Eskalith

1 Primeira vista


Notas iniciais
Por favor, não liguem para o nome dos cap (eu sempre aviso isso em minhas fanfics, porque é realmente terrivel cada um deles!).
Esta fic é em diferente da outra de Suzunagu que eu escrevi.
Mas eu achei que era bom variar um pouco. Esta possui drama e eu já aviso que vai ter Lemon (oh, me esforçarei nisso!), mas ele não sera o foco principal, e só aparecera nas horas certas u_u (sorry).
Eu pretendo fazer uma história longa. Espero que gostem D:
Primeiros capítulos sempre são complicados.

Era um dia muito quente quando eu o vi pela primeira vez.

Eu havia saído de minha classe de calculo a favor de uma dor de cabeça terrível, da qual eu tinha regularmente. Havia dias que apenas o odor de uma sala de aula e o zumbido dos alunos era o bastante para me dar tontura, e me obrigava a ter que me retirar. O sol quente daquela tarde entrava pelas janelas de vidro no corredor, e dava ao ambiente uma iluminação alaranjada e confortante. Eu amava o calor, a sensação de vapor quente ao me aproximar do vidro. Aquilo, de alguma forma, me tranquilizada, e eu nunca realmente soube explicar o porque.

Ele vinha em minha direção. Passos lentos, curtos, desatentos. Seus cabelos brancos em um penteado provocador, de alguma forma, rebelde, dando um contraste em sua pele amarelada. Eu o observei se aproximar, parando sem motivo e encostando na janela. Ele estava com seus headphones baratos, e a manga de sua camisa estava erguida.

"Apenas mais um calouro metido, provavelmente." Foi o que me veio a cabeça a cada passo que ele dava. Despreocupado, talvez até sem rumo. Olhava para baixo, distraído com a musica, mesmo assim eu pude ver seus olhos azuis-petróleo, que adquirira um brilho alaranjado por causa da iluminação.

Resmunguei quando ele passou por mim. Logo o sujeito sumira pelo corredor, sem nem notar que eu estava lá. Por algum motivo, senti uma vontade súbita de ir atrás dele e dar-lhe um soco. "Hei, não aja como se eu não estivesse aqui, calouro..", mas não o fiz. Não havia motivo para ter raiva dele. Ele estava apenas agindo como eu agia em meu primeiro ano.

Mesmo assim, por alguma razão, me peguei pensando sobre ele o resto do dia. "Quem era aquele cara?". Ele tinha um ar arrogante que me irritava, um jeito arrumado, frio, despreocupado. Ele não tinha ideia de onde ele realmente estava, como era difícil se manter na linha neste lugar...

As horas se passaram e o resto da aula acabou. Eu agarrei minhas coisas e andei o mais rápido que pude para fora. O ar livre era tudo que eu realmente desejava no momento.

Ao sair, Shigeto veio em minha direção, carregando seu fiel amigo de sempre, um computador portátil. Ele andava rápido e desajeitado. Um belo nerd que sempre se recusou a usar óculos. Baixo, camisa amarrotada, tênis desgastados. Eu apenas dei graças a deus por ele não ter esquecido a mochila na sala dessa vez, que era algo típico dele.

– Shigeto, seu cardaço esta desamarrado, idiota — eu falei, quando ele se aproximou. Ele era muito distraído, e, como já sugeri, era normal para ele esquecer as coisas ou simplesmente não nota-las, pelo menos quando essas coisas não estavam relacionadas a informática e ao mundo virtual.

– Eu acho que criei uma coisa.. algo realmente bom dessa vez — comentou ele, quando caminhávamos para o ponto de ônibus.

– Outro vírus idiota?

– Bem, sim, se você gosta de ver dessa maneira — ele removeu o sorriso do rosto — mas esse é realmente perigoso. Estou trabalhando nele a algumas horas, e vai demorar para terminar, mas.. te garanto que é grande coisa.

– Eu não acho que seria útil, na verdade.

Eu nunca entendi o vicio de Shigeto em criar vírus e outras coisas usando códigos de programação, ou algo assim. Isso era algo que não me interessava tanto. Mas para ele, era uma espécie de necessidade. Ele falou sobre isso o caminho inteiro, praticamente, mas meus pensamentos não estavam ali.

