Espelho Quebrado
6 Único Sentimento
Notas iniciais
O domingo foi como há muito tempo eu não pude presenciar. Eu, Chris e mamãe vimos filmes de romance a tarde inteira. Antes de dormir comemos pizza e jogamos conversa fora.
Faz semanas que não vejo mamãe sorrindo daquela forma, não faço ideia do que aconteceu, mas saber que ela está feliz me faz feliz também.
Dormimos cedo naquela noite. As provas começavam no dia seguinte e tinha que estar descansadas para aguentar o ritmo de 3 provas e uma redação, só na segunda-feira. Eles não iriam me liberar porque passei 3 dias internada em um hospital.
O som de Chandelier me desperta. Pego o celular do outro lado da cama e esqueço que Chris estava lá, lhe acerto o cotovelo bem na cabeça.
–Desculpe, foi sem querer – digo e pulo da cama antes que ela devolva o golpe.
–Sorte que estou com preguiça de levantar, vai logo tomar banho.
Mando-lhe um beijo e entro no banheiro a tempo de ouvir o travesseiro batendo na porta.
Chegamos à sala 15 minutos mais cedo e nem o professor estava na sala ainda. Chris estava um poço de ansiedade. E tudo isso por causa do “Feriado Best”.
O Feriado Best era um evento que a escola criou para influenciar os alunos a tirarem notas altas. O aluno que tivesse no mínimo 28 pontos no terceiro bimestre passaria uma semana em algum lugar que fosse escolhido pelos organizadores.
Nos dois primeiros bimestres, eu e Chris, tínhamos medias 9 e 10 em todas as matérias, com mais um 9 estávamos dentro.
–Fica calma garota. Assim você vai acabar pirando – digo quando ela repete pela 5° vez os verbos de espanhol.
–Eu tenho que tirar 9 em espanhol, você sabe que não sou boa nessa matéria.
–Se tiver duvida é só me pedir.
–Sou péssima em colar.
– Vou te ensinar, presta atenção. A prova de espanhol tem 5 questões apenas, a questão que você tiver duvida você bate na minha cadeira a quantidade de vezes que corresponde à questão. Eu vou bater com a caneta na mesa a letra que estiver certa, por exemplo: A, 1 vez. B, 2 vezes. C, 3 vezes e por ai vai.
–Isso vai dar certo? – ela pergunta receosa.
–Claro que vai, relaxa.
Viro pra frente e coloco os fones de ouvido. Restavam 5 minutos para a prova começar. Era 7:25 e a prova era entregue 7:30. Aperto o play e começa a tocar um rock qualquer.
Cantarolando e batucando na cadeira eu conseguia relaxar. Era isso que eu sempre fazia quando estava estressada ou ansiosa. Já Chris preferia comer chocolate. Lembrando-me disso pego um que estava na minha bolsa e lhe entrego, ela sorrir e volta a estudar.
Zico, o professor de geografia, entra na sala desengonçado como sempre. Com o bloco de provas amarelas na mão e a sua bolsa na outra. O que eu não esperava ver era Taylor atrás dele.
Ela estava linda naquela noite, mas hoje se superou. Os cabelos levemente molhados lhe faziam parecer rebelde, a maquiagem era leve e os seus olhos tinham um brilho ainda maior durante o dia. Ela sorrir quando me ver, sorriu de volta.
–Bom dia! Estão prontos para a prova de hoje? – Zico pergunta e recebe um coral de “não” como resposta – Melhor estarem, o Feriado Best desse ano vai ser muito bom. Até eu vou.
Os alunos comemoram. Zico é o melhor professor da escola.
Taylor não saiu do seu lado um só segundo. O lesado professor parecia ter esquecido-a. Quando lhe olha bate na testa comprovando o que pensei, ele lhe esqueceu.
Tiro os fones de ouvido.
–Senhores e senhoras, essa é a nova aluna Taylor Swift – ri da própria piada – estou brincando, o seu nome é Taylor Skye. Ela veio de outro país – ele esquece qual – de qual país você veio mesmo?
–Londres.
–Isso, Londres. Ela fará a prova aqui e como hoje vocês precisam de concentração... Nada de ficar cantando a novata, garotos.
Os meninos lamentam entrando na brincadeira e fazem Taylor rir. Ele lhe diz algo, mas não consigo escutar.
Taylor senta 3 cadeira a frente na fila ao lado da minha. Vira por alguns segundos e acena para mim, sorri e faço o mesmo.
As provas são entregues e me concentro nela.
3 horas e meia depois saiu da sala com um pouco de dor de cabeça. Fui até a cantina esperar por Chris que ainda dava os últimos ajustes na sua redação.
Comprei um suco de laranja e sentei numa das mesas vazias.
Beatrice entra pouco depois de mim e como sempre, estava acompanhada de Jason. Os irmãos Cavalieri quase sempre eram vistos juntos. Até mesmo quando namorávamos Bea sempre estava com a gente. Lembro-me de Chris sempre fazer piadas perguntando se nossa primeira vez seria um ménage.
E essa submissão de Jason que me fez terminar com ele. Tudo o que Beatrice queria ele fazia. E ele adorava tanto sua irmã, mas não como os irmãos normais. Ele realmente a adorava, falava dela o tempo inteiro, lhe referia como uma deusa ou algo do tipo. Por muito tempo até achei que ele fosse apaixonado pela própria irmã. Isso me fazia arrepiar.
Beatrice lhe diz algo e vem em minha direção. Odiava aquele ar prepotente dela. Quando caminhava parecia que a sua aura brilhava ao seu redor... Como uma deusa.
–Como vai Paula? – pergunta e senta-se a minha frente.
–Muito bem Beatrice, e você?
Ela dá uma leve risada e sinto algo estranho em mim.
–Eu estou ótima. Apesar de alguns idiotas terem comentado sobre sábado.
–Foi gravado, não tinha como não comentar.
–Eu aposto que se tivesse mais pessoas aqui eles estariam ligando a câmera esperando mais confusão.
–O ser humano adora ver desgraça alheia.
Ela muda de banco e senta ao meu lado.
–Mas você não. Aposto que você adoraria que eu te deixasse em paz.
Seu rosto estava próximo ao meu, tanto que eu podia sentir o cheiro do seu chiclete de menta.
–Adoraria.
–Você tem toda razão em me odiar – diz e se afasta.
–Eu não odeio você Bea.
–Não? – rir – E o que sente por mim?
–Pena, eu acho.
Ela ri alto, e mais uma vez isso mexe comigo.
–Nunca alguém sentiu pena de mim. Pode me dizer o porquê?
–É a único sentimento que posso sentir por uma garota que precisa humilhar os outros para se sentir bem.
–O único? Tem certeza? – se aproxima um pouco mais e passa a ponta do nariz no meu rosto.
Levanto da cadeira quando meu corpo fica arrepiado. Ah, como eu odiava sentir aquilo...
–Não encoste em mim Beatrice.
Ela pouco se importou em ri alto, só tinha a gente ali naquele momento mesmo.
Saiu da cantina, quando viro no corredor dou de cara com Chris e Taylor, rindo juntas.
Meu corpo ainda estava estranho, meu coração batia rápido e o sangue fervia em minhas veias.
–Paula, você está bem? Alguém machucou você? – Taylor pergunta assustada e toda o meu rosto.
–Eu estou bem – digo em um sopro.
Fecho os olhos por 3 segundos e sinto sua mão escorregando pelo meu braço e depois entrelaçando nossos dedos. Lhe encaro e ela apenas sorrir. Sem conseguir me conter, sorriu também... Pela terceira vezes naquele dia apenas para ela.
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