento é trilhar o caminho para seu peito e fazer dele minha morada, com os bips, com a frequência arritmada, com o calor humano, com toda e qualquer célula que me entrelace ao seu interior. Mas como é possível você vir até mim dessa forma num mundo em que você nem mesmo voltou?

Assim como você não poderia retornar à mim dessa forma; você também não poderia pegar o caminho da porta e sair no mesmo corredor que eu, simplesmente por que nada disso aconteceria realmente, nem mesmo em meus sonhos. Porque você ainda está aí, no outro lado da janela, ocupado com alguma coisa sobre a pia, quando em meus sonhos você nem precisaria estar em meus braços, apenas bem e sorrindo.

— Você não lembra, não é? — você me pergunta, rindo

— Acho que não.

E seu sorriso ainda é a coisa mais linda que eu já vi.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!