Minha dor de cabeça havia passado, mas uma sensação estranha estava tomando seu lugar. O calor do dia estava sendo substituído pelo frescor da noite que vinha se aproximando, mas eu ainda desfrutava da sensação alaranjada de um sol prestes a se pôr. Aquilo era simplesmente lindo, mas naquele momento, ela não estava me tranquilizando como de costume em tais momentos. Ela me trazia uma lembrança: um rapaz magro passando pelo corredor, de cabelos brancos.

Para mim, era totalmente sem sentido pensar nisso toda hora. "Porque isso não sai da minha cabeça?", eu me perguntava, a cada passo. As brisas geladas começaram a vir e sobrar em meu rosto, me causando ainda mais desconforto. Eu não gostava do frio, do gelado. Mas nessa cidade a noite é sempre fria. Era estranho como aquele cara me causava a mesma sensação que essas brizas. O desconforto de um vento gelado batendo forte em meu rosto, secando meus lábios, lagrimejando meus olhos. O mal estar era o mesmo, por algum motivo. E isso me irritava, me perturbava.

Shigeto me trouxe de volta a realidade, me puxando pelo ombro. Ele havia parado a alguns passos e eu não havia percebido graças a meu turbilhão patético de pensamentos. A rua não estava muito movimentada aquele dia.

– Olhe aquilo — disse ele, baixo, apontando para alguma coisa do outro lado da rua, onde havia duas pessoas altas, de aparência suspeita, prendendo um rapaz contra a parede — alguns valentões.

– Você já devia ter se acostumado — comentei.

Eu não estava muito interessado. Não era novidade esse tipo de coisa acontecer por aqui, essa era uma cidade pequena, violenta. Se você não fosse forte o bastante e não tomasse cuidado, você podia acabar jogado em uma sargueta imundo e sem roupas, e possivelmente machucado. Porém, meu pensamento mudou instantaneamente quando olhei com mais cuidado.

– Aquele cara não é um dos calouros? — perguntou Shigeto.

Um dos caras grandes havia desbloqueado a minha visão para o menor. Um rapaz magro de cabelos brancos rebeldes, com uma expressão vazia. Eu senti uma onda de desconforto ao vê-lo de novo, e ainda em uma situação daquelas.. mas eu não pretendia me mover, me ariscar por um estranho.

– Eu pensei que você era uma garota — falou um dos caras. Sua voz era esganiçada, horrorosa. Eu podia estar longe, mas a sensação de seu hálito quente e desagradável pareceu me alcançar. Ele jogou um cigarro no chão e o esmagou com o sapato.

O outro era mais magro, e usava uma jaqueta, também fumante. Ele segurava o calouro contra a parede com uma das mãos em seu peito. Seu aspecto era sujo, perturbador. Eram do tipo de pessoa que eu tinha nojo apenas de olhar.

– Mas acho que podemos nos divertir um pouco, o que acha? — falou o primeiro, levando as mãos ao rosto do menor, que o olhou com um ar de repugnância.

– Talvez você tenha algo para a gente — falou o outro, rindo.

Eu serrei os pulsos. Algo em meu corpo me dizia para me mover. Eu não sei dizer se Shigeto percebeu, mas ele me segurou pelo braço de repente. As brisas frias pareciam vir com mais força.

O calourou olhou para cima por um instante, num suspiro. Ele não parecia assustado, nem surpreso, apenas enojado, entediado. Os dois homens continuavam falar coisas, e tentar puxar sua bolsa. Ele não se moveu, até que a mão em seu peito começou a descer.

De repente, o rapaz dá um tapa na mão do homem mais magro. Eu continuei observando, esperando para ver sua reação. O homem o xingou e levantou os punhos para ele, mas o menor o chutou entre as pernas antes que pudesse fazer qualquer coisa.

O outro cara pareceu surpreso ao ver o parceiro caindo no chão se debatendo de dor, com as mãos no local ferido.

As brisas se tornavam ventos.

Além de ajudar o outro, o cara restante tentou o mesmo, erguendo os punhos para o calouro, que já havia deixado a parede. Por um instante, pensei que o homem o acertaria. Eu podia sentir a mão de Shigeto apertar meu braço.

Num piscar de olhos, o rapaz havia desviado do punho do maior, e levou a uma das mãos ao rosto do homem, o empurrando para a parede violentamente. Com a mão livre, ele sacou um canivete.

– O que você tem a me oferecer?

O homem resmungou alguma coisa.

– Se você ou seu amigo vier me perturbar de novo, eu vou arrancar o saco de vocês, entendeu? — disse ele, mostrando a lâmina — isso é afiado o bastante para isso.

