Espelho
5 Capítulo 5
Uma enferrujada corrente se quebra.
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Relembrando. Retornando. Uma a uma, rapidamente. Memórias contínuas, memórias quase esquecidas.
Um selo foi partido.
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“O que é... Esse vermelho?”
Uma pergunta. Se infiltrando em minha mente, a única coisa tangível que se pode pensar em um momento assim.
A cena se desenrolava aos meus pés.
Havia fogo.
As chamas consumiam um local antes requintado, transformando em cinzas a bela pintura da casa senhoril. Um palácio, com as janelas abobadas agora com vidros quebrados e batentes destruídas. De fato, as labaredas lambiam vorazmente a antiga construção, deliciando-lhes a cada cinza criada. As fagulhas dançavam de um modo sombrio, comemorando a refeição que lhes era oferecida. Um incêndio que, pouco a pouco, devorava um local.
Local familiar.
E um grito soou no ar. Igualmente familiar.
Ao redor da imensa mansão, havia uma multidão. E as espadas rangiam, esperando tingir ainda mais aquele lugar de rubro.
Por que era tão doloroso?
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“O que é... Essa dor?”
E um sentimento se espalhava. Queimando, torturando, enquanto dizia para mim mesmo que não havia nada de errado naquilo. Nada de errado.
Um corpo jazia no chão. Minhas mãos estavam sujas de sangue.
Ardia, essa dor. De uma maneira insuportável.
Porém, nada de errado. Nada de errado.
Por que as lágrimas começavam a cair?
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Por que agistes assim?
Uma multidão se aglomerava ao meu redor. Gritavam e urravam, em seus berros de felicidade. A alegria era algo tangível. Sorrisos, aparentemente inocentes. Sorrisos, aparentemente aliviados.
Sorrisos, verdadeiramente sádicos.
Vasculhava, inutilmente tentando encontrar um rosto. Aquele rosto. O único rosto que eu precisava ver a reação. Apesar de minhas palavras, o rosto que eu adverti. Um rosto, era o que eu precisava.
Para ter a certeza de que valeria a pena.
E, súbito, encontrei-o. O rosto que eu mais amava, o rosto mais belo, dentre todos.
Era um rosto choroso.
Uma alegria imensa se apoderou de mim. Valia a pena, sempre valeria a pena, enquanto aquelas lágrimas fossem causadas por mim.
Dei meu último sorriso.
“O que é... Esse sangue?”
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Arfar.
Grito.
Arfar.
Olhem, olhem. Obedeçam, olhos. Olhem, e verifiquem. Este continua sendo meu pesadelo?
E olharam. Tudo que viram foi um quarto bagunçado.
Hipóteses, sugestões, críticas, conselhos, ordens. Frases preenchiam minha cabeça, dizendo suas opiniões.
O que foi... Esse sonho?
Porque fora um sonho, não fora? Mais um de meus sonhos estranhos, mais um para ser arquivado em um setor esquecido. Mais um que eu não conseguia saber se era ou não real. Mais uma prova de que meu “dom” não passava de uma ilusão.
Um sonho. Certo. Eu conseguia aceitar isso. Era fácil, óbvio, claro e cristalino. A hipótese mais logicamente provável. Um jovem cansado adormece. E sonha. Apenas isso.
Que conteúdo fora aquele?
Casas queimadas. Gritos sufocados. Lágrimas dolorosas. Sangue coagulado.
O que era tudo aquilo? Por que era tão familiar? Tão nostálgico?
De quem era o rosto embaçado que eu tentava ver?
De onde surgira aquilo? Acumulação do stress? Uma história fantasiosa criada a partir de minhas experiências recentes?
Em negação, uma voz baixa no fundo de minha mente me dizia que não era um sonho.
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Len Kagamine, ou eu, vai esclarecer-lhes algumas coisas.
Como, por exemplo, o fato de que uma auto-negação escrupulosa e inconfiável pode conter verdades, ocasionalmente.
O “sonho”, como Len Kagamine, ou eu, o titula, é nada mais, nada menos, que parte dos fragmentos guardados no velho setor esquecido e empoeirado de Reminiscências. Ao arquivar, talvez de modo inconsciente, uma memória tola e fútil naquela categoria, que poderia ser colocada de maneira prática no setor de “Impossíveis”, “Negações” ou até mesmo naquele estranho chamado “Indescritíveis”, que contém as memórias que temos preguiça de pensar mais de uma vez, Len Kagamine, ou eu, cometeu um imenso erro.
