Esmeraldas e Rubis
1 Capítulo Único
William detestava tudo em Grell — o cabelo vermelho-vivo, o sorriso presunçoso, a atitude imprudente —, porém o que mais o irritava eram os olhos. Ele não compreendia o seu ódio sem fundamento por aquele par de esmeraldas, quando ele sempre admirara essa característica única dos shinigami.
Foi justamente esse verde hipnótico a causa pela qual Will ficara contra a parede. Grell avançara, aproximando-se dele como ninguém antes fizera. O moreno recusou-se a esboçar emoção alguma com aquilo.
A verdade era que Will deixou-se ser encurralado. Ele podia muito bem pegar a sua deathscythe e apertá-la contra o pescoço do estúpido à sua frente, mas não o fez. Simplesmente sentia-se cativado pelas esmeraldas que analisavam o seu rosto tão atentamente. Grell deu um suspiro quente ao pé do seu ouvido antes de beijá-lo.
Essa fora uma experiência interessante para William — ele descobriu que a boca do ruivo tinha gosto de sangue, e ao ter o seu lábio inferior mordido ferozmente, notou que ele não gostava de ser delicado.
O moreno nunca de fato retribuiu o beijo, e Grell nunca pareceu importar-se com isso, uma vez que continuou fazendo-o. Este virou um hábito banal entre eles — sempre que o ruivo via-se sozinho com ele, aproveitava para beijá-lo, independentemente do lugar onde estivessem.
Porém algo com o tempo mudou. Will começou a observar a diversão sempre presente nos olhos de Grell dissolvendo-se, restando somente seriedade. Ele ainda se lembrava daquela mulher, Angelina Durless, ou Madam Red, como era mais conhecida. Irmã da mãe daquele garoto Phantomhive. Tia dele. Depois que o shinigami fora o seu mordomo, ele nunca mais foi o mesmo.
Ninguém percebera a mudança, exceto por Will. Ele conhecia o ruivo com a palma de sua mão. Era capaz de adivinhar o que ele estava pensando na maior parte do tempo. Então, quando diversas almas desapareceram misteriosamente sem serem processadas pelo sistema, ele já sabia o porquê.
Novamente estava ele contra a parede, mas por uma razão mais sombria que a da última vez. William observou o par de esmeraldas à sua frente, esperando ver algum sinal de rendição.
Nada.
Posicionou a sua deathscythe próxima ao pescoço do seu — agora — adversário, o par de lâminas afiadas tocando perigosamente a sua garganta. Em resposta Grell colocou a sua serra-elétrica contra o ombro do moreno. Então isso não podia mais ser evitado, não havia outra saída.
— Talvez eu mude de ideia se você disser que me ama. — miou o ruivo.
Então tudo foi tomado por sangue. O líquido rubro tingiu a parede, pingou pelo chão e manchou o terno de William. Ele observou o corte profundo que fizera na garganta do ruivo. O sangue escorrera pelas suas roupas, deixando-as ainda mais vermelhas.
Baixou seus olhos para par de esmeraldas sem vida. Isso tudo acontecera por Will ser incapaz de abrir mão do seu orgulho — Grell podia roubar sua integridade, mas seu orgulho nunca. Viu a serra-elétrica do mesmo cravada em si de forma dolorosa. Suas costas escorregaram da parede para o chão, e fechou os seus olhos, encontrando, enfim, a paz.
William T. Spears morrera com orgulho. Morrera com orgulho por não ter iludido tal pobre criatura dizendo aquelas três palavras.
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