Quando garota, meus pais me levavam para acampar todo fim de semana. Era divertido; Papai ficava montando a barraca e preparando a fogueira, enquanto Mamãe me contava histórias e mostrava a natureza.

Uma das minhas histórias favoritas, era a de uma garota que após olhar muito para o espelho, acabou entrando naquele mundo. Tudo sempre foi muito bom, até um dia que meu pai passou mal, e teve que ir ao hospital. Chegando lá, ele descobriu que tinha um câncer cerebral. Toda a família ficou chocada, eles davam forças até de onde não tinham.

Meu aniversário caiu no dia que ele tinha uma sessão de quimioterapia marcada, mas isso não me desanimou. Minha mãe, para tentar compensar a falta de uma festa, me levou a uma livraria, e disse que eu podia escolher o que eu quisesse. Logo de cara, me deparei com um livro de poesias. Fiquei apaixonada pelo o que via. Com dezenas de livros famosos, caros, grossos e coisas do tipo, eu me apaixonei por um livro de poesia barato, fino e de um artista que eu nem decorei o nome.

Ele tinha algumas boas poesias, mas uma, em especial, me chamou a atenção... :

- Espelhos

Minha doce criança,

Em teus olhos, vejo esperança

Neste mundo, estou preso

Um mundo virado do avesso

Na parede do teu banheiro,

Existe uma chave,

Uma chave para o eterno desespero.

... Seria essa a inspiração que a minha mãe teve pra me contar aquelas histórias? Bom, isso eu não sei. Porém, durante meses, eu procurei por essa chave, até porque, eu era apenas uma garota de 13 anos totalmente iludida.

O tempo passou, e meu pai conseguiu se tratar do câncer. Minha mãe passou a estudar medicina, para curar o câncer de mais pessoas, com o menor sofrimento. Depois de alguns anos, minha mãe finalmente virou médica, e minha vida ficou perfeita! Eu morava no melhor bairro de SP, estudava na melhor universidade, tinha os melhores amigos, enfim, era tudo perfeito. Depois de uns 3 meses vivendo no puro luxo, eu acabei achando aquele livro das poesias, jogado debaixo da minha cama, todo empoeirado. Eu fiquei com certa dó, e com um pouco de nostalgia também. Re-lendo aquilo, depois de tanto tempo, me fez lembrar minhas mais remotas memórias.

Após ler o poema Espelhos, eu queria reviver minha infância, então fui novamente procurar a chave no banheiro. Mais uma vez, sem resultados... Será? Eu tropecei e bati com a cabeça no espelho, tendo um desmaio instantâneo. Quando eu acordei, tudo era diferente... Minha família era pobre, meu pai estava morto, eu morava no bairro mais pobre de SP, os jornais só eram legíveis quando eu os "mostrava" para o espelho... O QUE ESTAVA ACONTECENDO?!?!?

Depois de muito tempo nesse mundo, eu acho que finalmente entendi o que aconteceu... O que me parecia apenas um conto de fogueira, acabou se tornando minha vida. Eu me tornei a garota de dentro do espelho, do conto que minha mãe me contava quando íamos acampar.

Notas finais
Não me matem por aquele poema, eu dei o meu melhor... xD
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!