Especial de Natal - Não Tão Natalino Assim
1 Coques Frouxos, Starbucks e Rolling Stones
Notas iniciais
Cléo estava parada em frente a pista de skate. Com sua blusa do Rolling Stones que escondia seu minúsculo short e seu all star surrado, ela assistia os gurizinhos fazendo as mais radicais manobras na pista que ficava por trás da Starbucks do bairro.
A garota passava boa parte de suas tardes assim, pois era nova na cidade e não tinha muita facilidade em fazer amigos. No colégio não era diferente, ela se sentia deslocada, mas isso não era nenhuma novidade, pois era assim em qualquer lugar que fosse. De vez em quando ela até se perguntava o que tinha de tão diferente pra não se encaixar em lugar nenhum. Então, por não ter companhia, toda tarde ela arranjava algo pra fazer por conta própria, como observar os meninos do skate ou ficar desenhando no caderno de capa de couro que sempre levava consigo.
Ela analisava de um a um, pouco se importando com as manobras que eles faziam, mais preocupada em reconhecer qual era o mais bonito — mesmo que não fosse admitir isso se perguntassem.
E, no momento em que decidiu que o moreno-fofo-de-olhos-verdes que tinha skate vermelho e jeitinho de nerd era o que ela mais gostava dos três que estavam ali, Cléo notou, de canto de olho, uma moto preta que chegou e parou a alguns metros dela.
Não, calma, não era só uma moto preta, era uma Harley Davidson.
Seu condutor vestia uma jaqueta de couro preta e um capacete com visor abaixado, impedindo que ela visse o rosto do homem. Mas, a julgar por cima, ele tinha uma boa estrutura física, talvez 1,80m e cabelos loiros que escapavam por baixo do capacete.
Curiosa sobre ele e esperando que pudesse ver seu rosto, Cléo virou-se para encará-lo, mas o motoqueiro contrariou totalmente suas expectativas e deu meia-volta, saindo dali com aquele ruído super agradável para amantes de duas rodas motorizadas e deixando uma garota frustrada para trás.
Cléo estranhou, obviamente, mas deixou pra lá e continuou olhando para o moreno, esperando que ele a olhasse de volta e ela pudesse sorrir para ele.
[...]
Três dias depois...
Um popzinho qualquer tocava no rádio do conversível branco que Cléo dirigia naquela tarde ensolarada. No banco a seu lado, estava o moreno-fofo que ela agora sabia se chamar Matt. Ele era excepcionalmente tímido, mas acabou se tornando amigo da garota.
Eles iam em direção a casa de praia do pai dela, passariam o fim de semana lá.
Vale mencionar, o pai de Cléo era um empresário rico e famoso, dono de uma rede de hotéis que tinha franquias até em território internacional. Com dinheiro demais e tempo de menos, dava tudo que sua filha única queria, mas não era lá muito presente na vida da adolescente de dezessete.
Mas enfim.
A tal casa de praia ficava numa área privilegiada da Califórnia, mas Cléo não se sentiu em nada especial ao estacionar o carro na frente da casa. Era normal pra ela, afinal.
Desceram com as malas e jogaram tudo na sala da casa, que era extremamente clean, com três paredes pintadas em branco e uma só de vidro, iluminando e expondo o ambiente.
– E agora, o que fazemos? — Matt perguntou, sentando-se no sofá bege em frente à escada que dava pro segundo andar.
– É uma praia, Matt — ela riu — Vamos aproveitar o sol!
O moreno sorriu e assentiu em silêncio, começando a abrir uma das malas para procurar sua roupa de banho. Cléo, por outro lado, já tinha ido preparada. De uma vez só, tirou a blusa e o short que vestia, jogando ambos no sofá e exibindo seu mais novo biquíni vermelho.
Tão vermelho quanto ficou Matt ao olhar para a garota.
– Er... Eu acho que... – ele coçava a nuca enquanto desviava o olhar. Cléo não disse, mas achou aquilo adorável. Mas ele não terminou a frase. Falou qualquer coisa embaralhada e sumiu pela casa com uma roupa nas mãos. Ela já ia rir disso, mas quando virou-se para a parede de vidro da sala, algo fez sua expressão mudar.
Era uma Harley Davidson preta, idêntica a que ela tinha visto três dias atrás, perto da pista de skate. No entanto, dessa vez ela estava estacionada a alguns metros da casa, sem qualquer sinal do cara loiro que a dirigia. Cléo foi andando até o vidro em passos lentos, procurando o motoqueiro com o olhar.
Tudo em vão, pois ele não parecia estar por ali. Mesmo assim, ela se sentiu um tanto desconfortável, como se estivesse sendo observada, e por um segundo não teve coragem de sair de perto do vidro ou olhar para trás.
– Estou pronto, vam... – a voz de Matt a tirou de seus pensamentos, mas ele logo parou quando viu a expressão no rosto dela. – O que aconteceu?
– Ah, nada. – ela sorriu pra ele – Vamos, estamos perdendo tempo.
Entretanto, e mente de Cléo já nem mesmo estava lá. Ela lembrou-se de todas as histórias de semideuses, bruxos ou shadow hunters, que sempre começavam com algo estranho do gênero. Fossem símbolos estranhos aparecendo do nada, cartas e mais cartas perseguindo o personagem, ou monstros disfarçados, ou mesmo... um motoqueiro misterioso?!
Seria... Seria possível?
– Ei, Cléo! – Matt estava parado em frente a ela, tentando chamar a atenção da garota. Ela sequer havia notado que tinham chegado e já pisavam na areia molhada pelo mar. – Onde ‘cê ta com a cabeça, hein?
– Nada, não é nada. – ela se apressou em dizer, tratando de deixar os pensamentos de lado e olhar para Matt, que sorria. Atrás dela, o sol iluminava o verde dos olhos dele, combinando-se com o vento salgado que bagunçava os cabelos pretos do garoto, e foi essa visão que enfim tirou Cléo de qualquer pensamento sobre motoqueiros sinistros para sorrir involuntariamente ante ao sorriso do garoto. Tinha algo naquele sorriso ou naqueles olhos, ela não sabia ao certo, que conseguia mudar o rumo de seus pensamentos e fazer seu coração errar uma batida ou duas.
E que podia fazer, apenas por um momento, que ela se esquecesse do loiro com a Harley Davidson que se afastava dali naquele exato momento.
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