Espírito de Revolução
15 Fofocas
Notas iniciais
Cavalgando da Fazenda Davenport para Boston, acompanhado apenas de minha égua, Mabel, meus pensamentos se perdiam em tais memórias de minha mãe. Memórias eram tudo o que me restava dela, além, é claro, do colar. Depois de Achilles oficializar meu ingresso na Irmandade, mudei minhas vestimentas: eu vestia o típico manto de um Assassino quase integralmente, mas nem isso tirou meu hábito de levar o colar em meu pescoço. Naquela manhã do início de 1773, deixei que uma lágrima escorresse enquanto eu segurava aquele talismã.
Minhas responsabilidades quanto aos negócios e manutenção da Fazenda Davenport apenas aumentaram depois de me tornar um Assassino. Além disso, quando o inverno se aproximou, passei cerca de dois meses em alto-mar com Robert Faulkner, colaborando em contratos de corsário para escolta de navios mercantes menores. O contramestre parecia determinado a me tornar capitão da Aquila, e fez questão que eu o acompanhasse para me familiarizar com o navio. Cheguei inclusive a comandar a embarcação durante dias em que Faulkner estava bêbado demais para fazê-lo. No entanto, foram poucos os encontros que tivemos com piratas. Era mais frequente que os navios menores fugissem após testemunhar o poder de ataque da Aquila do que persistir em atacar-nos. Conforme o tempo passava, parecia que a reputação da Aquila apenas crescia.
Agora em Março, depois de todo esse tempo no mar, eu estava aproveitando meu retorno à terra para retomar os negócios da Fazenda. Naquele momento eu cavalgava para me encontrar com Samuel Adams, que dizia ter um possível comprador novo interessado nos produtos da Fazenda. Fazia frio naquele fim de inverno, mas o sol alto derretia a neve que restava. Como ele indicara em sua carta, eu poderia encontrá-lo na rua King, em frente ao prédio da prefeitura, onde um evento especial estaria ocorrendo.
Adentrando a cidade de Boston, paguei a um garoto para que guardasse Mabel em um estábulo e de lá prossegui, a pé, pela avenida principal. Chegando à altura da rua King, pude perceber uma certa movimentação. Em frente ao prédio da prefeitura estava montado um palanque, de onde um homem de idade proferia um discurso a respeito da Grã-Bretanha e do rei George III, ao qual um grupo de algumas dúzias de pessoas ouvia atentamente. Uma meia dúzia de soldados se encontrava de prontidão em torno do evento, monitorando-o.
Atrás do palanque se encontravam Samuel Adams e alguns de seus colegas de política. Caminhei até ele e o saudei:
— Samuel!
Ele olhou em volta e, ao me ver, abriu um sorriso convidativo.
— Ah, até que enfim, Connor! — Ele me cumprimentou com um aceno, olhando um pouco acima para me fitar nos olhos. — Há quanto tempo não nos vemos?
— Alguns meses. Por quê?
— Por nada. Você apenas me parece mais alto desde a última vez.
Dei de ombros e continuei:
— E o comprador de que você falou?
— Ah, já vamos encontrá-lo em North End. Basta esperar algumas horas até Benjamin terminar seu discurso.
— Horas?
— Ajudei a organizar esta data. Seria indecente se eu fosse embora antes do final.
— Entendo. — Estendi meus olhos para observar os cidadãos reunidos. — Um belo furor. O que estão comemorando?
— Hoje é o Dia do Massacre. Eu dificilmente diria que estamos “comemorando”... Melhor considerar que estamos... relembrando e lamentando aquele incidente horrível que foi o Massacre da Rua King.
— Fala do tiroteio pelo qual tentaram me culpar?
— Esse mesmo. — Adams riu. — Hoje é 5 de Março novamente, o aniversário de 3 anos do incidente. Por Deus, Connor, consegue acreditar que já faz três anos que nos conhecemos?
Arqueei a sobrancelha.
— Como esquecer daquele dia? Soldados atrás de mim e cidadãos mortos. O tempo passou bem rápido desde então.
— Passou mesmo. Você ainda era uma criança quando o Massacre ocorreu, mas hoje parece um adulto.
— Sim, Achilles sempre disse que o treinamento dele me amadureceria.
— Isso e o trauma de presenciar um massacre de cidadãos inocentes, imagino.
— Não posso discordar.
— É deprimente para mim lembrá-lo — Adams deu um passo à frente, apontando para uma dupla de casacos-vermelhos. —, mas nada mudou desde aquele dia. Soldados britânicos patrulham a cidade, mesmo nestes tempos de paz. Muita autoridade é concedida a um exército que nunca se mostrou muito confiável. Depois daquele dia dois soldados foram presos e a quantidade das tropas foi reduzida, mas a Coroa continua desconsiderando os pedidos de seus cidadãos ultramarinos.
Levei meus olhos dos soldados à multidão.
— E é por isso que vocês organizam esta comemoração, não? Se vocês não podem alterar a lei, podem pelo menos manter suas ideias vivas entre o povo.
