Escuridão Total

3 Capítulo 3


Todos os meus pensamentos foram bruscamente interrompidos quando o telefone tocou. Desnorteado, muito confuso com tudo que estava acontecendo em minha cabeça, fechei os olhos e fiz um pequeno movimento entre meus olhos. Tinha que esquecer tudo. Tinha que voltar a ser o normal e simpático Rafael de sempre. Mas quem está me ligando tão tarde? Já era quase 1 da manhã. O tempo passou muito rápido depois que cheguei. Cheguei até o telefone. Logo reconheci a voz. Era Anne. Não entendia direito o que ela estava falando. Não sei se era porque estava aos prantos ou porque eu estava ainda em minha fantasia na varanda.

–Calma Anne. Fala com calma. Não to entendendo nada que você está falando.

–É a mamãe Rafael. Vem logo para o hospital. Ela tá morrendo.

Mas como? Eu havia visto logo cedo. Ela estava bem. Mal me olhava. Esquivava-se de mim. O que acontecera de maneira tão repentina para a mesma ir para o hospital? Não sentia nada. Um pouco de curiosidade talvez. Acalmei Anne e anotei em qual hospital ela estava. Era um bom local. Não ficava tão longe de onde morava. Desliguei. Fui até meu guarda roupa. Que roupa vestir? Tinha que demonstrar que eu me importava. Vesti uma camisa social azul clara e uma calça jeans escura. Peguei a carteira e a chave do carro e fui até a garagem. Estava pensando, porque sair tão tarde? Odeio não dormir o suficiente. O dia não será dos melhores. Gosto de dirigir. As vezes saio a noite. Fico dando voltas pela cidade para tentar distrair-me. Cheguei até o tal hospital. Estava lá Anne e Rodrigo. Estavam aflitos.

–O que aconteceu- Tentei ser o mais aflito possível. Não queria que eles pensassem que eu não me importava.

–A mamãe passou mal no banheiro. O pai acha que foi um ataque do coração.

Meu "pai" era um médico aposentado. Se ele disse que era, era porque era mesmo.

–Não sei o que aconteceu Rafael- Disse Rodrigo meio aflito- Uma hora estávamos no quarto conversando sobre você, sobre o homem promissor que está se tornando e pouco tempo depois ela passou mal no banheiro, não sei o que acontecera.

Rodrigo era baixinho. Sua barba e seu cabelo já estavam totalmente branco. Seu porte físico não era dos melhores. Mas gostava de se vestir bem. Lembro-me que quando eu era criança, Eddite evitou falar as coisas que aconteciam comigo. A única coisa que ele sabia era que eles tinham adotado um casal de irmãos traumatizados devido os pais ruins que tinham. Coitado. Não sabia de nada. Não sabia de como eu poderia ser ruim.

Já Anne, pobre Anne. Ela como eu, tinha olhos claros. Longo sorriso. Magra, muito magra. Já até falaram para ela que podia ser modelo. Não concordo muito. Cor de pele clara. Parece que não toma sol. Mimada, muito mimada. Como era muito pequena, não viu nada... Não lembra, ainda bem.

Com eles eu posso incorporar o papel de bom filho e do bom irmão. Só Eddite sabe realmente quem eu sou. Ela e alguns médicos loucos que queriam me fazer de cobaia de alguns experimentos. Odeio todos eles. Espero que algum dia ainda os encontrem. Duvido muito lembrarem de mim. Minha "mãe" sempre dava um nome falso quando ia à algum desses médicos. Não queria o sobrenome deles nas revistas de reportagens de bizarrices. Entendo ela.

Abracei os dois fingindo me importar com tudo aquilo. Quantas horas ainda tenho para dormir até chegar a hora de acordar? Poucas. Não vou hoje. Mais tarde ligo para o trabalho. Nunca faltei. Eles vão entender. Não posso deixa-los. E se ela morrer de verdade? Tenho que mostrar que estou de luto. Mas como fazer isso. Terei que atuar como se fosse para ganhar o Oscar. Tentarei.

Já estava amanhecendo. Foi uma noite longa. Minha irmã não parava de chorar e do jeito que estavam se encaminhando as coisas o "pai" também ia bater as botas depois de tanta pressão. Fui comprar um café preto expresso pra mim. Só eu que estava com fome. No trajeto de volta fiquei imaginando. Quantas pessoas já devem ter morrido ali. Fechei os olhos e respirei o ambiente. Dava pra sentir o cheiro de limpeza no ar. Voltei a me concentrar no café. Estava amargo. Do jeito que eu gosto. Quando estava me aproximando de onde havia deixado meus familiares. Avistei uma pessoa conhecida entre eles. Era Isis. Com certeza Anne ligou para ela. Ela estava linda. Um vestido azul escuro de marca com certeza. Sua pele tão bronzeada que parecia ter saído da praia naquele instante. Sua boca pintada de um vermelho bem escuro. E seu pescoço. Que lindo pescoço. Estava totalmente a vista já que seu cabelo comprido estava amarrado bem em cima. Que mulher. Que pescoço. Cumprimenteia fingindo que estava triste com tudo isso. Ela logo me abraçou.

–Pode contar comigo viu. Estou aqui para o que der e vier.

