Escuridão Total
1 Capítulo 1
O sol irradia meus olhos. Não lembro de ter deixado as cortinas abertas. Mais um dia de muito trabalho. Tudo que eu queria era mais alguns minutos. Sento na cama. Ela ainda está bagunçada. Acho que foi de ontem. Eram tantos pensamentos. Não conseguia dormir. Fechava os olhos e aquele desejo me sucumbia. Aquele arrepio que me fazia querer sentir a morte. Levantei os braços. Senti o estralo gostoso. Tinha que esquecer tudo. Mas como?! De uns tempos pra cá estava piorando. O que antes não passava de uma vontadizinha agora estava incontrolável. Vesti aquele meu short de corrida. Tinha que correr! Corri muito. Tinha que esquecer tudo aquilo! Não sei o quanto andei. Tinha que descarregar tudo! Nada era o suficiente. Sabia que às tinha que atender um cliente. Bairro nobre. Comissão ainda maior. Olhei o relógio. Ainda não era nem sete. Parei respirei. Sabia que tinha que descarregar tudo aquilo. Lembrei da academia. Fazia 4 anos que estava fazendo boxe. Meu horário só era a noite. Mas porque não ir naquele momento. Só estava a alguma quadras dali. Resolvi ir. Ao ver Karlos bem na entrada saudei-o com uma levantada de cabeça o mesmo logo se assustou em me ver:
-Caiu da cama Dr. Rafael.
Não sei porque todos lá me chamavam de Doutor. Fui logo sorrindo sem vontade. Respirei fundo.
-Pois é mestre. Estou precisando descarregar energias. Me ajuda?
-Ora dr. Acho melhor você ir em médico. Já é a quinta vez nessa semana que você fala isso.
Com um sorriso meio sem graça segui-o, enquanto o mesmo se dirigira para o saco de boxe.
Médico. Para que médico. Iria chegar para ele e falar o que? Oi meu nome é Rafael. Todos os dias eu sonho eu que estou matando alguém. Todos os dias eu quero matar alguém. Acho que o mesmo ligaria para a polícia na mesma hora. Não daria certo. Já tentaram isso...
Comecei a socar com toda a força. Foquei naquilo. Queria que fosse um homem. Um ser que tivesse vida. Para que em cada soco retirasse um pouco da sua essência.
Karlos olhou assutado para mim.
-Calma doutor. Assim eu vou ter que comprar outro saco.
Rir e comecei a treinar com ele. Depois de uma série bem pesada o mesmo olhou para mim como se estivesse tirado a ultima gota de suor.
-Hoje você veio com todo o gás em?!
-Que nada mestre. Tenho que vim agora. De noite sei que estarei exausto com o trabalho.
-Ia te convidar pra ir comigo e o pessoal daqui para um barzinho no final da semana. Vai ter a inauguração do bar do Edu. Vamos.
Não gosto de bar. Acho que quando bebo me torno um ser ainda pior.
-Vou ver. Tenho muito trabalho a semana toda. Sexta lhe falo a resposta ok?!
Sai de lá sem esperança de dizer sim ao Karlos. Não queria ir para um local em que o principal objetivo é ficar alcoolizado e tentar se satisfazer sexualmente. Já era quase 9 horas quando cheguei em casa. Suado. Minha camiseta branca estava encharcada. Tomei um banho que não podia ser tão demorado. Mesmo sendo curto lembrei do tempo que minha mãe me levou ao médico. Se é que eu posso chamar ele assim. Acho que nele só me senti sendo uma cobaia analisada. As inúmeras perguntas. Aquele olhar de rejeição. Tudo aquilo não saia da minha mente. Calma Rafael. Tenho que me concentrar no dia de hoje. Um dia importante.
Terminei o banho. Peguei um terno cinza claro e uma gravata rosa. Era um bom. Um dos primeiros que ganhei quando assumi este trabalho. Estava pronto. Desci rápido as escadas, não gosto de elevador, peguei o carro e coloquei muito alto Carriy On My Wayward Son. Estava me divertindo. Cantava alto. Meu principal pensamento tinha ido embora. Cheguei 9H45 no prédio. Estava lá para vender uma cobertura. O cara era um ricaço que estava de mudança do interior, tinha feito fortuna com gado. Esperei mais meia hora lá em baixo. Quando ele chegou em sua Range Rover preta. Ele saiu do carro meio desinteressado. Acho que ele não queria está ali. Cumprimentei-o simpático como sempre.
-Bom dia Sr. Frederico.
-Bom dia só se for para o Senhor. Acabei de sair da minha casa para cá e enfrentei quase meia hora de engarrafamento. Tomara que pelo menos vá valer a pena.
-Claro que irá Senhor. O apartamento é belíssimo. Tenho certeza que ficará encantado.
-Tenho que ficar né?! Pelo preço que vocês estão pedindo tem que ter alguma coisa de bom.
Vi aquele dia não ia ser dos melhores. Mas continuei a falar com ele.
-O Senhor ficará encantado com ele. Além da vista linda e da boa localização.
-Não me importo com tudo isso. Nada vai ser melhor do que minha fazenda. Nada. Aqui nunca será meu lugar. Ha, e por favor não me chame de senhor não. Nosso Senhor tá no céu.