— Exatamente. Cinco pessoas morreram. Não podemos apenas ignorar o ocorrido. Devemos olhar para ele e refletir sobre o modo como a Coroa trata os cidadãos bostonianos. — Ele apontou para o palanque. — Eu e outros colegas infelizes com o tratamento que as colônias recebem estamos organizando esta comemoração pela terceira vez. A cada ano um de nós sobe ao palanque para discursar sobre nossa situação.
Olhei para o homem, que falava à cidade calmamente sobre o abuso de poder do rei. Ele tinha estatura mediana e cerca de quarenta anos de idade. Seu cabelo curto era ligeiramente grisalho. Admito que demorei um pouco para reconhecê-lo de minha passagem por Martha’s Vineyard no ano anterior.
— Aquele é o Doutor Benjamin Church? — perguntei a Samuel, surpreso.
— O próprio. Conhecido seu?
— De certa forma.
Ao que Adams não respondeu, fiquei quieto, prestando atenção nos arredores. Aparentemente nenhum outro Templário conhecido estava por perto, o que era um alívio. Atentei-me para ouvir o discurso de Church, que usava óculos e lia de um manuscrito em suas mãos.
— A questão se resume em um único ponto, respeitando o poder do magistrado civil: — proferia o médico, com confiança — É o objetivo desse ofício que um rei em particular possa fazer o que quiser sem restrições? Ou que à sociedade seja garantida felicidade e segurança? A resposta é bastante óbvia; e é minha firme opinião que a Justiça Igual de Deus e a liberdade natural dos homens devem se unir, ou cair unidas. Quando governantes se tornam tiranos, eles deixam de ser Reis; eles não podem mais ser respeitados como vice-gerentes de Deus, que violam as leis que juraram proteger. O pregador pode falar de obediência passiva, que tiranos são flagelos nas mãos justas de Deus para punir uma nação pecadora, e devem ser aceitados como pragas, fome ou punições afins. Tal doutrina pode servir para confundir o povo de que um príncipe cruel é uma falsa segurança; mas os homens não são facilmente neutralizados com discursos tolos. A natureza humana e auto-preservação irão sempre armar os valentes e vigilantes contra a escravidão e opressão.
Refleti sobre o que eu poderia fazer a respeito de Church. Sendo um dos líderes do Rito Templário, era bom ficar de olho nele. Eu fora ingênuo e apressado em Martha’s Vineyard apenas abordando-o com ameaças. Eu era agora um Assassino, e certamente não poderia me expor. Mas, se Church era um colega de meu amigo Samuel Adams, talvez eu tivesse um bom informante sobre os rumos templários.
— O que você sabe sobre ele, Samuel? — perguntei, interrompendo a atenção de meu contato naquela oração.
— Sobre quem?
— Sobre Church.
— Ah, sim. Sei que ele é de Newport, vem de uma família importante e tem uma boa reputação médica. Ele se formou aqui perto, em Harvard, e mais tarde estudou em Londres. Foi o primeiro médico a socorrer os feridos naquele massacre três anos atrás. E, bem, ele apoia nossa causa patriota, mas é um moderado de certa forma.
Fitei o Templário no palanque.
— Acha que consegue manter um olho nele?
— Um olho? Por quê?
— Benjamin Church é um... velho desafeto de Achilles. Se você notar alguma atividade suspeita dele, poderia nos informar a respeito? Acho que faríamos bom uso dessas informações, e Achilles certamente encontraria um bom preço a lhe pagar.
Samuel pensou por um instante.
— Obrigado, Connor, mas confio em Achilles e confio em você. Posso fazê-lo de graça. — Eu sorri e ia agradecê-lo, mas ele logo voltou a falar. — Não duvido que haja material que te interesse. Ele garante lutar pelo povo de Boston, mas as más línguas dizem que ele tem uma simpatia pela Coroa. Não posso te dar muito além de fofocas.
— Parece bom pra mim. — Respondi-lhe com uma expressão amigável — Alguma... fofoca que possa me contar no momento?
•
Pela noite do mesmo dia eu já estava de volta à Fazenda Davenport. Achilles se encontrava no estábulo, alimentando os cavalos.
— Connor! — Ele saudou, enquanto eu desmontava de cima de Mabel — Como foi a reunião? O comprador se interessou?
— Achilles. Correu tudo certo. — Eu respondi. — O mercador virá daqui a alguns dias para acertar os negócios.
— Ah, que bom. Confesso, nunca esperei que essa propriedade voltasse a ser produtiva, mas você...
— Há outra coisa, meu velho. — Eu interrompi. — Algo de mais interesse para nós.
Achilles se afastou dos cavalos e me fitou, atento. Terminei de acomodar minha égua e voltei-me a ele.
— Tenho informações sobre o doutor Benjamin Church.
O velho se apoiou na bengala.
— Pois diga. Algo sobre a Ordem dos Templários?
