Minha cabeça estava mais do que confusa. Depois de um dos momentos mais apavorantes da minha vida, eu fui para a sede da DEO. Assim que eu cheguei lá, todos os agentes me olharam com desgosto. Se bem que, se eu tivesse um espelho bem na minha frente, esse seria o retrato exato do meu reflexo: nojo e decepção.

— Kara! — Ouço Alex, minha irmã da Terra, gritar de longe. Ela correu para minha direção e me abraçou com necessidade — Você está bem?

Eu ainda estava em choque. Meu coração estava tão acelerado, que parecia que eu tinha sido atingida por uma descarga elétrica. Não desgrudei os olhos do chão, mas falei algo.

— E-Eu matei alguém. Eu matei alguém inocente, Alex!

— Não diga besteiras, Supergirl. — Hank Henshaw se intrometeu na conversa, carregando seu olhar de autoridade que eu muitas vezes temia — O garoto quis morrer. Nem sempre podemos salvar vidas. Nem sempre você pode salvar vidas, Kara.

— Mas a Supergirl deve! — Gritei de volta, uma lágrima saiu do meu olho. Atrás de Hank estavam Winn e James, assustados — Ele poderia estar vivo se eu não tivesse fracassado, Hank! Não entende?

— E qual foi a razão de seu fracasso? — Minha irmã questionou, colocando a mão em meu ombro.

— Não sei... ele se parecia com alguém que eu conhecia. Além disso, ele sabia meu nome kryptoniano.

— Estranho demais. Ele deveria ser um fã psicopata. Que bom que já se foi. Seria horrível termos um problema como ele aqui. — Hank sussurrou com tremenda naturalidade. Se ele não fosse meu superior, gostaria de lhe dar um tapa tão grande que pudesse mandá-lo para o espaço.

— Como pode ser tão-

— Senhor. Acho melhor olhar os noticiários. — Fui interrompida por um agente, que se dirigia a Hank. Todos fomos para a sala de controle, onde monitorávamos quase todos os lugares da cidade. O mesmo homem que chamou Hank apontou para a TV.

— Aumente o volume, Dodgers. — Henshaw comandou.

Heroína ou um grande fiasco?— Dizia a repórter — Acabamos de receber notícias de que Supergirl não foi capaz de salvar a vida de um civil.

— Ela não é culpada! — James gritou para a TV como uma criança. Continuamos a ouvir.

Às exatas 7 horas da manhã, um garoto não identificado cometeu suicício na ponte Golden Bridge. Supergirl foi filmada tentado ajudá-lo, mas não conseguiu. Fontes anônimas afirmam que a heroína ficou paralisada no momento e não soube lidar com esse chamado de socorro. Será que esse foi um aviso para termos cuidado com a Garota de Aço?

Winn roubou o controle para colocar a televisão no mudo. Eu estava mais arrasada do que antes, mal conseguia me mover.

— Ka- Supergirl, não leve isso a sério. — Schott pediu, quase me chamando por "Kara", como Hank fez a pouco tempo — São só idiotas.

— Não, Winn! — Revidei — A repórter está certa. Eu fui uma inútil. Eu congelei na hora. Essa não era uma missão pra mim. Por que ninguém chamou o Superman?

— Porque você é a heroína de National City, garota! — Winn falou, irritado. James puxou o garoto para perto.

— É, mas eu nunca precisei parar um suicídio. Além disso, o Superman está aqui, em National City, se já esqueceram. Falando nisso, o garoto parecia conhecer o Clark.

— Isso está pior do que eu pensei. — Alex suspirou pesadamente — Winn, teria alguma forma de você pesquisar algo sobre esse garoto?

— Posso tentar, mas não prometo que vai dar certo. Existem bilhares de opções.

— Posso te ajudar no meu período livre. — James falou, mesmo sem ter vontade. James Olsen teria mais chances de ficar em frente a câmeras do que computadores.

— Não precisa. Eu sou o nerd das computações, se lembra? Eu também sei falar kryptoniano. Você tem algo que possa contribuir? — James na hora mudou de ideia. Olhei para meu relógio e percebi que estava atrasada para o trabalho.

— Droga! Cat vai me matar. — Sussurrei.

— Atrasada de novo? — Alex pergunta.

— Como sempre. Até mais.

E saí voando para o terraço da Catco.

. . .

— Senhorita Grant! — Exclamei, acomodando meus óculos sobre o nariz. Cat estava saindo do elevador com a elegância que sempre ostentava. Seus óculos escuros escondiam a frieza que eu recebia todos os dias, assim que eu chegava na empresa — Desculpe pela demora. É que eu-

— Oh, Kerah. Quantas vezes eu tenho que dizer que eu não me importo com sua vidinha patética? Ter a minha já é preocupação demais. Onde está meu latte?

— Oh, sim. Aqui. — Entreguei o café em suas mãos. Quando ela o provou, fez uma careta de desgosto.

— Urg! Sinto pena do funcionário que acabou de ser demitido por ter feito essa coisa. Ou melhor, só sinto pena da Supergirl, depois do desastre de hoje mais cedo. Você viu o quão negligente ela foi? Deixou um garotinho inocente cometer suicídio

— Talvez ela tenha se assustado com ele. Só isso. — Cat Grant olhou-me com repúdio, mostrando um leve sorriso de indignação pelo comentário.

— Está querendo negar uma afirmação minha, Kerah? — Perguntou, pronunciando meu nome erroneamente, como sempre fazia.

— N-Não! Claro que não. — Tossi nervosamente, mudando de assunto — Hm... Senhorita Grant, soube que queria falar comigo. O que aconteceu?

— Ah, é. Quero que conheça meu assistente mirim. Preciso que o ajude a se adaptar na Catco.

— Nossa. Não sabia que a empresa estava contratando garotinhos sem experiência com jornal.

— Para a sua opinião, que eu sequer me importo, Kerah, o senhor Kent deve ter mais conhecimento do que você já teve em toda sua vida. Ele está aqui por interesse no ramo jornalístico. — Provocou.

— Espere... Kent? Clark Kent está aqui? — Pedi, um tanto esperançosa e confusa. Por que Clark sairia do Daily Planet pra vir para cá? Tudo bem que Perry White é um homem estremamente irritante, mas essa não deveria ser uma boa razão.

— Ai, quem me dera. — Minha chefe suspirou revirando os olhos e sorrindo como uma menininha apaixonada — Não é ele. Mas pelo jeito, o garoto deve ser da família. Um primo, quem sabe até sobrinho dele. Não sei. Oh, ele está bem ali. Senhor Kent!

A loira o chamou, um menino de óculos e cabelos negros se aproximou de mim. Ele tinha olhos azuis e parecia ser uma versão mais jovem de Clark. Na mesma hora, o reconheci.

— Conner?

— Vocês já se conhecem? — Cat perguntou.

— Sim. Ele é o meu...

— Amigo. — Ele completou — Conheci Kara há um tempo.

— Ótimo. De qualquer forma, Kara, conheça oficialmente meu assistente: Conner Kent.