Rir para não ficar com uma cara de bobo. Eu também não estava no lugar que eu gostaria. Na verdade nunca estive. Subimos. Ele pouco se empolgava com aquilo. Nada o agradava. Foi ai que lembrei da vista.
-Olhe Frederico. Como dá para ver o mar!
Bela jogada o velho ficou encantado com aquilo. Parecia que nada mais importava. Fechou negócio.
-Olha Rafael. Peço perdão pelo jeito que te tratei. Você parece ser uma boa pessoa. Sou um velho solitário que não gosta de tratar de negócios. Vou morar nessa cobertura sozinho. Minha filha insistiu para comprá-la só pra vim uma vez no ano, com certeza. Mas vou ficar com ele sim. Vista linda essa.
-Que bom que o Sr. Digo, você gostou. Estou com os papéis para que possa assinar o contrato.
Isso. Depois de quase 2 horas mostrando tudo de mais luxuoso o velho foi se interessar pela varanda. Me poupe. Tudo bem. Estava super feliz. A comissão que ia ganhar não era pouca. Era mais do que ganhara nas ultimas 10 eu acho. Dei meu cartão para ele e sai escada a baixo. Entrei no carro. O ponteiro no meu relógio marcava quase uma da tarde. Não queria ir comer. Queria minha comissão. Fui direto para a empresa. Não me contive quando chegaram Leo e Rubens querendo saber se havia dado certo minha venda.
-Quem é o cara mais foda da empresa? Quem?
-Caralho cara-Disse Rubens boquiaberto- Parabéns!
-Ele é foda Rubens. Hoje a bebedeira é por tua conta. Disse Leo já querendo que eu gastasse minha suada comissão.
Entreguei os papeis para a secretária do chefe. Léia era uma morena que todos sabia que entrou na empresa porque transara com o chefe. Judite, a que trabalhava antes dela, foi demitida por que sua esposa havia descoberto o que o mesmo fazia nas horas extras que ele passava na empresa.
Sai de lá para almoçar. Não queria mais saber de venda. Queria comemorar. Liguei para Anne, minha única irmã. Se algum dia sentir algo nesse mundo. Será por ela. Depois de alguns toques ela me atendeu.
-Que milagre é esse que se lembrou da família?
-Sempre lembro oras.
-Claro que não, Rafael. Tá tudo bem?
Meu dia estava confuso. Meu eu, aquele que é normal tinha feito um grande progresso em sua carreira. Mas e aquele meu eu que toda noite me persegue. Que sonha dia após dia esfolando aos poucos e sentindo a morte todas as noites.
-Claro que está Anne. Está ocupada hoje a noite? Queria lhe ver.
-Eita. Aconteceu alguma coisa sim. Tá aonde?
-Calma. Ta tudo bem. Só quero conversar. Comemorar, quem sabe.
A mesma aceitou. Marquei em restaurante japonês lá em um bairro típico. Adoro comida japonesa.
Eu e minha irmã nos damos bem. Apesar dos pesares, sinto que ela me ama. Quer que eu seja um homem bom. Ela é bem diferente de mim. Olhos claros, cor de amêndoas. Cabelos curtos. Sempre usa roupas caras. Coitados dos nossos pais. Apesar de não serem nossos pais verdadeiros, desde de sempre imploraram para chamarem de pais. Fazem todos os queres de Anne. Acho que por isso ela é tão mimada.
Fui buscá-la. Eram quase 6h da tarde quando cheguei lá.
-Você não vai entrar Rafa?-Disse ela querendo que eu entrasse- Papai e mamãe querem te ver.
Aquilo pra mim não foi uma pergunta. Foi quase uma ordem. Não queria ir. Entrar naquele lugar era reviver coisas que eu não podia. Fui forçado. O olhar de Anne na porta. Com as sobrancelhas meio levantadas. Ela quase implorara. Entrei. E naquele mesmo instante, olhando para o sofá lembrei de uma das brigas que tive com Eddite. Minha mãe adotiva. Era um domingo. Fazia pouco tempo que tinha chegado naquela casa. Estava explorando. Até que achei uma velha faca escondida na gaveta daquela mesma sala. Eu tinha quase 10 anos. E tudo que eu pensava era conseguir enfiar aquela velha faca na garganta de alguma coisa vida. Sentir o sangue em minhas mãos. Sentir a vida sair. Consegui. Achei um passarinho que tinha caído do ninho. Pequeno. Indefeso. Perfeito. Depois de sentir inúmeras vezes aquela faca sair e entrar naquele pássaro ouvi Eddite chamar meu nome. Acho que nunca ela havia visto aquilo. O sangue estava em minhas mãos. Estava em minha roupa. Como era prazeroso. A mesma me puxou pelo braço. Entrou na casa e dirigiu-se ao banheiro. Enquanto me lavava, vi lágrimas brotando em seus olhos. Não entendia na época. Mas acho que naquele momento ela viu o pouco do monstrinho que eu tinha em mim. Meu outro eu. Ela sabia o que tinha acontecido antes. Do que eu fiz antes de tudo. Então porque afinal ela tinha me adotado,sabendo do que eu era capaz?
Sentei no sofá. Várias lembranças vieram a minha mente. Porque raios mesmo, eu estava ali?
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