Espelho Quebrado

11 Ela está morta


As coisas não deviam ser daquele jeito. Ela estava brincando comigo e eu caia direitinho. Essa merda de amar quem não se deve... Eu tinha que ser bem realista e entender que aquilo não ia dar certo. Eu amo mesmo aquela ruiva. Isso não devia estar acontecendo. Maldito coração.

Há mais de duas horas que estávamos no ar. Muitos cansaram e foram dormir. Estava um silêncio terrível. Chris dormia no meu ombro e Taylor lia um livro na sua poltrona.

Ah, Taylor. Por que eu não me apaixonei por você? Seria bem mais fácil aceitar uma friendzone, do que enfrentar a outra lá. Ela desvia os olhos do livro e me encara por alguns segundos, depois sorrir. Aquele sorriso de menina moleca. Sorriu de volta.

Quando ela se volta para o livro novamente, mudo o olhar de direção. Bea estava na fileira ao lado, quatro poltronas à frente. Dava para ver uma parte de seus fios vermelhos e o braço apoiado no encosto.

Eu ainda consigo ouvir sua voz na minha cabeça. A maneira como ela me tocou. O desejo em seus olhos. Mas QUE MERDA... Eu tinha que urgentemente parar de pensar nela daquela maneira.

Ana Paula, lembre-se do que ela já lhe fez. Começou quando se tornou sua amiga, depois sua amante, depois sua inimiga (mas continuo sendo amante). E hoje... O que ela é?

NADA!

Não posso deixar que ela se torne algo além do que já é.

–Você está ouvindo o que? — Taylor me tira de meus pensamentos.

Puxo os fones dos meus ouvidos para falar com ela.

–Uma banda brasileira, não é muito conhecida — respondo.

–Posso ouvir? — ela pega um dos fones e espera minha resposta.

–Hunrum- ponho o outro.

Olho o seu rosto enquanto os acordes de um novo refrão tocam em nosso ouvido. Ela pareceu gostar, pois sorriu e balançou a cabeça. Os olhos pequenos me encaram.

–Na minha rua, eu moro numa rua. A minha casa, eu moro numa casa de ilusão... — canto.

–E tudo que tem dentro dela. Tudo remete aquela velha minha solidão... — continua.

–Aprende rápido — sorriu e digo.

–Tenho uma boa memória — ela sorrir de volta e vira-se para frente — Paula, quero lhe perguntar uma coisa...

–Pergunte.

–Eu estava no pátio quarta-feira antes das ultimas provas e tinha um grupo de alunos do segundo ano conversando por perto... Eles estavam falando sobre você.

–Isso não foi uma pergunta.

Eu estava acostumada com isso. Esse falatório, fofocas, historia a meu respeito. Pouco me importava. A maioria era invenção de quem não tinha o que fazer.

–É, eu sei. Desculpa-me.

–Tudo bem, prossiga...

–Eles citaram uma garota... Acho que se chama Alice.

–É a minha irmã — digo rápida.

–Mas... Eles disseram que ela está morta.

Eu não queria lembrar daquilo. Não naquele momento. Já fazia tanto tempo, eu já estava me acostumando. Mas sempre vem algo ou alguém que lhe joga a merda na cara. Eu não ia culpar Taylor por isso. Ela só estava curiosa.

–Ela está morta. Isso faz muito tempo.

–Eu sinto muito — ela toca a minha mão. Olho para seu rosto penalizado, eu não queria aquilo.

–Não sinta... — tiro a mão da dela e pego o celular com as duas para disfarçar o nervosismo.

A morte de Alice foi a pior coisa que já me aconteceu. Eu ainda tenho pesadelos com aquela noite... As inúmeras idas ao psicólogo só me fizeram aprender a mentir sobre como me sinto e me livrar daquele velho maluco.

– Eu também perdi minha irmã.

Isso eu não esperava. Olho para Taylor e ela encarava as próprias unhas.

–Quer falar sobre isso? — pergunto.

–Você quer? — me encara.

–Já me fizeram falar demais sobre esse assunto.

–A mim também.

Ficamos em silêncio. Nada mais precisava ser dito. Ela entendia a minha dor, eu entendia a dela.

Levanto o encosto que divide as poltronas abro os braços para que se acomode. Por sorte, Chris já estava com a cabeça encostada na janela. Ela mexe demais quando dorme.

Taylor deita sobre o meu peito e lhe abraço. Afundo o nariz nos seus cabelos. Eles cheiram a morangos com chantilly, eu já usei esse shampoo.
Fecho os olhos. O cansaço me alcançava aos poucos, e acho que a Taylor também. E ali, naquela posição, dormimos...