— Tecnicamente. Samuel Adams me contou de um acordo do qual Church parece fazer parte. Um acordo para compra de terras.
O velho ponderou.
— Adams tem contatos relevantes... Vamos entrando na mansão e me diga o quanto ele te contou. Quais terras são essas?
— São apenas fofocas, mas acho que fazem sentido — comentei, enquanto acompanhava o velho em sua caminhada — Há dinheiro de Church envolvido na compra de uma propriedade na província de Nova York, ao norte de Albany. Nas terras onde minha aldeia se localiza. Porém, nem o tabelião de Church soube dizer o motivo por trás da compra.
Achilles ouviu, surpreso.
— E você acha que essa compra seja uma ação conjunta dos Templários?
— Sim. A Mãe do Clã de minha aldeia costumava dizer que aquela era uma terra sagrada. O espírito que me disse para procurar os Assassinos também falou que forças inimigas tentariam tomar o controle dela. Não seria muita coincidência que Church, um Templário renomado, esteja mostrando interesse em uma propriedade dita sagrada?
— Sim... — Achilles indagava enquanto abria a porta da mansão. — Considerando o que há escondido por lá, não me surpreende nem um pouco.
— Escondido? — perguntei, curioso.
Achilles entrou pela porta e caminhou diretamente para o escritório.
— Diga-me, meu velho, o que há escondido no norte de Nova York? — desafiei-o — Creio que você sabe muito bem e após todo este tempo nunca me contou.
O velho Mentor cambaleou até uma parede, onde se estendia um mapa de toda a Costa Leste, com o Caribe ao sul.
—Dizer que “eu sei muito bem” não é bem verdade, Connor. Mas posso lhe dizer o que há. — Ele segurou a bengala, apontando com ela a província de Nova York no mapa. — Um grande templo antigo. É isso que está escondido por trás das lendas. Mas não são apenas lendas, disso sabemos. Tudo o que sabemos é que foi construído milênios atrás por aqueles que você chama de “espíritos”. Ninguém sabe o que há nele, entretanto. O templo foi trancado antes mesmo de nossa civilização existir, e ninguém nunca encontrou a chave que o abriria.
— Mas você já esteve lá, eu suponho.
— Uma vez. Tínhamos exploradores na Irmandade, que sabiam se guiar por qualquer vale desse continente melhor do que nós dois juntos. Tanto eu quanto seu pai, obviamente não ao mesmo tempo, estivemos lá. Mas nossas visitas de nada serviram. Mesmo que os irmãos Verendrye ainda estivessem vivos para apontar a localização exata, as nossas buscas pela chave sempre foram... digamos, infrutíferas.
Murmurei, pensativo.
— Mas se na época da Guerra o Templo nunca se abriu... Por que os Templários iriam querer se aproximar dele novamente? Será que eles têm a tal chave?
— Ou talvez queiram arrombar a “fechadura”. Seja lá como.
Achilles caminhou até uma cadeira e se sentou.
— Sendo assim, iremos atrás da chave novamente? — perguntei — Para abrir o templo antes de Haytham?
— Nem pensar, garoto — retrucou Achilles — Quando jovem, eu tinha todo o interesse nisso. Mas com o tempo percebi que essa busca não vale a pena. Melhor nos concentrarmos no nosso próprio mundo. Esqueça o templo e pense em nossos inimigos.
Eu não entendia muito bem o que ele queria dizer, mas assenti.
— Então qual é o próximo passo?
— Recolher informações sobre como os Templários pretendem comprar as terras do templo. Eles obviamente iriam precisar negociar pela aprovação da Confederação dos Iroqueses, e creio que os Templários já têm o homem certo para mediar tal acordo.
— William Johnson — completei, citando o nome do Superintendente Britânico de Assuntos Indígenas, provavelmente a personalidade europeia mais popular entre os iroqueses.
— Johnson é influente e vive na mesma província, num vilarejo fundado por ele mesmo. Se ele não estiver metido nisso, que um raio caia em minha cabeça.
Refleti por um instante.
— Devo enviar uma carta para lá? Talvez minha aldeia tenha informações úteis.
O velho levantou a cabeça para me fitar, surpreso.
— Uma carta? Connor, seria muito mais prático você próprio viajar até lá, não?
— Como? Mas... e a Fazenda? O treinamento?
— Bah, a propriedade não vai implodir se você tirar férias. Cavalgue até sua aldeia. Reveja sua família, amigos e não tenha pressa. Você merece um descanso. — Em seguida, completou em tom mais sério: — Apenas se certifique de reunir o máximo possível de pistas sobre Church, Johnson e os Templários.
Eu murmurei, pensativo.
— É mesmo? Você permitiria?
— Permissão? Não sou seu dono, Connor! Por que não considera isso como sua primeira missão oficial de Assassino? — Ele concluiu, amigável.
Sorri em resposta, colocando minha mão em seu ombro.
— Muito obrigado, Achilles. Não desapontarei.
— Assim espero.
Fale com o autor