O fato é que, uma vez guardadas juntas, as lembranças tem uma única proteção geral, ao invés de milhares e milhares de individuais. Por isso, muitas vezes, ao lembrarmos de um fato desagradável, ocasionalmente relembramos também o motivo para o fato desagradável acontecer, o que se sucedeu após o fato desagradável, quem ou o que foi o prejudicado ou auxiliado no fato desagradável e todo o sentimento de vergonha que vossa mercê provavelmente sentiu durante o fato desagradável.
Simplificando as coisas, uma vez que certa memória é liberada, com ela saem juntas outras cem, ou mais, até que o fecho seja novamente consertado.
Infelizmente, é muito comum as correntes que selam as categorias se quebrarem.
A maior parte de culpa nisso é do dono da mente em questão.
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Ok. Alguém, por favor, me diga o que fiz eu para merecer tamanha crise de abstinência. Faz quantos dias que uma garota esteve em minha cama?
Ah, espere. A última garota em minha cama me causou uma dor de cabeça dos infernos.
Eu estava sentado em meu colchão e me lembrando do quão barulhentas aquelas malditas molas podiam ser quando queriam.
Exato. Um assunto totalmente diferente do que antes ocupava cerca de noventa por cento de minha capacidade intelectual.
E a solução mais óbvia para meu antigo problema foi pensar em quão sedento de sexo eu estava.
Deu certo. Sempre funciona.
Por outro lado, me veio à mente quantos episódios de anime eu poderia ver antes das dez.
Um breve dilema ocorreu em minha cabeça, seguido de uma rápida conclusão.
Corri para o computador. Anime demais nunca matou ninguém.
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– Me relembre de novo como diabos eu vim parar aqui.
Um eu estava sentado numa cadeira fria e gelada da sorveteira do bairro. Um eu muito mal-humorado e irritado por ter sido interrompido.
Piko, Gakupo e Kaito me olhavam divertidos.
– Hey Bela Adormecida, interrompemos seu sono da beleza? – zombou o garoto de cabelos brancos.
Um rubor discreto se fez presente em minha face quando me atrevi a responder.
– Falem logo o que tem que falar. O anime já estava chegando na parte boa... –resmunguei a última parte. Por que, logo quando a história água com açúcar estava começando a ficar apimentada, aqueles imbecis bateram justo na minha porta?
– Woah! – Gakupo deu um sorriso torto – Desde quando você troca garotas de verdade por hentai girls?
– Desde que a última “garota de verdade” me mandou pra cadeia.
– Sabe... – um Kaito interessado em esculpir um sorvete com a colher suspirou – Isso não fez muito sentido. Quero dizer, a garota é mais velha. A única razão pra mandar o shota pra trás das grades seria pedofilia.
Vermelho. Aquela cor constrangedora estava em minhas bochechas novamente.
–Eu não sou shota! – reclamei, indignado.
– Sua cara está vermelha. – apontou Piko.
“Droga.”
Esfreguei rapidamente minhas mãos no rosto, tentando esconder minha face corada. Aquilo só piorou a situação.
– Isso é... – olhei pros lados, em busca de uma resposta digna – Calor. Aqui está abafado.
– Len. – o jovem de cabelos lilás segurava o riso – Tem um ventilador bem atrás de você.
Minha cara tingiu-se de rubro mais uma vez.
– Humpf.
–-
– Nee shota... Preciso conversar com você. Rapidinho.
– Não me chame de shota, e eu vejo o que posso fazer.
Um Kaito estranhamente abatido conversava comigo. Piko e Gakupo, depois de mais algumas zoações, foram embora. Piko, para um motivo que não quis nos contar. E Gakupo... Bem, Gakupo foi acompanhado de duas belas garotas.
Fato que só me incentivou a engolir logo meu pedido e ir direto pra casa.
Ou, pelo menos, tentar ir direto pra casa.
– Kaito, se for pra falar sobre pedofilia e “SeeU é mais velha”, eu passo, obrigado. Já cansei desse assunto e-. – fui interrompido pelo garoto de cabelos azuis, que balançava a cabeça fortemente.
– Não é isso! – e pude ver em seus olhos que era algo mais sério – É que...
– Que...?
Repentinamente, o azulado me segurou pelo ombros e bateu minhas costas contra a parede.
Juntei as peças um pouco.
–Woah! Woah, woah, WOAH! Kaito, meu amigo, eu entendo que essa revelação seja um pouco inesperada vinda de você, mas eu não estou... Er... Interessado.
Ele rapidamente tirou as mãos de meus ombros e se distanciou um pouco.
– Argh! Len, seu shota baka, não era isso. – E lá estava um Kaito balançando a cabeça de novo – É que... Você não teve uma alucinação faz um tempo atrás?
Espelho. Rin. Cacos.
Fragmentos de frases voltaram para minha cabeça.