Ele largou o homem com força, fazendo-o perder o equilíbrio, e continuou seu caminho.

– Incrível — falou Shigeto.

Eu estava ainda mais perturbado. Um cara com a aparência dele jamais me levaria a pensar que seria forte, que conseguia se defender. Mas ele não era nenhuma espécie de filhinho de papai minado, ele era um cara da rua. Frio, aparentemente calmo e desatento, porém, perigoso. Eu já não sabia o que eu devia pensar sobre ele.. eu estava apenas.. "curioso".

Eu e Shigeto corremos para o ponto. Por sorte, o nosso ônibus havia acabado de parar para alguns "cidadãos" quando o alcançamos. A caminhada da Universidade até meu apartamento era muito longa, e o caminho era desagradável. Tomavamos aquele bendito ônibus todos os dias, quase sempre com as mesmas pessoas a bordo, mesmo assim, elas continuavam a nos olhar como estranhos. Eu não os culpava, minha aparência era algo que até mesmo eu não acharia agradável. Eu me sentia uma espécie de "mutante", ruivo, com algumas sarnas aqui e ali, cabelo esquisito e vermelho fogo, olhos amarelados, tão estranhos.. tão.. simplesmente desconfortantes olhar para eles. Meu jeito desleixado, mal arrumado, largado. Eu não me importava, no entanto, eu esperava que um dia aquelas pessoas se acostumassem com minha presença.

O som terrível do metal e ferro velho se movendo era alto demais para que eu pudesse ouvir qualquer comentário sobre mim naquele ônibus. Eu era do tipo egocêntrico, e tinha certeza que todos ali falavam de mim. Shigeto era, pelo menos visualmente, bem mais agradavel e "normal" do que eu. Ele se sentou ao meu lado, abraçando seu computador, o escondendo com a bolsa. O medo que ele tinha daquele objeto ser roubado podia ser comparado apenas ao medo que ele sentia de não conseguir se graduar. Talvez nem a morte fosse tão assustadora para ele.

Eu havia sentado ao lado da janela, como de praxe. Eu gostava de ver o movimento, as pessoas lá fora. Aquilo me dava um sono, e me fazia afastar os pensamentos sobre os cálculos e as aulas cansativas do meu curso de física. As pessoas sempre pareciam tão surpresas quando eu dizia que estava me formando em física. Mas, naquele fim de dia, não era as aulas quem tomavam meus pensamentos.

Um rapaz de aparência frágil. Aspecto arrogante, fresco. Frio, calmo. Eu não o conhecia, não sabia nada sobre ele, mas, apenas o pouco que eu havia visto, podia dizer que ele era como uma espécie de inverso a tudo o que eu era, aparentemente. Tão arrumado, sereno. Enquanto eu era uma espécie de cara despreocupado com a aparência. Talvez eu me achasse bom demais para essas coisas. Eu pensava que não precisava disso. O que eu podia dizer que tínhamos em comum era, talvez, nosso ar de arrogante? Eu não me via como arrogante aquela época, ou talvez eu apenas fosse imaturo demais para admitir que eu era.

As pessoas que eu via pela janela do ônibus sempre pareceram ter uma vida mais fácil do que a minha. Eu sempre me irritava com elas por causa disso, assim como eu me irritava com tudo que parecesse ser ou possuir algo melhor do que eu. O pensamento que tinha sobre a vida de todo mundo, como se minha mente pudesse me levar a casa de cada um deles.

"Suas famílias os esperavam, assistindo tv. Havia janta sendo preparada na cozinha. A casa estava desarrumada, havia chinelos na porta, dos quais eles acabavam tropeçando ao chegar. Cansados, mal humorados, porém, havia algum braço para envolve-los ao cruzar a porta. Chamar por eles em um "Seja bem vindo de volta". Isso era algo que eu não possuía, e eu me sentia incapaz de possuir.

Eu me perguntei se o calouro havia uma família assim. Ele provavelmente chegava em casa, e corria para a geladeira procurar por alguma besteira, e caso não a encontrasse, pedia para sua mãe fazer alguma coisa. Ele provavelmente morava em uma casa ajeitada, não como eu em um apartamento pequeno e com o encanamento ruim, paredes desgastadas e água fria no chuveiro. Não, provavelmente ele tomava banho em uma banheira, ou coisa assim, algo que eu também não tinha.

Notas finais
Por favor, sugestões, criticas, xingamentos e elogios são muito bem vindos! >_