Mal conhecia aquela mulher. Sei que ela é uma das melhores amigas de Anne. Muitas vezes ela ia lá em casa quando era adolescente e nas reuniões de família. Mas porque me abraçar? Porque este contato tão íntimo. No começo me veio essas perguntas na minha mente. Mas sabe o que pensei depois? Em fazer sexo com ela naquele local. Já que não podia matar. Queria descarregar minha tensão no ato sexual. Ela exalava um perfume um pouco adocicado. Gostoso. Tudo que eu queria era um momento a sós com ela.

Finalmente o médico apareceu para dar alguma notícia. Eles não sabiam ao certo o que aconteceram. Acharam que ela tinha sofrido um ataque do coração. Mas não sabiam o que tinha acontecido,pois de acordo com todos os exames feitos em menos de um ano, tudo estava bem. Eu sabia. Naquela noite ela revivera tudo que um dia passou comigo. Não aguentou lembrar de todas as sessões. Muito menos das coisas que ela presenciara comigo. Lembro de Meg, a poodle que Eddite comprara na esperança de ser o mascote da família. Lembro de como foi prazeroso matá-la. Ver todo aquele pelo branco ficar vermelho. Como depois eu tirei um de seus dentes para guardar comigo aquela lembrança daquele momento tão único. Pior foi ver o desespero de Eddite quando me viu com a faca que ela cozinhava na mão. Não entendia como aquilo podia me dar tanto alívio. Como matar se tornara algo tão satisfatório para mim. Eddite me fez prometer que não iria contar para ninguém o que eu gostava de fazer. Que para todos os outros eu seria um menino normal. Eu tentava questioná-la. Mas ela me fez prometer. Não queria mais que ela me visse como um monstro. Fiquei alguns anos sem fazer. Isso, só alguns anos... Sei que fiz ela sofrer. Na verdade não me importo com nada. Mas devo minha vida de hoje aos meus pais adotivos e principalmente Editte. Se não fossem as inúmeras vezes que fui repreendido não saberia a lei básica de qualquer psicopata. NUNCA SER PEGO!

Só restava esperar, esperar e esperar. Aquilo estava muito chato,tedioso. Quem sabe posso animar um pouco as coisas. Disse para Anne e Rodrigo para irem para casa descansar um pouco. Os mesmos estavam exaustos. Não se opuseram. Estava com fome e Isis estava ali. Sabia que tinha que fazer alguma coisa para que ela não fosse embora com Anne. Sentei. Resolvi atuar como nunca havia atuado. Coloquei as mãos no cabelo, expressando está meio que desesperado. Notei que Isis não tinha ido. Ela com certeza estava com pena de mim. Eu não importava o que ela estava sentindo. Queria saciar-me. Senti que ela sentou do meu lado. E com um gesto de carinho abraçou meu ombro como se dissesse, estou aqui, viu? A isca que joguei, aquela piranha tinha abocanhado. Coloquei meu olhar triste para ela. E num passe de mágica ela me beijou. Não sou muito fã de beijos. Imagem quantas bactérias são passadas com um gesto de carinho. Que carinho né? Retribui o beijo. Coloquei minha mão na coxa dela. Senti-a. Sua pele era macia. Deliciosa de tocar. Senti muita vontade de continuar. Mas notei que quando ela se afastou de mim, a mesma se sentiu um pouco embaraçada. Acho que aquele não era o local nem a ocasião para aquilo. Além do mais eu era o irmão da melhor amiga dela. Para mim. Nada importava. Queria continuar. Dominá-la e senti-la vulnerável. Apenas mais um animal indefeso. Depois de algum tempo com um silencio sem fim. A mesma disse que precisava ir. Precisava trabalhar. Tudo isso para apanas um beijo? Entediante. Com um semi sorriso fiz que entendi o recado.

–Rafael. — Olhei-a surpresa, pesava que já tinha ido embora.- Sei que está passando por muita coisa. Não tá com cabeça para nada. Mas você não quer jantar mais tarde?

Tentei fingir que não estava bem.

–Olha Isis eu adoraria. Mas como você falou, tenho que ficar por aqui e ajudar Anne. Ela é mais frágil que todos né?

Senti um certo desapontamento no olhar dela. Contudo continuei.

–Não queria sair para comer fora. Uma hora vou ter que ir em casa trocar de roupa e comer. Se você quiser ir ao meu apartamento me acompanhar?

Vi um pouco de dúvida em aceitar ou não meu convite. Mas como duvidar de alguém que está sofrendo tanto? hahahah. Ela aceitou. Dei meu endereço a ela. Pena que é uma conhecida da família. Meu desejo por sangue só aumenta. Pera ai. Com todo esse caos dentro de mim, vai ter uma vítima perfeita em meu apartamento hoje? Como vou conseguir segurar tudo isso? Não sei se conseguirei. É um fardo e tanto que carrego. Luto todos os dias para que o inevitável aconteça. Uma hora terá que acontecer. Mas não com Isis. Usarei-a para saciar-me de outra forma. Irei fazer sexo com ela.

Notas finais
Espero que estejam gostando. Muita coisa ainda vai acontecer. Quero a opinião de vocês! Amanhã sai mais um ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.