– Hm... Algo assim. Por que? – perguntei brusco. Todos, todos, todos ficavam me lembrando repetidamente daquilo que eu mais queria esquecer.
– Eu... Tive... Algo parecido.
– Algo parecido?
Kaito estava realmente sério. Digo, verdadeiramente, a ponto de ter esquecido o sorvete na mesa.
Eu nunca o tinha visto assim.
– Era um...
E o celular de meu amigo tocou. Bem quando ele parecia prestes a contar.
– Moshi moshi? Ahn... Hm... O QUE? Estou indo aí, me espere!
E lá ia Kaito rua abaixo.
– HEY! KAITO! – berrei. Infelizmente, o grito saíra feminino demais.
– QUE FOI?
– VOLTA AQUI, SEU TEME. TERMINA DE FALAR.
Ele deu meia volta e correu até mim.
– Cara... – disse enquanto colocava a mão na cabeça, em um gesto nervoso – Eu tive um problema em casa. Tenho que ir.
– Fala o que queria dizer de uma vez.
Ele olhou sério para mim. Um olhar profundo e penetrante, examinando-me por dentro.
– Era dor. Era perda. Te explico melhor mais tarde.
E antes que eu pudesse impedir, Kaito já era um ponto azul no fim da rua, fora do alcance de qualquer berro feminino que eu pudesse dar.
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Len Kagamine, ou eu, está neste exato instante voltando para casa cabisbaixo.
Seus motivos são simples e compreensíveis:
Primeiro: seus pensamentos inoportunos sobre espelhos e seus acontecimentos recentes com eles vieram à tona.
Segundo: Kaito, e suas palavras sem significado aparente para qualquer pessoa normal, mas para Len Kagamine, ou eu, relativamente importantes, causaram-lhe certa perturbação.
Terceiro: Len Kagamine, ou eu, lembrou que deixara a janela do anime aberta. E o vídeo estava pausado num momento que poderia ser realmente comprometedor se seus pais adentrassem no quarto.
Este último motivo fez Len Kagamine, ou eu, acelerar o passo em direção à casa, pedindo fervosamente para que não houvesse motivo algum para sua mãe resolver arrumar seus mangás e ver mais do que o devido.
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E cá estou eu, em frente a meu espelho novamente.
As palavras de Kaito me perturbavam. A maneira que falou, a hesitação... A descrição de sentimentos que eu conhecera bem em meu “sonho”...
E o retorno do acontecimento fatídico, que agora parecia tão distante.
O aparecimento do reflexo distorcido.
Meus dedos contornavam a moldura. A meus olhos, o reflexo ali era meu. O rabo de cavalo permanecia intacto.
O que era aquela garota, afinal...?
Porém, para meu desespero, como que querendo responder minha pergunta, o reflexo no espelho começou a mudar.
Cabelos loiros e soltos. Presilhas. Olhos azuis nebulosos.
Olá novamente, meu pesadelo.
Notas finais
Então, eu sei que demorei. Uns... É... Dez dias? q-q' E infelizmente não posso dizer "Eu voltei" ou "Estou de volta", porque estou viajando novamente. E isso quer dizer: sem música e internet ruim. E pouco tempo com o computador, também.
Bom, sobre o capítulo:
Cantarella. Vocês não tem ideia de quantas vezes eu ouvi (em casa) essa música. E foi uma espécie de resolução "Vou fazer esse capítulo com algo de Cantarella". E muita gente vai notar onde coloquei partes da música. Na verdade, está óbvio ._.
Eu dei uma coisa de bandeja aí. E quando digo de bandeja, quero dizer que praticamente subi num palco e gritei no megafone todo o mistério e trama da fanfic. Sério. Estou seriamente arrependida, então POR FAVOR, não leiam muitas vezes esse capítulo ou a história vai ficar sem graça e_é
Len corou mais nesse capítulo do que durante toda a história. E foi trollado pra caramba também, pobrezinho.
Comentários a parte: É ISSO AÍ KAITO PEGA ELE PELOS OMBROS, ENCOSTA NA PAREDE, DÁ UMA ENCOXADINHA E/apanha
Len vê hentai. Isso foi bem divertido de escrever :B
Vou acabar logo com as notas, porque o capítulo foi """""gigante""""", e aturar minhas notas finais também tira a vontade de deixar review (?) de qualquer um.
So... Ja ne, minna-san. E rezem pelas minhas caixas de som (?).
Capítulo dedicado a VampireWalker/Tay-nee. Sem ela, só haveriam 300 palavras nesse capítulo e olhe lá.
Cumpri minha parte no combinado, quero meu capítulo terminado agora u_u
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